06.28.09

Foi uma aventura escrever esta. O computador mostrava-a, rigorosa, confiante e original e num repente apagou-a com todo o caos provocado pela quebra de energia.
Eram alarmes a tocar, cães a ladrar, carros de bombeiros a passar. Ao longe uma nuvem de fumo que se alimentava do ceú e crescia em cogumelo. A gentil brisa deu lugar a um enorme tufão que sugava tudo e todos. Mr X ainda tentou agarrar o seu computador e a aventura perdida, mas foi cada um para seu lado. Rodopiando numa espiral de partes de tudo e de nada, deu com a ceifeira a espreitá-lo do alto, curiosamente a luz ao fundo do túnel.
Decidiu que tinha que descrever esta aventura e fez todas as forças para não ser engolido pelo nada.
Acordou sobressaltado e como em todas as vezes que sonhava pesadelos, não se lembrou de nada.
onda

Esta é a aventura de uma onda que viajou por todo um oceano até chegar à costa de uma praia portuguesa. Ao vê-la com a luz de uma manhã que trazia consigo, olhou as companheiras de viagem e percebeu que todas pensavam o mesmo: o fim da existência estava logo ali, na rebentação calma que desapareceria em cima de uma terra molhada de areia clara, quase branca.
A onda começou a tentar travar a sua progressão, mas a corrente não deixava. Era uma corrente má, forte e apenas tinha por objectivo terminar a sua viagem.
Assustada, a onda pediu ajuda às restantes, mas a corrente conseguiu cercá-las e juntá-las numa vaga cada vez maior.
Juntas, muito apertadas, já viam como tecto uma espuma branca e vigorosa. De repente, tudo se abateu num turbilhão enorme, andou às voltas e perdeu toda a força.
Sentiu um calor bom neste seu final. O sol já brilhava com alguma força. E depois desapareceu.
letras

Esta é a aventura de uma letra para uma música. Já estava a ser pensada há muito tempo e demorou até ser rabiscada num papel. O seu autor era um jovem amargurado e bastante desorientado. Pensava ter alma de artista mas era apenas esforçado e não percebia porque tanto pensava a letra como um desabafo apaixonado, ou uma ode aos amigos de Verão ou uma pesada e cínica crítica social.
A letra era escrita e reescrita com gatafunho sobre gatafunho e tinha por companhia algumas nódoas de café, alguns pingos de cerveja e uma dezena de migalhas de pão.
Houve um dia que estava quase quase pronta, mas o autor mudou de amores, chateou-se com o seu melhor amigo e desistiu da sociedade onde vivia.
A letra era a única que não podia mudar mesmo de… letra.
tosta

Esta é a aventura de uma tosta. Nunca gostou do seu aspecto, um pequeno quadrado igual a tantos outros em que até a cor é milimetricamente estudada para se confundir com as demais.
Esta tosta gostaria de ser caseira ao invés de industrial. Desejava saber a pão a sério, como aquelas da terra e de forno a lenha, enrijeceria aos poucos e quando ficasse mesmo dura seria cortada ao calhas pelas mãos humanas para ser demolhada e saboreada com leite ou café ou molho. Poderia ainda servir como torrada e seria banhada com manteiga tradicional cheia de sal.
A vida que poderia ter, livre de sacos plásticos ou celofan justinho. Mas esta é a sua e servirá para misturas finas, com traços gourmet num aspecto delicioso e altamente calórico.
Mas esta tosta só queria mesmo ter uma vida simples e sem grandes preocupações.
06.04.09
vida útil

Esta é a aventura de um computador. Tinha como companheiros inseparáveis um teclado e um bonito monitor dos modernos e fininhos. Juntos viveram felizes todo o ano de 2008 em casa de Mr X, num caos organizado por dezenas de cabos e sempre com a vizinhança dos primos discos rígidos externos, a tia impressora e o amante dela, um tal de scanner. Durante esse ano viveram em harmonia e sempre a bombar, pois era raro serem desligados. Diariamente surgia nova música, séries e filmes, upgrades e mais software. Uma maravilha de vida.
Mas houve um dia em que o computador emperrou e quando reacordou olhou com medo o ar sério de Mr X. Nervoso, engasgou-se novamente e Mr X afastou-o imediatamente da família, indo depositá-lo à casa de Mr T, um rapaz problemático nestas coisas da informática quem nem na óptica do utilizador se desenrascava. Mr T era viciado em jogos online e abria todos os emails com videos. Naturalmente, o computador viu-se, num repente, infestado de virus e demais maleitas.
Triste e cada vez mais lento, encontrou num portátil velhinho que estava esquecido em cima do móvel, um confidente e amigo. Passaram uns dias em comunicação até que chegou um mail que despedaçou o resto da memória do computador: Mr T perguntava a Mr X quando é que ele teria um novo computador para substítuir este, visto que já estava estragado. E Mr X respondeu que era uma questão de seies meses… ou menos.
notas

Mr X olhou para os dizeres à porta de um estabelecimento comercial, entusiasmou-se e decidiu entrar inquirindo sobre o destaque que lhe captou a atenção. Era hora de almoço mas, mesmo assim, aquilo que desejava poderia ser pesado. Estava a decidir-se quando um gentil empregado se lhe acercou. Mr X tirou os phones que debitavam Satie, olhou o rapaz e disse “olhe, acho que vou querer um piano.” O rapaz apontou-lhe o lugar onde poderia sentar-se e esperar, voltou costas e regressou passados minutos com uma grande travessa que transportava um suculento piano, muito bem grelhado e pronto para ser devorado por um guloso Mr. X.
05.28.09
esfera

Esta é a aventura de uma esferográfica com ponta tipo rollerball e o botãozinho para ela surgir ou desaparecer para não secar a tinta ou sujar o bolso da camisa. Em suma, esta é uma esferográfica tipo ponta e mola tal como as navalhas com a mesma alcunha e ela sabia que os seus escritos poderiam ferir tão ou mais que a lâmina delas.
Portanto, tinha muito cuidado com o que deixava escrever, entupia quando achava necessário e até tinha truques de último recurso, como jorrar mais tinta e criar um borrão no papel abrandando assim a criatividade de quem a utilizava. Tinha também as suas manias como recusar-se a escrever em papel humidificado por tristezas ou, horror dos horrores, em papel plastificado.
Tinha uma vida porreira, era usada bastas vezes e até gostava da maior parte do que escrevia. Tudo corria bem até que a sua própria carga começou a definhar. Primeiro foram uns entupimentos, depois umas valentes sacudidelas para ver se a tinta chegava à sua esfera. O fim da existência estava ao virar de uma página e foi com urgência que começou a escrever o seu testamento.
Depois de umas linhas onde deixou conselhos à esferográfica novinha que lhe seguiria os passos, preparava-se para assinar de cruz quando a sua alma se extinguiu. E na precisa altura em que foi atirada para o balde do lixo, desejou nunca ter sido uma ponta e mola mas apenas uma pena.
05.20.09
Mangueira

Esta é a aventura do telhado da casa de Mr. X. Quando chovia ficava encharcado, quando soprava a nortada sentia um frio imenso, mas o pior era mesmo o pico dos 40 graus do Verão lisboeta e o seu calor insuportável.
Nessas alturas e muito de vez em quando, um puto vizinho abria a mangueira do seu terraço e, como se fosse um jogo da playstation, entretinha-se a acertar nos pombos meio mortos pela brasa, molhando os telhados circundantes e, com sorte, o da casa do Mr. X. Sabia bem este fresquinho mas depressa se evaporava.
O que o telhado desejava era mesmo um banho fresco e prolongado. Até que teve uma ideia: aproveitou a beata acesa que outro vizinho lhe atirou para cima, permitiu que o vento a soprasse com força e num repente, as chamas cresceram. Já iam altas quando os bombeiros chegaram. Os bombeiros, o camião cisterna e as suas fantásticas mangueiras.
Cordame

Esta é a aventura de um tasco que queria crescer e ser restaurante daqueles com bar. Um sonho muitas vezes traído pelas contas sócratianas, novo carro em segunda mão do dono e pelas inspecções da Asae que eram sempre um azar dos diabos.
A sua localização era óptima, de frente para o mar e rodeado por extenso areal. Higienicamente não era perfeito, nem na cozinha, nem nos lavabos. Um conjunto de problemas persistentes e, convenhamos, chatos.
As épocas passavam até que uma amiga deste tasco, a Dona Taberna, lhe contou um segredo: ao que parece, os políticos e jetsetianos gostam de ser vistos neste tipo de covis porque acham giro misturarem-se com o povo. Portanto, se o tasco quisesse ter essa frequência era só puxar os cordelinhos certos para que o seu sonho passasse a ser uma realidade.
O tasco deixou a Dona Taberna saír, correu para a loja mais próxima e comprou a maior corda que encontrou.
04.17.09
Esperar

Uma aventura pequenita queria ser publicada ou, vá lá, postada. Aguentou firme uns meses pensando que estava numa qualquer fila, mas nenhuma outra surgia no blog. Farta, decidiu ir ter com o autor, um tal de Mr X. Nunca foi atendida. Os telefonemas esbarravam na caixa postal, as sms vinham para trás. Nenhum contacto, nada. Pensou em auto-escrever-se tornando-se maior e mais importante. Quiçá fosse a fórmula? Durante uns dias pensou e pensou. Mas não conseguia deixar de ser pequena e quase insignificante. Uma outra aventura com mais tempo de publicação disse-lhe que era preciso crescer e isso levaria tempo. Pois era do tempo que estava farta. O tempo de espera, o tempo de ir ver o blog diariamente com uma secreta esperança, o tempo que passava sem ser lida, admirada e badalada. Chegou, portanto, ao limite. Já que o autor não a publicava ela colocaria um ponto final na sua existência.
O problema é que já lá estava.
01.23.09
olhares

Esta é a aventura de uma paragem de autocarro.
Está colocada num eixo pouco central e só tem companhia duas vezes por dia: às sete da manhã e às 17. Inveja, por isso, as outras paragens daqueles bairros mais confusos, como as avenidas novas, o Rossio, a Almirante Reis, o Areeiro, etc. Gostava de ser uma dessas para conhecer mais pessoas e as histórias que essas pessoas contam da sua vida íntima às outras pessoas que são completos estranhos. Mas que numa paragem de autocarro passam a ser vizinhos, amigos, confidentes. Nem que seja por cinco minutos. Vá lá, uns 15 devido aos atrasos.
Contudo, houve uma manhã que mudou tudo.
Nesse dia, um jovem no alto dos seus 20 anos e headphones chegou pelo meio dia. Não há muitos autocarros a esta hora, portanto ele sentou-se no banco de ferro para aguentar a demora. Pouco tempo passou até que uma gentil rapariga, no alto dos seus 15 anos e headphones, chegou. Ficou tímida a olhar o rapaz e o espaço disponível no banco.
O autocarro chegou e ambos desapareceram.
No dia seguinte foi a rapariga que chegou mais cedo e, antes de se sentar, olhou em volta como se estivesse à procura de alguém.
O rapaz chegou depois e sentou-se ao lado. Não se olharam, apenas o fizeram para os telemóveis nos quais debitavam sms à velocidade da luz.
O autocarro chegou e ambos desapareceram.
Ao terceiro dia chegaram os dois ao mesmo tempo. Tiraram os headphones e, pela primeira vez, os olhos dos telemóveis. Ficaram a olhar um para o outro, tentando descobrir o que queriam descobrir.
O autocarro chegou mas partiu sem eles.
A paragem estava, finalmente, feliz.
01.20.09
Timing
Esta é a aventura de um homem que ficou parado no tempo.
Não à espera dele, mas nele. No próprio tempo.
Pela esquerda passava-lhe um tapete rolante do passado para o futuro.
Pela direita, do futuro para o passado.
O homem podia escolher uma qualquer direcção, assim como uma qualquer época, data, dia ou hora.
Mas com tanta possibilidade nunca se conseguiu decidir.
E foi por isso que ficou parado no tempo.
E ainda lá está.
01.02.09
Futurologia

- Hum…
- Então?
- O que achas?
- Não sei.
- Hum…
- Então?
- Não sei o que achar.
- Tábem.
…
- Mas e se…
- Porque não?
- Achas?
- Por mim…
- E…
- Não penses mais nisso.
…
- Mas dá que pensar, não?
- Lá isso…
- Tou com uma vontade…
- Vai em frente, porra.
- Não precisas é de ser mal educado.
- Ninguém te atura quando ficas assim.
- Assim como?
- Sem saberes o que achar.
…
- Achas?
- !
12.31.08
Ano novo

Esta é a aventura de um ano novo, pequenito, imberbe, descalço, desorientado. Apareceu numa noite de chuva. Estava lixada a noite, molhada, demasiado molhada. O ano novo ficou cheio de frio e tentou encontrar algum ano que lhe desse guarida. Nenhum ano passado lhe abria a porta. Estavam furibundos. O seu tempo tinha passado e não era um jovem parvo que lhes tomaria o lugar por dá cá essa palha. O ano novo continuava a deambular, tentando apanhar um toldo, um parapeito, um varandim. Mas todos recuavam. Todos lhe tiravam o capote. Afinal este ano novo é diferente dos anteriores. É mau. Vai trazer penúria, crise, fome, desemprego. O ano novo não sabia disso nem queria saber. Só desejava um sitio quente e seco para poder pernoitar e estar em toda a sua glória daqui a umas poucas horas. Tinha esperado 364 dias por isto. Tinha sido formado, ensinado, educado. Sabia o que era sol e chuva, vento e frio, calor e humidade, geada e brisa. Sabia as estações. Sabia o borda d´água. Sabia até que tinha 364 dias de vida.
Só não sabia que os homens tinham medos antigos. E que não pensavam por si próprios.
12.29.08
Esperanto

Esta é a aventura de um homem que passou toda a vida a ser boa pessoa. Teve e tem amigos, teve e tem inimigos, vá-se lá saber porquê. A vida até que nem foi madrasta. Colheu frutos das suas opiniões e tornou-se num cronista de sucesso. Com as crónicas ficou famoso no circuito dos intelectualóides e, sabendo que não era um deles, andou por ali colhendo mais frutos para um passo seguinte. Esse aconteceu quando um editor lhe propôs uma aventura editorial. Era um conceito engraçado: um jornal diário com um especial semanal e um super especial mensal. Tudo em um, um em tudo. A publicação colheu todos de surpresa. Até mesmo aquela gentalha que se auto-intitula crítico de qualquer coisa. O bota-abaixo tão tradicional neste cantinho, demorou a acontecer. Os velhos de Restelo não sabiam o que opinar. A concorrência quase directa, porque não havia outra, tentava encontrar resposta à altura, porém sem sucesso.
A publicação tornou-se conhecida além fronteiras e o editor, na reunião anual de objectivos e essas merdas, propôs uma edição bilingue. Francófono de raíz, queria francês/português. O homem queria inglês, como lingua actual e de futuro e nada morta, como a outra.
Não chegavam a acordo. Esse só aconteceu quando o homem teve a ideia de fazer a revista em esperanto. Todos se entreolharam, mas lançaram-se à obra. A primeira edição bilingue estava a ser feita quando os pedidos de todo o mundo exigiram uma maior tiragem. Esgotou numa hora.
Lá fora, ninguém sabia falar esperanto e muito menos português. Abriram escolas por todo o lado. Os cursos eram um sucesso e, passado um ano, meio mundo falava esperanto.
Isto deu lugar a toda uma mudança na relação entre povos e nações. De repente, todos se entendiam o que mesmo com o inglês não acontecia.
O homem estava orgulhoso, mas sabia que o seu caminho nesta publicação tinha atingido o auge e estava na altura de mudar. O seu editor não aceitava. Os seus colaboradores não entendiam.
O homem só queria continuar a ser boa pessoa e a perseguir alguns sonhos que tinham ficado para trás. Era um desejo normal para um sujeito normal.
A luta foi árdua para saír do mundo que entretanto criara. Mas conseguiu encontrar e formar gente capaz para lhe tomar o lugar.
No primeiro dia de liberdade, sorriu satisfeito para um estranho.
Levou um tiro.
Levou outro.
E ainda mais outro.
12.26.08
Chaminé

Mr. X tentou comemorar o Natal à antiga. Ia estar com putos mesmo putos que ainda acreditam no sujeito e para quem a noite ainda é mágica. Combinaram-se pendas, embrulhos e local. E pediram para que me vestisse de coca-cola e entrasse pela chaminé.
A subida para o telhado já em si foi complicada. Um tipo vestido com uma cena engordalhante com barbas postiças e a puxar um enorme saco com embrulhos fica, como dizer, um bocado lento e pesado. Mas lá se chegou.
O problema aconteceu com a chaminé por onde devia descer. Não tinha buraco, mas sim uma coisa metálica redonda que girava sobre si própria. Como então entrar nisto?
Mr. X não queria dar parte de fraco, principalmente depois de se ter esfalfado a subir até lá. Mas não havia solução à vista. As frinchas eram demasiado pequenas e estavam sempre a rodar. As prendas eram demasiado grandes para conseguir meter nos buracos, mesmo correndo à volta da chaminé.
Mr. X, após longas horas, foi batido pelo cansaço. Uma desorientação extrema. Uma tristeza imensa. Lá do telhado olhou os telhados das outras casas e viu um já muito velho e danificado de um casebre pobre. Algum fumo saía pela chaminé. Essa tinha buraco. Pela janela viu duas crianças que olhavam para uma lareira sem prendas ao lado…
12.24.08
Caminho

Esta é a aventura de um homem que queria escrever uma aventura sobre o Natal. Pensou em todos os clichés, em todos os bonecos, em todos os persépios, em todos os cânticos. Olhou todas as iluminações, todas as árvores, todos os pais-natal de plástico made in china que demonstram extrema facilidade em assaltar apartamentos e até mostram o caminho. Pensou em todos os que têm grandes familias e que fogem delas. Pensou nos que não têm ninguém mas que ficam até aliviados porque é apenas uma noite má. Pensou nos que ajudam toda a gente que precisa de carinho. E percebeu….
Esta é a aventura de um homem que gostaria de dar um abraço a todos aqueles que numa noite de crença e de dogmas, se fazem à estrada e às ruas e becos e dão um mimo, por mínimo que seja, a quem está mesmo sózinho nesta altura.
A todos vocês, caríssimas Pessoas, fica a aventura de quem sabe a vida e que para ela acordou mais cedo que todos nós.
Obrigado.
12.23.08
Macro

A calçada à portuguesa revela os seus buracos, caminhos por entre as pedras com areia cimentada de lixo vário. Da sua brancura negra, um lancil de passeio. Para-se, observa-se bem aquele bocado de qualquer coisa estranha. Não interessa e continua-se o caminho. Alcatrão, muito alcatrão. Aqui e ali alguns cagalhotos e restos de óleo de um motor com pouca saúde. Mas o que é isto? Um papel voador que se pega a quem não voa? Raios partam, custa tirá-lo do caminho. O alcatrão rola depressa como pára bruscamente. Mais um lancil. Alcatrão novamente e a calçada à portuguesa. Aqui um bocado mais limpa do que lá em baixo.
De repente tudo fica mais longe. Agora o chão não está tão perto. Olho para cima e vejo o meu dono, Mr.X, a dizer-me para saír do meio da rua pois vem lá um carro.
Que chatice pá, não se pode andar em lado nenhum.
Indecisão sem decisão

Este é um homem que se perdeu entre duas aventuras. A maior parte das vezes, um homem não tem nem uma. Mas este era um felizardo e num repente estava perante a maior indecisão da sua vida.
A aventura da esquerda prometia-lhe amores, paixões, bem estar físico e um sorriso temporário.
A aventura da direita prometia-lhe fortunas, fama, facilidades e um bem estar social também temporário.
O que fazer?
12.18.08
Buracos

Estava a chover intensamente e a trovejar aqui e ali. Mr. X tinha que passear o cão, mas aguardava pacientemente à janela pela bonança que nunca mais acontecia. O cão gania, uivava, fartinho de estar com a barriga cheia e de muitas horas sem correr e sem cheirar odores alheiros. Mais a mais, este é daqueles cães que adora chuva e não tem medo de trovões e do seu barulho grave e fantasmagórico.
As horas passaram e não havia nada a fazer. Mr. X saiu para a intempérie pedindo ao cão que se despachasse mas sabendo de antemão que isso não iria acontecer.
A trovoada estava mais próxima, a chuva mais densa, o frio mais intenso. Num repente, um raio caíu a centímetros. O chão estremeceu e abriu-se numa profunda fenda. Mr. X foi engolido por esse desmonronamento e só ficou preso pela trela ao seu cão, que fazia um esforço sem limites para não ser puxado para o buraco.
Mr. X sabia que para salvar o seu cão teria que largar a trela. O bicho percebeu esse olhar e começou a ladrar e a puxar com mais força ainda. Mas as patas derrapavam na lama e nas pedras e o precipício estava cada vez mais próximo para o bicho.
Enquanto Mr. X tomava a sua última decisão, o cão decidiu que não podia acabar assim. E não ia!
Voltando-se ao contrário e num último esforço, começou a esgravatar a terra e a atirá-la para dentro do buraco onde estava o dono. As pedras, lamas, ramos e demais detritos passavam por cima da cabeça de Mr.X e aterravam lá em baixo. Ao fim de uma hora, já o cão tinha feito um enorme buraco paralelo ao outro que estava cada vez a ficar menos fundo. Até que aconteceu… Mr. X conseguia tocar com os pés num chão artificial mas salvador. Mais uma hora e começou a trepar pela parede até ao cimo, com a ajuda de alguns ramos bem presos e de pedras milagrosas. Até que conseguiu saír do buraco.
Correndo para o seu cão, vislumbrou-o no fundo do buraco que tinha feito com as suas patas. Chamou-o, gritou-o e percebeu que o seu cão estava em paz. Chorou-o. Muito. E muito. E muito. E muito.
12.12.08
Reflexo
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Esta é a aventura de uma máscara. Era sabidona, andava por cá há muito muito tempo. Já tinha sido usada por monges, políticos, médicos, pintores, donas de casa e cozinheiros. Conhecia todas as artes, todas as manhas. Sabia sorrir e chorar, fazer beicinho e assustar. E assustar-se.
De todas as vidas que mascarou, lembra algumas mais ousadas. Outras mais dementes. E ainda outras extraordinárias. Mas a que mais a marcou foi aquela que já tinha uma máscara vestida. A princípio não percebeu que estava a ser a sobre-capa da já existente. Mas uma constante comichão e mal estar fazia com que olhasse para a cara que mascarava. Só via o seu reflexo, nada demais. Mas era um reflexo tão perfeito que, por vezes, a assustava. De dia para dia o desconforto era maior. Até que não resistiu e procurou outra vida. Quando estava naquele momento de passar de uma para outra, um nanosegundo imperceptível para nós que as usamos sem saber, alguma coisa a fez abrandar o salto: era o seu reflexo que a não queria deixar ir. Só aí ela percebeu a sua verdade. Desmascarada. E nua.
Nunca mais olhou para trás.
12.10.08
Crise

Esta é a aventura de um homem que apanhou uma grande, enorme gripe.
Caiu na cama, envolto em papel higiénico para fazer bolinhas para o nariz estancar, termômetro para ver quando tinha febre, medicamentos fora do prazo para a tosse, garganta, catarro e… solidão.
Era nestas alturas que este homem, sempre fogoso e dinâmico, percebia que estava sózinho no dia a dia. E era também nestas horas que maldizia a vida matreira e sedutora que não o levava a lado algum, a não ser a caminho de casa numas quantas madrugadas.
Farto de sofrer com mais esta forte constipana decidiu que, para a próxima vez, era ele que perseguiria a gripe e lhe pegaria o bem estar.
E assim foi! Passado uma Primavera e um Verão e chegados a um Outono estranhíssimo com chuva e frio, o homem apanhou a gripe numa ruela aberta a correntes de ar e pum, espetou-lhe com um bem estar!
A gripe esperneou, tossiu e espirrou, mas não conseguiu fugir da teia de temperatura ideal, pulmões limpos e sem catarro, tez com cor vivaça e força muscular.
O homem sorriu e deixou-a à sua sorte, voltando-lhe as costas e despindo o chapéu, luvas e cachecol que o acompanhavam há precisamente um ano.
O tempo foi gradualmente mudando e deste Outono agreste aconteceu um Verão fora do prazo.
As pessoas ficaram contentes e felizes. Os dias pareciam maiores. A luz acordava o torpor.
Mas as plantas e os animais ficaram acabrunhados… e com muito medo da crise.
12.05.08
Frieza

A sua alma deixou de ter aura. O seu corpo deixou de ter calor. Os olhos mais vazios que nunca olhavam desgastados para o que o rodeava. Sentiu-se frustrado, incapacitado. Tudo o que tinha feito estava ali à sua frente, num monte de cinzas com fogo de origem criminosa. Todos os pensamentos, sonhos, ideias, gritos e confortos tinham desaparecido. Havia quem não permitisse que a verdade viesse à tona. Eram poderosos esses inimigos da vida. E tinham fósforos e gasolina. Sentiu um frio imenso e entrou em casa decidido a varrer o pó do seu corpo com um prolongado duche. A água jorrava com força e o vapor do seu calor encheu toda a casa, saindo depois pelas janelas e abraçando a cidade como se um manto de nevoeiro fosse.
Nas casas dos inimigos também se preparavam os duches. Mas a água brotava em cubos de gelo.
12.04.08
Partículas

Mr X aventurou-se hoje a abrir a janela. Estava a chover aquela gota miudinha e chata. Esperou atrás da porta, olhando as nuvens que faziam desenhos estranhos provocados pelas gotas nos vidros. Tentou, em vez de coelhos felpudos ou adamastores, vislumbrar qualquer traço mais caótico, mais desconhecido, que suscitasse a maior das curiosidades.
Nada.
As nuvens assinaram a paz durante uma hora em que o sol surgiu, tímido mas bonito. A altura para finalmente abrir a janela tinha chegado. E mal o fez, inúmeras partículas de pó e fumo fugiram, deixando para trás a casa que os acolheu. Mr.X ficou a vê-las desaparecer, juntando-se a todas as outras das outras casas que tinham aberto também as janelas.
E passou mais um dia.
12.01.08
Decisão

Esta é a aventura de um homem encruzilhado. Toda a sua vida era um nó complicado e quase impossível de desmanchar. Eram laços de confusões, a maior parte delas sem culpa própria, mas também dela, pois um homem moderno não pode ser simples e santo. Tem que fazer cara de mau ao mais pequeno problema. Mas este homem não gostava de conflitos. Contudo, eles tocavam-lhe à porta como se tivessem sido convidados e o homem, sabendo que era estúpido, abria-a na sua ingenuidade e bom senso.
Num dia a campainha tocou. Era a resolução. O homem entreabriu a porta. Já não acreditava em ninguém, muito menos numa situação positiva. Curioso confesso, também não a fechou. E ficaram a falar durante largos minutos. A resolução disse ao que vinha, para o que vinha e que vinha só, sem truques nem manhas. O homem ficava mais perplexo a cada frase proferida. E, receoso, teve um momento de demência absurda: fechou a porta com medo. Medo…
Passados poucos minutos, e sabendo o que poderia ter perdido, reabriu a porta. A resolução estava lá, esperando pacientemente pela resolução deste homem.
11.25.08
Exposição

Esta é a aventura de um homem que durante quase toda a vida tinha tentado fazer tudo o que lhe dava na real gana. Apeteceu-lhe pintar, pintou. Apeteceu-lhe cantar, cantou. Fez filmes, escreveu histórias, gravou discos, teve 1001 profissões porque assim desejava. Foi bom em quase todas, como também as suas artes eram elogiadas por todos quantos tinham o prazer de conhecê-las.
Mas o homem tinha um problema: parecia que toda a sua força se esvaía na produção e nunca chegou a conseguir o passo seguinte, ou seja, passá-las para domínio público.
Com o tempo, as suas aventuras perderam gás, tal como ele perdia sensações, espírito e vontade.
Um dia, daqueles normais com sol e temperatura normais, saiu à rua para beber um café e comprar um maço de tabaco. Tinha passado toda a noite a escolher as melhores coisas que tinha produzido e meteu tudo numa mala bem grande e pesada. Tinha decidido mostrá-las ao mundo.
Satisfeito com a cafeína, parou à beira da estrada para acender um cigarro. Estava algum vento, o que o obrigou a esconder a cara com uma das mãos para tentar manter a chama do seu bic. Um carro cheio de putos vinha muito depressa. Demasiado. E varreu aquele passeio.
A mala voou, abrindo-se quando se estatelou no chão. Mutos papéis voaram enquanto os putos fugiam.
O homem, antes de fechar os olhos, sorriu. Finalmente estava a mostrar a sua obra ao mundo.
11.21.08
reacordar
Havia um homem num mundo que ele pensava só dele. Havia só esse homem, mais nenhum. E como ele não tinha a noção de outrém, vivia feliz. O dia a dia era passado entre erva e relva. Entre sol e lua. Entre planície e montanha. Falava com pombos como falava com lagartos. Caminhava o mundo e gostava de reparar sempre no que a natureza modificava sazonalmente.
Este homem, num dia qualquer de uma semana qualquer, teve uma visão: lá ao fundo, mesmo ao fundo de tudo, viu uma sombra igual à sua. Não a entendeu, pois a sombra que via todos os dias era a dele mesmo e estava sempre colada aos seus pés. Essa sombra foi desaparecendo com a luz do dia. Ele correu sempre o limite dessa luz, que lhe fugia uns centímetros cada vez mais à frente, até que as forças faltaram e deixou-a fugir.
Sabia que tinha que dormir, pois a noite assim o ordena e ele não conhecia outra verdade.
O problema era que amanhã, ao raiar da luz, nunca mais nada iria ser igual ao que tinha sido.
10.31.08
Promessa?
Mr.X está com vontade de escrever novas aventuras.
Tal até poderá acontecer quando a sua grande aventura actual terminar.
08.25.08
ciclo
Esta é a história de uma aventura com sono. Não dormia bem há uns tempos, deitava-se tarde e acordava cedo, andava a sentir-se cansada, dorida e, muitas vezes, acordava toda partida.
Queria aventurar-se numa nova vida, mas era difícil. Já estava velha, com pouco ânimo e nada de anormal lhe tinha acontecido ultimamente.
Mas uma aventura é uma aventura e sentia sempre a necessidade de ir procurar qualquer coisa a cada nova manhã. Aventurava-se pelas ruelas de bairros típicos, pelas praças, pelos jardins secos e agonizantes com a falta de trato e água, andava por todo o lado, até que escurecia e regressava a casa.
Aí ficava triste pois era todo um dia que passava sem que nada acontecesse.
Os dias foram passando, os meses, os anos.
Vieram décadas e, por fim, a aventura desistiu. Hoje já ninguém gosta de ficar sentado a ouvir uma nova história, ninguém é fã de jovens aventureiros e dos seus cães, poucos dão importância à grande qualidade narrativa, criativa e, algumas vezes, original.
Com o fim dos seus dias a aproximar-se, a aventura decidiu deixar registadas todas as suas histórias, das mais fantásticas às mais ousadas, das inacreditáveis às realistas, das enternecedoras às diabólicas.
Deixou tudo num molho de folhas escritas à mão, com caligrafia bonita e imaculada.
Anos depois da aventura ter sido esquecida por todos, houve um puto novo que descobriu as folhas amareladas e cheias de pó. No intervalo de um jogo online, começou a lê-las e não conseguiu parar. Decidiu passar tudo para word. Depois convidou uns amigos jogadores para lerem o que tinha descoberto. E todos se entusiasmaram a tal modo que, um deles, teve a ideia de passar todas as histórias para o formato de um jogo online. Outros fizeram os videos, a música, as vozes off, as narrativas e tudo o mais.
Num ápice, como só a internet permite, as novas aventuras da velha aventura estavam na boca de toda a gente, no monitor de toda a gente e no teclado de toda a gente.
Trocavam-se emails com truques para chegar mais longe, sms com pedidos de ajuda num quebra-cabeças, fizeram-se foruns de discussão, blogs, sites de fãs…
A aventura estava de novo a ser vivida de uma forma tão mágica que nem ela própria teria pensado que tal aventura pudesse acontecer.
08.22.08
assalto
Esta é a aventura de um assalto. Estava farto de quantias pequenas e navalhitas suiças. Queria ser um grande assalto, daqueles que abrem telejornais e fazem delirar comentadores mais ou menos esclarecidos. O melhor que tinha conseguido até agora foi ver-se roubado juntamente com a mochila do dono, onde ia também um laptop, documentos vários e, isto ninguém sabe, soluções para o caos financeiro europeu, que nunca mais foram vistos.
O assalto queria ser violento, dinâmico e extraordinário. Daqueles tipo filme que até o mais honesto e normal cidadão gostaria de cometer, com sotaque britânico, yamamoto ou kenzo como vestimenta, panerai no pulso e chave de bugatti.
O assalto queria ter conhecimentos fantásticos de informática, ser um prodigioso hacker para enfaralhar as polícias, ser muito inteligente para gozar com os negociadores e, acima de tudo, ser perfeito.
Na sua busca mudou-se para um país corriqueiro, à beira-mar plantado, conhecido pela pacatez geral e inadaptado à grande violência.
Tentou ourives, depois ourivesarias, umas quantas escaramuças em bairros problemáticos, uns banquinhos e umas carripanas amarelas com dinheiro.
Mas não era por ali.
Ainda por cima, havia humanos que nem sabiam o que faziam, sendo apanhados ou, pasme-se, mortos.
Mas houve um dia em que o assalto foi tomado… de assalto! Com grande lata, um assaltozito novito e pequenito entrou nos seus domínios e roubou-lhe tudo o que ele tinha adquirido até então. Um assaltozito da treta, estúpido e ignorante que teve foi sorte e o apanhou a dormir.
Alerta, muniu-se de alarmes contra roubo e tal, mas o mesmo estúpido atacou-o outra vez e levou-lhe o que tinha esquecido da primeira vez.
Triste e destruído, o assalto percebeu que este país já não tinha condições de segurança e protecção para oferecer a quem o escolhia para viver.
Mais valia mudar-se para uma grande cidade americana. Pelo menos lá os assaltos são tratados dignamente.
08.21.08
emblema
Esta é a aventura de um carro alemão, de grande gabarito e panache, idolatrado e desejado por muitos portugueses, ávidos de mostrar aos vizinhos e amigos o seu emblema. Este carro foi comprado por muito dinheiro, 12 créditos bancários e levou a família à inexistência social, pois o dinheiro ia todo para ele. Este jovem casal que participava nas festas socialite portuguesas, gostava de aparecer nas revistas que de rosa nem cor têm, gastava muito dinheiro em roupa e acessórios e nos restaurantes da moda, viu-se assim com um emblema ostentatório na rua, mas sem nada para comer, nada novo para vestir e, tragédia das tragédias, nenhuma possibilidade de continuar a sua dourada vida.
No mesmo prédio e como vizinho de andar, habitava um homem já vivido no alto dos seus 40 anos. Ele também tinha tido emblemas, mas nesses anos de trabalho dourado, comprava a pronto. Com a crise instalada no país e, logicamente, na sua vida profissional, viu-se obrigado a adquirir um carro semi-novo, daqueles japoneses que duram uma vida e gastam pouco. Servia para as deslocações, algumas viagens e era meter gasolina e andar. O homem sentiu o ar de manifesta superioridade do casal jovem que demorava bastante tempo a estacionar o veículo emblemático nos primeiros dias de comunhão. Mas apercebeu-se que o carro saía raramente do seu lugar.
Este homem, nas grandes jantaradas que gostava de oferecer aos seus amigos, questionava o que realmente era importante na vida dos portugueses. Se o meio de transporte, se o emblema que esse meio trazia colado. Alguns diziam que gostariam de ter um modelo do tal emblema, outros estavam-se nas tintas e, pasme-se, outros até nem carro tinham, só andavam de taxi. Estes jantares bem comidos e bem regados, acompanhados por excelente música debitada pelo amplificador e colunas britânicos, duravam horas tertúlianas de boa disposição. Vivia-se bem, comia-se melhor e saboreava-se desde o Douro ao Alentejo com conhecimento e grande prazer.
No apartamento do lado, sem conseguir dormir com a desculpa do barulho da casa do vizinho, o jovem e ex-promissor casal rosa e social olhava para o emblema estacionado na rua, comendo directo de uma lata de atum e bebendo, para afogar as mágoas, duas bem frequinhas minis.
O carro, esse, apodrecia as borrachas novas, os acabamentos superiores e os pneus semi-racing.
Tinha nascido para devorar quilómetros com grande destreza, mas só tinha essa alegria aos fim de semana… e devagarinho, bem devagarinho.
08.20.08
CONCURSO
Esta é a aventura de um blog de aventuras que chega às 5000 pageviews. Claro que não são estas que contam, mas sim as visitas que ainda nem vão nas 4000. Mas bolas, há que considerar as 5000 pageviews. Por duas razões: porque são pages e porque são views.
Ora quem as page e quem as view merece ser autor de uma aventura.
E porque não escrever uma?
E porque não enviá-las ao Mr. X?
E porque não pedir ao Mr.X que crie um blog anexo que conterá as aventuras dos seus amigos e leitores?
HEIN?
Medo?
Medo de quê?
Pois então aqui fica um manual de instruções para criar uma aventura:
1. Aventure-se e abra o espírito, a mente e a alma.
2. Junte dados autobiográficos com aspectos sociais reais ou não.
3. Beba um copo ou mais para descontraír e escreva coisas que sabe de que se arrependerá mais tarde. Pode sempre criar um homónimo ou, quiçá, uma personagem, enfim, diferente da sua.
4. Beba mais um copo. Não receie, aventure-se!
5. Utilize e misture o passado com o presente e até com o futuro. E inverta a ordem.
6. A liberdade é total. Principalmente quando olhar para um quadrado branco vazio à espera das primeiras palavras.
7. Tenha sempre em consideração que só tem cinco minutos para escrever a aventura. A primeira palavra dará lugar às demais. Não receie. Tenha fé. E faça força.
8. Não se preocupe com dislexias ou erros gramaticais. Muito menos de síntaxe. Cinco minutos servem apenas para escrever uma aventura, não um pullitzer.
9. Acima de tudo, sonhe! E divirta-se.
10. Vá, pense durante 15 segundos e comece a escrever. Sem medo. A vida são só dois dias.
Depois envie em email registado e com aviso de recepção para
mr.x.adventure@gmail.com
Será uma aventura receber uma. Duas já é sorte. 10 será um fascínio e 24367839874 um caso sério.
Boa ventura!
08.19.08
Olimpo
Esta é a aventura de uma medalha que não queria ser conquistada por um país de fraca auto-estima, cheio de invejas e fala-baratos e de treinadores de bancada. Esta medalha foi apontada pelas outras, porque isso não se fazia. Nem sequer se pensava. Mas a pouco e pouco, outras medalhas começaram a perceber que teriam uma vida muito mais interessante noutros países que tratavam bem os atletas e os levavam a sério desde pequeninos. E quanto mais fossem conquistadas, mais companhia e folia teriam juntas. Ao menos não ficavam solitariamente a contar os anos para ter uma amiga ao lado.
A medalha conseguia, com este tipo de razões, ter aliadas. E com mestria, conseguiram fugir a atletas portugueses, desde aqueles que dizem que de manhã é para se dormir, outros que ficam paralisados quando entram num estádio, outros apenas porque é giro fazer umas férias pagas e tal. Nada de mais. Mas a medalha em questão teve azar. Foi escolhida para premiar o salto em comprimento feminino. Tanta manha e tanto discurso e lá seria ela a ter que ir para um país pequenito e longe de tudo.
Chegou a prova e lá vinha a atleta. A medalha rezava para que alguma coisa falhasse. E essa coisa falhou três vezes. Três. A medalha estava radiante! As suas preces tinham sido ouvidas e iria para um outro país. Depois olhou para a atleta. Ficou até com pena. Coitada. Mas então querida, não treinaste todos os milímetros da corrida? Esses passos não deviam estar cronometrados ao milésimo? Não percebeste que não era necessário bater o recorde do mundo nesta fase? Porque é que o tentaste?
Enfim. Drama foi na vela. Um ponto. Essa medalha até gostaria de ir para um país de velejadores e marinheiros que deram novos mundos ao mundo. Seria das únicas a querer vir para este país. Mas a sorte ou falta dela não quer nada com as gentes do mar.
Mas o Gustavo tem o seu lugar no Olimpo. Porque merece.
comentários
Esta é a aventura de um blog que mudou de imagem repentinamente. Na verdade, e após inúmeros pedidos, o blog até queria ser mais amigo dos seus leitores, abrindo, por exemplo, o campo dos comentários. Mas não conseguiu. Fartou-se de andar pelas configurações, até se meteu com software de origem duvidosa o que mudou não sabe bem o quê para ter comentários, mas nada. Niente. Nicles batatóides. Nada!
Enfim, a vida é mesmo assim. Umas vezes consegue-se dar a volta, outras não.
08.18.08
renascimento
X fartou-se de ver aventuras este fim de semana. Chamam-se filmes, pois é. E viu alguns fora de série, um israelita em que uma banda militar de música fica perdida em nenhures, um sobre a obra dos Beatles que é francamente genial e é pena que tenha saído na altura da febre sueca e ainda outro que provocou este post que tem a ver com a possibilidade de se viver outra vez. Curiosamente, ou talvez não, um dos filmes que à priori seria bom foi quase um frete. Mas passando aos pensamentos provocados pelo tal sobre a experiência do renascimento:
Ele há pessoas que acreditam piamente num deus, como há outras que não. E existem ainda aquelas que dizem que não mas quando o fim se aproxima mais vale rezar não vá o diabo tecê-las. E também há aquelas que dizem que acreditam para não prejudicarem a sua vida familiar e, quiçá, profissional.
Ora este filme baseia-se num princípio que é o da segunda oportunidade. Quantas pessoas não gostariam de vivê-la para tomar uma decisão diferente daquela que fez com que toda a vida fosse condicionada? Ou não proferir aquela maldita frase que estragou uma amizade? Ou declarar realmente amor à pessoa certa que nos passou pelos dedos porque na altura pensavamos que não o era? Ou não ir para os copos naquela noite em que ficámos sem carta? Ou e ou e ou?
Pois, toda a gente gostaria de ter a oportunidade de viver a vida outra vez, mas de uma forma diferente. Sim, porque uma simples decisão é deveras importante e com a vida vamos aprendendo isso.
X podia estar para aqui a falar das más decisões que tomou ao longo da vida e das quais se arrepende. Podia também fechar os olhos e imaginar uma vida paralela e no que estaria a fazer agora mesmo. E podia, talvez o mais importante, pensar nas paixões da sua vida e porque é que elas terminaram. E já agora, imaginar cada uma como se tivessem sobrevivido. Seriam, concerteza grandes amores, não é? Daqueles que enchem livros, espíritos, almas e vidas.
Seria interessante…
Bom, X lembra-se agora porque é que começou este post. Toda esta temática fê-lo pensar num dos maiores juramentos católicos, aquele em que se promete, aquando o casório, que amaremos o conjuge até ao dia da nossa, ou dele, morte. Da morte… Ora, e pensando apenas nos ensinamentos e verdades católicas, isto não é uma grande mentira? É que se existe vida para além da morte, como é que poderemos jurar que só amamos a pessoa até ao nosso último dia de vida, enfim, terreno?
Pois é…
X prefere pensar que ainda terá mais uma hipótese na vida, em termos românticos, e que todo o calo o ajudará a tomar a decisão correcta. Será isto a segunda oportunidade? Neste caso será a trigésima, quadragésima… o que não faz muito sentido quando se lê todo o post e se vê o tal filme.
Afinal, uma segunda oportunidade não chega… mas deus é grande, generoso e um mãos largas.
Há que aproveitar!
08.15.08
Bem aventurada
Esta é a aventura de uma aventura pequenina que queria ser uma aventura grande. Era pequenina em tudo, dimensão, conteúdo e importância. E invejava aquelas grandes, que salvam vidas e dão voltas ao mundo. Tinha como maior desejo fazer parte da história e ficar nela.
Muito fez para que passasse a ser mais conhecida. Meteu-se em aventuras e desventuras, quase que ia sendo esquecida, mas voltava sempre à carga através da memória de alguém.
O desespero era grande, pois uma aventura pequenina não passa disso mesmo. Até que se encheu de coragem e foi pedir um conselho à maior aventura que conhecia. A resposta desorientou-a e foi a pensar nela que, cabisbaixa, seguiu o caminho para casa.
Será que é verdade? Que mesmo pequena, uma aventura tem sempre a maior importância para quem a vive? Afinal o tamanho não interessa?
No dia seguinte acordou com um novo espirito. Sorriu e preparou-se para todo um dia de novas, embora pequenas, aventuras. Estava feliz.
08.14.08
juizo
Esta é a aventura de um português com inteligência acima da média. Quis ser advogado e depois juiz, pois era um homem justo, sério e pacífico. A vida universitária não lhe foi fácil, tendo sido alvo de galhofa pelos alunos mais antigos e repetentes, assim como de escárnio pelas mais belas das mais belas que gostavam era dos repetentes e dos mais antigos.
Contudo, tirou o curso com notas acima da média, o que lhe garantiu facilmente um estágio numa das grandes e nomeadas firmas lisboetas. Ao fazer o trabalho de escravo, como recados para os doutores e cafés para o secretariado, percebeu que o seu objectivo de vida tinha sido a única opção possível para conseguir fazer justiça à sua vida e também à dos outros infelizes como ele.
Após penar uns anos, fez mais cursos e especialidades e, finalmente, lá conseguiu ser um senhor doutor juíz. A primeira vez que se sentou na cadeira central e teve o martelo à mão, levou logo com um caso muito em voga, ou seja, assaltantes de bancos. Tinham sido apanhados em flagrante, mataram um refém, duas pessoas que iam a passar na rua, albarroaram dois carros da polícia, feriram três agentes e atropelaram uma fila de crianças que iam de mão dada a atravessar a passadeira. Seria um caso fácil, pensou, prisão perpétua para os malfeitores. Mas não! À luz do novo código penal, os transgressores eram uns santos para quem, coitados, a vida tinha pregado rasteiras o que lhes criou desespero e tal e coiso. O resultado foi normal, à luz do novo código penal (para rimar): os ladrões assassinos foram para casa com sinalizadores nas pernas.
O homem já juiz ficou atordoado. Não dormia. Nem sequer conseguia pensar. Os casos seguintes, todos eles graves, eram tratados e resolvidos da mesma maneira. À luz do novo código penal, os ladrões, assassinos, violadores e terroristas iam para casa, os coitados dos empresários afogados em dívidas ao fisco iam dentro, assim como os parvos que não pagavam a emel e aquele caso extraordinário de uma velhota esfomeada que viu a sua vida arruinada por ter roubado um iogurte num supermercado.
O homem estoirou. Pediu licença sem vencimento e foi para casa. Pensou bastante sobre a sua vida. E sobre a dos outros. E chegou a uma conclusão: passaria a ser ladrão, roubaria quem enriqueceu à conta dos parvalhões, assaltaria informaticamente as grandes empresas que em tempos de crise não tinham vergonha de mostrar lucros que nunca poderiam ser honestos, etc e etc. Portugal é um oásis (!) para ladrões deste calibre.
E assim começou toda uma nova vida em que, finalmente, seria feita alguma justiça.
08.13.08
cafés
Esta é a aventura de um café que abriu por volta de 1950 num bairro moderno de Lisboa. Ficava numa esquina redonda e tinha vitrines para ambas as ruas, o que lhe conferia um estatuto central. A renda começou nos cinco mil reis, puxado para a altura, mas que de bom grado era paga todos os meses até dia oito.
O café era conhecido por muita gente, pois servia de ponto de encontro para a rapaziada, salão de chá às cinco da tarde para a velhada, vendia bolos para fora e até fiambre e queijo a peso.
Este café viveu bons momentos e fez a fortuna do seu arrendatário. Mas também perdeu jovens clientes no ultramar, velhotes que se finavam naturalmente e até empregados que partiram em busca de um maior vencimento em terras de frança. Contudo, cada vez era mais conhecido e preferido pela malta do bairro e dos seus amigos de outros bairros.
Nos anos 70 viu-se meio para trocar segredos e bilhetes, ordens e contra-ordens. Recebeu a polícia várias vezes que prendia alguns elementos reaccionários na esplanada. Ninguém ousava apupar ou mesmo confrontar a ordem.
Nos anos 80 passou a ser a segunda casa de músicos, artistas plásticos, pintores, escritores e leitores. E putos dos liceus circundantes que queriam ser mas velhos e adoravam estar entre os mais velhos. Os anos 80 foram feitos de tertúlias, de fé e esperança, de acordar e reacordar.
Até que chegaram os 90. Nessa altura já era o filho do arrendatário que controlava o serviço, a caixa e o guarda-livros. Mas a construção próxima de um mega centro comercial metia medo a todos, principalmente porque havia uns iluminados que diziam e apostavam que este local seria uma cidade dentro da cidade. Após a inauguração e pela primeira vez em 40 anos, o café deixou de ter clientela, a não ser uns quantos, mas poucos, fiéis. Começaram os problemas com ordenados em atraso, dívidas a fornecedores, à SS e fisco.
Depois aconteceu outra tragédia, com a construção e abertura de mais uns quantos centros comerciais. E a certidão de óbito foi passada a este café e a quase todo o comércio do bairro. As pessoas preferiam passear artificialmente, comprar com crédito, ir ao supermercado e ao ginásio e ao cabeleireiro debaixo do mesmo tecto.
O café, fechado, foi arrendado a uma croissanteria. Depois a uma loja de bijuteria, depois a um banco, depois a uma loja de 300, depois a uma loja de 1,5€, depois a um restaurante chinês e depois fechou outra vez, pois no bairro só viviam mesmo velhotes. A malta nova teve que ir para o subúrbio.
Adivinhava-se um ponto final na tragédia, mas o milagre aconteceu.
O neto do primeiro arrendatário, talvez movido pela honra do nome, pela noção de história, pelo amor ao bairro ou qualquer outro sentimento nobre, vendeu o que tinha e pediu um reforço bancário. As obras, profundas, começaram com papéis nos vidros que atraiam mas não satisfaziam a curiosidade local.
E num glorioso dia no meio da década 00, as portas reabriram com uma festa. O café era agora todo um esplendor de cor, luz, produtos gourmet, mobiliário moderno misturado com antiguidades, empregados jovens vestidos com roupa assinada por alguém, pratos específicos e nada baratos, tudo muito moderno mas com bom gosto.
Na parede restava de tempos idos a fotografia da primeira abertura, com toda a gente sorridente.
Ao lado estava um espaço para uma outra, de agora, para toda a gente sorridente.
E a sorrir também ficaram os antigos clientes. Os menos velhos que regressavam quase diariamente já com os filhos e filhas. Toda uma nova geração.
Murmurava-se também que o grande centro comercial estava a fechar. Muitas lojas já nem existiam. E, de certeza, que isso aconteceria com todos os outros.
08.12.08
crime perfeito
Esta é a aventura de um homem que tinha como objectivo idealizar e cometer o crime perfeito. Passou toda uma vida a magicar esquemas, soluções e fugas. Pensou em bancos, hospitais, caixas da fnac, veículos blindados de transporte de dinheiro e até esquadras de polícia. Só tinha uma questão: teria que cometer o crime solitariamente, pois não acreditava que algo fosse perfeito se tivesse que contar com outrém sem ser ele próprio.
Depois de pesar os prós e contras, decidiu pedir conselhos a elementos das FP25. Descobriu que o mais mediático assalto a uma carrinha de valores tinha sido copiado de uma série britânica que passava na altura, intitulada “as viúvas”. Pensou também em inscrever-se na PJ, depois seria uma carreira como agente infiltrado e, na reforma, usaria essa rede de contactos para se transformar num padrinho. Tentou saber onde se tiravam cursos de super-vilões, visto que em Portugal não existiam, até à data, Super-Heróis para o travar. Cursou química para conhecer os elementos que o ajudariam a enviar cartas com antrax ou construír bombas. Pensou mesmo em tudo, mas para ser um crime perfeito, havia sempre uma ponta solta que ficaria por desvendar.
Quase desistindo do seu projecto de vida, aos 50 e tal anos, sentou-se pela última vez na sua poltrona virada para a varanda de onde via a paz do rio Tejo em dias e noites de céu limpo.
Encheu o copo de whisky, acendeu o último monte cristo e semicerrou os olhos, concentrando-se em busca de uma última solução, de algo que se tivesse esquecido ou, melhor, nunca pensado.
De repente fez-se luz. E daquela muito luminosa, com uma lâmpada a fazer “tilt” por cima da sua cabeça.
Saíu de casa a correr e foi-se inscrever num dos dois partidos que ganham sempre as eleições. O plano era simplex… Quando fosse formado o novo governo, ele estaria à porta do concelho com boas soluções para alguns problemas. Subiria a sub-secretário de estado. Depois secretário de estado. E finalmente ministro.
Sorriu e brindou a ele próprio.
Tinha finalmente conseguido o golpe perfeito. E ninguém daria por nada e muito menos o chamaria a responder pelos crimes cometidos.
08.11.08
tuga
X foi convidado para criar uma personagem para uma série de episódios, tipicamente tuga, a exemplo do Mr Bean e do seu morris mini e teddybear, para concretizar um projecto audiovisual sonhado por alguém.
Ora X tem passado algum tempo a pensar nisto. Logicamente que é uma tarefa ingrata, pois todos os tugas sabem como um tuga típico é: a farta bigodaça, o avantajado estômago, o cabelo comprido puxado de um extremo ao outro para tapar a careca, as camisolas interiores com buraquinhos, os arrotos, a escandaleira na rua derivada à discussão com a “esponsa”, o carro artilhado com santos e santinhos, alguns tupperwares aerodinâmicos, autocolantes a dizer “Turbo” e a Bola debaixo do braço.
Muito há ainda por apontar, mas o retrato é fidedigno e, por incrível que pareça, típico de norte a sul, de oeste a este.
Ora X não gosta de ir por caminhos já trilhados e decidiu estudar o personagem e dar-lhe um toque original. Não foi difícil. Aliás, é até estupidamente fácil fazer o retrato do tuga moderno.
Então, o retrato/cromo de X é o seguinte:
Homem na casa dos trinta, mais ou menos agradável à vista, campeão em inúmeras actividades desportivas, tipo remo, judo, natação, equitação, rugby, esgrima, etc, extraordinário gestor empresarial, tipo presidente da Nissan, Vodafone Turca, comissão europeia, onu, refugiados, etc, poliglota, inventor e inventivo, tecnologicamente informado e, acima de tudo, interessado, bom nos copos, no sexo e nos pratos, inteligente, afável, brincalhão, com grande sentido de humor e, acima de tudo e o mais importante, DESENRASCADO.
X vai agora apresentar o seu tuga…
08.08.08
oriental
X está ligado ao Oriente. Tem adn mongol, apelido nipónico e olhos até um bocadito rasgados. O chamamento e a vivência das culturas japonesa e chinesa é, por incrível que pareça, algo bem presente na sua vida. No entanto, só pisou solo oriental no ano passado…
Engraçado, X agora até percebeu que vai morar na zona mais oriental de Lisboa.
Enfim, tudo isto para dizer que X ficou embasbacado, emocionado, rendido, admirado e feliz quando viu as imagens da abertura oficial dos jogos olímpicos.
Só se pode dizer “Respect, camaradas, nem tudo é mau numa ditadura! Se não fosse ela este espectáculo teria sido impossível!”
Respect, camaradas!
08.05.08
vogais
Esta é a aventura de um homem que trocava vogais nas palavras. Dizia que era disléxico, mas o problema era só mesmo falta de concentração e demasiada rapidez ao falar. Era tão lesto a dizer o seu ponto de vista que os interlocutores só percebiam metade da ideia mas anuiam com a cabeça porque já não tinham mais paciência para a repetição. Aliás, repetições.
Para citar alguns exemplos, eis frases proferidas por este homem que ficaram na memória dos amigos: “Eu pertenço à neta das netas!”, “Hoje o sal está abrasador”, “Ouviram o Cavaco a falar do dia da roça e da noção?”, “Por favor, uma boca pingada”, etc e etc. Dá para ficarem com uma ideia.
Porém, houve um dia que o homem alarmou os que o conheciam bem…
“Epá, tenho um temor…”
Todos se calaram e nenhum ousou perguntar mais nada. Fecharam o olhar e o sorriso e falaram sobre circunstâncias. No dia seguinte o homem continuava a queixar-se. E assim aconteceu durante uns tempos. Até que um amigo, querendo ajudar mesmo sabendo que a resposta poderia ser pior do que imaginava, fez-lhe a pergunta:
“Olha, quanto tempo te resta?”
“Cerca de dois meses…”
“Bolas, pá. Dois meses… nem sei o que dizer.”
“Conheces algum bom advogado?”
“Conheço, o K. Queres que ele te trate do assunto?”
“Sim, vou mesmo precisar de ajuda.”
“Compreendo… olha, tens aqui o nº: 555-5050…”
“Ok, obrigado. Olha, achas que é tipo para receber em prestações?”
“Epá, na tua situação acho que ele não vai em cantigas… Sabes como são os advogados.”
“Tens razão. Mas não custa perguntar, não é?”
“Sim…”
O amigo ficou a pensar por instantes e achou interessante o facto do homem não trocar vogais no discurso, como sempre fez até então.
“Reparei que já não trocas as vogais. Não deixa de ser curioso.”
“Bolas, desde que recebi a carta do fisco, o cagaço foi tão grande que esse problema passou…”
O amigo ficou branco… e já não perguntou mais nada.
08.02.08
branca
X não tem mesmo nenhuma ideia… a mais pequena… um toque… um vislumbre.
Será que se acabaram as aventuras? É que não vem mesmo nenhuma à tona.
Será da dor de cabeça? Que a enche e nem vai lá com café ou comprimido?
Bom, melhores dias virão.
07.25.08
Judites
X não ouviu ontem a entrevista do fulano que rapou a bigodaça e que trabalhou na judiciária. Mas viu as imagens. Deve ter sido interessante (preparem-se para a chalaça) ouvir a Judite a entrevistar um ex-Judite. O que X queria mesmo era ter uma maquineta que ouvisse os pensamentos e não o que as pessoas dizem. A entrevista seria muito mais interessante, de certeza.
Vamos tentar…
Judite sem bigode (JSB): Então, estás maluco ou quê? Acreditas mesmo no que escreveste ou assaltaste um banco para pagar o processo que os McCann já iniciaram?
Judite Ex-Judite (JEJ): Epá, acredito mesmo nisto. Aliás, agora tenho mesmo que acreditar, pois o que já está, já está.
JSB: Bom, mas se a menina foi parar ao mar, o mar não a traria de volta, como faz quase sempre?
JEJ: Pois, aí está. O chato é que o Mr.X não tem nenhuma ideia para escrever uma aventura e agora lembrou-se desta. Não se faz. Se fosse eu, já estava a levar com os advogados dos McCann.
JSB: Sabes que o Mr.X tem uma ligação estranha aos McCann?
JEJ: A sério? Epá, não estudei essa possibilidade. E os cães também não a farejaram… Explique lá.
JSB: É que, há muitos anos atrás, trabalhou na McCann!
JEJ: Tchiii… Já percebi tudo. Isto é todo um complot.
JSB: Mas há um dado que muda tudo.
JEJ: Mau…
JSB: É que a McCann é americana e os McCann não.
JEJ: Posso beber um copo de água?
JSB: Há mar e mar, há ir e voltar.
07.22.08
Está tudo Mad (part 3)
07.20.08
normal
07.18.08
chip
Esta é a aventura de um português normal que, nas poucas horas livres, se dedica a inventar umas geringonças. Este homem, como tantos outros portugueses, já ganhou inúmeros prémios e medalhas de ouro nas competições internacionais de inventos. Só que por cá, continua a trabalhar das 9 às 18h numa fábrica. Os governos nunca quiseram saber de mais nada, a não ser do IRS e da SS.
O homem não vive feliz. Sabe que está desaproveitado. E já estava cansado de ter batido à porta de alguns responsáveis quando a crise apertava alguns sectores sem sequer poder apresentar as suas soluções. Para citar exemplos, quando se começou a falar da crise do petróleo duas décadas atrás, ele inventou um processo que fazia com que os carros andassem a água. Ninguém quis saber. E mesmo hoje ninguém com responsabilidades no sector quer. Quando se falou de acidentes nos aeroportos por causa das aves, ele inventou uns robots para as afastarem, robots ligados por GPS a uma central. Hoje ainda se continua a utilizar aves de rapina. Inventou muita coisa ao longo da vida: membros artificiais, porque um amigo tinha ficado sem uma perna no ultramar, um robot de cozinha que ajudava as mães e trabalhadoras nos afazeres, mas de corpo inteiro que também lava e passa a roupa e não é nenhuma bimba…, um processador que aumentava a inteligência dos cães guia, um centro de informação rodoviário e citadino para que as pessoas em Portugal saibam para onde têm de virar para chegar a um qualquer destino, etc e etc.
Nunca ninguém quis saber.
Mas agora que o desgoverno se prepara para colocar chips nos carros, depois dos cães, das casas, das telecomunicações, etc, ele achou por bem adiantar-se ao que já sabe qual é o futuro passo, ou seja, um chip para as pessoas.
Despediu-se, meteu-se na cave, e criou um chip anti-chip. Este aparelhómetro serve para enfaralhar toda a informação que o chip “oficial” vai ter sobre uma pessoa, deixando apenas intactos os dados sobre a saúde e a ficha médica.
Como bons tugas, os amigos já alcunharam a invenção de “chipinho”. Encomendas há várias, mas em momentos de crise, a malta só vai pagar mesmo quando for obrigada a usar o chip “oficial”.
O homem está sem dinheiro. Mas já encontrou uma solução: vai equipar o chip-anti-chip com alguns extras. Por exemplo, um enfaralhador de sinal para os radares de velocidade e um enfaralhador para a Via Verde.
Ele sabe que, quando o mostrar aos mesmos amigos, vai finalmente ficar rico.
07.17.08
engodo
Esta é a aventura de uma aldeia portuguesa, daquelas pequenitas e votadas ao abandono quer pelas suas gentes como pelas gentes que tinham poder para evitar esse processo.
Os poucos habitantes que restavam viveram problemas sociais e económicos complicados. Viram o estado tirar-lhes a escola local, o centro de saúde, o comboio e os serviços municipais foram reduzidos para um mínimo impensável.
Havia nesta aldeia gente de brandos costumes, de boa fé, de amizade a toda a prova e com um sentido de comunidade raro. Mas cada vez eram menos.
Até que surgiu uma família jovem lá da cidade. Estavam fartos da confusão e stress, dos preços de tudo, da loucura reinante, da poluição e da falta geral de qualidade de vida.
Traziam dois filhos e a escola não reabriu. Um dos putos ficou doente e não havia um médico num raio de 50 kms. Queriam abrir um novo espaço para turismo rural de qualidade, mas os entraves eram mais que muitos. Enfim, tinham mais problemas do que quando estavam na cidade.
O rapaz, no alto dos seus 40 anos, tinha sido um empresário de algum sucesso lá na grande cidade. E tinha deixado amigos em pontos diversos. Depois de falar com a mulher, decidiu apresentar uma proposta aos 18 habitantes que restavam. Estava na hora do mundo olhar para eles e não o contrário.
Os habitantes ouviram com atenção a ideia e não a perceberam. Mas tiveram vergonha de perguntar o que era uma central nuclear e resíduos tóxicos. Contudo, a fortuna que a sua aldeia ia receber pela venda de energia limpa, foi o argumento que os fez decidir positivamente.
Passado um tempo, a bomba estoirou! Toda a comunicação social falava do plano para a construção da central naquela aldeia. Inúmeras equipas de jornalistas surgiram como pombos, com eles as roulotes de couratos e bifanas, um circo, motards e muita muita gente, principalmente de esquerda e verde. Aconteceram acampamentos, protestos, intervenções policiais. A aldeia era agora o centro de toda uma europa interessada na conclusão do processo e de milhares de jovens de 40 anos que esperavam para saírem das suas cidades com rumo a aldeias incógnitas.
Aconteceram debates públicos e privados. Reuniões de estado. Discussões sobre os prós e contras. Enquanto isso, parte das pessoas que estavam na aldeia para defender os seus ideais, arrendaram casa porque o processo ia demorar muito tempo, alguns tascos reabriram, assim como a pharmácia que estava encerrada. Toda uma equipa médica surgiu no antigo centro de saúde, a polícia destacou agentes, foi criado um jornal online e em papel de distribuição gratuita, e, como por milagre, antigos habitantes regressaram com as suas famílias o que obrigou à reabertura da escola.
O rapaz de 40 anos sorriu. Tinha sido esse o plano e nunca o da construção de uma central de energia.
07.16.08
pen
Esta é a aventura de um homem que fez e viu crescer filhos, que viveu com algumas companheiras e que chega a uma espécie de reforma da vida quando ainda tinha muito para dar mas a sociedade já não o quer.
Na sua solidão, inventou inúmeros projectos para lhe preencherem o tempo, os quais apresentava aos amigos também eles agastados antes de tempo. Uns viviam mortificados, outros zangados e alguns entretiam-se a aprender novas tecnologias para encontrar alguém nos hifives ou qualquer outra coisa. Alguém compatível com a recente terceira idade, nada de meninas com tudo no sítio e sem rugas na cara.
Foi numa dessas discussões, em que todos falavam das suas experiências com o sexo oposto, que chegaram a uma única conclusão: independentemente da idade, credo ou raça, todas as senhoras tinham uma cassete encravada bem no fundo da memória que fazia com que tomassem as mesmas posições sobre as mesmas matérias, olhassem para as coisas com o seu muito delicado ponto de vista, desejassem o amor mas que faziam tudo para que quem o desse passasse pelo inferno, etc.
Até que o homem, na sua grande sapiência, disse aos outros que Deus, afinal, tinha falhado!
Como já estavam próximos do encontro final, mesmo os mais cépticos ficaram incomodados com esta declaração e não perderam tempo a pedir justificação para tal afronta.
O homem meteu a mão no bolso e tirou uma pen, dessas de computador. Coisita pequenita, exclamaram!
Não perdendo a calma, o homem colocou a pen na mesa do jardim. Esperou que todos a olhassem e depois disse que aquilo “tinha uma data de gigas”. Uns entreolharam-se, outros sorriram porque até já conheciam o instrumento. Mas todos aguardaram pela conclusão.
O homem, depois de uma pausa em que inspirou bastante oxigénio, iniciou finalmente o discurso:
“Sabem, esta pen tem muita informação. Guarda mundos e pensamentos, ideais e convulsões. Dados pessoais e universais. Enfim, ela é todo um mundo. Agora pensem comigo: quando Deus fez a mulher instalou-lhe uma drive de leitura, assim vertical e no baixo ventre. Mas só agora deu a faculdade ao Homem para que conseguisse criar o raio da pen. Quando digo que Ele se enganou foi no tempo e no espaço. No tempo porque fez a mulher cedo demais e no espaço porque só agora é que percebemos como tudo deveria ter funcionado. Em vez de O deixarmos colocar a informação que Ele queria, nós é que deviamos escolher a que lá deveríamos guardar. E tudo seria muito, mas muito mais simples.”
Todos ficaram mudos. Todos reviveram as suas aventuras e amores. Todos começaram a sorrir ao mesmo tempo. Até que houve um que disse que ia começar o jogo. E aí, todos se levantaram e foram ver a tv.
07.15.08
pneu
Esta é a aventura de um homem gordo, muito gordo, com uma grande barriga. O seu peso não era muito salutar para os sofás, cadeiras, cama e, inclusivé, para os amortecedores do seu automóvel.
Devido à enorme pressão sobre o lado esquerdo, os pneus estavam sempre a rebentar. Às vezes era só no dia seguinte que ele percebia, outras vezes acontecia em plena viagem, o que era grave e não evitou dois ou três despistes.
Todos lhe diziam para ele perder peso, porque assim limitava os problemas da sua própria saúde, o que era mais importante, e todos os outros relacionados com os seus pertences.
Ele estava farto da conversa, mas após mais um furo e consequente susto e arranjo da jante partida, decidiu consultar um médico. Depois outro, mais outro e ainda outro. Todos lhe diziam o mesmo, grande dieta, muito exercício físico e adeus a tudo o que ele gostava mais na vida, desde os petiscos às mines.
Decidiu ser radical e não perder tempo. Este era um homem prático e que não olhava a meios para conseguir objectivos. Era assim no emprego, era assim nas coisinhas da vida. Pensou longamente nos pneus e olhava para o seu baixo ventre. Pneus, barriga, barriga, pneus.
Agarrou num espeto e pumba, enfiou-o ao pé do umbigo. Ouviu-se um prolongado silvo e, como por milagre, o barrigão foi-se esvaziando.
O homem estava todo contente e observava-se regalado ao espelho. O problema foi quando a barriga deixou de existir e todo o resto do seu corpo se começou a esvaziar.
O buraco que ele tinha feito no barrigão era médio, mas tornou-se quase invisível neste momento. Desesperado, tentou agarrar outra vez no espeto, mas o seu corpo esvaziava-se depressa. De gordo passou a palito, de palito a um risco e do risco a nada.
Só ficaram as roupas.
Ainda hoje toda a gente pensa que ele foi para o Japão, sociedade onde se valoriza… quem é mais gordo.
07.14.08
vida
Esta é a aventura de um homem que se apaixonou pela vida. Ela própria! Cada dia que passava aumentava o seu sentimento e tinha chegado a hora de lhe fazer a corte. Perguntou a amigos como é que conseguiria ter o contacto da vida. A princípio pensavam que ele estava a brincar, mas com a insistência, começaram a ficar preocupados. Tentaram demovê-lo, mas a sua paixão aumentava.
Acordava mais cedo, dizia bom dia ao sol, às plantas, às flores, aos animais e até às pessoas. Curiosamente, estas eram as únicas que o olhavam de lado. O homem estava feliz, sorridente, cheio de uma força que podia mudar o mundo. Os seus amigos já se reuniam às escondidas e consultavam médicos atrás de médicos para encontrar uma causa. Seria um mal da cabeça? Seria um mal do corpo? Ou da alma? Finalmente encontraram um guru sem segredos que lhes disse que não era de todo anormal esta “doença” atingir algumas pessoas. Havia aqueles que tinham essa sorte, raros, e poucos conseguiam vivê-la, pois quem os acompanhava internava-os num qualquer hospício.
O homem não entendia o temor dos seus amigos. Para ele, a vida era somente bonita, linda, fantástica e tinha que ser aproveitada segundo a segundo. Só não tinha era o telemóvel dela. Mas não ia desistir.
Entrou em foruns da internet, conheceu pessoas que o admiravam, outras que o invejavam e ainda outras que o injuriavam. Mas nada o demovia.
Esta sua busca teve um desenvolvimento que poucos esperavam. O seu nome começou a ser notado, falado e comentado. Os admiradores começaram a abafar os críticos. Foram construídos sites, blogs, os telejornais começavam a falar do caso. Toda a gente queria saber o como e porquê desta paixão. E muitos começaram a seguir-lhe os passos. Também eles diziam bom dia a tudo e todos. A pouco e pouco o mundo foi ficando menos cinzento. As pessoas mais gentis, a natureza mais respeitada, os animais mais amados.
O homem, contudo, ainda não tinha conseguido contactar a sua paixão. Mas agora tinha gente de todo o mundo a acompanhá-lo nessa busca. E isso dava-lhe ainda mais força.
07.12.08
decote
X olhou para o cantinho na baixa direita do seu belo monitor de informática e reparou que hoje é treze. Ou treúze. Ora que bela data… e, se tudo até correr menos mal, X vai habitar num… treze. Ou treúze. Não é mais ou menos interessante?
Enfim e passando à frente.
Há muitas coisas que fazem X pensar em escrever uma aventura. A última das quais é o extremo, maravilhoso e generoso decote que as senhoras usam hoje em dia. Não falo de pitas, mas sim de mulheres. É muito diferente. X tem reparado no que exibem com extrema confiança. Perfeitos, tesos, descaídos, aconchegados, subidos, falsos e verdadeiros… a mulher portuguesa percebeu de repente que tinha um peito. E há que mostrá-lo, qual séc. XVIII e XIX, só faltando mesmo o lencito branco a beijar o chão, quase esquecido, quase abandonado.
Mas não, X não vai escrever a sua primeira aventura sexual.
Há outras coisas para aventurar. A ver:
1. O regresso do D. Sebastião!!!! Exactamente. Chama-se Queirós.
2. O belo decote das portuguesas.
3. O estado da nação. Falamos exactamente do quê?
4. O decote das portuguesas.
5. Mais vale ser criminoso e sair da choça que pagar impostos e ficar nela.
6. O decote das portuguesas.
7. Mais vale ter dupla nacionalidade, tal vale & azevedo, que uma e ficar na prisa.
8. O decote das portuguesas.
9. Abaixo quem vende whisky adulterado, merecem pena de morte.
10. O fantástico, extraordinário, eloquente, afirmativo, sensual, oferecido, mostrado, apetecido, generoso, belo e demais adjectivos sobre o decote da mulher portuguesa.
Ora bem, quem ganha?
…
E o que é importante?
…
E, ó Mr. X, cadê o raio da aventura?????
Ora pois, a resposta é …
Já agora, o que é que o treze (ou treúze) tem a ver com este post?
….
Mainada. Quando se pensa num decote, nada mais é importante.
07.11.08
sorry
Esta é a aventura de um homem, curiosamente alcunhado X, que não gosta de calor. Não se sabe, portanto, se é por ele ou pelo cheiro da sardinha ainda nas grelhas ou mesmo pelo vislumbre de uma praia com mar em levante que, por vezes, não surgem argumentos, luzes, histórias, aventuras.
Será que é por amanhã uma amiga entrar nos entas, sendo a última da “criação”? Será que é pelo raspanete que o Sócres deu ao senhor dos tachos? Será que foi do filme Atonement visto há pouco ou pelos Duran Duran a que se vai faltar?
Enfim… razões são muitas para se pedir desculpa.
07.10.08
mudança
Esta é a aventura de um homem falso e cretino. Usava a desgraça dos outros para seu próprio bem e enriqueceu à conta disso. Mas era um agarrado aos trocos e fazia de tudo para não gastá-los, chegando ao ponto de num restaurante com ainda os poucos amigos que tinha, dividir o pão com manteiga na conta final.
Este homem geria muito bem a sua vida pessoal e profissional baseadas em mentiras. Dizia que era director de um conjunto de empresas mas que não existiam, que tinha uma mulher fantástica mas alugava-a à hora numa agência de hospedeiras, etc.
Tudo corria bem até que um dia se apaixonou e ficou maluco. Começou a gastar o dinheiro em prendas para a rapariga, comprou umas roupas mais catitas e até um perfume, pagou aulas num ginásio e chegou ao cúmulo de marcar um fim de semana num hotel.
A rapariga, que não falava português, engravidou. E o homem viu-se numa situação totalmente nova para ele: estava menos ganancioso e egoísta e só pensava no futuro rebento.
Os amigos aplaudiram esta mudança e o homem sentia-se bem com o mundo pela primeira vez na vida. Decidiu até ir visitar a mãe que não via há uns 10 anos, uma velhota desterrada numa terra abandonada lá para os lados de Sabúgal. A mãe, feliz como nunca o tinha sido, disse-lhe que “quem casa quer casa” e que o netinho tinha que ser bem cuidado e tratado porque “as crianças são a melhor coisa do mundo”.
Regressado a Lisboa, o homem decidiu investir numa casa. Durante a sua vida conseguiu ter uma boa conta poupança e os 120.000€ disponíveis davam para isso. Procurou durante muito tempo até que encontrou uma verdadeira pechincha, um bonito T2 todo reconstruído no quinto andar de um prédio de quatro sem elevador. Casou com a pequena e a família mudou-se num belo dia de Verão.
Com o Inverno chegaram as primeiras grandes chuvadas e a sua nova casa começava a mostrar alguns problemas. Muita humidade, frio e algumas infiltrações depois, o homem decidiu pedir a ajuda de um trolha para ver o que se passava.
O trolha chegou com mais um trolha e ambos passaram a manhã a inspeccionarem o imóvel. Sairam para almoçar dizendo que iam aproveitar esse intervalo para escrever o orçamento. E assim foi. Regressaram pelas 14h com um papelito “sem factura pois com factura tinha que se meter mais uns cobres”.
O homem ficou lívido quando viu o total: 15000€!!! Mas “porquê, porquê?”
Os homens começaram a apontar os defeitos da casa: tudo era pladur, tecto falso, canalização medíocre, fugas de gás, telhas partidas, etc. Não havia uma parede que não tivesse problemas graves, mas como estava embelezada, nada se via. “Uma porcaria”, concluíram.
O homem deixou-se caír no sofá. A sua casa era o reflexo da sua vida. Tudo era bonito por fora mas falso por dentro…
Ainda hoje está sentado.
07.09.08
indecisão
X não dorme há dias. Ou será noites? Bom, não dorme no escuro, ponto final parágrafo.
Outroparágrafoalánobelliteraturaportuguesa.
Arrendar, comprar, comprar, arrendar? Na verdade, os dois melhores amigos de X dizem que o mundo está out não tarda, portanto, arrendar. Amigas de X dizem para não ser parvo e olhar para o futuro, portanto, comprar.
Maisumparagrafonobelportuguês.
Indecisão, indecisão.
07.07.08
eurogal
Esta é a aventura de um homem muito vingativo a quem saíu o maior prémio do euromilhões de sempre. Eram tantos zeros que tinham que ser riscados um a um para se contarem até ao fim.
O homem sorriu. Maliciosamente, claro está. Era um tipo muito tuga com interesses muito tugas.
Com o dinheiro na mão, foi ao banco com quem tinha contraído empréstimo para a casa + obras + carro + lcd. Com notas de 5€ pagou toda a dívida + juros + alcavalas + taxas. Depois, franzindo o sobreolho direito, perguntou onde e quando era a próxima reunião dos accionistas. Por acaso era no dia seguinte, ao que respondeu “amanhã é que vão ser elas!!!”
Passada uma noite de bom dormir, vestiu o fato domingueiro e foi à sede bancária. Tentou, a bem, entrar sem grandes ondas. Depois entrou a mal. Para espanto de todos, quis saber quanto é que custava o banco. Uns riram-se, outros não, pois já tinham lido as notícias sobre o grande prémio. Para azar do banco, o homem foi mal tratado e na rua apanhou o primeiro táxi com destino à bolsa de valores. Uma vez lá e apontando para a entidade bancária, gritou “compro!” 6748987 acções ficaram no bolso dele de um minuto para o outro. Apanhou outro táxi com destino à sede. Lá chegado disse “meus meninos, toca a andar daqui para fora! Isto agora é tudo meu. Vá, olho da rua!”.
Com a notícia nos especiais informativos do dia, muitos populares correram para o banco em questão afim de depositarem todo o seu dinheiro. Inúmeros pedidos de transferência de créditos foram pedidos. Todos queriam estar no banco de um gajo igual a eles. E o banco cresceu, cresceu muito.
O homem ficou atordoado, pois não estava à espera deste resultado. Isso deu-lhe forças (mais uns biliões que ganhou na bolsa) para apanhar um Go até Londres. Uma vez lá instalou-se num B&B em Hammersmith, baratuxo e de donos portugas. Perguntou como chegava a Chelsea e andou quase uma hora de Tube.
Lá chegado perguntou pelo Filipão. O gaúcho, sabendo que estava um português à porta, veio tentar o charme. E para isso trouxe o outro tuga, o Deco.
Ao vê-los o homem ainda perguntou pelo Ricardo, mas a resposta foi “o minino está em espanha”.
Perguntou pelo Abramovich que estava lá em cima no restaurante. Chegou até ele e fez-lhe uma proposta irrecusável pelo clube. O russo riu e assinou a papelada. Com o aperto de mão, apanhou o jacto particular com submarino acoplado e um vaivém a 700 kms para segurança privada e rumou a Portugal. O homem sabia o que ele ia fazer e tinham combinado jantar juntos, mas antes, perguntou outra vez pelo Filipão. Quando o encarou disse-lhe apenas “rua!!! sem direito a nada nem aos dois contos da casa da partida!”.
Ao jantar, ele e o russo combinaram a estratégia. O tuga ia comprar o governo e todos os prédios da CML onde, por acaso, o governo também trabalha.
O russo ia comprar a Epal, a EDP, a Galp e a Tap.
O plano era simples e muito concretizável: fazer disto um país sério.
Mr.X
Já são muitos os pedidos para que X dê a cara.
Ora e aproveitando uns convites que por aí andam, aqui está X.
Ou Mr. X para quem não me conhece, se faz favor.
07.06.08
baixa
X estava a preparar-se para uma nova aventura quando um amigo telefonou: “Daí de tua casa vês o que se está a passar?” E X foi à varanda onde tirou uma foto.
Correu para as notícias, nada. Nem sic news, nem rtpnews, nem tsf, nem diário digital, nada. De repente, um rapazola da sicnews diz que vai uma equipa de report a caminho. Quase uma hora e meia após o início do “evento”.
X, em conversa com os amigos presentes perturbados e emocionados, relembrou o Chiado.
Depois falou-se do TGV, das novas auto-estradas, do novo aeroporto, dos 50 milhões de euros mal gastos pelos fdp dos ministérios, das águas de portugal e dos seus carros de 2,5 milhões, da malfadada selecção e FPF e dos seus milhões, da nova grande ideia da edp e, quiçá, epal para obrigar quem paga a pagar o que os outros não pagam (leia-se que os outros gastam milhões em carros e prémios), do Obama e Hilária, do McCain, do grande show de hoje do Jon Stewart que, mais uma vez, tenta explicar aos americanos que as notícias reais nunca são as notícias que eles têm, etc e tal.
O que a baixa faz, a nós alfacinhas. Principalmente quando sabemos que metade está devoluta e só o Sto António reza para que nada aconteça. Mas nem ele consegue ultrapassar os lóbies com a CML, a manha de uns que se estão nas tintas para o sofrimento dos demais, e tantos etc.
Esperando por info, da tal equipa de report, fomos outra vez à varanda. A luz laranja já lá não está, só um fumo denso e escuro.
Fizemos apostas em relação ao futuro da baixa lisboeta:
X: Isto vai arder tudo antes do próximo earthquake e respectivo tsunami.
O: Mais vale atearem fogo a tudo para sofrermos só uma vez.
PC: Tá na hora de ir embora.
Adenda: São 3 da manhã e já o nº21 também se foi. E o 6 por trás deve estar na calha…
Dizia eu que as chamas já se tinham ido, né?
Que deja vu mais horroroso.
06.30.08
mister
X foi sondado pela federação tuguesa de futebola para o cargo de mister da selecção. Pediu, logicamente, tempo para pensar e só daria uma resposta após a conclusão do €. Ora já acabou e os germânicos caíram (dói muito bebé, não dói?) e os hermanos só se vão calar daqui a quatro años. Ora com as saídas do aragonês e do filipão e de outros que foram demitidos, resta no comando o tipo da camisa branca justa e cabelo pintado. Há que ter cuidado com este fulano num futuro próximo. De qualquer forma e fazendo as contas, esta é uma boa altura para assumir o comando da selecção nacional.
De seguida eis o rascunho do projecto que irei apresentar aos dirigentes da federação.
1. Equipa
Ora aqui começa a chicotada psicológica e outra bem real, que é meter os mininos de rabo desnudado para o ar e presenteá-los com uma dúzia de vergastadas mesmo bem dadas. Logicamente que a permanência do ricardo está fora de questão, mas há outros que eu também, como mister, vou despedir: todos os que não sabem dizer mister em condições, todos os que pintam o cabelo e todos os que usam jóias em orifícios não naturais. Sim, é verdade, o quaresma e o ronaldo. E depois? Um tem os pés tortos e o outro tem um pé já marcado. Nada demais. Sem vedetas, a equipa jogará melhor “em colectivo”. No meio campo mantinha o petit do benfica e o outro ainda mais petit do sporting. O problema com os brasileiros é que o deco, com contrato novo assinado, vai jogar como nos habituou, ou seja mal. Mas o pepe é um gajo valente… fica o pepe para dar aquele show de bola a que já estamos habituados. O gomes fica. E não me lembro de mais nenhum.
Ora para ter 11 bons jogadores, vamos buscar lá fora, como os alemães fizeram. Quero dois turcos, dois russos, um espanhol, um polaco e um holandês. Dar o b.i. tuga deve ser coisa fácil e ficamos com fãs em mais países que até gostam de futebol.
2. Táctica
1 – 1 – 1- 8
Ou seja, tudo prá frente que prá frente é que é o caminho! Podemos levar muitos golos, mas para vencer só temos que marcar mais um.
3. Autocarro da seleção
Nada de empurrões! Só mesmo a girassol. Vamos ser verdes!
3. Centro de estágio
Lisboa. Subir e descer as colinas para o físico, evitar os buracos para garante de rapidez e reflexos, banhos de lodo na doca da expo para a pele, atravessar a nado o tagus para a força anímica, explorar obras do terreiro do paço para não caír nas rasteiras das selecções adversárias e, finalmente e porque X não gosta, caír no asfalto em hora de ponta com a obrigação de ser lesto a levantar para não levar com um carro em cima, para evitar aquelas fitas da treta bem à portuguesa.
E pronto. Se me escolherem, saíremos vencedores para a próxima.
06.28.08
calor
Esta é a aventura de um homem que começou a derreter com tanto calor. Começou por ver os seus pés a transformarem-se numa papa, de seguida as suas pernas, depois o tronco e braços e por fim a cabeça.
Todo ele era uma papa multicolor devido aos pedaços da roupa que se misturavam com os seus orgãos. Ficaram apenas os olhos que lhe permitiam olhar em redor mas numa perspectiva nova, em contra-picado. O seu cão cheirava-o muito alarmado. Sabia que aquilo era o dono mas não percebia onde ele estava. O pior aconteceu quando o cão o começou a lamber, freneticamente. Partes do seu corpo pastoso começaram a ser engolidos, pedaço por pedaço, até que, por fim, todo ele estava no estômago do seu cão.
Passaram alguns dias, os telefones tocavam sem parar, a campaínha soava. E com a campainha, os latidos do cão que revolviam as entranhas e o faziam ficar tonto.
Finalmente um amigo, preocupado com o seu silêncio, abriu a porta de casa. O cão fez-lhe uma grande festa, pois já não comia há dias e tinha muita vontade de ir à rua.
O homem, de repente, apercebeu-se do que lhe podia acontecer. Será que seria lançado para fora do seu cão e abandonado num canteiro qualquer? Dito e feito, o cão correu para o jardim e expeliu o outrora seu dono. E ainda lhe atirou areia, pó e pedrinhas para cima.
Depois cheirou-o sem parar, ganindo e ladrando. O amigo, sem perceber, teve que arrastá-lo com muita força. Estava demasiado calor e disse-lhe que ou saíam da rua ou derretiam os dois.
06.25.08
além
Esta é a aventura de um homem que queria ser escritor. Não sabia se tinha queda ou não, mas era um desejo profundo. Pensou em histórias, formatos, soluções, mas nada de muito especial lhe vinha à cabeça. Falava com amigos, tentando desesperadamente um conselho. Seria melhor escolher romance, ficção, poesia? Literatura infantil, tão na moda, argumentos para tv ou cinema? A dúvida preenchia-lhe todo o tempo em que deveria estar a escrever e isso fascinava-o ao mesmo tempo que o desesperava.
Começou a frequentar tertúlias, convenções e lançamentos literários. Passou muito tempo a estudar capas e a ler os resumos dos best-sellers. Qual seria a solução?
Com a cabeça no ar, saiu para beber um café. Foi atropelado violentamente por um grunho que guiava um Punto cheio de tupperwares, luzes azuis e tecno a bombar. O puto fugiu. Ele ficou à espera da ambulância e olhava em estado de choque para aquilo que tinham sido as suas pernas.
A operação correu mal e ficou sem elas. Ao mesmo tempo, entrou em estado crítico, após ter perdido muito sangue e não haver quantidade suficiente do seu grupo muito específico.
Entrou num coma profundo e a junta médica avisou parentes e amigos para que se preparassem para o pior.
Acordou três anos depois. A primeira coisa que pediu foi caneta e papel.
Começou a descrever todas as imagens com que tinha vivido durante esse tempo, um mundo tão estranho quanto mágico, em que seres diferentes conviviam com os que consideramos normais, em que os animais irracionais eram racionais, em que a natureza tinha formas e cores diferentes das que estamos habituados.
Demorou um ano. Para lhe fazer a vontade, a família enviou o original a uma editora que imediatamente o lançou.
O sucesso foi enorme, os leitores liam sobre a vida que existia para além dela própria, sobre um mundo para além do nosso, sobre tudo para além de qualquer coisa.
O homem, finalmente, sorriu. Fechou os olhos e partiu para casa.
06.23.08
mosca
X tem, por vezes, vontade de ser K. Ou W. Ou Z. Ou até, em dias mas estranhos, Y.
Não sabe porquê. É uma vontade, não uma necessidade. Tal e qual aquela vontade que se tem quando se quer ser mosca, esse ser repelente. Porquê? Apenas para estar em lugares sem dar nas vistas. E já agora, porque pedir não custa, vontade de ser outra gente, ter mais experiências, viver outras vidas.
É isso! Há uma forte possibilidade de se conseguir isso… basta pensar nos time-sharings: em vez de trocar apartamentos, trocam-se personagens e vida. Agora podemos ser um piloto de vôos comerciais no Zimbabwe, mais logo o mordomo do Bill Gates, amanhã aquele astronauta russo que está a pedir preservativos na estação espacial, depois voltamos à terra e somos mosca.
Porquê repetir a mosca? Porque era bom ser uma, ou até várias, e estar em tantos espaços diferentes ao mesmo tempo que até dói. Imaginem por um bocadinho… vá, sem medo!
Imaginem escutar, legalmente claro está, as conversas da mafia futebolista e/ou governamental. Imaginem estar na sala dos nossos inimigos. E já agora, dos amigos. Imaginem escutar o telefonema que a nossa amante faz imediatamente para a melhor amiga, logo após nos termos despedido. Imaginem o que os clientes dizem quando fechamos a porta, o que os cozinheiros fazem quando dizemos que a comida não presta, o que a malta dos bares e discotecas riem com as camaras nos WCs. Imaginem.
Ser mosca agora até que não é assim tão mau, pois não?
O problema é elas só viverem 24 horas, pelo que dizem.
Se calhar é sob o peso de tanto segredo…
dlimdlom
Esta é a aventura de um homem que andava stressado com inúmeras visitas à casa e a casas, contas e recontas, promoções e descontos, escadas e elevadores, ruas e ruelas, avenidas e praças, vistas e traseiras, parqueamento ou impossibilidade, polibans e banheiras, obras ou não, telefonemas e mensagens, campaínhas e porteiras, vizinhos e comércio, transportes ou jardins, etc e etc.
Num repente esqueceu-se de todas as passwords dos seus sitios netianos, telemovianos e quejandos. Entrou ainda mais em stress por não conseguir responder a emails ou inventar histórias.
Na verdade… isto é mentira. Mas não conseguia arranjar outra desculpa para não ter escrito na altura devida. Só depois de receber umas missivas ameaçadoras de quem lê é que encontrou cinco minutos.
Dlim dlom! A campainha tocou. São os das seis e meia. Ou meia meia, como se diz do outro lado do Atlântico. E às sete há outros…
06.20.08
frangos
Esta é a aventura de um homem que antes de sê-lo já era o carrasco de uma nação.
E avisos não faltaram. Só o mister novo-milionário foi teimoso. Mais uma vez!
06.19.08
anti-virus
Esta é a aventura de um homem viciado em cinema e música, produtos taxados com imposto de luxo e iva no seu máximo. A vida não estava para grandes gastos, mas ele gostava de viver as aventuras dos protagonistas dos filmes e seriados, assim como ouvi-las nas letras e melodias dos variadíssimos artistas que gostava e ia conhecendo. Logicamente, este homem usava a internet para sacar o máximo de “informação”. Quando lhe perguntavam se se sentia bem ao roubar os direitos dos autores, ele respondia sempre da mesma forma: tinha também sido um autor e nunca recebeu os totais direitos a que tinha, enfim, direito.
Até que um dia o drama aconteceu. Os filmes que queria ver traziam virus. As músicas, outra bicharada. O seu computador foi-se abaixo mais que uma vez. Mas ele continuava, mesmo sabendo o grande risco de ser infectado. Ora isso aconteceu por várias vezes até o fartar.
Decidiu ser um vingador! Vestiu uma armadura, armou-se de um cabo de alimentação e fez um upload a si próprio. Demorou tempo a conseguir meter todo o seu corpo na internet, mas uma vez lá chegado, começou a inquirir quem encontrava onde podia conhecer o tal de Virus. A primeira pergunta foi a uma miúda bem gira chamada Wikipedia. Respondeu-lhe que era por ali, depois virava à esquerda e seguia sempre em frente. Logicamente e conhecendo a reputação da Wikipedia faltar à verdade, decidiu-se pela direita. Deu de caras com o Sr. Google, um cota simpático sempre sentado no meio da sua biblioteca virtual e com as mãos agarradas a agendas de contactos e coisas do género. O Sr. Google disse-lhe que não seria muito fácil explicar o caminho por palavras até ao maldoso Virus e aconselhou-o a pedir ajuda ao seu enteado, o puto-maravilha Youtube.
O homem foi até lá, apanhando o comboio rápido na linha Adsl 24 megas, pois a T1 estava fechada para obras de melhoramento. Chegado à porta do Youtube, ainda ficou interessado em olhar para o que uma gentil senhora vendia. Esta tinha vindo da Amazón(ia) e era já uma sua conhecida de tempos idos, quando só havia dvds nos EUA. Ela reconheceu-o e sorriu-lhe um desconto de 20%. Mas o homem estava decidido a encontrar o tal de Virus. Bateu finalmente à porta do Youtube que a abriu numa grande algazarra, cheio de filmes pequeninos que berravam por todo o lado. Ouviu a sua pergunta com atenção e escolheu um filmeco obscuro e quase desconhecido para a maioria dos internautas. Deu-lhe um conselho muito útil que era adquirir um anti-virus original, sem ser sacado das entranhas do seu mundo. Com sorte, conseguiria encontrar o Virus e teria assim uma arma que o ajudaria a vencê-lo.
Depois de ver o caminho, o homem finalmente encontrou a casa do Virus. Era uma porta blindada, com imensas fechaduras e trancas. Vestiu o fato novo que era uma máscara integral de um Panda e tocou à campainha.
A porta abriu-se e num repente o homem foi atingido por inúmeros projécteis, quais balas perfurantes e dolorosas. Era o primeiro ataque do Virus que tentava encontrar um espaço aberto na sua carapaça de panda. O homem aguentou-se firme e ia avançando lentamente e com muito esforço até ao trono do Virus. Depois de uma luta desigual, conseguiu fitá-lo frente a frente, agarrando-o com força pelo pescoço. Só que o Virus mantinha-se forte e manhoso. Era um Virus muito importante que tinha conseguido infectar muitos milhões de computadores.
Lutaram durante todo um dia até que o homem, exausto, começou a perder faculdades e defesas. O Virus estava radiante. Tinha conseguido quebrar o fato Panda e a luta aproximava-se do fim.
Restava uma última hipótese ao homem: carregar no botão de auto-destruição. Perderia toda a sua memória, todos os dados, acontecimentos que tinha registado, todas as músicas, filmes e documentos que eram importantes na sua vida. Mas a explosão seria tão forte que também irradicaria o Virus do mundo.
O botão estava logo ali e com muita dificuldade, aproximou o dedo e tocou-o. Teria ainda força para pressioná-lo?
06.18.08
olhar
Esta é a aventura de um homem que é particularmente atento. Observa tudo e todos, apreende factos, acontecimentos, notícias, possibilidades, futuros. Conhece as pessoas, lê-lhes a mente, sabe o que vão fazer a seguir. Chega ao cúmulo de perceber que nas próximas grandes chuvadas, este, aquele e aqueloutro prédio vão sofrer infiltrações por causa dos dejectos e penas dos pombos. Sabe que a gasolina vai mesmo faltar a sério e que os cereais serão o novo crude. Sabe que os taxistas portugueses podem agora optar por comprar um Prius, carro híbrido carote mas ideal para os centros urbanos. Mas sabe também que todos os que compraram uma viatura de serviço têm que esperar cinco anos para fazer menos mal ao ambiente. Sabe truques para pagar metade dos bilhetes, onde ou para onde eles sejam, como fazer comida japonesa ou requintadas entradas para os convivas. Sabe também que os portugueses não serão campeões, a não ser no endividamento público. Sabe que o desgoverno continuará a açoitar a populaça e sabe que o futuro não é aqui.
Este homem sabe muito. Tanto que poderia ser uma extraordinária ajuda para os governantes, qual borda d´água. Só que, como tantos outros, a sua perspicácia, inteligência e noção não valem de nada num país que elege barracal como seus representantes máximos. E um país destes merece o que tem.
E ele merece ter que encontrar um emprego precário, viver com o ordenado mínimo e saber que nunca conseguirá almejar nada mais acima. É o preço por ter saído da fasquia, por ter levantado a cabeça, por não ser medíocre, comparsa ou compadre. Nem que fosse por cinco minutos. Custaram-lhe bem caro esses minutos…
06.17.08
mic
Há objectos que, se pudessem, muitas aventuras tinham para relatar. Aventuras, acontecimentos, conhecimentos, segredos, etc. Imagine-se um microfone de palco. Ou de estúdio. Quantas bocas os beijaram, sussuraram, cuspiram e cantaram para eles? Um microfone, de palco, já deu volta ao mundo. Já aumentou as vozes de muita gente catita. Já emocionou e já fez a malta vibrar e gritar nos refrões. Já o de estúdio, aguarda no seu trono quem vem. Agracia-os com uma qualidade exemplar confinado nas suas quatro paredes cheias de truques e materiais caros.
Um microfone dá também voz a quem nunca a teve, como os populares que comentam qualquer coisa para as tvs, ou aspirantes a políticos, também grevistas, polícias e demais.
Infelizmente dá voz a quem pensa que a tem, como magistrados, políticos, governos e desgovernos e, pior, futebolistas e misters.
O que seria do mundo sem microfones? Não haveria mesas de mistura e colunas mais outros aparelhos menos convencionais. As más vozes seriam sempre más vozes. As boas, que cantam sem a sua ajuda, continuariam a cantar ou falar ou dizer.
Mas ainda bem que os há. Imaginem o que eles teriam para nos contar.
06.16.08
maquinetas
As memórias permitem-nos viajar no tempo e no espaço. A história deste homem é feita delas, algumas palpáveis, outras sensoriais, ainda outras mais fugazes, quase esquecidas.
Foi para elas que o homem inventou uma máquina do tempo. Não com fins históricos ou científicos, mas apenas com o propósito de reviver essas experiências para poder reguardá-las num canto obscuro da sua própria memória.
A primeira viagem correu bem. Ele apenas se lembrava de tardes soalheiras num sol ameno de Verão com o mar calmo e quente. Teve que andar 20 anos para trás para conseguir reviver essas sensações. Com mais 10 conseguiu saborear novamente iogurtes, gelados e refrigerantes da sua meninice. E a fruta? Tinha sabor e sumo, não apenas água e verniz.
Durante uns tempos compilou o que se ia lembrando, revisitando tudo e mais alguma coisa, até que chegou a hora de poder fazer isso com entes já idos e amigos desaparecidos antes do tempo. Aí teve dúvidas. Era uma possibilidade, um sonho ansiado, mas agora com a viagem ao alcance de um toque num botão, tinha dúvidas se seria a melhor coisa para si. Foram momentos demasiado cruéis para sofrê-los novamente. Decidiu não carregar no botão e continuar o que restava da sua vida.
Guardou, isso sim, todas as suas memórias para quando chegasse o seu dia, as tivesse bem frescas para mostrá-las a quem iria revisitar.
Agora só faltava inventar outra máquina que tornasse isso possível. E meteu mãos à obra.
06.14.08
energia
X tem graves dificuldades em escolher café ou chá para um acordar mais rápido para todo um novo dia. O café está-lhe nas entranhas, mas também cria manchas nos dentes. O chá, falando dos bons, é tão saboroso que um litro sabe a pouco. Mas depois o coração fica nervoso com tanta teína.
É sempre um drama que, às vezes, dura mais que cinco minutos. Hoje, enquanto fazia café, fez também chá. Olhou para o pote com liquido castanho escuro e para o pote com liquido amarelado. As cores até que se conjugam, pensou, e pumba, juntou os dois potes num só. O resultado foi estranho. Bebeu uma xícara e percebeu que tinha ingerido uma bomba! Em 20 minutos foi passear o cão a correr, literalmente, fez compras no super, convocou os genes maternos para o almoço, tratou de umas papeladas e, mais importante, pensou. A mistura foi tão revigorante que podia muito bem ser a bebida energética que o mundo (ainda não sabe que) quer.
Juntou uns amigos, deu-lhes a provar e gostou do ar de satisfação. Escolheu um nome, lógico e começou a pensar no logotipo. O “Chafé” tinha passado também para o papel. Com toda uma proposta de lançamento, marketing, distribuição e venda debaixo do braço e no portátil, foi ter com o Nabeiro. Apertaram as mãos em concordância. Também lhe ia dando um treco quando provou a novidade e ficou revitalizado para toda uma nova vida.
Tudo corria bem, muito bem. E alguns analístas já proclamavam o fim da dependência do país em relação à UE e USA e demais. Não temos petroil, mas bolas, temos Chafé!
De repente o governo entra em acção através do Ministério das “financas”. Começaram os entraves, as papeladas, os impostos, as negas, os dramas e as tragédias.
Xá tinha agora duas hipóteses: ou agarrava em tudo e ia para o estrangeiro ou convidava os responsáveis para uma longa maratona de palheta. Decidiu-se por esta e preparou um Chafé especial para os burocratas. As doses foram mais apuradas e os níveis de cafeína e teína quase nefastos para o corpo humano. Avisou os presentes e ofereceu-lhes o produto.
Como era uma borla, todos beberam. E quanto mais bebiam, mais libertavam o país.
06.13.08
aniversários
Hoje faz anos que um homem franzino de bigode e óculos nasceu. Hoje faz também anos que um homem anafado, bom cantor de fado e que chamava palerma aos demais, pereceu.
São duas aventuras distintas, muito maiores que a vida. A cidade de Lisboa, na ressaca de mais uma noite de folia, esquece assim os seus heróis.
Lá fora, houve outros bucha e estica. Muito mais famosos. Mesmo depois de mortos.
06.12.08
greve
Esta é a aventura de um homem que nunca tinha feito uma greve e que se fartou das greves dos outros. Já não lhe interessava quem tinha razão, pois ele é que saía prejudicado no fim do dia.
Por isso decidiu fazer greve. Não a uma coisa, mas a todas elas.
Primeiro lutou contra os grevistas e associados do transporte de mercadorias. Escolheu a saída de um dos muitos parques onde eles estacionam e atravessou o seu automóvel para não deixar ninguém entrar ou saír. Depois, foi até ao posto de combustível mais próximo, meteu uns litros num jerrycan e, à entrada da bomba, despejou-os numa linha recta, incendiando-os em seguida. Ninguém conseguia entrar e os que lá estavam saíram à pressa. Ouviu as últimas notícias e apressou-se a apanhar um táxi. No fim da viagem, para um supermercado, disse que não pagava a corrida e a confusão instalou-se, com muitos taxistas a virem defender o seu colega contra este acto criminoso. No meio da confusão, esgueirou-se para dentro do supermercado. E aí, para terminar o dia, começou uma greve de fome.
O governo não sabe responder a esta última exigência, mas já lhe disse que não baixava os impostos.
06.10.08
feriado
Esta é a aventura de um homem que estava tão agarrado à rotina do dia a dia que ficava completamente perdido nos fins de semana e, pior, feriados.
Por exemplo, no dia de hoje em que conseguiram fazer um três em um (raça + idioma + ultra e alémmar), ele sofria três vezes mais.
O seu café estava fechado, o seu tasco estava fechado, a papelaria fechada estava, o café da tarde idem e a esplanada ibidem.
Confinou-se à sua casa, fechando-se nos seus 50m2 do último andar de um prédio com 100 anos.
Fechou as luzes, deitou-se na cama e esperou que o dia passasse. Jurou mais uma vez que para o ano não seria assim.
Com esse propósito em mente foi-se transformando num guerrilheiro durante o ano que se seguia. Aprendeu a fazer bombas pela internet, descobriu as moradas dos responsáveis políticos pela internet, alugou um carro pela internet, despediu-se enviando um mail pela internet, sacou o dinhero que tinha no banco pela internet, fez um blog onde convidou toda a gente para a sua causa e criou um virus muito potente que seria lançado do seu computador para o mundo no dia 10 de Junho de 2009.
Esperou todo um ano, preparando-se com afinco, fazendo ginástica e mentalizando-se para morrer pela sua causa.
O problema é que, sem emprego, o dinheiro acabou. E a conta de internet foi-lhe cancelada no dia 09 de Junho de 2009.
06.09.08
divergência
Esta é a aventura de um homem que gostava de ter opiniões divergentes de todo o mundo. Quando alguém dizia sim, ele dizia não. Quando havia optimismo, ele era pessimista. Quando as pessoas estavam alegres, ele ficava triste. Levou toda a vida assim, não era defeito mas feitio. E já não se importava com nada, excepto quando confrontavam a sua verdade ou posição sobre algum facto ou evento.
Uma das histórias mais engraçadas e que as pessoas que assistiram ainda comentam, foi quando ao acompanhar umas cervejas com caracóis, alguém afirmou que estes seres rastejantes estavam bem temperados. O homem não discutiu o tempero, como todos esperavam, mas sim o facto de serem rastejantes. Não eram e até eram capazes de voar. No meio da gargalhada geral, o homem ficou raivoso e para provar a sua verdade, aproveitou a passada apressada de um empregado de mesa que ia colocar mais uma travessa de caracóis numa mesa do fundo, pregando-lhe uma valente rasteira. A travessa voou e os caracóis também. O homem, triunfante, gritou um urra, mas foi sovado imediatamente pelos outros que ficaram sujos e com queimaduras localizadas.
Já no hospital, negou o tratamento às feridas quando o staff as queria desinfectar.
O problema é que, no meio da zaragata, alguém o pontapeou com força na cabeça. Os médicos poderiam ter descoberto e resolvido o problema a tempo, se ele tivesse deixado.
Agora está numa cadeira de rodas que ele afirma ser um Smart dos novos. As pernas não se movem, mas ele garante que é por causa dos aumentos da gasolina e não tem dinheiro para andar mais. Num destes dias teve uma visita. A pessoa disse-lhe um “olá pai” e ele respondeu que nunca tinha tido filhos. Quando a viu a afastar-se ficou feliz. A sua opinião tinha saído vencedora mais uma vez.
divergência
Esta é a aventura de um homem que gostava de ter opiniões divergentes de todo o mundo. Quando alguém dizia sim, ele dizia não. Quando havia optimismo, ele era pessimista. Quando as pessoas estavam alegres, ele ficava triste. Levou toda a vida assim, não era defeito mas feitio. E já não se importava com nada, excepto quando confrontavam a sua verdade ou posição sobre algum facto ou evento.
Uma das histórias mais engraçadas e que as pessoas que assistiram ainda comentam, foi quando ao acompanhar umas cervejas com caracóis, alguém afirmou que estes seres rastejantes estavam bem temperados. O homem não discutiu o tempero, como todos esperavam, mas sim o facto de serem rastejantes. Não eram e até eram capazes de voar. No meio da gargalhada geral, o homem ficou raivoso e para provar a sua verdade, aproveitou a passada apressada de um empregado de mesa que ia colocar mais uma travessa de caracóis numa mesa do fundo, pregando-lhe uma valente rasteira. A travessa voou e os caracóis também. O homem, triunfante, gritou um urra, mas foi sovado imediatamente pelos outros que ficaram sujos e com queimaduras localizadas.
Já no hospital, negou o tratamento às feridas quando o staff as queria desinfectar.
O problema é que, no meio da zaragata, alguém o pontapeou com força na cabeça. Os médicos poderiam ter descoberto e resolvido o problema a tempo, se ele tivesse deixado.
Agora está numa cadeira de rodas que ele afirma ser um Smart dos novos. As pernas não se movem, mas ele garante que é por causa dos aumentos da gasolina e não tem dinheiro para andar mais. Num destes dias teve uma visita. A pessoa disse-lhe um “olá pai” e ele respondeu que nunca tinha tido filhos. Quando a viu a afastar-se ficou feliz. A sua opinião tinha saído vencedora mais uma vez.
06.07.08
€
€
06.06.08
acordes
X anda a bisbliotar algumas zonas de Lx para escolher a sua futura casa. Tem sido uma aventura das antigas… Ou a casa é muito bonita mas fica num terceiro sem elevador ou num bairro que não permite estacionamento automóvel ou precisa de obras ou fica ao pé de um hospital ou é um R/C muito baixo ou e ou e ou.
De qualquer forma, estão umas quantas debaixo de olho. Uma delas fica ao pé de uma super-esquadra o que também não é garante de aumento de segurança. Mas hoje, X reparou numa coisa extraordinária: ao lado dos polícias fica um antigo vidrão, daqueles onde a malta podia depositar tudo e todos. Ora hoje, pela hora de almoço, todos os trabalhadores camarários desse espaço estavam reunidos debaixo das árvores que ficam à porta. Um deles tocava acordeão. Não era um arraial popular, era um homem que tocava acordeão. O que mais fascinou X foi a originalidade de toda a situação. E, de repente, a tal casa que fica aí vizinha passou a ser ainda mais apetecida. A segurança pode ser teórica, mas pelo menos há música.
acordes
X anda a bisbliotar algumas zonas de Lx para escolher a sua futura casa. Tem sido uma aventura das antigas… Ou a casa é muito bonita mas fica num terceiro sem elevador ou num bairro que não permite estacionamento automóvel ou precisa de obras ou fica ao pé de um hospital ou é um R/C muito baixo ou e ou e ou.
De qualquer forma, estão umas quantas debaixo de olho. Uma delas fica ao pé de uma super-esquadra o que também não é garante de aumento de segurança. Mas hoje, X reparou numa coisa extraordinária: ao lado dos polícias fica um antigo vidrão, daqueles onde a malta podia depositar tudo e todos. Ora hoje, pela hora de almoço, todos os trabalhadores camarários desse espaço estavam reunidos debaixo das árvores que ficam à porta. Um deles tocava acordeão. Não era um arraial popular, era um homem que tocava acordeão. O que mais fascinou X foi a originalidade de toda a situação. E, de repente, a tal casa que fica aí vizinha passou a ser ainda mais apetecida. A segurança pode ser teórica, mas pelo menos há música.
06.05.08
casa
Esta é a aventura de um homem que viveu uma aventura quando mudou de casa. Tinha x dinheiro e pediu a uma vendedora que lhe comprasse um Tê qualquer, com vista desafogada e, caso fosse um andar alto, elevador. Não lhe interessava saber mais nada. Queria entrar na nova casa como se fosse um estranho. Queria conhecê-la como virgem, descobrir os seus recantos mais íntimos, os seus esconderijos mais úteis. Ao fim e ao cabo, pensou na nova casa como se fosse uma mulher e este seria o seu primeiro blind date.
A vendedora achou o pedido estranho. Afinal, tratava-se da compra de um bem muito caro, mas assumiu a responsabilidade e fez o seu melhor.
Passados uns meses, foi marcada a escritura e depois desta, passou-lhe as chaves para a mão, com um papelinho onde estava descrita a morada e algumas curiosidades sobre a vizinhança.
O homem estava entusiasmado. Olhou para as chaves e apertou-as com força. Não reconheceu a morada. Nunca tinha ouvido falar da rua e chamou um táxi.
A rua era estreita, numa das colinas de Lisboa, o que não lhe agradou à partida. Mas o prédio nº5 estava em boas condições, recentemente limpo e pintado. As escadas interiores tinham sido recuperadas e o verniz brilhava como se fossem novas. Subiu até ao primero andar e viu que a porta era das antigas, com aquela pequenita janelita com gradeamento que dá para espreitar quem lhe toca. Meteu a chave e abriu-a.
A primeira sensação foi estranha. Não estava à espera de uma sala tão grande, com um pé direito fenomenal e tecto trabalhado. Duas portadas deixavam entrar a luz quente do final de uma tarde de Verão. Aproximou-se delas e olhou longamente para as janelas dos seus vizinhos.
Há uma coisa interessante sobre os vizinhos. A maior parte dos inquilinos pensa que os seus vizinhos são quem mora no mesmo prédio, porta com porta, degrau a degrau, mas essa é a maior mentira das cidades. Os vizinhos reais são aqueles que habitam o prédio em frente do nosso, cuja janela lhes abre a vida para a vermos e vivermos. Ou então, os que habitam os prédios das traseiras, cujas varandas ou marquises mostram a roupa que foi lavada ou o que se come na cozinha. O homem estudou ambos os lados. A vista desafogada que pediu ficava atrás, onde se via o majestoso panteão e parte do rio. Não estava muito mal.
Passou umas horas a vaguear pelos quartos e cozinha. A casa de banho tinha hidromassagem e a arrecadação dava para guardar muitas mercearias.
O homem ficou contente e telefonou à vendedora para lhe agradecer. Combinou que, passadas umas semanas, teria todo o gosto em lhe oferecer um jantar na sua nova habitação.
Ela respondeu afirmativamente e quando o dia chegou, apareceu bonita e com um sorriso rasgado. Afinal, tinha escolhido a casa para ela e agora só ansiava que o homem abrisse, não somente a porta, mas também o coração.
casa
Esta é a aventura de um homem que viveu uma aventura quando mudou de casa. Tinha x dinheiro e pediu a uma vendedora que lhe comprasse um Tê qualquer, com vista desafogada e, caso fosse um andar alto, elevador. Não lhe interessava saber mais nada. Queria entrar na nova casa como se fosse um estranho. Queria conhecê-la como virgem, descobrir os seus recantos mais íntimos, os seus esconderijos mais úteis. Ao fim e ao cabo, pensou na nova casa como se fosse uma mulher e este seria o seu primeiro blind date.
A vendedora achou o pedido estranho. Afinal, tratava-se da compra de um bem muito caro, mas assumiu a responsabilidade e fez o seu melhor.
Passados uns meses, foi marcada a escritura e depois desta, passou-lhe as chaves para a mão, com um papelinho onde estava descrita a morada e algumas curiosidades sobre a vizinhança.
O homem estava entusiasmado. Olhou para as chaves e apertou-as com força. Não reconheceu a morada. Nunca tinha ouvido falar da rua e chamou um táxi.
A rua era estreita, numa das colinas de Lisboa, o que não lhe agradou à partida. Mas o prédio nº5 estava em boas condições, recentemente limpo e pintado. As escadas interiores tinham sido recuperadas e o verniz brilhava como se fossem novas. Subiu até ao primero andar e viu que a porta era das antigas, com aquela pequenita janelita com gradeamento que dá para espreitar quem lhe toca. Meteu a chave e abriu-a.
A primeira sensação foi estranha. Não estava à espera de uma sala tão grande, com um pé direito fenomenal e tecto trabalhado. Duas portadas deixavam entrar a luz quente do final de uma tarde de Verão. Aproximou-se delas e olhou longamente para as janelas dos seus vizinhos.
Há uma coisa interessante sobre os vizinhos. A maior parte dos inquilinos pensa que os seus vizinhos são quem mora no mesmo prédio, porta com porta, degrau a degrau, mas essa é a maior mentira das cidades. Os vizinhos reais são aqueles que habitam o prédio em frente do nosso, cuja janela lhes abre a vida para a vermos e vivermos. Ou então, os que habitam os prédios das traseiras, cujas varandas ou marquises mostram a roupa que foi lavada ou o que se come na cozinha. O homem estudou ambos os lados. A vista desafogada que pediu ficava atrás, onde se via o majestoso panteão e parte do rio. Não estava muito mal.
Passou umas horas a vaguear pelos quartos e cozinha. A casa de banho tinha hidromassagem e a arrecadação dava para guardar muitas mercearias.
O homem ficou contente e telefonou à vendedora para lhe agradecer. Combinou que, passadas umas semanas, teria todo o gosto em lhe oferecer um jantar na sua nova habitação.
Ela respondeu afirmativamente e quando o dia chegou, apareceu bonita e com um sorriso rasgado. Afinal, tinha escolhido a casa para ela e agora só ansiava que o homem abrisse, não somente a porta, mas também o coração.
06.04.08
pianola
Esta é a aventura de um homem que recebeu um cd que dizia na capa Eric Satie. Este homem, dedicado a eventos culturais, nunca tinha entendido a grandiosidade explícita numa melodia de poucas notas, de tempos e espaços, de sonhos pacíficos que tocavam a paz.
Este homem, que já fazia tudo, percebeu que nada tinha feito. Ficou angustiado e revoltado com esta noção. Às pessoas que apresentava o cd, poucas percebiam o seu temor, o desespero por encontrar algo tão simples quanto mágico. Para o homem, a vida era mais complicada, mais estreita, rápida, dolorosa, torta. Um simples cd com um obra de piano não podia complicar-lhe a vida. Muito menos com tanta simplicidade.
O homem, desesperado, recorreu a X, amigo de infância, questionando-o se conhecia tal obra.
X respondeu afirmativamente e, pior, que era das coisas que mais ouvia enquanto escrevia umas larachas na internet. O homem não entendeu. Vociferou, protestou, gritou aos céus e aos deuses, até que perdeu as forças de tanto esforço.
Deu entrada no hospital mais próximo, ciente que o seu coração precisava de ajuda.
E não se enganou. Pouco tempo lhe restava a não ser que fosse sujeito a uma intervenção, não divina, mas crucial. Assinou os papéis e contou 10, nove e oito.
Os médicos que lhe iriam dar um novo coração colocaram um cd de Eric Satie na aparelhagem.
06.03.08
velho
Esta é a história dramática de um homem casado. Já tinham passado 25 anos desse dia inesquecível em que alguns amigos e amigas foram vistos pela última vez.
O homem viveu mais ou menos infeliz durante este quarto de século e ainda guardava alguns presentes que lhe tinham sido oferecidos pela boda. Um deles era uma garrafa de whisky velho que ele prometeu abrir para brindar ao seu primeiro filho… que nunca chegou a nascer. A garrafa permanecia no bar da sala, daqueles de canto tipo saloon com espelhos e luzes embutidas. A garrafa estava ao centro, bem à vista e era sempre para ela que o homem olhava quando chegava cansado e descontente do mau emprego que tinha exactamente há 25 anos.
Num desses dias mais tristonhos, ficou a admirar a garrafa. A sua mulher, já desgastada pelo tempo e pela vida, passou por ele e mais uma vez exclamou qualquer coisa entre dentes tipo “ou a bebes ou a deitas fora”.
Só que nesse dia o homem não estava pelos ajustes. Olhava para o whisky cada vez mais velho e, portanto, melhor e depois comparava-o com o corpo da sua mulher cada vez mais velho e, portanto, pior.
Decidiu-se aos 25 minutos depois das oito da noite. Foi à cozinha, agarrou na faca do peixe, encontrou a sua mulher na casa de banho e matou-a. Depois, aliviado, foi até ao bar e abriu finalmente a garrafa. Bebeu o primeiro copo que lhe soube como a vida. Bebeu o segundo. Um terceiro. E quando chegou ao fim da garrafa telefonou à policia.
06.02.08
desventurado
Esta é a aventura de um homem que não tinha tido uma única aventura na vida. Faltava-lhe isso para se sentir em paz consigo próprio e, acima de tudo, mais realizado.
Tudo na sua vida era estudado, cerebral, coerente, sem espaço para uma pequenita loucura. Não viajava porque tinha receio de perder as malas e enfrentar o desconhecido. Não se aventurava emocionalmente porque tinha medo do términus dessa relação. Não comprava nada em segunda mão, porque tinha medo que os artigos estivessem com defeito.
Enfim, não se dava ao trabalho de ter trabalho e isso porque tinha medo de ficar sem trabalho.
Levou toda uma vida assim. Nunca leu as Aventuras dos 5, dos 7 ou das Gémeas.
Fugia a sete pés de ter que escolher. Ou enfrentar. Até que se dedicou a um sonho: o de escrever tudo o que não vivia, de descrever tudo o que queria ver, de mostrar tudo o que queria sentir.
Tornou-se, num ápice, um sucesso de vendas.
Afinal, havia muita gente igual a ele que só esperava que alguém se aventurasse a mostrar a própria desventura.
05.31.08
riscos
X hoje chegou ao carro já muito riscado pela mesma pessoa e deparou-se com dois novos brindes: uma suástica em cada porta do lado direito. Bom, para dizer a verdade, não é uma suástica nazi, pois está ao contrário, o que quer dizer que quem as desenhou ou é mesmo muito burra ou sabe muito de ícones históricos. Chegado a casa depois de observar atentamente a “calígrafia”, decidiu montar uma camara minúscula no interior do carro com a ajuda preciosa de L, um seu amigo da PJ. A queixa também foi formulada e há agora um veículo e uma identidade a serem seguidos com grande atenção. Mas o mais interessante e relevante deste acontecimento é a escolha de um ícone, partindo do princípio que seria o fascista, para desenhar no veículo automóvel de X. Afinal, X é racista? Tem um forno em casa? Rouba dentes de ouro? Não se compreende.
A não ser que… seja um aviso!
Talvez seja isso… um aviso. Será que este carro tem malapata? Será que no futuro entrará em derrapagem num aquaplanning? Será que o motor deixará de funcionar aos 50.000? Será que não é o carro ideal para X?
Ora depois de muito pensar, chega-se a uma conclusão fácil: quem o risca é vidente e protectora. Tem é vergonha de dar o aviso olhos nos olhos.
Enfim, ele há gentalha que deveria estar internada, em vez de internar outros.
Caro L, a batata agora é toda tua.
05.30.08
dor
Esta é a aventura de um homem que sofria de enxaquecas. As dores eram tantas que lhe provocavam desde náuseas à vontade de terminar com tudo. Não conseguia trabalhar, pois elas atacavam-no sem aviso, dó ou piedade. Não conseguia manter um relacionamento estável, porque as mulheres não acreditavam quando ele se desculpava com uma dor de cabeça. Não conseguia ver um filme inteiro, ouvir um disco do princípio ao fim. Resumindo, as dores eram tão fortes que ele até via estrelas.
Foi ao ler uma reportagem sobre as viagens ao espaço abertas a clientes muito endinheirados que decidiu, já que “via estrelas”, vê-las realmente.
Vendeu todos os seus pertences, que eram alguns, pediu dinheiro emprestado ao banco, reuniu uma quantia elevada de dinheiro. E comprou aos russos a sua viagem ao espaço.
Sentia-se muito nervoso antes da partida, sentado quase de pernas para o ar e dentro de um fato que não o deixava movimentar-se. Mas, depois de todo o barulho e forças Gs do arranque do foguetão, a enxaqueca que o dominava começou a atenuar-se. Depois passou a uma ligeira dor de cabeça. E quando entrou em órbita deixou de sentir qualquer dor.
Ficou radiante!
Momentos antes do regresso, pediu aos seus colegas de vôo que o deixassem ir lá fora, para sentir de perto as estrelas. E a vida.
Assim o fizeram mal sabendo que a ideia era outra. O homem fechou a porta atrás de si e rebentou com o mecanismo. Era impossível conseguir metê-lo novamente dentro da nave.
O homem sabia disso e, à janela, sorriu e despediu-se com um adeus.
Transbordava felicidade e olhou para o seu planeta, cada vez mais distante.
A dor, essa, nunca mais surgiu.
dor
Esta é a aventura de um homem que sofria de enxaquecas. As dores eram tantas que lhe provocavam desde náuseas à vontade de terminar com tudo. Não conseguia trabalhar, pois elas atacavam-no sem aviso, dó ou piedade. Não conseguia manter um relacionamento estável, porque as mulheres não acreditavam quando ele se desculpava com uma dor de cabeça. Não conseguia ver um filme inteiro, ouvir um disco do princípio ao fim. Resumindo, as dores eram tão fortes que ele até via estrelas.
Foi ao ler uma reportagem sobre as viagens ao espaço abertas a clientes muito endinheirados que decidiu, já que “via estrelas”, vê-las realmente.
Vendeu todos os seus pertences, que eram alguns, pediu dinheiro emprestado ao banco, reuniu uma quantia elevada de dinheiro. E comprou aos russos a sua viagem ao espaço.
Sentia-se muito nervoso antes da partida, sentado quase de pernas para o ar e dentro de um fato que não o deixava movimentar-se. Mas, depois de todo o barulho e forças Gs do arranque do foguetão, a enxaqueca que o dominava começou a atenuar-se. Depois passou a uma ligeira dor de cabeça. E quando entrou em órbita deixou de sentir qualquer dor.
Ficou radiante!
Momentos antes do regresso, pediu aos seus colegas de vôo que o deixassem ir lá fora, para sentir de perto as estrelas. E a vida.
Assim o fizeram mal sabendo que a ideia era outra. O homem fechou a porta atrás de si e rebentou com o mecanismo. Era impossível conseguir metê-lo novamente dentro da nave.
O homem sabia disso e, à janela, sorriu e despediu-se com um adeus.
Transbordava felicidade e olhou para o seu planeta, cada vez mais distante.
A dor, essa, nunca mais surgiu.
05.29.08
passarinhos
X não gosta muito de passarinhos. Só se forem fritos ou estiverem bem longe ou alto. Os únicos bichos voadores que aprecia são os caça-bombardeiros da série F e, depois, as águias, os falcões e os mochos, por esta ordem. Ok, X confessa que acha piada a um beija-flor e até aos picapaus, mas não há assim mais nada que o entusiasme.
A não ser quando ouve um passarinho dentro de um corpo de uma mulher que canta tão bem que encanta tal e qual como um bonito chilrrear madrugador.
E mais, imaginem a sorte que X teve quando mesmo ao seu lado estava outro passarinho que também cantava. Olhando em frente e semicerrando os olhos, as duas vozes entravam em sintonia perfeita e entoavam notas preciosas, puras, gentis e melódicas.
Foi daqueles momentos numa vida.
Obrigado M, obrigado R.
05.28.08
êxodos
Esta é a aventura de um homem citadino, ultra-urbano e que sempre viveu no meio da confusão, ruído, vivência social, oferta em escala e tudo o mais.
Um dia, acordou como em todos os outros dias e sentiu uma enorme vontade de mudança. Vendeu a casa, agarrou nas malas e viajou pelo interior. Chegou a uma terra bonita, pequena e arrumada, limpa e arejada e gostou de ser cumprimentado por todos os locais.
Primeiro deu uma volta. Depois, a pé, caminhou por entre as ruas até que descobriu o seu novo lar. Não houve intermediários e o dono até lhe facilitava a vida com um “quando quiser paga!”.
Entusiasmado, trouxe os móveis, os tarecos e as suas tecnologias para esta enorme casa, um t3 com jardim, cuja sala tinha 80m2, lareira e um curioso desnível, com dois degraus, para a perfeita colocação de sofás para longas tertúlias e bons filmes.
Os primeiros tempos foram ricos em aventuras, primeiro em longos passeios, depois no convívio com as gentes da terra, o encontro de fornecedores de legumes, pão fresco, leite e tudo o que fosse necessário, duas ou três raparigas interessantes, esse tipo de coisas. A internet facilitava-lhe o trabalho e evitava deslocações à capital. Poupava dinheiro, tudo era mais barato e de melhor qualidade. Claro que não existiam as lojas e os produtos que ele tanto gostava, mas também pouco se ralava com isso.
O tempo foi passando e a sua diferença para os demais começava a fazer-se notar. Já não era a novidade e já nada era novidade para ele. O silêncio começava a adormecê-lo. A pacatez da vila também. Os bares eram estranhos e a música que passava nas discotecas ia do mau tecno à maior saloidada e pimbalhada.
A solidão, por fim, surgiu. Os amigos já não apareciam aos fins de semana como antigamente, pois tinham a sua vida. A falta de tertúlias, gargalhadas e jantaradas com pessoas da mesma vivência e memórias causava mossa.
E foi antes do desespero que o homem decidiu jogar a vida na sorte. Comprou uma taluda e, por incrível que pareça, deu-se bem, ganhando um milhão de euros.
Com essa quantia, comprou 25 casas ao pé da sua. Equipou-as com as últimas tecnologias, decorou-as com extremo bom gosto e, depois de tudo, foi à sua cidade falar com os amigos e amigas que já não via há uns tempos.
A proposta era irrecusável e muitos mudaram-se para a vila. Como eram boas pessoas, foram bem acolhidos pela população local e todo um novo reboliço transformou a outrora pacata vila num centro de lazer, artes, cultura, tertúlias, comércio e indústria. A vida mudou e os ex-urbanos estavam felizes. O homem nunca mais esteve sózinho e o seu caso foi estudado por jornalistas, a sua vida documentada no canal Bio e em livros sobre personalidades de sucesso.
O problema foi quando o homem percebeu que as gentes da vila, fartas de tanta coisa nova, começaram a ir embora, abandonando a sua terra e os seus afazeres.
Muitos deles foram mesmo para as cidades, também desertas devido ao enorme êxodo dos seus habitantes para vilas no interior, em busca do segredo para a felicidade que o homem tinha encontrado anos antes.
Só que ninguém estava verdadeiramente feliz e o governo viu-se obrigado a combinar um grande debate entre as duas partes. O objectivo era trazer de volta as gentes para as suas terras e culturas. Todos apareceram.
05.27.08
xeque-mate
Esta é a aventura de um homem que se tornou numa peça de xadrez. Como, não interessa. Só se sabe que, num dia, acordou num corpo de madeira de um peão. Ficou, logicamente, atarantado, mas quando olhou para trás, viu uma rainha de porte altivo, bonita e muito elegante. Apaixonou-se de imediato, o que era facilitado pelo facto de só haver uma mulher para tanto homem. E isso sem contar com a outra rainha, inimiga, má e que só queria conquistar o reino que neste momento era o dele.
De jogo em jogo, ou batalha em batalha, o homem era sempre dos primeiros a ser sacrificado e começou a desejar um lugar mais alto na hierarquia, que lhe desse direito a um cavalo e a dormir numa das torres. Nesses momentos, via um dos bispos a passar-lhe à frente sempre com grande velocidade. Um outro peão tinha-lhe dito que era através do clero que ele conseguiria um favor e a partir daí desesperou por um encontro.
Foi-lhe difícil apanhar o bispo, mas quando o conseguiu falou-lhe da sua anterior condição como homem. O bispo percebeu que poderia ter nele um aliado contra a nobreza e passou-lhe o título de cavalo.
O homem agora tinha mais poder e acesso às torres. Algum tempo depois, já o rei e a rainha contavam com a sua valentia para guarda pessoal. E foi aí que ele conseguiu, finalmente, conhecer a gentil criatura. Percebeu logo depois que havia um enorme obstáculo, chamado… rei.
Decidiu conversar com o bispo. Este confidenciou-lhe que o rei era um fulano lento, que só andava de casa em casa. Mas era matreiro e difícil de apanhar. Para tirá-lo do tabuleiro, precisaria da ajuda do adversário, principalmente da rainha má.
O homem estudou todas as possibilidades. Era-lhe difícil atraiçoar os seus, mas a paixão falava mais alto. Até que aconteceu outro jogo, outra batalha. O adversário estava muito forte, desta vez. Dizia-se que havia uma força russa por trás, mais sapiente e mais aguerrida. Um a um, todos os soldados de ambos os lados eram removidos do tabuleiro. Até que restou ele, o seu rei e rainha e a rainha má com as suas duas torres.
Durou muito tempo o xeque ao seu rei. As duas torres más deram a vida por isso e a rainha má estava em condições de terminar a batalha. Foi aí que o homem percebeu que essa rainha era tão ou mais bonita que a sua. E a dúvida instalou-se: quem ajudar? A sua que ficaria com o seu rei, ou a má que ficaria com ele?
Ainda hoje o tabuleiro está na mesma.
xeque-mate
Esta é a aventura de um homem que se tornou numa peça de xadrez. Como, não interessa. Só se sabe que, num dia, acordou num corpo de madeira de um peão. Ficou, logicamente, atarantado, mas quando olhou para trás, viu uma rainha de porte altivo, bonita e muito elegante. Apaixonou-se de imediato, o que era facilitado pelo facto de só haver uma mulher para tanto homem. E isso sem contar com a outra rainha, inimiga, má e que só queria conquistar o reino que neste momento era o dele.
De jogo em jogo, ou batalha em batalha, o homem era sempre dos primeiros a ser sacrificado e começou a desejar um lugar mais alto na hierarquia, que lhe desse direito a um cavalo e a dormir numa das torres. Nesses momentos, via um dos bispos a passar-lhe à frente sempre com grande velocidade. Um outro peão tinha-lhe dito que era através do clero que ele conseguiria um favor e a partir daí desesperou por um encontro.
Foi-lhe difícil apanhar o bispo, mas quando o conseguiu falou-lhe da sua anterior condição como homem. O bispo percebeu que poderia ter nele um aliado contra a nobreza e passou-lhe o título de cavalo.
O homem agora tinha mais poder e acesso às torres. Algum tempo depois, já o rei e a rainha contavam com a sua valentia para guarda pessoal. E foi aí que ele conseguiu, finalmente, conhecer a gentil criatura. Percebeu logo depois que havia um enorme obstáculo, chamado… rei.
Decidiu conversar com o bispo. Este confidenciou-lhe que o rei era um fulano lento, que só andava de casa em casa. Mas era matreiro e difícil de apanhar. Para tirá-lo do tabuleiro, precisaria da ajuda do adversário, principalmente da rainha má.
O homem estudou todas as possibilidades. Era-lhe difícil atraiçoar os seus, mas a paixão falava mais alto. Até que aconteceu outro jogo, outra batalha. O adversário estava muito forte, desta vez. Dizia-se que havia uma força russa por trás, mais sapiente e mais aguerrida. Um a um, todos os soldados de ambos os lados eram removidos do tabuleiro. Até que restou ele, o seu rei e rainha e a rainha má com as suas duas torres.
Durou muito tempo o xeque ao seu rei. As duas torres más deram a vida por isso e a rainha má estava em condições de terminar a batalha. Foi aí que o homem percebeu que essa rainha era tão ou mais bonita que a sua. E a dúvida instalou-se: quem ajudar? A sua que ficaria com o seu rei, ou a má que ficaria com ele?
Ainda hoje o tabuleiro está na mesma.
05.25.08
gerações
Esta é a aventura de um homem muito rico, hiper-milionário que, como tantos outros, padeceu de uma doença prolongada e grave que o transformou por completo e acabou mesmo por matá-lo.
Este homem, consciente e com a noção do que iria acontecer, tinha feito um pedido: congelar o seu corpo para quando, num futuro próximo, houvesse cura para a sua doença.
Tal veio a acontecer dois séculos depois. Tinham acontecido duas guerras mundiais, a primeira delas global e com os computadores a funcionar, a segunda local e com armas rudimentares.
Mas o seu corpo tinha sido guardado num bunker ultra-secreto, onde aguardavam outros 5877438 corpos (todos eles ex ultra-milionários), até que a própria natureza se encarregou de mostrar qual era a cura: apenas sol, bom ambiente e pouca humidade.
Os descendentes dos cientistas sobreviventes aos holocaustos tinham por missão salvaguardar estes corpos e fazer os impossíveis para os recuperar para a vida. Esta situação, naturalmente, era facilitada por estarem presos e confinados neste espaço a 700 metros do solo.
Quando o homem recuperou a vida, e com ela a memória e a dignidade, quis subir lá acima, quis ver o mundo actual, mesmo depois de ter sido informado que tal poderia não existir.
O problema era que, como os cientistas, também ele estava preso na sua dourada prisão. E nenhum dinheiro, acções, ouro, diamantes, zinco, oxigénio, água potável e pilhas recarregáveis lhe valeram.
A sua fortuna era inconsequente e inútil. Perguntou depois aos cientistas porque carga de água é que tinha sido curado e acordado para esta miséria. E todos o olharam com pena.
gerações
Esta é a aventura de um homem muito rico, hiper-milionário que, como tantos outros, padeceu de uma doença prolongada e grave que o transformou por completo e acabou mesmo por matá-lo.
Este homem, consciente e com a noção do que iria acontecer, tinha feito um pedido: congelar o seu corpo para quando, num futuro próximo, houvesse cura para a sua doença.
Tal veio a acontecer dois séculos depois. Tinham acontecido duas guerras mundiais, a primeira delas global e com os computadores a funcionar, a segunda local e com armas rudimentares.
Mas o seu corpo tinha sido guardado num bunker ultra-secreto, onde aguardavam outros 5877438 corpos (todos eles ex ultra-milionários), até que a própria natureza se encarregou de mostrar qual era a cura: apenas sol, bom ambiente e pouca humidade.
Os descendentes dos cientistas sobreviventes aos holocaustos tinham por missão salvaguardar estes corpos e fazer os impossíveis para os recuperar para a vida. Esta situação, naturalmente, era facilitada por estarem presos e confinados neste espaço a 700 metros do solo.
Quando o homem recuperou a vida, e com ela a memória e a dignidade, quis subir lá acima, quis ver o mundo actual, mesmo depois de ter sido informado que tal poderia não existir.
O problema era que, como os cientistas, também ele estava preso na sua dourada prisão. E nenhum dinheiro, acções, ouro, diamantes, zinco, oxigénio, água potável e pilhas recarregáveis lhe valeram.
A sua fortuna era inconsequente e inútil. Perguntou depois aos cientistas porque carga de água é que tinha sido curado e acordado para esta miséria. E todos o olharam com pena.
05.23.08
Fidelidade
Esta é a aventura de um homem solitário que encontrou no seu cão o fiel e mais corajoso amigo do mundo. Chegou a divorciar-se da mulher ao fim de uns anos de razoável união, devido a ela não gostar do seu Kaiser. Este pastor alemão de porte altivo e inteligência acima da média de alguma população, acompanhava-o para todo o lado. Ficava à porta do emprego até que ele saísse, ia à banca de revistas buscar o jornal matinal, garantia-lhe protecção na rua e em casa e, acima de tudo, estava sempre contente por ter o dono ali a seu lado.
O Kaiser fez mesmo um esforço sobre-canino para que a ex-dona gostasse dele, dando-se bem com o velho gato que ela trouxe para casa e com o piriquito que nunca se calava. Mas tal não foi suficiente e o canino arranjou uma depressão, à imagem do seu dono.
Ficaram mais ou menos felizes quando ela se foi embora, mais ou menos contentes com a companhia um do outro, mais ou menos satisfeitos por viverem novamente com calma e silêncio.
Mas algo faltava nesta vida. E esse algo era, novamente, a companhia feminina.
Juraram um ao outro encontrar a resposta ao mesmo tempo, indo passear para a expo ou visitar feiras caninas e outros acontecimentos do género. Inscreveram-se em clubes, iam a passeios organizados, participaram em festas. Mas nada surgia ou acontecia.
O tempo ia passando, eles iam ficando menos jovens. O Kaiser começava a denotar alguns problemas de saúde, até que adoeceu.
O seu dono nunca mais foi o mesmo, tentou por tudo curá-lo gastando o dinheiro que não tinha.
Já quase no fim da linha, o Kaiser mostrou que queria ir à rua por uma última vez. Estava, inclusivé, muito obcecado com isso. Já lá fora, apontou o nariz para um jardim e levou o seu dono até lá.
Nesse jardim estava uma senhora com uma cadela velhota. Kaiser foi sentar-se ao pé dela e os dois cães ficaram juntos a tarde toda, enquanto observavam os seus donos a interagir.
Trocaram telefones e regressaram a casa. Passados uns dias, a senhora telefonou dizendo que a sua cadela tinha morrido. Os dois juntaram-se a ela e o Kaiser, depois de um longo olhar para o seu dono, fechou também os olhos. Tinha encontrado o novo amor da vida do seu dono e já podia ir em paz.
O homem e a mulher casaram e adoptaram dois canitos recém-nascidos.
Ainda hoje estão juntos.
Fidelidade
Esta é a aventura de um homem solitário que encontrou no seu cão o fiel e mais corajoso amigo do mundo. Chegou a divorciar-se da mulher ao fim de uns anos de razoável união, devido a ela não gostar do seu Kaiser. Este pastor alemão de porte altivo e inteligência acima da média de alguma população, acompanhava-o para todo o lado. Ficava à porta do emprego até que ele saísse, ia à banca de revistas buscar o jornal matinal, garantia-lhe protecção na rua e em casa e, acima de tudo, estava sempre contente por ter o dono ali a seu lado.
O Kaiser fez mesmo um esforço sobre-canino para que a ex-dona gostasse dele, dando-se bem com o velho gato que ela trouxe para casa e com o piriquito que nunca se calava. Mas tal não foi suficiente e o canino arranjou uma depressão, à imagem do seu dono.
Ficaram mais ou menos felizes quando ela se foi embora, mais ou menos contentes com a companhia um do outro, mais ou menos satisfeitos por viverem novamente com calma e silêncio.
Mas algo faltava nesta vida. E esse algo era, novamente, a companhia feminina.
Juraram um ao outro encontrar a resposta ao mesmo tempo, indo passear para a expo ou visitar feiras caninas e outros acontecimentos do género. Inscreveram-se em clubes, iam a passeios organizados, participaram em festas. Mas nada surgia ou acontecia.
O tempo ia passando, eles iam ficando menos jovens. O Kaiser começava a denotar alguns problemas de saúde, até que adoeceu.
O seu dono nunca mais foi o mesmo, tentou por tudo curá-lo gastando o dinheiro que não tinha.
Já quase no fim da linha, o Kaiser mostrou que queria ir à rua por uma última vez. Estava, inclusivé, muito obcecado com isso. Já lá fora, apontou o nariz para um jardim e levou o seu dono até lá.
Nesse jardim estava uma senhora com uma cadela velhota. Kaiser foi sentar-se ao pé dela e os dois cães ficaram juntos a tarde toda, enquanto observavam os seus donos a interagir.
Trocaram telefones e regressaram a casa. Passados uns dias, a senhora telefonou dizendo que a sua cadela tinha morrido. Os dois juntaram-se a ela e o Kaiser, depois de um longo olhar para o seu dono, fechou também os olhos. Tinha encontrado o novo amor da vida do seu dono e já podia ir em paz.
O homem e a mulher casaram e adoptaram dois canitos recém-nascidos.
Ainda hoje estão juntos.
05.22.08
terreola
Neste feriado chuvoso que coincide com uma ponte e em que toda a gente vai para a terra, ou a sua própria ou a dos pais ou avós, X fica sempre um bocadinho nostálgico. Isto de ser alfacinha é muito útil e tal, mas não se pode considerar a cidade como… a terra.
Devido a esta razão, e à sua fraca aptidão no que respeita a trabalhar a terra, ela própria, X tem tentado ao longo dos tempos criar uma pequena horta na marquise para se aproximar de uma terra que gostaria que fosse a sua. Já plantou de tudo, desde cebolinho a salsa, mas as coisas não crescem e não cheiram. É que nem o cão lá vai pesquisar a verdura. X gostava de ter tido uma terra para aprender a… trabalhá-la e, se o conseguisse, era meio caminho andado para ser um excelente cozinheiro. Poupava fortunas, emagrecia e combatia o colesterol, seria mais fácil atirar com outro charme para cima das convidadas e, em suma, seria mais… terra a terra.
Porque carga de água é que uns a têm e outros não?
terreola
Neste feriado chuvoso que coincide com uma ponte e em que toda a gente vai para a terra, ou a sua própria ou a dos pais ou avós, X fica sempre um bocadinho nostálgico. Isto de ser alfacinha é muito útil e tal, mas não se pode considerar a cidade como… a terra.
Devido a esta razão, e à sua fraca aptidão no que respeita a trabalhar a terra, ela própria, X tem tentado ao longo dos tempos criar uma pequena horta na marquise para se aproximar de uma terra que gostaria que fosse a sua. Já plantou de tudo, desde cebolinho a salsa, mas as coisas não crescem e não cheiram. É que nem o cão lá vai pesquisar a verdura. X gostava de ter tido uma terra para aprender a… trabalhá-la e, se o conseguisse, era meio caminho andado para ser um excelente cozinheiro. Poupava fortunas, emagrecia e combatia o colesterol, seria mais fácil atirar com outro charme para cima das convidadas e, em suma, seria mais… terra a terra.
Porque carga de água é que uns a têm e outros não?
05.21.08
recados
Esta é a aventura de um homem que tinha um grave defeito, defeito esse que só era prejudicial para ele próprio: o nunca desligar os telemóveis, um de cada rede, por nada deste mundo. Era um problema de infância devido a ter assistido vezes sem conta à partida a meio da noite do seu pai devido a um telefonema, ainda para a rede fixa e única existente.
Desde miúdo que vivia assombrado por não estar contactável quando dele precisassem, fosse para resolver um problema ou para ajudar alguém a resolvê-lo. E assim passaram os anos, com os telemóveis ligados 24h non stop.
Até que chegou um dia em que o homem se fartou de ser escravo numa prisão que ele próprio construíu. Desligou os telemóveis e marcou uma viagem para se afastar deles.
Partiu sorridente. Seria uma quinzena perfeita e silenciosa.
Quando regressou a casa, satisfeito e descansado, ficou a olhar para os telemóveis. Ligou-os um a um e foi inundado por centenas de chamadas não atendidas e milhares de sms.
Nessa quinzena tinham nascido duas primas e um primo. A sua ex-mulher casou novamente, a sua filha decidiu emigrar para a Nova Zelândia, perdeu inúmeros trabalhos e até um seu amigo deixou de sê-lo pois tinha precisado de um conselho urgente.
O homem ficou perplexo. E nunca mais desligou os telemóveis.
05.20.08
visuais
Esta é a história de um homem que não conseguia comunicar verbalmente com as pessoas. Muito menos com mulheres. Demasiado tímido, nunca sabia o que dizer, o que fazer, o que escolher.
Refugiou-se num seu mundo criado à sua medida e, no seu pequeno mas solarengo T1, escutava atentamente todas as músicas, lia todos os livros e via todos os filmes.
Este era um homem culto, interessante, educado e simples. Mas nunca ninguém o via, a não ser o dono da mercearia ao lado da sua casa, o dono do tasco do outro lado da rua, a senhora da padaria e o homem da fruta.
Os dias foram passando solitários até que o homem comprou um computador e uma ligação à net. Descobriu como fazer um blog e deixou-se cativar por este novo mundo. Os seus interesses e paixões criaram uma enorme legião de fãs, entre eles muitas mulheres que lhe dirigiam frases simpáticas nos comentários dos posts. Mas ele continuava tímido… embora menos.
Até que, num dia qualquer de uma semana qualquer, recebeu um mail de uma mulher que lhe tinha percebido a vida. Também ela era tímida, também ela tinha medo.
A pouco e pouco, ele lá foi cedendo um espaço dentro do seu espaço e os mails começaram a ser diários. Depois de hora em hora até que se transformaram em conversas directas através do messenger.
A paixão crescia sem imagens, a saudade durante a noite era tremenda e o início de um novo dia a parte mais importante dele próprio.
Decidiram, muito tempo depois, encontrarem-se fisicamente.
Quando se olharam, viram as pessoas mais bonitas do mundo. Para ela, ele era um deus grego, perfeito, alto, com um sorriso magnífico e um olhar meigo. Para ele, ela era radiosa, linda de morrer, graciosa e com um olhar penetrante e cúmplice.
Abraçaram-se e deram um longo beijo. Quem passava olhava incrédulo para o que estava a ver. Um homem tão franzino e baixo com uma mulher tão gorda e feia. Estavam bem um para o outro, pensavam. E seguiam a sua triste existência.
05.19.08
demência
Há muitos anos, X escreveu o seu primeiro livro, ainda em máquina de escrever pois nem existiam computadores ou processadores de texto. Havia apenas uma cópia que, logicamente e por ser apenas uma, foi perdida. Aliás, não foi. X emprestou-a a uma pessoa para uma leitura, só que nunca mais viu essa pessoa e não, não havia telemóveis, emails e etecéteras.
Nesse seu livro, a personagem principal chamada David era um jornalista/documentarista que entrou num mundo estranho depois de uma dica anónima. Esse mundo eram alguns doentes de uma ala do Hospital Júlio de Matos que, em vez de serem loucos, resguardavam-se do mundo e dos seus perigos e cuidavam de um enorme segredo. Passando também ele por demente, conseguiu entrar nessa ala e o que ele viu e descreveu, to cut a long story short, não foi bem recebido pela “sua” sociedade. Estes “loucos” falavam com deus, esperavam a sua hora com uma calma transparente e conseguiam manter contactos com outros mundos, outros seres, outras galáxias.
David foi, logicamente, expulso da sua sociedade que o apelidou de louco entre outros mimos. E, numa camisa de forças, foi depositado nessa mesma ala onde, em vez de sofrer as represálias de quem tinha atraiçoado, foi recebido de braços abertos e sorrisos cúmplices.
Tudo isto para dizer que ontem, X passou o dia entre pessoas que estão nesse limbo. Umas sabem-no, outras não. Mas o que X entendeu, finalmente, é que também uma parte dele está nesse espaço entre o que é lógico e o que queremos que seja lógico.
05.16.08
números
Esta é a aventura de um homem que não conseguia memorizar números. Faziam-lhe confusão, não lhes percebia a utilidade e rejeitava a sua complexidade.
Este homem teve sempre que andar com os seus muitos cartões, desde identificação a passe, multibancos e derivados. Desesperou-se cada vez que surgia uma nova operadora telefónica, ou quando lhe enviavam um novo cartão de débito/crédito com um novo pin. Isto já para não falar dos puks, nibs, nifs, etc.
Com um grande, mas grande esforço, conseguiu memorizar o número do prédio onde habitava, assim como o andar, mas mencionava-os sempre por extenso “olhe, é para o sessenta e nove, quarto direito”.
Por outro lado, a sua memória era invejada no que respeitava a literatura e cinema, geografia e filosofia. Não percebia nada de música, pois era matemática pura, assim como não gostava de computadores, devido à linguagem dos uns e dos zeros.
Este homem viva atormentado com pequenas coisas, tipo o peso da fruta e legumes ou as cadeiras marcadas nos espectáculos.
Sonhou e desejou ser diferente. Muitas vezes. Mas acordava sempre da mesma forma, rejeitanto o alarme com números digitais, optando pela luminosidade certa que lhe garantia serem nove da manhã.
Já com cinquenta anos, fez uma promessa a si próprio: tentar jogar no euromilhões, fazendo cruzinhas sem ligar pataviva aos números que tinha que escolher.
Assim o fez e assim o entregou. Guardou o recibo e arreliou-se com o facto de este só ter números. Nunca mais olhou para ele. Nem mesmo quando, nessa semana, o prémio saíu a um português. Nem mesmo passado um mês, quando se anunciou que o prémio ainda não tinha sido levantado…
05.15.08
ovação
Esta é a aventura de uma rapariga, na casa do quarto de século, que não era reconhecida pela sua inteligência. Contudo, tinha uma cara mais ou menos laroca e um corpo mais ou menos respeitável, o que fazia com que tivesse algum sucesso, principalmente na camada masculina com o mesmo nível de QI.
Esta rapariga tinha um sonho, que era ser cantora e famosa, tal e qual como tantas outras. Demorou uns anos mas, finalmente, lá conseguiu encontrar parceiros estratégicos para lhe gravarem o disco e o editarem em Portugal.
Seguiram-se as entrevistas promocionais e outras, onde debitava um discurso memorizado escrito por alguém que não ela e em que utilizava palavras ocas cheias de um significado que só para ela tinha sentido. Tudo corria bem, os jornalistas faziam o frete e a coisa ia andando. Até que chegou o dia em que o crítico musical de um jornal diário foi obrigado a sair da redacção e ter que ir ter com a rapariga para lhe fazer outra entrevista. Chateado, o jornalista foi gravando o que ela dizia até que percebeu uma ligeira diferença de discurso para todos os outros que já tinha entrevistado.
Chegado à redacção, foi imediatamente escrever a peça. Terminou-a com o discurso directo dessa jovem:
“Ah, o que eu quero mesmo é palmadinhas!”
“Disse… palmadinhas?”
“Sim, palmadinhas. Terminar um concerto e receber muitas palmadinhas!”
“É mesmo esse o seu sonho?”
“Claro, qual o artista que não gosta delas?”
“Pois, não sei. Não sou muito dado a esse tipo de intimidades….”
05.14.08
fraude
Esta é a aventura de um pintor extraordinário e consideradíssimo pelos seus pares. Infelizmente, nasceu em Portugal e tinha um BI que o confirmava. Por muito genial que fosse, as suas peças não lhe garantiam o sustento mensal necessário para uma vida simples e com tempo para pensar e criar. Houve mesmo alturas em que o pintor teve que pintar paredes, exteriores e interiores, para conseguir pagar as contas, as tintas, as telas e os pincéis.
O pintor estava cansado e farto dessa dupla vida. Num passeio matinal, domingueiro e solharengo, encontrou um amigo de longa data, músico que agora pintava paredes, exteriores e interiores, para sobreviver. O músico disse-lhe que neste país só depois de morto é que um artista conseguia viver, pois as suas peças valiam logo dinheiro num mercado que espera essa realidade.
O pintor foi para casa e pensou. Pensou durante um longo dia e decidiu.
No dia seguinte, após ter enviado um mail aos amigos e alguns agentes, meteu a cabeça dentro do forno e ligou o gás. Nessa precisa altura, o valor dos seus quadros subiu vertiginosamente, o telefone tocava sem cessar, alguns amigos tocavam, desesperados, à porta.
O pintor ainda estava vivo, pois o gás natural tem pouca chama e a instalação tinha sido mal feita aquando esse grande acontecimento que mudou todos os bicos de todos os fogões lisboetas. Após algumas horas decidiu tentar o salto do seu andar. E foi nessa curta viagem para a varanda que viu a luz a piscar do seu atendedor de chamadas. Decidiu ouvir as mensagens e, para sua enorme supresa, todas as suas telas tinham sido vendidas a um preço exorbitante. Estava, finalmente, rico. E famoso.
Mas era uma fraude. Estava vivo.
05.13.08
pés
Esta é a aventura de um homem que se chamava K. Sempre viveu com um grave problema de equilíbrio, trocando os pés e estatelando-se vezes sem conta. Metade da sua vida foi passada em hospitais, tendo sido operado diversas vezes aos muitos ossos que ia quebrando.
Foi num dia chuvoso e ventoso que o drama aconteceu: K, ao tentar atravessar uma avenida, não deu conta que o semáforo dos peões tinha deixado de estar verde e, ao reparar na horda de automóveis que vinham na sua direcção, atrapalhou-se, tropeçou nele próprio e foi varrido por duas viaturas. K veio a falecer pouco tempo depois, quando a ambulância que o transportava chocou de frente com um autocarro cheio de pessoas que vinham de Fátima.
Contudo, e como diz um qualquer ditado, o azar de uns é a sorte de outros e nessa precisa altura, o Hospital São José recebia um acidentado que tinha ficado sem os dois pés, num qualquer acidente de trabalho numa obra lisboeta.
O grupo de médicos de serviço, alguns deles espanhóis e outros com mais de três turnos seguidos, decidiram cortar os pés de K, ainda quentinhos, e tentar juntá-los ao corpo do trolha.
A operação, por incrível que pareça, foi um sucesso e o trolha, após vários meses de recuperação e fisioterapias, recomeçou a andar.
Ainda no Hospital, tropeçou algumas vezes, mas a junta médica achava natural. Afinal, o processo era complicado e a recuperação total levaria anos.
Com umas muletas, o trolha começou a tentar encontrar um novo trabalho, preferencialmente sentado a uma secretária.
Esperou alguns meses até ser chamado para uma entrevista. Querendo dar o seu melhor, largou as muletas e aperaltou-se com o fato domingueiro.
Foi ao atravessar uma avenida que o pé esquerdo teimou em ser o direito e o resultado foi uma estrondosa queda no asfalto. Nesse preciso momento, um autocarro cheio de mulheres que vinham ver um concerto de um dos Carreira, travou a fundo. Mas não conseguiu evitar a tragédia.
Uma testemunha relatou à polícia que tinha visto um acidente parecido poucos anos atrás…
pés
Esta é a aventura de um homem que se chamava K. Sempre viveu com um grave problema de equilíbrio, trocando os pés e estatelando-se vezes sem conta. Metade da sua vida foi passada em hospitais, tendo sido operado diversas vezes aos muitos ossos que ia quebrando.
Foi num dia chuvoso e ventoso que o drama aconteceu: K, ao tentar atravessar uma avenida, não deu conta que o semáforo dos peões tinha deixado de estar verde e, ao reparar na horda de automóveis que vinham na sua direcção, atrapalhou-se, tropeçou nele próprio e foi varrido por duas viaturas. K veio a falecer pouco tempo depois, quando a ambulância que o transportava chocou de frente com um autocarro cheio de pessoas que vinham de Fátima.
Contudo, e como diz um qualquer ditado, o azar de uns é a sorte de outros e nessa precisa altura, o Hospital São José recebia um acidentado que tinha ficado sem os dois pés, num qualquer acidente de trabalho numa obra lisboeta.
O grupo de médicos de serviço, alguns deles espanhóis e outros com mais de três turnos seguidos, decidiram cortar os pés de K, ainda quentinhos, e tentar juntá-los ao corpo do trolha.
A operação, por incrível que pareça, foi um sucesso e o trolha, após vários meses de recuperação e fisioterapias, recomeçou a andar.
Ainda no Hospital, tropeçou algumas vezes, mas a junta médica achava natural. Afinal, o processo era complicado e a recuperação total levaria anos.
Com umas muletas, o trolha começou a tentar encontrar um novo trabalho, preferencialmente sentado a uma secretária.
Esperou alguns meses até ser chamado para uma entrevista. Querendo dar o seu melhor, largou as muletas e aperaltou-se com o fato domingueiro.
Foi ao atravessar uma avenida que o pé esquerdo teimou em ser o direito e o resultado foi uma estrondosa queda no asfalto. Nesse preciso momento, um autocarro cheio de mulheres que vinham ver um concerto de um dos Carreira, travou a fundo. Mas não conseguiu evitar a tragédia.
Uma testemunha relatou à polícia que tinha visto um acidente parecido poucos anos atrás…
05.11.08
desventura
Hoje, a aventura do Mr X foi perceber que, mesmo que se deseje muito, algumas aventuras são muito difíceis de viver. Talvez porque seja Domingo e o dia esteja fanhoso… ou talvez porque não se fez um telefonema a tempo. Ou mesmo talvez porque é imperativo um regresso.
desventura
Hoje, a aventura do Mr X foi perceber que, mesmo que se deseje muito, algumas aventuras são muito difíceis de viver. Talvez porque seja Domingo e o dia esteja fanhoso… ou talvez porque não se fez um telefonema a tempo. Ou mesmo talvez porque é imperativo um regresso.
05.10.08
dias
Esta é a aventura de um homem que gostava do Sábado. Aliás, só gostava mesmo desse dia. Detestava o Domingo e odiava todos os dias do resto da semana. Nunca soube porquê. Mas aceitou essa realidade quando atingiu a maioridade e decidiu saír de casa dos pais que não compreendiam tal demência.
Era ao Sábado que ele recuperava as energias, fazia exactamente o que queria, quando desligava os telemóveis e nem sequer ligava o computador. O Sábado, como muitas namoradas vieram a descobrir e depois desistir era só dele. Só para ele.
Enquanto a vida dos amigos e amigas se enchia de problemas de variadíssima ordem, ele conseguia reunir em apenas 24 horas todas as forças que lhe permitiam viver o resto da semana sem grandes confusões. Quem o conhecia bem invejava-lhe tal sorte. Mas para ele era um azar. Quantos relacionamentos acabaram devido a isso? A quantos casamentos e aniversários faltou? Contudo e chegando o Sábado seguinte, todos esses dramas eram ultrapassados.
O problema aconteceu quando o seu pai morreu num Sábado. O que fazer? Afinal, durante anos o Sábado era dele. Como é que isto aconteceu? O homem ficou desorientado, sem saber o que fazer. Por um lado, não poderia faltar a este funeral, por outro toda a sua existência deixava de ser real.
Como em muitas coisas da vida, há que tomar uma decisão para ultrapassar uma situação muito difícil e isso também aconteceu com ele.
Escolheu um 15º andar de um prédio na Av da liberdade…
dias
Esta é a aventura de um homem que gostava do Sábado. Aliás, só gostava mesmo desse dia. Detestava o Domingo e odiava todos os dias do resto da semana. Nunca soube porquê. Mas aceitou essa realidade quando atingiu a maioridade e decidiu saír de casa dos pais que não compreendiam tal demência.
Era ao Sábado que ele recuperava as energias, fazia exactamente o que queria, quando desligava os telemóveis e nem sequer ligava o computador. O Sábado, como muitas namoradas vieram a descobrir e depois desistir era só dele. Só para ele.
Enquanto a vida dos amigos e amigas se enchia de problemas de variadíssima ordem, ele conseguia reunir em apenas 24 horas todas as forças que lhe permitiam viver o resto da semana sem grandes confusões. Quem o conhecia bem invejava-lhe tal sorte. Mas para ele era um azar. Quantos relacionamentos acabaram devido a isso? A quantos casamentos e aniversários faltou? Contudo e chegando o Sábado seguinte, todos esses dramas eram ultrapassados.
O problema aconteceu quando o seu pai morreu num Sábado. O que fazer? Afinal, durante anos o Sábado era dele. Como é que isto aconteceu? O homem ficou desorientado, sem saber o que fazer. Por um lado, não poderia faltar a este funeral, por outro toda a sua existência deixava de ser real.
Como em muitas coisas da vida, há que tomar uma decisão para ultrapassar uma situação muito difícil e isso também aconteceu com ele.
Escolheu um 15º andar de um prédio na Av da liberdade…
05.09.08
comunicar
Num país distante, há um homem que fala com as mãos. Não é mudo, apenas nunca gostou do som da sua voz e recusava-se a falar. Portanto, construíu toda uma linguagem para que os seus vizinhos e todos os outros o entendessem sem grandes confusões. Teve sucesso nessa tarefa e os anos foram passando sem que ninguém se chateasse muito com a situação.
O país onde vivia era muito longe dos outros países e as visitas, por isso, raras. Mas houve um dia em que um circo chegou à cidade. Era um circo normal, com animais e trapezistas, palhaços e figurinistas. Como o país era pequeno, quase todos se juntaram numa noite para ver o espectáculo e foi na fila para os bilhetes que o homem viu uma mulher por quem se apaixonou imediatamente.
Esta mulher falava com os pés e tinha uma graciosidade única.
Rapidamente foi ter com ela e percebeu que tinham inventado quase a mesma forma de se fazerem compreender.
Casaram quase de imediato, foram extremamente felizes nos primeiros tempos até que nasceu o primeiro filho.
Ele queria que ele aprendesse a falar com as mãos, ela com os pés.
Nunca se entenderam e o filho nunca chegou a aprender a comunicar.
comunicar
Num país distante, há um homem que fala com as mãos. Não é mudo, apenas nunca gostou do som da sua voz e recusava-se a falar. Portanto, construíu toda uma linguagem para que os seus vizinhos e todos os outros o entendessem sem grandes confusões. Teve sucesso nessa tarefa e os anos foram passando sem que ninguém se chateasse muito com a situação.
O país onde vivia era muito longe dos outros países e as visitas, por isso, raras. Mas houve um dia em que um circo chegou à cidade. Era um circo normal, com animais e trapezistas, palhaços e figurinistas. Como o país era pequeno, quase todos se juntaram numa noite para ver o espectáculo e foi na fila para os bilhetes que o homem viu uma mulher por quem se apaixonou imediatamente.
Esta mulher falava com os pés e tinha uma graciosidade única.
Rapidamente foi ter com ela e percebeu que tinham inventado quase a mesma forma de se fazerem compreender.
Casaram quase de imediato, foram extremamente felizes nos primeiros tempos até que nasceu o primeiro filho.
Ele queria que ele aprendesse a falar com as mãos, ela com os pés.
Nunca se entenderam e o filho nunca chegou a aprender a comunicar.
05.08.08
virtualidades
Esta é a aventura de um homem que criou toda uma entidade na internet. Tinha sites, blogs, nicknames, Hi5, myspaces, enfim, tudo e mais alguma coisa. Passava a vida agarrado ao computador, aguardava que os seus muitos contactos surgissem para uma converseta no messenger, via filmes pelo computador e ouvia música da mesma forma.
Trabalhava na construção de sites, o que lhe permitia estar sempre ao… computador.
Os anos foram passando e a sua entidade física era esquecida a pouco e pouco por toda a gente que tinha conhecido ao longo da sua vida. Para conseguir contactá-lo, ou era por email ou por msn. Ou então através de comentários nos seus diversos blogs.
Não foram raras as vezes que se apaixonou online. Mas dessas, só ainda mais raras vezes é que teve a sorte de conhecer fisicamente o outro lado. E, como seria de esperar, as coisas não aconteciam como num conto de fadas.
Decidiu então comprar uma Real Doll. Assim os seus desejos mais carnais seriam mais ou menos satisfeitos. Naturalmente, dentro de casa. Naturalmente, sem compromisso e sem desventura.
O tempo foi passando até que ele foi esquecido pela vida real. Foi envelhecendo e ficando corcunda. A sua pele estava velha, os seus olhos gastos. Os pulsos esgotados, os dedos quase quebrados.
Sem se aperceber, já estava ligado fisicamente tanto à cadeira como às máquinas. O seu corpo tinha criado raízes, estava cada vez menos perceptível e, tal como uma árvore, cada vez mais estático e adormecido.
Nunca mais ninguém o viu até ao dia em que também desapareceu do mundo virtual. Alguns contactos dele acharam demasiado estranha esta ausência e combinaram ir ver o que se passava.
Quando chegaram a casa dele, foi necessário arrombar a porta. À porta da sala onde estava o computador, espantaram-se com um cenário grotesco. O homem confundia-se com tudo onde tocava. Já não era humano, mas também não era máquina. Não estava morto nem vivo. Tudo era uma massa disforme, transformada e distorcida.
Abandonaram a casa em pânico. E cada um deles, ao chegar às suas, destruíu os computadores e tudo o que lhes estava associado. Encontraram-se dias depois, num acaso perfeito, bebericando umas imperiais numa esplanada cheia de sol. Ninguém falou. Não era necessário.
virtualidades
Esta é a aventura de um homem que criou toda uma entidade na internet. Tinha sites, blogs, nicknames, Hi5, myspaces, enfim, tudo e mais alguma coisa. Passava a vida agarrado ao computador, aguardava que os seus muitos contactos surgissem para uma converseta no messenger, via filmes pelo computador e ouvia música da mesma forma.
Trabalhava na construção de sites, o que lhe permitia estar sempre ao… computador.
Os anos foram passando e a sua entidade física era esquecida a pouco e pouco por toda a gente que tinha conhecido ao longo da sua vida. Para conseguir contactá-lo, ou era por email ou por msn. Ou então através de comentários nos seus diversos blogs.
Não foram raras as vezes que se apaixonou online. Mas dessas, só ainda mais raras vezes é que teve a sorte de conhecer fisicamente o outro lado. E, como seria de esperar, as coisas não aconteciam como num conto de fadas.
Decidiu então comprar uma Real Doll. Assim os seus desejos mais carnais seriam mais ou menos satisfeitos. Naturalmente, dentro de casa. Naturalmente, sem compromisso e sem desventura.
O tempo foi passando até que ele foi esquecido pela vida real. Foi envelhecendo e ficando corcunda. A sua pele estava velha, os seus olhos gastos. Os pulsos esgotados, os dedos quase quebrados.
Sem se aperceber, já estava ligado fisicamente tanto à cadeira como às máquinas. O seu corpo tinha criado raízes, estava cada vez menos perceptível e, tal como uma árvore, cada vez mais estático e adormecido.
Nunca mais ninguém o viu até ao dia em que também desapareceu do mundo virtual. Alguns contactos dele acharam demasiado estranha esta ausência e combinaram ir ver o que se passava.
Quando chegaram a casa dele, foi necessário arrombar a porta. À porta da sala onde estava o computador, espantaram-se com um cenário grotesco. O homem confundia-se com tudo onde tocava. Já não era humano, mas também não era máquina. Não estava morto nem vivo. Tudo era uma massa disforme, transformada e distorcida.
Abandonaram a casa em pânico. E cada um deles, ao chegar às suas, destruíu os computadores e tudo o que lhes estava associado. Encontraram-se dias depois, num acaso perfeito, bebericando umas imperiais numa esplanada cheia de sol. Ninguém falou. Não era necessário.
05.07.08
fotografia
Esta é a aventura de um homem que, embora tenha sido amado, nunca viveu a paixão avassaladora de um primeiro olhar ou de um primeiro toque mais ou menos fortuito. Este homem refugiava-se no trabalho, era um notável profissional e admirado por todos. Mas, chegando a casa, só tinha por companhia o seu casal de gatos que também pouco lhe ligavam.
Tinha amigos e amigas. Estas tentavam tudo por tudo encontrar-lhe um par, oferecer-lhe a paixão, convidá-lo para a vida. Mas por medo de falhar ou com a certeza de ter medo e falhar, este homem encontrava sempre desculpas para evitar encontros pré-marcados. E assim ia sobrevivendo.
Contudo, houve um dia em que viu uma fotografia de uma mulher que acompanhava aventuras de uma amiga. Olhou muito tempo esta fotografia, mas nunca para a amiga. Encheu-se de coragem e pediu-lhe mais fotos em que a tal criatura estivesse presente. A amiga fez-lhe a vontade e enviou-lhe uma dezena de fotografias. Uma a uma, o homem foi-se apaixonando. Pelos traços, pelos olhos, pelas posições, sorrisos e possíveis afectos. Pela tez morena, pelo cabelo negro, pelos abraços com que rodeava quem estava também na foto.
Como seria possível esta paixão? Como seria possível este encontro? O homem sorria. Sentia. E ansiava. Mas quanto mais se apercebia do seu estado, mais receios ia construindo, mais muralhas e medos. Se calhar não estava toldado para viver uma paixão. Se calhar a sua vida teria que passar ao lado de uma fotografia.
Quando finalmente aconteceu o encontro, já ele tinha vestido uma armadura intransponível, ciente e certo que essa era a sua melhor defesa para os seus próprios sentimentos não o ferirem.
Mas os milagres acontecem e a mulher da fotografia ficou curiosa. Muito curiosa. Trocaram contactos. O tempo ia passando, a armadura não desarmava. O homem começou a evitar, fugindo para os seus gatos e para o seu trabalho que fazia até à exaustão.
Desapareceu de tudo e todos, inclusivé da sua amiga.
Uns anos depois reencontrou a mulher. Esta já estava casada e com filhos. Olhou-o e disse-lhe que o tinha amado apaixonadamente. Mas que o mundo anda depressa. Demasiado. Pediu-lhe desculpa e seguiu o seu caminho.
A armadura do homem partiu-se em mil pedaços, cacos que permaneceram no chão enquanto ele a olhava a afastar-se. Estava, finalmente, pronto para viver.
fotografia
Esta é a aventura de um homem que, embora tenha sido amado, nunca viveu a paixão avassaladora de um primeiro olhar ou de um primeiro toque mais ou menos fortuito. Este homem refugiava-se no trabalho, era um notável profissional e admirado por todos. Mas, chegando a casa, só tinha por companhia o seu casal de gatos que também pouco lhe ligavam.
Tinha amigos e amigas. Estas tentavam tudo por tudo encontrar-lhe um par, oferecer-lhe a paixão, convidá-lo para a vida. Mas por medo de falhar ou com a certeza de ter medo e falhar, este homem encontrava sempre desculpas para evitar encontros pré-marcados. E assim ia sobrevivendo.
Contudo, houve um dia em que viu uma fotografia de uma mulher que acompanhava aventuras de uma amiga. Olhou muito tempo esta fotografia, mas nunca para a amiga. Encheu-se de coragem e pediu-lhe mais fotos em que a tal criatura estivesse presente. A amiga fez-lhe a vontade e enviou-lhe uma dezena de fotografias. Uma a uma, o homem foi-se apaixonando. Pelos traços, pelos olhos, pelas posições, sorrisos e possíveis afectos. Pela tez morena, pelo cabelo negro, pelos abraços com que rodeava quem estava também na foto.
Como seria possível esta paixão? Como seria possível este encontro? O homem sorria. Sentia. E ansiava. Mas quanto mais se apercebia do seu estado, mais receios ia construindo, mais muralhas e medos. Se calhar não estava toldado para viver uma paixão. Se calhar a sua vida teria que passar ao lado de uma fotografia.
Quando finalmente aconteceu o encontro, já ele tinha vestido uma armadura intransponível, ciente e certo que essa era a sua melhor defesa para os seus próprios sentimentos não o ferirem.
Mas os milagres acontecem e a mulher da fotografia ficou curiosa. Muito curiosa. Trocaram contactos. O tempo ia passando, a armadura não desarmava. O homem começou a evitar, fugindo para os seus gatos e para o seu trabalho que fazia até à exaustão.
Desapareceu de tudo e todos, inclusivé da sua amiga.
Uns anos depois reencontrou a mulher. Esta já estava casada e com filhos. Olhou-o e disse-lhe que o tinha amado apaixonadamente. Mas que o mundo anda depressa. Demasiado. Pediu-lhe desculpa e seguiu o seu caminho.
A armadura do homem partiu-se em mil pedaços, cacos que permaneceram no chão enquanto ele a olhava a afastar-se. Estava, finalmente, pronto para viver.
05.06.08
pivot
Esta é a aventura de um jornalista que conseguiu subir no canal televisivo onde trabalhava até ser pivot de telejornal e, também, editor do mesmo. Todos os dias ele encarava as piores notícias, todos os dias as dava aos teleespectadores, todos os dias chegava a casa transtornado, doente e incapaz de fazer qualquer coisa a não ser sofá surfing e zapping, tal e qual muitos vizinhos e restante população.
Mas houve um dia em que tudo mudou. Acordou diferente, foi para o emprego e decidiu não dar uma única má notícia. Escolheu coisas boas, dignificantes para a raça humana, historias bonitas e finais felizes. Mal o noticiário terminou, foi chamado ao patrão, um conjunto de figuras sinistras escondidas em grandes cadeirões e afastadas entre elas por uma enorme mesa de reuniões. Não estavam felizes. Pelo contrário. Mostraram-lhe os dados da audiência, provando-lhe que a sua ideia tinha sido um fracasso colossal. E concluiram dizendo que, se ele mantivesse essa nova linha editorial, estaria na rua em menos de uma semana.
O jornalista, com dois filhos e casa + carro + créditos + mobiliário + electrodomésticos + seguro + alimentação + etc para pagar, sentiu-se encurralado. Tinha-se sentido muito bem ao fazer aquele noticiário. E, quiçá, teria conseguido que alguém, do outro lado, se tivesse sentido melhor que nos outros dias.
Decidiu.
No dia seguinte, iniciou as notícias com peças bem dispostas. Pelo auricular, o realizador gritava que parasse, pois no seu próprio auricular estava um produtor aos berros cujo auricular estava ligado ao patronato.
O jornalista foi despedido em menos de uma semana.
Durante uns dias ficou a fazer sofá surfing e zapping. Até que o telefone tocou. Era uma senhora que lhe transmitia os parabéns por se ter sacrificado. Mal desligou, o telefone tocou outra vez. E assim continuou durante todo o dia. E toda a noite. O canal televisivo foi inundado por cartas de reclamação, pedindo o regresso do generoso jornalista. Passada uma semana, houve manifestações, artigos de opinião, especiais informativos nos outros canais.
A concorrência começava a entender que tinha ali uma possibilidade para conseguir mais audiências e criou os seus próprios tele-jornais bem dispostos.
Passados uns meses, o jornalista foi convidado a reingressar no seu canal, com o seu produto.
Preparou-se afincadamente para o regresso e, no dia em que chegou à porta das instalações, foi morto a tiro.
Os tele-jornais bem dispostos da concorrência iniciaram esse dia com a terrível notícia.
pivot
Esta é a aventura de um jornalista que conseguiu subir no canal televisivo onde trabalhava até ser pivot de telejornal e, também, editor do mesmo. Todos os dias ele encarava as piores notícias, todos os dias as dava aos teleespectadores, todos os dias chegava a casa transtornado, doente e incapaz de fazer qualquer coisa a não ser sofá surfing e zapping, tal e qual muitos vizinhos e restante população.
Mas houve um dia em que tudo mudou. Acordou diferente, foi para o emprego e decidiu não dar uma única má notícia. Escolheu coisas boas, dignificantes para a raça humana, historias bonitas e finais felizes. Mal o noticiário terminou, foi chamado ao patrão, um conjunto de figuras sinistras escondidas em grandes cadeirões e afastadas entre elas por uma enorme mesa de reuniões. Não estavam felizes. Pelo contrário. Mostraram-lhe os dados da audiência, provando-lhe que a sua ideia tinha sido um fracasso colossal. E concluiram dizendo que, se ele mantivesse essa nova linha editorial, estaria na rua em menos de uma semana.
O jornalista, com dois filhos e casa + carro + créditos + mobiliário + electrodomésticos + seguro + alimentação + etc para pagar, sentiu-se encurralado. Tinha-se sentido muito bem ao fazer aquele noticiário. E, quiçá, teria conseguido que alguém, do outro lado, se tivesse sentido melhor que nos outros dias.
Decidiu.
No dia seguinte, iniciou as notícias com peças bem dispostas. Pelo auricular, o realizador gritava que parasse, pois no seu próprio auricular estava um produtor aos berros cujo auricular estava ligado ao patronato.
O jornalista foi despedido em menos de uma semana.
Durante uns dias ficou a fazer sofá surfing e zapping. Até que o telefone tocou. Era uma senhora que lhe transmitia os parabéns por se ter sacrificado. Mal desligou, o telefone tocou outra vez. E assim continuou durante todo o dia. E toda a noite. O canal televisivo foi inundado por cartas de reclamação, pedindo o regresso do generoso jornalista. Passada uma semana, houve manifestações, artigos de opinião, especiais informativos nos outros canais.
A concorrência começava a entender que tinha ali uma possibilidade para conseguir mais audiências e criou os seus próprios tele-jornais bem dispostos.
Passados uns meses, o jornalista foi convidado a reingressar no seu canal, com o seu produto.
Preparou-se afincadamente para o regresso e, no dia em que chegou à porta das instalações, foi morto a tiro.
Os tele-jornais bem dispostos da concorrência iniciaram esse dia com a terrível notícia.
05.05.08
prisão
Esta é a aventura de um homem que perdeu quase tudo na vida. Só restava a imaginação e mesmo essa falhava de vez em quando. Escrevia peças sobre variados temas para publicações que lhe permitiam pagar as contas e alguns, raros, mimos pessoais. Escrevia tudo em pequenas sebentas de folhas lisas e já tinha uma colecção grande delas. Estavam arrumadas por ordem numa pequena gaveta, longe do pó e de olhares curiosos.
Houve um dia em que teve que comprar uma nova sebenta mas, por qualquer motivo, as suas preferidas, lisas, estavam esgotadas em todo o lado. Teve que contentar-se com uma quadriculada o que lhe causava uma certa confusão.
Abriu-a na primeira página ímpar onde escreveu os seus dados pessoais, passando depois para a seguinte ímpar. Só escrevia nas ímpares, como muito boa gente.
O que se passou a seguir deve ter acontecido devido à quadrícula. Não havia nenhuma outra explicação. Começou por desenhar uns bonecos até ter a ideia para uma peça encomendada. De repente, os bonecos tomaram vida própria e, para seu espanto, começaram a tentar saír da folha.
Mas a quadrícula, tal e qual as grades de uma prisão, não permitiam tal liberdade. O homem pensou e saíu à rua desesperado para tentar comprar uma sebenta de páginas lisas. Após horas, lá conseguiu encontrar uma e correu para casa. Juntou as duas e desenhou um caminho na primeira com uma saída para a folha lisa da nova sebenta. Uns instantes depois, os bonecos conseguiram saír da sua prisão. Estavam finalmente livres e com espaço para viver e respirar.
O homem ficou aliviado. Olhou para a sua casa e imaginou-a como uma quadrícula. Percebeu finalmente que estava numa prisão. A sua prisão. Decidiu vendê-la e quando o conseguiu, agarrou em algumas tralhas e guardou-as em casa de amigos. Com uma mochila, alguma roupa e várias sebentas novas, decidiu apanhar um comboio. O destino não era importante. Ele sabia que tudo iria dar certo outra vez.
Passado um ano escreveu aos seus amigos. Estava longe, num continente afastado. Estava a fazer o que mais gostava outra vez. E tudo era perfeito… como uma quadrícula.
prisão
Esta é a aventura de um homem que perdeu quase tudo na vida. Só restava a imaginação e mesmo essa falhava de vez em quando. Escrevia peças sobre variados temas para publicações que lhe permitiam pagar as contas e alguns, raros, mimos pessoais. Escrevia tudo em pequenas sebentas de folhas lisas e já tinha uma colecção grande delas. Estavam arrumadas por ordem numa pequena gaveta, longe do pó e de olhares curiosos.
Houve um dia em que teve que comprar uma nova sebenta mas, por qualquer motivo, as suas preferidas, lisas, estavam esgotadas em todo o lado. Teve que contentar-se com uma quadriculada o que lhe causava uma certa confusão.
Abriu-a na primeira página ímpar onde escreveu os seus dados pessoais, passando depois para a seguinte ímpar. Só escrevia nas ímpares, como muito boa gente.
O que se passou a seguir deve ter acontecido devido à quadrícula. Não havia nenhuma outra explicação. Começou por desenhar uns bonecos até ter a ideia para uma peça encomendada. De repente, os bonecos tomaram vida própria e, para seu espanto, começaram a tentar saír da folha.
Mas a quadrícula, tal e qual as grades de uma prisão, não permitiam tal liberdade. O homem pensou e saíu à rua desesperado para tentar comprar uma sebenta de páginas lisas. Após horas, lá conseguiu encontrar uma e correu para casa. Juntou as duas e desenhou um caminho na primeira com uma saída para a folha lisa da nova sebenta. Uns instantes depois, os bonecos conseguiram saír da sua prisão. Estavam finalmente livres e com espaço para viver e respirar.
O homem ficou aliviado. Olhou para a sua casa e imaginou-a como uma quadrícula. Percebeu finalmente que estava numa prisão. A sua prisão. Decidiu vendê-la e quando o conseguiu, agarrou em algumas tralhas e guardou-as em casa de amigos. Com uma mochila, alguma roupa e várias sebentas novas, decidiu apanhar um comboio. O destino não era importante. Ele sabia que tudo iria dar certo outra vez.
Passado um ano escreveu aos seus amigos. Estava longe, num continente afastado. Estava a fazer o que mais gostava outra vez. E tudo era perfeito… como uma quadrícula.
04.30.08
publicidade
Há um certo mupi por aí, nas vidraças das paragens de autocarro, que é um verdadeiro acto de vandalismo para quem passa. Um amigo de X já sofreu na pele e na vida as suas consequências, tendo ido para o hospital com um ataque qualquer e sido posto na rua pela mulher enciumada.
Esse mupi, ou poster, tem uma menina de bikini e faz alusão a um qualquer produto que promove a perfeição, ou seja, alimenta e faz bem e emagrece quem o escolhe.
X foi a correr ao hospital onde o amigo foi internado. Também tem um poster destes com a rapariga loura de bikini mesmo à saída de casa e, embora fique salivante, não é caso de vida ou morte.
Chegado ao hospital perguntou ao amigo, cheio de tubos e máquinas que fazem plim (alusão a um grande filme), o que se tinha passado e foi aí que K se desbroncou.
“Epá X, não sei. Ficava parado horas a olhar para a rapariga, as suas formas, a sua barriga, o seu sorriso. Fiquei apaixonado…”.
“Mas K, sabes que aquilo é uma pita torneada pelo photoshop, não?”.
K começa a chorar, dizendo que já não sabia nada desta vida. E continuou a sua história.
“Não sei se é photoshop ou não, mas numa noite destas saí de casa. estava vidrado, obcecado pela miuda. Olhei-a durante uns momentos e eis que ela me pisca o olho. Sai do papel e torna-se numa pessoa de pele e osso. Ora era de noite e estava frescote e ela de bikini. Dei-lhe o meu casaco para a proteger e ela deu-me a mão, puxando-me com o vigor que a malta nova tem.”
X estava incrédulo, mas K não era fulano de mentiras. Podia era ter sido uma ilusão devido a uma grande bebedeira, mas não. As análises que lhe fizeram no hospital indicavam que ele estava limpo de tudo, inclusivé na carteira. Pelo que K continuou a relatar, a noite foi longa, cheia de bares e discotecas e um hotel mais ou menos barato. Tinha sido uma das melhores noites da sua vida. O problema é que, quando chegou de manhã a casa, o seu casaco tinha marcas escaldantes e um perfume de pele jovem e foi aí que a sua mulher se passou. K ainda quis que ela percebesse e ainda tentou que ela fosse ver o poster, mas nesse preciso momento teve o tal ataque e caíu sem sentidos. Reacordou no hospital.
X foi para casa, mas passou pela paragem de autocarro próxima da casa de K. Da rapariga, nada, só uma silhueta a negro. Tinha mesmo acontecido.
Foi a correr para casa e espreitou a “sua” paragem de autocarro. Ela ainda estava lá. X ficou a olhá-la durante algum tempo. De repente ela piscou um olho.
publicidade
Há um certo mupi por aí, nas vidraças das paragens de autocarro, que é um verdadeiro acto de vandalismo para quem passa. Um amigo de X já sofreu na pele e na vida as suas consequências, tendo ido para o hospital com um ataque qualquer e sido posto na rua pela mulher enciumada.
Esse mupi, ou poster, tem uma menina de bikini e faz alusão a um qualquer produto que promove a perfeição, ou seja, alimenta e faz bem e emagrece quem o escolhe.
X foi a correr ao hospital onde o amigo foi internado. Também tem um poster destes com a rapariga loura de bikini mesmo à saída de casa e, embora fique salivante, não é caso de vida ou morte.
Chegado ao hospital perguntou ao amigo, cheio de tubos e máquinas que fazem plim (alusão a um grande filme), o que se tinha passado e foi aí que K se desbroncou.
“Epá X, não sei. Ficava parado horas a olhar para a rapariga, as suas formas, a sua barriga, o seu sorriso. Fiquei apaixonado…”.
“Mas K, sabes que aquilo é uma pita torneada pelo photoshop, não?”.
K começa a chorar, dizendo que já não sabia nada desta vida. E continuou a sua história.
“Não sei se é photoshop ou não, mas numa noite destas saí de casa. estava vidrado, obcecado pela miuda. Olhei-a durante uns momentos e eis que ela me pisca o olho. Sai do papel e torna-se numa pessoa de pele e osso. Ora era de noite e estava frescote e ela de bikini. Dei-lhe o meu casaco para a proteger e ela deu-me a mão, puxando-me com o vigor que a malta nova tem.”
X estava incrédulo, mas K não era fulano de mentiras. Podia era ter sido uma ilusão devido a uma grande bebedeira, mas não. As análises que lhe fizeram no hospital indicavam que ele estava limpo de tudo, inclusivé na carteira. Pelo que K continuou a relatar, a noite foi longa, cheia de bares e discotecas e um hotel mais ou menos barato. Tinha sido uma das melhores noites da sua vida. O problema é que, quando chegou de manhã a casa, o seu casaco tinha marcas escaldantes e um perfume de pele jovem e foi aí que a sua mulher se passou. K ainda quis que ela percebesse e ainda tentou que ela fosse ver o poster, mas nesse preciso momento teve o tal ataque e caíu sem sentidos. Reacordou no hospital.
X foi para casa, mas passou pela paragem de autocarro próxima da casa de K. Da rapariga, nada, só uma silhueta a negro. Tinha mesmo acontecido.
Foi a correr para casa e espreitou a “sua” paragem de autocarro. Ela ainda estava lá. X ficou a olhá-la durante algum tempo. De repente ela piscou um olho.
04.29.08
gruta
X estava a passear o seu cão na praia deserta, num extenso areal e junto ao rochedo. De repente ouviu um grito vindo de dentro da rocha. O cão foi ladrar e X foi olhar. Uma gruta, havia uma gruta… A entrada era mínima e X tem pânico deste tipo de apertos. O grito transformou-se num gemido prolongado e sofrido. O que fazer? De repente, o cão desapareceu pelo pequeno buraco. X gritou-lhe o nome várias vezes, mas só ouvia os latidos cada vez mais longínquos. Olhou em volta mas não havia vivalma. O que fazer? O pânico instalava-se, mas X tinha mesmo que entrar nas entranhas da rocha.
Passar a entrada já foi difícil e o buraco parecia que se encolhia a cada metro. A falta de ar começava a dar sinal, assim como o terror absoluto. X não gosta mesmo de se sentir apertado. Gritou pelo cão, ouviu latidos muito ao longe. Curiosamente os gemidos tinham parado.
Andar para trás era agora tão ou mais difícil que continuar em frente. Era preciso mais esforço e X esforçou-se e muito. Já não tinha muitas forças para gritar pelo cão e o som parecia que saía abafado para que só ele o pudesse ouvir.
De repente, X ficou preso. Não conseguia mover-se um milímetro sequer. Pensou que era assim. Que maneira mais idiota de ser assim… Que estúpido foi em meter-se no buraco. O ar começava a escassear. A respiração era mais ofegante. X estava quase adormecido.
Num repente surgiu o seu cão. Trazia arrastado um corpo feminino, também ofegante. Perguntou quem estava ali e X respondeu a custo.
O problema agora era outro, pois o corpo de X tapava a passagem para o exterior. O seu cão começou a ganir, percebendo que todo o esforço tinha sido em vão. Mas estava ao pé do seu dono e isso era o mais importante.
As horas passaram. Muitas. Depois foram minutos. O cão lambeu o dono e o dono chorou.
Mas por pouco tempo.
gruta
X estava a passear o seu cão na praia deserta, num extenso areal e junto ao rochedo. De repente ouviu um grito vindo de dentro da rocha. O cão foi ladrar e X foi olhar. Uma gruta, havia uma gruta… A entrada era mínima e X tem pânico deste tipo de apertos. O grito transformou-se num gemido prolongado e sofrido. O que fazer? De repente, o cão desapareceu pelo pequeno buraco. X gritou-lhe o nome várias vezes, mas só ouvia os latidos cada vez mais longínquos. Olhou em volta mas não havia vivalma. O que fazer? O pânico instalava-se, mas X tinha mesmo que entrar nas entranhas da rocha.
Passar a entrada já foi difícil e o buraco parecia que se encolhia a cada metro. A falta de ar começava a dar sinal, assim como o terror absoluto. X não gosta mesmo de se sentir apertado. Gritou pelo cão, ouviu latidos muito ao longe. Curiosamente os gemidos tinham parado.
Andar para trás era agora tão ou mais difícil que continuar em frente. Era preciso mais esforço e X esforçou-se e muito. Já não tinha muitas forças para gritar pelo cão e o som parecia que saía abafado para que só ele o pudesse ouvir.
De repente, X ficou preso. Não conseguia mover-se um milímetro sequer. Pensou que era assim. Que maneira mais idiota de ser assim… Que estúpido foi em meter-se no buraco. O ar começava a escassear. A respiração era mais ofegante. X estava quase adormecido.
Num repente surgiu o seu cão. Trazia arrastado um corpo feminino, também ofegante. Perguntou quem estava ali e X respondeu a custo.
O problema agora era outro, pois o corpo de X tapava a passagem para o exterior. O seu cão começou a ganir, percebendo que todo o esforço tinha sido em vão. Mas estava ao pé do seu dono e isso era o mais importante.
As horas passaram. Muitas. Depois foram minutos. O cão lambeu o dono e o dono chorou.
Mas por pouco tempo.
04.28.08
herói
X tem como super herói preferido um tal de homem aranha. Desde tenra idade que é assim. E sempre teve um desejo que todos os petizes têm, ou seja, super poderes fantásticos e especiais, nobres e poderosos. Voar era um deles, atirar bolas de fogo com as mãos outro. Mas o que mais queria era inventar a armadura que o identificaria imediatamente e o diferenciaria de todos os outros super heróis.
Numa altura em que 20 trolhas entram numa esquadra para bater num coitado, o carjacking aumenta, o roubo de caixas multibancos é fácil e dá milhares, o alberto joão até que poderia candidatar-se nacionalmente e o governo rouba todos os contribuintes descaradamente, X achou que estava na altura para costurar o seu fato e ir à luta.
Depois de tudo pensado, mesmo pedindo ajuda a um costureiro profissional para esconder a barriguita, faltavam apenas os super poderes.
Não era fácil obtê-los, pois X não nasceu com eles, não foi picado por nenhum bicho e não veio de nenhuma galáxia distante. Então teve a ideia que lhe iria conferir todos os poderes possíveis: juntar-se ao mundo do futebol.
A dificuldade só é uma agora: escolher o lado dos dirigentes ou dos árbitros. Todos eles têm super poderes…
herói
X tem como super herói preferido um tal de homem aranha. Desde tenra idade que é assim. E sempre teve um desejo que todos os petizes têm, ou seja, super poderes fantásticos e especiais, nobres e poderosos. Voar era um deles, atirar bolas de fogo com as mãos outro. Mas o que mais queria era inventar a armadura que o identificaria imediatamente e o diferenciaria de todos os outros super heróis.
Numa altura em que 20 trolhas entram numa esquadra para bater num coitado, o carjacking aumenta, o roubo de caixas multibancos é fácil e dá milhares, o alberto joão até que poderia candidatar-se nacionalmente e o governo rouba todos os contribuintes descaradamente, X achou que estava na altura para costurar o seu fato e ir à luta.
Depois de tudo pensado, mesmo pedindo ajuda a um costureiro profissional para esconder a barriguita, faltavam apenas os super poderes.
Não era fácil obtê-los, pois X não nasceu com eles, não foi picado por nenhum bicho e não veio de nenhuma galáxia distante. Então teve a ideia que lhe iria conferir todos os poderes possíveis: juntar-se ao mundo do futebol.
A dificuldade só é uma agora: escolher o lado dos dirigentes ou dos árbitros. Todos eles têm super poderes…
04.27.08
tristeza
Hoje a aventura de X é bastante triste. Portanto X ficou num estado que nem vai escrevê-la.
tristeza
Hoje a aventura de X é bastante triste. Portanto X ficou num estado que nem vai escrevê-la.
04.25.08
sempre!
Hoje é Verão, depois da calamidade inf(v)ernal da passada semana. Portanto, feriado e tudo na praia, graças a deus, pois na verdade Lx parece uma cidade decente com lugares vazios por todo o lado.
A aventura de hoje poderia ter sido várias:
1ª X ia a passear o seu quadrúpede canídeo quando uma rapariga já despida para o Verão se lhe aproxima, chega-se ao bicho e disse-lhe “opá, que quiduxo!”. X reflectiu, reparou na pele desnudada e deveria ter dito aquilo que qualquer macho nesta situação responderia e aproveitaria. Mas não. Era a hora do bicho…
2ª X começou a ver imensos vizinhos, daqueles que até são lojistas na zona, com cravos vermelhos. Mesmo muito vermelhos, tipo de plástico. Depois pensou nas palavras do Cavaco sobre o estado actual da ignorância sobre a data e a sua importância. Preparou-se com afinco para ir ver o que se passava nas manifs, mas estava demasiado calor. Ficou em casa, à sombra.
3ª X preparou-se para iniciar o seu primeiro romance. Teve a ideia, mas os treinos livres da Formula 1 e depois os a sério na GP2 onde o nosso Álvaro Parente conquistou o segundo lugar para a sua primeira corrida, fizeram despertar em X aquela bandeira nacional que nunca chegou a comprar a mando do brasuca. Foi-se a ideia do romance, ficou a vontade.
4ª X preparou-se com afinco para o post de hoje, com 25 aventuras. Mas depois reflectiu. Muito. E chegou a uma marosca: das 25 passou só a estas quatro, visto que quatro é o número do mês do dia 25.
Bom resto de feriado para quem o tem e boas horas extraordinárias, para quem ainda as recebe.
sempre!
Hoje é Verão, depois da calamidade inf(v)ernal da passada semana. Portanto, feriado e tudo na praia, graças a deus, pois na verdade Lx parece uma cidade decente com lugares vazios por todo o lado.
A aventura de hoje poderia ter sido várias:
1ª X ia a passear o seu quadrúpede canídeo quando uma rapariga já despida para o Verão se lhe aproxima, chega-se ao bicho e disse-lhe “opá, que quiduxo!”. X reflectiu, reparou na pele desnudada e deveria ter dito aquilo que qualquer macho nesta situação responderia e aproveitaria. Mas não. Era a hora do bicho…
2ª X começou a ver imensos vizinhos, daqueles que até são lojistas na zona, com cravos vermelhos. Mesmo muito vermelhos, tipo de plástico. Depois pensou nas palavras do Cavaco sobre o estado actual da ignorância sobre a data e a sua importância. Preparou-se com afinco para ir ver o que se passava nas manifs, mas estava demasiado calor. Ficou em casa, à sombra.
3ª X preparou-se para iniciar o seu primeiro romance. Teve a ideia, mas os treinos livres da Formula 1 e depois os a sério na GP2 onde o nosso Álvaro Parente conquistou o segundo lugar para a sua primeira corrida, fizeram despertar em X aquela bandeira nacional que nunca chegou a comprar a mando do brasuca. Foi-se a ideia do romance, ficou a vontade.
4ª X preparou-se com afinco para o post de hoje, com 25 aventuras. Mas depois reflectiu. Muito. E chegou a uma marosca: das 25 passou só a estas quatro, visto que quatro é o número do mês do dia 25.
Bom resto de feriado para quem o tem e boas horas extraordinárias, para quem ainda as recebe.
04.24.08
mar
Ontem X teve uma aventura com o seu PC e que aventura foi. O PC pede desculpa pela marosca e por ter obrigado X a gastar tempo precioso com as suas entranhas.
Mas hoje é um novo dia e para isso, X vai contar a sua primeira aventura no mar.
Imaginem X no mar, daqueles sem terra à vista, escuro e revolto com vagas de sete metros. Bem vistas as coisas, X deveria estar à deriva numa qualquer embarcação ou, pior, dentro de água lutando pela vida. Vamos então seguir esta segunda hipótese.
X está a lutar pela vida num mar escuro, revolto e sem terra à vista. Começa a ficar cansado, dormente pelo frio, mesmo sendo um excelente nadador. A forte ondulação não lhe permite fazer a posição de “homem morto”. Engraçada esta situação… não pode fazer de homem morto, mas se não descansar nessa posição será um homem morto.
De repente, e para piorar a situação, algo lhe toca nos pés o que o enche de medos e receios. Uma imensa lula surge-lhe pela frente, vinda das profundezas deste mar, e olha-o com um olho gigante, preparando-se para puxar X para o fundo do mar. X, que comeu tanta lula durante a vida, nunca imaginou que a sua terminasse deste modo.
Entretanto, o bicho já tinha um tentáculo enrolado nos seus pés e X começou a sentir a sua força.
Mas num repente, apareceu um fulano num turbilhão de água e nuvens que se misturavam com a sua imensa barba e corpo. Era o Adamastor e queria salvar X, pois desejava limpar o seu bom nome para sempre destruído às mãos de um poeta.
A luta foi terrífica, quase hollywoodesca e, finalmente, a lula lá soltou X e fugiu com quantos tentáculos tinha.
O Adamastor, cansado, ainda tinha um recado para X: “vai lá dizer aos homens que, afinal, eu sou uma boa personagem” e, tal como surgiu, desapareceu.
X ficou imensamente feliz… mas depois deu-se conta que estava exactamente na mesma posição anterior a toda esta peripécia.
mar
Ontem X teve uma aventura com o seu PC e que aventura foi. O PC pede desculpa pela marosca e por ter obrigado X a gastar tempo precioso com as suas entranhas.
Mas hoje é um novo dia e para isso, X vai contar a sua primeira aventura no mar.
Imaginem X no mar, daqueles sem terra à vista, escuro e revolto com vagas de sete metros. Bem vistas as coisas, X deveria estar à deriva numa qualquer embarcação ou, pior, dentro de água lutando pela vida. Vamos então seguir esta segunda hipótese.
X está a lutar pela vida num mar escuro, revolto e sem terra à vista. Começa a ficar cansado, dormente pelo frio, mesmo sendo um excelente nadador. A forte ondulação não lhe permite fazer a posição de “homem morto”. Engraçada esta situação… não pode fazer de homem morto, mas se não descansar nessa posição será um homem morto.
De repente, e para piorar a situação, algo lhe toca nos pés o que o enche de medos e receios. Uma imensa lula surge-lhe pela frente, vinda das profundezas deste mar, e olha-o com um olho gigante, preparando-se para puxar X para o fundo do mar. X, que comeu tanta lula durante a vida, nunca imaginou que a sua terminasse deste modo.
Entretanto, o bicho já tinha um tentáculo enrolado nos seus pés e X começou a sentir a sua força.
Mas num repente, apareceu um fulano num turbilhão de água e nuvens que se misturavam com a sua imensa barba e corpo. Era o Adamastor e queria salvar X, pois desejava limpar o seu bom nome para sempre destruído às mãos de um poeta.
A luta foi terrífica, quase hollywoodesca e, finalmente, a lula lá soltou X e fugiu com quantos tentáculos tinha.
O Adamastor, cansado, ainda tinha um recado para X: “vai lá dizer aos homens que, afinal, eu sou uma boa personagem” e, tal como surgiu, desapareceu.
X ficou imensamente feliz… mas depois deu-se conta que estava exactamente na mesma posição anterior a toda esta peripécia.
04.22.08
topo
X inventou a fórmula para uma sociedade perfeita, em que todos ficam a ganhar, onde não há lugar para inveja, ataques pessoais ou profissionais, de vão de escada ou labirínticos.
X ainda não tem a patente, mas resguardou esta sua ideia nos confins do seu cerebelo.
Contudo, depois de pensar um pouco, achou por bem democratizar a sua fórmula aos leitores das suas aventuras diárias.
É fácil, será barato e daria milhões.
Cá vai:
Há o ditado que diz que tudo o que sobe, desce. Há a máxima que garante que quanto mais se sobe maior a queda. Então, porque não assumir que, uma vez no topo, ninguém ou nada poderá caír?
Assim dar-se-ia espaço de manobra a todos quantos não conseguem subir, garantindo uma ascenção facilitada, dependendo logicamente da inteligência dos requerentes e abrindo oportunidades várias e múltiplas.
Assim todos chegariam ao topo.
E que bom seria.
04.21.08
papelada
X aventurou-se às portas do céu para pedir uma audiência a quem manda de verdade. Depois de esperar na longa fila, chegou a sua vez e, à frente de D perguntou qual era realmente o sentido da vida. D, coçando a sua longa e farta barba, respondeu que tinha que reunir com os consultores, pois era uma questão muito difícil e que havia algumas teorias sobre o assunto. Prometeu a X que lhe enviaria a resposta num prazo máximo de 30 dias úteis.
X ficou chateado e decidiu descer as escadarias para pedir uma audiência com D2. A fila ainda era mais longa mas, depois de muito tempo, lá chegou a sua vez. À questão de X, D2 ficou mais vermelho e coçou durante algum tempo a sua barbicha. Também não tinha resposta imediata, pois havia várias teorias. Mas tentou descansar X afirmando que uma resposta chegaria via CTT num prazo de 30 dias úteis.
X foi para casa e aguardou um mês. No último dia, chegaram duas cartas, contudo nenhuma trazia uma resposta. Em vez dela, duas comunicações que respondiam que a questão de X tinha sido arquivada…
04.20.08
cem
X ia a passear numa ruela quando reencontrou o seu amigo mago que lhe tinha concedido três desejos tempos atrás. Depois dos cumprimentos e saudosa euforia, X perguntou-lhe o que andava a fazer por ali.
A resposta foi uma surpresa “olha X, tu realmente tens uma sorte dos génios: vim encontrar a centésima pessoa a quem darei novos desejos. E imagina quem é? Tu.”
X ficou mudo de espanto pois a sorte parecia tê-lo abandonado nos últimos anos. “Incrível… e agora?”. “Agora tens que escolher três desejos e que cada um contenha 100 movimentos, ideias, brincadeiras ou o que quiseres.”
“Porquê 100?” inquiriu um X ansioso mas já preocupado em conseguir tornar esses três desejos em 300 mais pequenos. A resposta do mago foi muito simples “Porque esta é a tua centésima aventura neste blog!”.
X riu-se e pediu três minutos para pensar.
“Ok, acho que já tenho o primeiro: que cada amante dê 100 beijos na sua paixão”.
“Ó X, isso é um bocado fatela, mas tu é que sabes” gozou o mago e com um “puff” de poeira mágica, o desejo estava concedido.
“O segundo é mais egoísta, mas se for possível poderei ajudar muita gente… quero 100 milhões de euros”
O mago gostou deste pedido, pois sabia que X era homem de palavra e que gostava de ajudar os que precisavam de alguma sorte na vida. Num repente, e com um trovão, estava uma mala ao lado de X.
X sorriu, mas não tinha mais ideias para concretizar 100 vezes. Pensou, pensou e, num repente, virou-se para o mago e afirmou que já sabia qual seria o terceiro desejo.
O mago esperou, enchendo o peito de ar mágico e preparou-se para este seu último passo.
“Quero que me venhas visitar 100 vezes, três por ano até um de nós desaparecer!”
O mago deu uma forte gargalhada e respondeu que sim, que o faria. “A tua vontade será feita e terás sempre seis desejos por ano. Mas não abuses. E proponho uma condição: nunca poderão ser repetidos!”
Com um tufão, desapareceu, deixando X e a sua mala na ruela. Logo a seguir, X correu para a sua paixão para lhe dar 100 beijos. Algo fazia com que ele corresse mais depressa sem se cansar. E muito correu X.
04.19.08
grafonolas
X passeava por uma Feira da Ladra já quase terminada. Mais uma vez não tinha conseguido levantar-se de madrugada, mas mesmo assim decidiu meter-se na já pequena confusão. X adora este largo e nem se importaria de mudar para aqui, mas as Terças e Sábados são, realmente, uma confusão.
X vasculhava por entre as bugigangas e outras tralhas quando se deparou com uma grafonola antiga, linda, de madeira e metais dourados. Perguntou o preço e riu-se da resposta. O dono, que já queria era ir embora sem mais aquele peso, acertou para meio o preço e X aceitou.
Ao chegar a casa reuniu alguns vinis originais que tinha comprado a um primo, ainda pesados e quebradiços como vidro. Colocou a grafonola no centro de uma mesa, pousou o disco, deu à manivela e baixou a agulha.
De repente, com a música, a grafonola debitou uma luz que projectava os intérpretes e a respectiva orquestra como se de um filme antigo se tratasse.
X ficou atónito. Repetiu a operação com os outros discos e a grafonola continuava a projectar na parede todas as ambiências vividas nessas gravações. X convidou alguns amigos e nenhum quis acreditar, pois todos sabem que X é um gadget freak e teria feito da grafonola um projector de video. Mas e as imagens? Saíram todos discutindo youtubes e afins, deixando X sózinho sem saber se ria ou chorava.
No dia seguinte dedicou-se à compra de vinis antigos. E foi encontrando raridades. Tinha encontrado o seu tesouro. E de tesouro em tesouro foi descobrindo sorrisos de quem cantava, dos ritmos vários das orquestras, dos magníficos solos dos músicos.
Era assim que devia ser a música hoje.
04.18.08
temporal
Para aproveitar o temporal que se tem sentido e vivido, principalmente em Lx, há inúmeras actividades que se podem fazer. X pensou e escolheu uma das possibilidades. Usando o seu guarda-chuva tipo golfe, subiu ao telhado e abriu-o. Num instante estava a voar a 120 km/s hora, tenho ultrapassado o rio sem pagar portagem e chegar ao Barreiro em menos de 5 minutos. Aí bebeu um copo, enxaguou-se e preparou-se para outra viagem. Chegou a Porto Brandão, comeu uns belos grelhados, depois muniu-se de uma espécie de leme, pois o caminho de regresso, contra o vento, teria que ser feito aos ziguezagues. Assim o fez, chegou à sua cidade e, de colina em colina, foi avisando os bombeiros e a protecção civil das eminentes derrocadas de prédios abandonados e árvores em mau estado.
Deu-se satisfeito pelo trabalho realizado e, tal e qual a Mary Poppins, desceu com suavidade até à entrada do seu prédio. Estava na hora de passear o cão. Atou-lhe uns cintos e ambos partiram a voar para os melhores jardins da cidade.
04.17.08
duas vidas
X estava entusiasmado a fazer o seu próprio robot, quando leu as novidades tecnológicas respeitantes a peles sintéticas e materiais mais leves que os que estava a utilizar.
X queria estar em dois lugares ao mesmo tempo e o robot seria a solução ideal. Foi ao mercado, comprou as novas ligas, peles e demais acessórios e recomeçou.
Alguns meses passaram com trabalho árduo, pois X não tinha ninguém que o ajudasse neste processo quase secreto, até que o robot ficou pronto, quase semelhante e quase perfeito.
Faltava apenas juntar-lhe toda a informação indicada para as tarefas a cumprir e bastou para isso encher a memória dinâmica com os dados necessários.
Quando chegou o primeiro dia de trabalho do robot, X tropeçou nuns cabos, bateu com a cabeça e ficou imóvel num coma profundo. O seu robot tratou dele, deitando-o e ligando a máquinas de vida artificial que construíu num instante. Sabia quais as suas funções e a principal seria estar num outro local diferente do de X. Então o robot começou a construír um novo robot que ficou quase semelhante e quase perfeito.
X ainda está ligado às máquinas, mas vive duas vidas em diferentes pontos do país.
04.16.08
fado
X comprou uma guitarra portuguesa. Ou será portugueza devido ao tempo que tem? Acontece que X nunca soube tocar guitarra, quanto mais uma nacional. Mas tem o espírito. Encontrou uma fadista rebelde que nada percebia de fado. Era por isso que era rebelde. X, entretanto, sacou uma data de malhas de cds e mp3 de guitarra portuguesa. Grandes solos, grandes virtuosismos, grandes acordes, grandes malhas. No seu estúdio pessoal, a que chamam homestudio, gravou e editou tudo como se fossem canções. A fadista vinha ensaiar e olhava com espanto para a extrema técnica de X, ou seja um fabuloso playback que ensaiou até os dedos ficarem em ferida.
Junto dos amigos tiveram um enorme sucesso. Até que foram convidados para fazer noites numa conhecida casa de fado em Alfama.
Tudo estava sob controle, pensou X. Ligou à tomada o seu gravador digital, sentou-se na cadeira e reparou que não havia microfone para a sua fadista. Nem para a sua guitarra. Ausentou-se daquilo que chamam palco para ir falar com o técnico de som e alarmou-se pelo facto de ele lhe ter dito que era tudo a capella.
X ficou angustiado, mas não podia andar para trás. Informou a fadista das condições e preparou-se com as unhas postiças.
De repente tudo começou e X, devido a tanto ensaiar o playback na perfeição, conseguiu tocar tudo como um verdadeiro guitarrista.
A sua fadista não percebeu a diferença, nem as dezenas de convivas que aplaudiram de pé o último encore.
04.15.08
medo
Esta é a aventura de um homem que tem medo. Medo de perder, medo de ficar, medo de ir. Medo de tudo e de todos. A vida dele é, por vezes, uma autêntica rotunda com várias saídas em que ele se mantém a dar voltas.
Para ele, qualquer saída pode ser traiçoeira, pode ocasionar problemas, pode mudar para sempre a sua vida. E, por isso, vai continuando a dar voltas na rotunda, provocando uns acidentes aqui e ali, estafando-se com a concentração de evitá-los contra ele próprio, roendo as unhas até que tome uma decisão.
Este homem, num dia destes, tomou uma decisão. Foi por ali, onde a seta indicava o percurso. Foi ao desconhecido e não sabia o que iria encontrar.
Quando chegou ao destino, encontrou algo de bom, quase com a pureza de um limão. Viu um futuro, aceitou os desvarios.
Mas, passados uns tempos, eis que chegaram novamente as dúvidas, os medos e os próprios confrontos.
Conseguiu resolvê-los um a um, mesmo alguns mais difíceis. E agora que o fez só tem um outro e novo medo: o de ter perdido alguma coisa de bom na sua vida por causa dos medos que a sua vida continha..
04.14.08
aventura
Uma aventura pode ser vivida sem o sabermos, pode acontecer sem a percebermos, pode dar-se sem a notarmos. Mas é sempre uma aventura. Ao saírmos de casa podemos conhecer alguém que nos vai ser importante, podemos ser polícias atrás de ladrões, podemos divertirmo-nos sem estar à espera ou desiludirmo-nos com o que tanto ansiávamos.
Uma aventura é sinal que se está vivo. Ou, no mínimo, acordado. É uma aventura pegar no carro e ir por aí, como também o é ficar em casa e escrever um poema. É tentar um prato novo para o saboreamos a dois ou a muitos. É beber um pouco mais que o necessário e ficar mais liberto das convenções sociais. Uma aventura é, acima de tudo, liberdade. Mesmo nos tempos em que ela nos foge. Uma aventura é uma aventura, já dizia um filme.
E continuará a sê-lo enquanto quisermos. E temos forçosamente de querer.
Senão somos uns desafortunados ou desventurados. E dessas histórias já estamos fartos.
04.13.08
ódio & paz
X já conheceu muita gente doente. Essa gente também o infernizou, colocando um virus no seu sistema nervoso central. Esse virus ataca a razão, destaca a preocupação e desmente a verdade. É um virus tramado que permite que quem o colocou saia mais ou menos impune das porcarias que vai fazendo ao longo da sua medíocre existência. X tem, contudo, um amigo que faz colecção de anti-virus. E, com ele, foi-se curando. Ao ponto de nem se chatear quando alguém doente, pela calada da noite, tenta destruír pertences que julga que pertencem a X.
Este amigo, para além de ser conhecedor da razão, é um ímpar que nos abre os olhos, que nos diverte com o desconhecimento das pessoas que têm a virose e que nos faz sorrir com pena por e de quem nos causa o mínimo transtorno.
X conheceu este amigo há muitos anos, na altura em que tudo era simples e conciso. E está a reaprender com ele essa antiga verdade e vontade de viver a vida. De uma forma simples, sem calafrios e muito menos preocupações menores.
A verdade vem sempre ao de cima. O desconhecimento, a inveja e a tristeza também.
Este amigo de X, que prefere ficar no anonimato para quem nunca terá a possibilidade de o conhecer, é mais que um deus. É mais que uma ordem. É mais que uma vontade.
É apenas a razão e, mesmo rezingão, diverte-nos quando nos sentimos violados e fornece-nos algo que não tem preço: uma nova aventura. Mesmo de cinco minutos que é, afinal, o tempo que o mal tem para se fazer e se dar a reconhecer.
04.12.08
vingança
Esta é a aventura de uma pessoa que nada tinha na vida a não ser uns quantos momentos de felicidade que conseguia quando se vingava. Vingava-se de tudo e todos, de todas as formas e feitios. Mas mesmo na vingança, em que se tem obrigatoriamente que se ser inteligente, não o era. E toda a gente sabia de quem era a autoria de certas coisas um pouco fora do comum.
A história é triste. Mal nasceu, vingou-se dos nove meses de encarceramento, fazendo logo um longo xixi na barriga da mãe. Os tempos de jovem foram complicados, sem nunca saber a que grupo pertencia. Depois, já adulta, escolheu a máxima da Coca-cola, mas se se estranhava no início, não se entranhava nos seguintes. E depois, odiando-se a si própria, vingava-se nos outros.
Quando envelheceu, teve alguns problemas de relacionamento consigo própria até que inventou um companheiro invisível. Falava e conversava com ele, mas a pouco e pouco, até este personagem inexistente se começou a fartar dela. As discussões aumentaram, os gritos também e ninguém a conseguia ajudar. O golpe final foi dado quando o companheiro invisível, farto de loucuras, também se tornou vingativo e foi-se embora para sempre.
04.11.08
chat
Y e os seus grandes comparsas T e J trabalham juntos na mesma sala e combinaram um jantar só de homens e noite a condizer. Iniciaram as conversas pelas 19h, fazendo tempo para irem jantar, o que aconteceu por volta das 21h. As discussões animadas e os sorrisos francos de amizade contagiavam as outras mesas e, por sinal, as mulheres das outras mesas. Eles repararam, mas um trato é um trato e depois de bem regado é quase uma jura eterna. Saíram do restaurante pela meia noite e começaram a circundar os bares da zona, acabando por tomar outra decisão e escolher uma zona mais calma e com mesas vazias para continuar as discussões que versavam temas aleatórios e aventuras várias.
Já eram 4 da manhã quando perceberam que se tinham que levantar cedo para a jorna do dia seguinte. E despediram-se com um até já, o que ocasionou algumas gargalhadas logo seguidas por sentimentos de culpa.
Pelas 9 chegaram ao emprego. disseram bom dia e agarraram-se aos computadores.
Cada um abriu o MSN e foi por aí que falaram de todas as peripécias da noite anterior.
Na sala reinava um silêncio quase absurdo…
04.10.08
amanhã
X acordou com o seu braço biónico sem energia. Deslocou-se às urgências da fábrica-hospital mais próxima da sua área de residência, tirou uma ficha com o outro braço e sentou-se sabendo que iria ser um dia perdido. Com o seu olho gravador/retransmissor, decidiu ver alguns programas tv que tinha gravado enquanto dormia, séries muito antigas como o Heroes e o House fizeram-no reviver as memórias de outros tempos e outro mundo.
De facto, os jogos olímpicos de Pequim no início do Séc XXI despoletaram toda uma guerra de palavras e acções de protesto que rapidamente se transformaram na grande 3ª guerra. A China foi varrida do mapa e muitos dos seus sobreviventes fizeram plásticas para se assemelharem aos europeus, com um medo terrífico de serem descobertos e degolados em praça pública. Mas isso foi há muito tempo. A robótica já extremamente avançada a meio dessa primeira década, curiosamente liderada por portugueses, ajudou quem perdeu membros. Os opiácios quem perdeu a razão e toda uma nova ordem político-cultural quem perdeu o país.
Da noção de Big Brother passou-se para Big Order e o estado de sítio era permanente. O dia nunca mais se viu devido às nuvens de chuva ácida que, desde as bombas, pairavam na biosfera.
Não havia controlo polícial, pois em todos os sobreviventes foi colocado um chip que assinalava tudo o que faziam e por onde andavam. A população não estava envelhecida, pois os mais velhos não tinham resistido à guerra nem os poucos sobreviventes posteriormente ajudados. Pílulas de vitamínas várias e shots de antibióticos processados geneticamente, faziam com que quem tinha 30 anos no dia final, continuasse sempre com 30 anos.
X tinha pouco mais de 40 e por pouco se safou de ser considerado inútil para a sociedade. O seu emprego forçado foi o de tocar no botão de alarme na Grande Sala de Controlo da Vontade e Existência se algo acontecesse.
Tudo estava perfeitamente organizado. E foi aí que X teve acesso a documentos secretos, um pouco por sorte devido à interferência do seu chip informativo com o de um General que passou muito próximo dele e que ia a caminho de um check-up. Um dossier que se intitulava “Resistance” ficou memorizado no chip do cerebelo de X.
E a aventura humana recomeçava.
04.09.08
luta
X ouviu o rugido. Vestiu a armadura e atirou-se como o mais valente dos homens. Estava mesmo no centro da besta que desferia golpes com uma força incrível. Levantava-o, fazia voar e rodopiar, o barulho era ensurdecedor. Mas X batalhava, tinha que pôr fim à besta. Tentava travá-la, mas ela continuava na sua fúria, galgando quilómetros e deixando um enorme rasto de destruição. X estava cada vez mais cansado mas continuava a abrir os braços, a tentar travá-la.
O barulho era cada vez maior e a besta cada vez lhe atirava com mais coisas, detritos, árvores, tudo. Golpes atrás de golpes. A armadura de X estava lentamente a desintegrar-se e, num repente, tudo parou. X, caído no chão, deixou que o cansaço se apoderasse dele durante um bocado e deixou-se embalar pelo sono profundo.
Quando acordou olhou em volta. Parecia o fim do mundo. Mas tinha a certeza de ter morto a besta.
04.08.08
alagados
Esta é a aventura de uma Lisboa alagada. Chove torrencialmente desde Abril de 2008. Apenas passaram dois anos para metade de Lisboa ser engolida pelo Tejo. Os carros danificados amontoam-se para os lados de Alenquer e ainda há muitos dentro de garagens submersas. Os rés-do-chão e muitos 1ºs andares deixaram de ser habitações. Todo um programa nacional de urgência foi posto em acção e em causa, pois logicamente falhou.
X, como muitos, vivia e vive acima desta tragédia. Mesmo assim, comprou uma barcaça com um motor de 12 cavalos que lhe serve perfeitamente para as deslocações mais complicadas. Tudo agora é feito em casa, através da internet. As empresas optaram por esta solução em vez de obrigarem os empregados a deslocações quase impossíveis numa base diária. De qualquer forma, os novos ricos serão sempre novos ricos e os BMs e os Mercs e os Jaguares e etc, são agora grandes lanchas com motores de 250 cvs a abrirem por entre as ruelas e avenidas de Lisboa.
De Carjacking passou-se agora para a pirataria pura, a que deram a designação de boatjacking.
O problema é a alimentação. Passámos a importar quase tudo e a base são agora algas e peixe o que fez com que a obesidade a que se assistia em Portugal desaparecesse.
Santarém perdeu-se para sempre, assim como Alcântara e parte de Algés, a Expo e quase metade da zona ribeirinha.
Mas no meio de tudo isto, alguém ainda encontra motivos de felicidade e prazer, como andar num barco a remos com a sua amada protegida por um guarda-chuva.
04.07.08
correntes
Num dia ventoso como o de hoje, X decide sempre ver a sua cidade numa outra perspectiva. O início da viagem terá que ser sempre num miradouro e, felizmente, existem dois ao pé da casa de X. Agarra num lençol de bom linho, vai até ao miradouro, ata-o a várias partes do seu corpo, desde os pulsos aos tornozelos e depois é só subir para o parapeito abrir os braços e deixar o vento fazer o resto.
X adora Lisboa vista do céu, é uma cidade que esconde muitos jardins interiores, muitos segredos, muitas ruelas quase secretas. É bom vê-la assim e tirar uns quantos retratos mentais.
O problema destas viagens é sempre o mesmo, a descida. Por muito que se tente retornar ao lugar da partida, as fortes correntes das sete colinas pregam-nos valentes partidas e já não é a primeira vez que X atravessa todo o rio e abraça o Cristo Rei. O caminho de volta torna-se penoso. Mas quando consegue aterrar ao pé de casa, tudo corre bem.
Ultimamente X tem visto mais pessoas com um lençol de bom linho atado ao corpo.
04.06.08
organização
X é um bocado desorganizado e pouco arrumado nas imensas tralhas que tem em casa. A sua última grande aventura aconteceu há pouco tempo. Um aparelho estragou-se, X encontrou com facilidade a garantia e factura de compra e eis que quando embrulha o aparelho para o ir entregar não descobre a factura. A aventura começa aqui. O papel estava mesmo aqui, guardado porque ia ser necessário. É apenas uma folha A4. Bolas, tem que estar aqui pois nunca saiu daqui.
X, angustiado, começou a ver todas as prateleiras, gavetas, caixas onde mete mais papéis, dentro de caixas de produtos e caixotes de diversificados. Nada, o papel nunca mais apareceu e, pior, não pode culpar a mulher-a-dias, pois faz-lhe falta nem que seja uma vez por semana.
Esta aventura terminou com a reorganização de toda a papelada, gaveta por gaveta, estante por estante, caixa por caixa. Papel? Nem vê-lo.
04.04.08
céu e inferno
Uma das aventuras mais fantásticas do Mr. X foi, sem dúvida, a dupla entrevista de emprego para o céu e para o inferno. X era top no que fazia e interessava aos dois lados, pois as suas capacidades eram valorizadas em ambos os campos.
A primeira foi no céu, onde um arcanjo o esperava com mau temperamento pois o lugar também era por ele pretendido.Voou-lhe à frente indicando o caminho para a porta de S. Pedro que já estava impaciente pelos dois minutos de atraso.
” Ouvi dizer que que o seu livro preferido é Entre o Céu e o Inferno…” perguntou asperamente. X encolheu os ombros e anuíu. “Também ouvi dizer que um dos seus filmes preferidos é o The Prophecy, certo?”. X novamente encolheu os ombros num trejeito concordante.
S. Pedro, vociferante, gritou “Mas oiça lá, como é que o céu pode saber o que você quer, se este ou o inferno?”
Realmente, ambas as peças criativas abordavam esses grandes espaços mostrando o mal do céu e o bem do inferno.
X decidiu não responder e pediu a S. Pedro que colocasse essas mesmas questões ao patrão divino. S, Pedro, furioso, estancou esbracejando e espumando “Ok, Ok! Deixe-nos reflectir no seu curriculum vitae.”
O arcanjo desceu X até casa, numa noite bem escura para não serem vistos.
No dia seguinte, outro arcanjo veio ter com X na esperança de o levar à presença do diabo. X, que já tinha visitado um dos lados e desejando ser imparcial, concordou com o convite e lá desceram 1001 andares para o centro da terra num elevador muito especial.
De frente para Satanás, que não tem um porteiro, ouviu exactamente as mesmas questões sobre o livro e o filme. As respostas foram idênticas e Satanás, coçando a barbicha, fez um pouco de sapateado com os seus cascos bem tratados enquanto decidia o que fazer.
Finalmente, ofereceu a X um vencimento um pouco abaixo do dele “Sabe, politiquices”…
Do céu e ouvindo a conversa através de um telefone vermelho, atiraram-lhe com a mesma proposta mais senhas de gasolina.
X pediu um dia de reflexão.
Passeou no jardim com o seu cão, quando uma criança ao brincar ofereceu um malmequer ao cão.
X ficou contente, pois atrás da criança surgiu uma aflita mãe, belíssima e com tudo no lugar.
Sorriram um para o outro e passaram a tarde no jardim, sentados num banco a conversar, enquanto a filha brincava com o cão.
No dia seguinte X pediu mais um dia. E outro e outro e outro.
seriados
Em 24 horas, X atirou-se de um prédio e, que nem um herói, até se safou voando num bocadinho. Mesmo assim teve que ser submetido a uma operação plástica em Miami. Depois foi tatuar o corpo todo e foi preso nem sabe muito bem porquê. Dos 4400 prisioneiros desta prisão de alta segurança, conseguiu fugir com outros tantos e infiltrou-se numa equipa de investigação criminal. Era a melhor forma de apagar os seus passos. Contudo, gostava de embrulhar em celofane algumas pessoas mesmo más e retalhá-las largando-as no mar. Depois ia beber um copo a um bar onde só iam homosexuais femininas. Encantou-se com uma delas, que estava desesperada e que não era bem lésbica. Nesta altura começou a faltar o dinheiro e ainda tinha uma lista de maus acontecimentos de que se queria redimir. Apostou forte na venda de erva como sócio de uma bela mulher e mãe de família. O problema maior foi quando percebeu que as bombas nucleares andavam a explodir por todo o lado, menos numa pacata aldeia. Ele, que era um MadMan publicitário, tinha agora que gerir todo um escritório de advogados. Fê-lo tão bem que foi metido numa equipa de especialistas em encontrar pessoas desaparecidas. Mas foi numa dessas buscas que aterrou numa ilha e acabou por levar um tiro. Descobriram-lhe as ossadas e refizeram-lhe digitalmente a cara. Assim nunca seria um caso por terminar.
04.03.08
Play
X tem uma mãe velhota que até se pode considerar avó. Mas sempre foi uma lady muito à frente, mesmo que os feitios de ambos colidam em quase tudo. É uma forma de vida.
X, como filho pródigo, oferece à mãe aparelhagens Audio, televisores como deve ser, VHS para ela rever as viagens que faz e, mais recentemente um dvd para ela rever as viagens que faz.
Ora uma mãe teimosa é difícil de quebrar e em 10 anos, uma década portanto, X ainda não conseguiu ensinar à senhora o que é o Play, o Stop e o Eject, para não falar das outras capacidades técnicas dos aparelhos.
A mãe de X comprou dvds no outro dia e, repare-se, um deles foi com o Marlon Brando nú, com aquela cena da manteiga. “Na minha altura não se podia ir ver isto ao cinema”, explicou e foi aí que o dvd foi oferecido, pois ela pensava que podia vê-los no VHS.
X tenta há 10 anos explicar-lhe as funções mais básicas dos aparelhos, mas tudo lhe faz confusão. Mesmo apontando o Play do DVD que é igual ao Play do VHS que é igual ao Play do Hifi.
Ela escreve tudo em papelinhos, passo por passo e isso quebra a paciência de X.
Ok, a senhora diz que a cabeça já não é o que era… mas há aqui uma questão. O televisor é uma série especial e toda catita da Philips. Tem dois telecomandos; um muito simples com o volume o a mudança de canais e outra que se abre em três partes cheias de botões, comandos, controlos, o diabo a quatro. Pois é este mesmo que a senhora usa. Sabe ir à programação online, ao teletexto e a todo o lado. Mas continua sem saber para que serve um Play. Que, curiosamente, também lá está.
04.02.08
Cool
Há uma imensa diferença no aviso “mantem-te cool” para a exclamação “És cool!”
No outro dia, X foi saír com uns amigos. Jantou-se bem e já saímos meios cool.
Depois apeteceu-nos ir beber uns copos às discos da moda. Tudo cheio, nada cool.
Conseguimos uma mesa num bar que nem sabíamos que existia. E a conversa prolongou-se regada com irlândes. O problema é que uns ficaram mais cool que outros. E enquanto esses continuavam os seus quase monólogos, os restantes já estavam mais virados para o outro lado e desejavam ir embora.
“Isso não é cool!” responderam os que estavam cool. Entretanto um dos menos cool levantou-se e escorregou, partindo alguns copos e atiirando com a cadeira ao chão. O dono do estabelecimento acercou-se dele e disse-lhe “Epá, mantenha-se cool.”
Quase que houve uma reacção negativa a este pedido. E à medida que os insultos e empurrões aumentaram, já não se sabe por culpa de quem, a noite que tinha sido cool passou a não sê-lo.
E no dia seguinte a dor de cabeça prevista não foi mesmo nada cool.
04.01.08
Hollywood
MR. X CONVIDADO PARA SUBSTÍTUIR DEZENAS DE ARGUMENTISTAS DE HOLLYWOOD
LA Times, 1st April, 2000 and eight
Mr X was invited to take charge of enumerous scripts after the writers strike.
The work must be done till next week and he is free to choose his team.
He said to our correspondent in Lisbon, Spain, that he is thinking about it.
But certainly the answer can be positive.
This is the first time that USA ask help from a brazilian speaker after Diurón Barrozo.
apito
X acordou hoje bem cedo com o toque do rapaz dos CTT. Esperava mais convites das finanças, mas desta vez era um embrulho, pequenito mas com um papel dourado que raiava a foleirada.
X assinou o documento e ainda foi dormir mais um par de horas. Quando reacordou tinha-se esquecido completamente do pacotinho e quando o reencontrou ficou curioso. Ao abri-lo descobriu um apito dourado. “Raio de coisa”, pensou. Mas ali ficou com ele na mão. Decidiu apitar uma vez. Logo de seguida toca o telefone. Era L, a sua mais bonita namorada de sempre, que se queria reencontrar porque estava cheia de saudades e tal. X não recusou e marcou jantar para amanhã. Contudo, achou estranha demais a coincidência e decidiu apitar outra vez. O telefone tocou e era S, a segunda mais bonita namorada de X. Também queria colo e mimo, depois de tanto tempo. X pensou durante uns segundos e marcou jantar para depois de amanhã.
Agora estava mesmo convencido que o apito era dourado, não só pela cor, mas pelos factos.
Decidiu ir à rua e, num cruzamento complicado ao pé de casa, apitou. Todos os carros pararam para o deixar passar. X já nem estranhou e se um sopradela dava nisto, o que dariam duas sopradelas? Ao andar no passeio e sem qualquer objectivo em mente, soprou duas vezes. Um homem estancou o seu belo Alfa Brera, acercou-se de X, deu-lhe a chave, os documentos e uma declaração a dizer que oferecia a máquina.
X agora tinha outras razões e outros cuidados para soprar no apito dourado. O que aconteceria se fosse a um estádio de futebol, onde nunca esteve para ver um jogo?
Ora escolheu um do FCP contra uma equipa qualquer. Apitou três vezes e o árbito deu por concluída a jogatina, passavam 12 minutos do início.
Ficou atordoado e esquivou-se do guarda Abel mesmo a tempo de todo o Dragão ser destruído.
Depressa foi a correr para a Polícia, para entregar este apito manhoso.
Depois meteu-se no bonito Alfa e lembrou-se que tinha dois jantares, amanhã e depois. Voltou novamente à esquadra, pediu o apito só para uma sopradela final e longa. Entregou-o e saíu quando o telefone tocou. Era a L aflita pela possível desmarcação. Havia uma chamada em espera e era a S aflita também pela mesma possibilidade.
X entrou no modo conferência e, arriscando tudo, perguntou “e que tal juntarmo-nos os três?”.
As raparigas ficaram extasiadas e X não conseguiu evitar um longo e aberto sorriso.
Depois de X ter abandonado o norte, a Polícia também soprou. E hoje fala-se de 6 pontos e exclusão do Pinto.
03.31.08
aldeia
X, quando era puto, ia à terra do seu pai com restante família. Havia o largo principal e todos os irmãos do meu pai tinham aí o seu casarão. Era um largo perfeito, maravilhoso, onde havia uma bica de água e onde eram realizadas as festas típicas. Havia um castelo em ruínas de que X se salvou por pouco não caindo no poço escondido pela vegetação. Havia um riacho transparente onde X e os primos apanhavam peixe com um pau e um fio, sem isco. Havia a matança do porco, havia as festas em torno dela, havia carroças que levavam o proveito da vindima e em que X mais um primo se empoleiravam a comer uvas. Toneladas de uvas. Havia burros e lagares.
A aventura de X tem a ver com um desses burros. Havia o mais velho, lento, cansado e grande e o mais novo, mais pequeno e muito rápido. Era nesse que as boas gentes da terra montavam X, enquanto o velho, coitado, lá ia levando com carregos em cima. Num desses dias, o burro mais novo assustou-se com qualquer coisa e largou a correr pela estrada de pó. X ia montado nele, todo contente e vaidoso. Parecia um nobre cavaleiro e ria-se até à exaustão com a adrenalina que até aí era desconhecida para ele. O problema é que o burro não parava e fugiu para longe.
Sempre disseram a X que os burros só sabiam um caminho que era o para casa. Ora o burro estava cansado, a noite surgia e X começava a ficar ora assustado, ora com fome.
Finalmente o burro lá se decidiu tomar o caminho de volta e, na memória de X, passaram horas até que ele entrasse na terra e fosse comer ao seu manjedouro. X, aliviado, nem notou que a aldeia estava vazia, pois toda a gente tinha ido em busca dele próprio. Foi para dentro dessa cozinha, viu leite e queijo e bebeu e comeu.
Depois desceu a ladeira que o levava para casa e, mal sabia ele, para a cama durante uns três dias devido a febres altas e outras coisas que o leite de cabra e o queijo foram os responsáveis.
X não sabe porque se lembrou disto. Talvez seja das uvas que está a comer. Ou talvez porque está a ficar menos jovem.
03.30.08
invisível
Esta é a aventura de W, um homem que sempre foi fascinado pela imagem, tanto animada como retratada. W tinha algumas posses desde pequeno e comprava sempre a última camcorder ou a mais recente camara fotográfica. Em todas as festas era ele quem filmava. Em todos os locais era ele quem fotografava. Tinha centenas de horas gravadas com amigos, trabalhos profissionais e até alguns esboços para filmes. As gavetas cheias com rolos de 35mm, polaroids e cartões de memória.
W tinha agora uma idade já avançada e sabia que não duraria muito mais tempo. Portanto, lembrou-se de organizar todo o seu espólio imagético e fazer um album com a vida dele. Começou nas primeiras coisas e reparou que não aparecia em nehuma foto e em nenhuma filmagem. Foi procurando durante dias, mas nada. W pura e simplesmente não existia.
Para um homem que adorava imagens, o choque foi profundo. W não tinha imagem, não existia e, por conseguinte, a imagem da sua pessoa depressa seria esquecida.
W ficou triste, mas já não havia nada a fazer. Reuniu albuns com as imagens dos amigos e enviou-os pelo correio como oferendas.
Depois fechou os olhos para descansar, mas nunca mais acordou.
No seu velório, todos os amigos apareceram e, por incrível que pareça, todos tinham fotografias e imagens com ele, tiradas por outras máquinas que estavam no mesmo grupo. Depositaram tudo ao lado dele, dentro do caixão.
W ficaria feliz se as visse.
03.28.08
hipnose
X hipnotizou-se a ele próprio, com a ajuda do espelho do quarto de banho. Fez regressão, entrou na barriga da mãe, foi feito antes de ter morrido de velho aos 80 anos.
X tinha sido antes de X um homem daqueles que andava com o cinema às costas, numa velha carrinha e que ia a todas as aldeias mais isoladas de Portugal. Era uma festa quando isso acontecia e todas as aldeias esperavam-no ansiosamente quando chegava o Verão.
X fez mais uma regressão e descobriu que tinha sido um piloto que integrou as forças aliadas na primeira grande guerra. A vida dele foi curta, pois foi abatido pelo Barão Vermelho. Tinha 22 anos.
Mais uma regressão e percebeu que tinha andado ao lado de reis nas grandes conquistas da nossa terra. Também morreu jovem, mas naquela altura todos morriam cedo.
Mas o que X percebeu é que tinha tido um filho nessa época. Bolas, um filho…. quem será depois de todas as reencarnações até hoje?
X acordou da sua hipnose e ficou a pensar no assunto. Sorriu e percebeu que sempre achou que alguém o acompanhava. Nunca tinha entendido esse sentimento até hoje. E foi bom.
03.27.08
chave
Certo dia, X ia a passar quando tropeçou num enorme chaveiro. Olhou para todo o lado mas não havia vivalma. Agarrou-o e contou 69 chaves, todas de diferentes tamanhos, feitios e cores.
Chegado a casa, tentou abrir a porta com uma delas. E conseguiu. Ficou perplexo e foi abrindo todas as portas de casa com chaves diversas. Cada vez mais preocupado, foi a casa de amigos e amigas. Todas as portas, todos os armários, todos os cofres, tudo era aberto com uma qualquer chave.
“Que raio” pensou a caminho de casa outra vez.
À porta do seu prédio esperava-o um velhote desgrenhado e com uma longa barba branca. Ao ver o molho de chaves suspirou de alívio e explicou a X que lhe pertenciam. X não queria acreditar e agora que sabia o poder das chaves não as iria entregar de mão beijada.
E foi aí que o velhote abriu o casaco. No interior deste estavam inúmeros chaveiros com imensas chaves. Havia um espaço vazio e o velhote apontou para ele “deixei-as caír por acidente e só reparei nisso quando cheguei lá acima”. X percebeu então quem era o velhote e perguntou que portas abriam todas as outras chaves. “Estas são para os sentimentos humanos, estas são para as portas do tempo, estas são para viagens para outras dimensões e as restantes abrem as portas de outros mundos” respondeu o velhote.
X ainda estava relutante, mas acabou por entregar o molho ao velhote. Este, sempre simpático, colocou-as no espaço vazio e tirou uma, a sexagésima nona. Ofereceu-a a X e disse “Com esta abres a porta para o teu coração. Quando chegar a hora, pensa nisso e anda sempre com ela, pois nunca se sabe o que poderá acontecer hoje ou daqui a 10 anos”.
Com um sorriso, o velhote despediu-se de X e continuou o caminho.
X está agora a olhar para a chave e a contar os dias.
03.26.08
trabalho
L é um homem que perdeu o emprego, onde até ganhava mais ou menos o que os arrumadores ganham, ou seja, cerca de 1000€ limpos por mês. Como L também era “limpo”, o dinheiro chegava para viver naturalmente. Mas agora via-se desempregado e sem grandes expectativas.
Tentou ir ao gabinete do Sócrates para pedir um dos tais 150.000 postos de trabalho, mas nem conseguiu passar do porteiro.
Ora, enquanto isso, os portugueses já estavam habituados a não poder fumar em restaurantes. E o que L percebeu foi que a maior parte deles deixavam os seus pertences todos na mesa enquanto iam dar uma fumarada à porta dos estabelecimentos.
O que L fez foi comprar umas calças pretas e uma camisa branca. Dependendo dos tascos, juntava uma laço ou um avental. E esperava pacientemente numa mesa comendo uma sopa e sorvendo uma meia de tinto.
Depois era só atacar os bolsos dos casacos. Os telemóveis então, era uma facilidade pois estavam em cima das mesas. Como o confundiam como empregado, ninguém o olhava ou seguia os movimentos. Com a sua maleta cheia, pagava a sopa e o tinto e saia calmamente.
Mas L era de boas familias e, no dia seguinte, ia sempre depositar as carteiras, já sem o recheio, na gaveta dos CTT do respectivo tasco em que tinha trabalhado na noite anterior.
03.25.08
desencontro
Esta é a aventura de um casal suis-generis. Cada um vivia na sua casa a uns bairros de distância. Decidiram assim porque prezavam a sua independência, contudo a paixão era grande e os encontros, ora na casa de um ora na do outro, eram escaldantes.
A vida corria assim até um dia em que tudo foi estranho.
Ele estava com saudades e foi a casa dela. Ela estava com saudades e foi a casa dele.
Cada um esperou umas horas e regressaram às suas casas exactamente ao mesmo tempo. Nenhum usava telefone, nem fixo nem móvel, pois gostavam da sua independência e não queriam ser molestados. Nesse dia não falaram. Mas no seguinte, cada um fez o mesmo percurso e esperou as mesmas horas à entrada das casas.
Passou uma semana e a dúvida instalou-se: será que o amor tinha terminado, será que havia alguém novo?
Durante o fim de semana, tanto ele como ela optaram por ficar em casa até que o outro aparecesse.
Nunca mais se encontraram.
03.24.08
paranóia
Esta é a aventura entre um rapaz e uma rapariga. Ambos tinham corpos perfeitos, belos e com proporções ideiais, mas bastou alguém mais magro apontar umas gorduras localizadas para eles entrarem em pânico. Fizeram um acordo secreto e lacraram-no com o próprio sangue. O objectivo era perder peso, muito peso. A luta começou contra a alimentação e quanto menos comiam mais acreditavam estar gordos.
Passados uns meses já pais, amigos e colegas sabiam o que se estava a passar. Tentaram em vão chamá-los à razão, primeiro com conversas depois com especialistas.
Os dois jovens queixavam-se que estavam muito gordos e que os seus 50 e 39 kgs eram horrorosos. Nem queriam ir à rua com vergonha de serem apontados e gozados.
Surgiram médicos especialistas, ginásios preparados, nutricionistas e demais conselheiros.
Os jovens fugiram de casa, crendo que estavam a ser alvo de estudos governamentais. A paranóia ia subindo, o descernimento já não existia.
Passado um ano, os jovens desapareceram. Mas ainda estavam bem vivos, só que eram tão magros como um risco e ninguém os conseguia ver.
As buscas cessaram. Os pais choraram. E o casal continuou a achar-se gordo.
03.23.08
destinos
Esta é a aventura de um homem que tem azar ao amor. Luta com todas as suas forças, mas a timidez prejudica-o sempre. Quando ele pensa que o caminho está traçado e que o pulo final será dado com segurança, descobre com o ramo de flores na mão que o seu lugar já foi preenchido. E não se julgue que as donzelas o renegavam… pura e simplesmente não queriam perder mais tempo que o necessário. E tantas vezes ficou ele com as flores murchas na mão.
Esse homem tem amigos que o incentivam, que lhe explicam e ensinam as melhores tácticas de ataque. Mas a timidez faz com que falhe. Ou pior, que nem tente.
Passado uns tempos e num repente, o homem tentou marcar o telefone de uma prostituta fina. Nessa tarde, vestiu-se o melhor que podia, perfurmou-se e tocou à porta da gentil e prestável rapariga. Já no sofá, sentou-se para assistir a um glorificante strip. Com vara e tudo. Alguns minutos passaram até que a rapariga o começou a tocar. Aí ele não aguentou, deixou o dinheiro na mesinha ao lado do sofá e sumiu do apartamento. Infelizmente, o dinheiro estava dentro da carteira e com todos os seus documentos.
A rapariga, perfeita de corpo e cara, com um cérebro a condizer, ficou admirada. E embirrenta.
Nunca nenhum homem lhe tinha fujido e este não seria o único.
Agarrou no cartão pessoal e telefonou. Ele atendeu e ficaram a falar horas.
O casamento deu-se num dia de Abril com muita chuva.
03.21.08
futuro
Hoje X ao levantar-se deu um pulo enorme em direcção à porta do quarto. Naturalmente, estampou-se a meio do caminho. Ainda sem saber o que se passava, atira-se contra a porta fechada, o que fez com que o nariz sangrasse e, devido a segunda queda redonda, magoasse o cóxix. Ainda desorientado entrou a cambalear no WC. Meteu-se na banheira e esperou pela grande cascata que o lavaria num ápice. Mas nada de água límpida e fresca. Decidiu então abrir as torneiras. Pronto, banho tomado. Depois colocou-se por baixo do candeeiro que nestas alturas é um aspirador de enorme potência que limpa e seca X em 3 segundos. Nada de nada, o candeeiro só dava mesmo era luz. Depois de se limpar, andou à procura do fato de peça única, feito com materiais electrónicos e repelentes. Não o encontrando, vestiu uma t-shirt e uns jeans.
X estava demasiado confuso… o que se estaria a passar? Com mais um esforço de enorme concentração, tentou teletransportar-se para o café do bairro. Nada, apenas uma enorme dor de cabeça e o nariz novamente a pingar sangue.
X sentou-se na sala, pensando muito bem no que não estava a acontecer. E de repente, tudo veio à cabeça: tinha sonhado que era um homem do futuro com os poderes normais dos homens do futuro. Gritou uma data de asneirada porque tudo nesta época dá um trabalho danado.
futuro
Hoje X ao levantar-se deu um pulo enorme em direcção à porta do quarto. Naturalmente, estampou-se a meio do caminho. Ainda sem saber o que se passava, atira-se contra a porta fechada, o que fez com que o nariz sangrasse e, devido a segunda queda redonda, magoasse o cóxix. Ainda desorientado entrou a cambalear no WC. Meteu-se na banheira e esperou pela grande cascata que o lavaria num ápice. Mas nada de água límpida e fresca. Decidiu então abrir as torneiras. Pronto, banho tomado. Depois colocou-se por baixo do candeeiro que nestas alturas é um aspirador de enorme potência que limpa e seca X em 3 segundos. Nada de nada, o candeeiro só dava mesmo era luz. Depois de se limpar, andou à procura do fato de peça única, feito com materiais electrónicos e repelentes. Não o encontrando, vestiu uma t-shirt e uns jeans.
X estava demasiado confuso… o que se estaria a passar? Com mais um esforço de enorme concentração, tentou teletransportar-se para o café do bairro. Nada, apenas uma enorme dor de cabeça e o nariz novamente a pingar sangue.
X sentou-se na sala, pensando muito bem no que não estava a acontecer. E de repente, tudo veio à cabeça: tinha sonhado que era um homem do futuro com os poderes normais dos homens do futuro. Gritou uma data de asneirada porque tudo nesta época dá um trabalho danado.
03.20.08
memória
Esta é a aventura de um rapaz cuja memória pregava-lhe algumas partidas. Era uma memória selectiva, pensava por ela própria e memorizava o que lhe interessava e apetecia, deixando de fora todas as outras, quiçá as mais importantes.
Foi devido a ela que o rapaz perdeu amigos, namoradas e, inclusivé, uma noiva, pois pura e simplesmente nada lhe vinha à cabeça.
Até que houve um dia que decidiu tomar comprimidos para melhorar a situação. A memória, por sua vez, erguia grandes obstáculos contra as drogas, mas de vez em quando, lá entrava uma mais importante.
A luta era constante, mas os medicamentos conseguiam ganhar algum terreno. O rapaz começou a telefonar nos dias de anos dos amigos, ir a reuniões marcadas e fazer bem o trabalho que deixava sempre para amanhã.
Com sorte, conheceu uma bela jovem. Conversaram muito, trocaram contactos e as coisas corriam bem.
O problema aconteceu quando o telemóvel do rapaz teve uma avaria. Perdeu a memória interna e apagou os números que foram guardados mais recentemente, inclusivé o da jovem.
Mas a sua memória, que lhe tinha feito a vida num oito, teve pena do rapaz e deu-lhe o nº de telefone da sua nova amiga.
E foi assim que o futuro teve um final feliz.
memória
Esta é a aventura de um rapaz cuja memória pregava-lhe algumas partidas. Era uma memória selectiva, pensava por ela própria e memorizava o que lhe interessava e apetecia, deixando de fora todas as outras, quiçá as mais importantes.
Foi devido a ela que o rapaz perdeu amigos, namoradas e, inclusivé, uma noiva, pois pura e simplesmente nada lhe vinha à cabeça.
Até que houve um dia que decidiu tomar comprimidos para melhorar a situação. A memória, por sua vez, erguia grandes obstáculos contra as drogas, mas de vez em quando, lá entrava uma mais importante.
A luta era constante, mas os medicamentos conseguiam ganhar algum terreno. O rapaz começou a telefonar nos dias de anos dos amigos, ir a reuniões marcadas e fazer bem o trabalho que deixava sempre para amanhã.
Com sorte, conheceu uma bela jovem. Conversaram muito, trocaram contactos e as coisas corriam bem.
O problema aconteceu quando o telemóvel do rapaz teve uma avaria. Perdeu a memória interna e apagou os números que foram guardados mais recentemente, inclusivé o da jovem.
Mas a sua memória, que lhe tinha feito a vida num oito, teve pena do rapaz e deu-lhe o nº de telefone da sua nova amiga.
E foi assim que o futuro teve um final feliz.
03.18.08
esperança
Esta é a aventura de um homem que acreditava na alma gémea. Decidiu desde novo encontrá-la, mudando de cidade, emprego e trabalho. Enganou-se algumas vezes, acreditando que as mulheres com que viveu o eram. Mas passados uns tempos, percebia que não. Contudo, cada nova partida era cheia de coragem, como se fosse virgem. Mudou de países, aprendeu outros idiomas, aventurou-se com outras cores, mas nada. Os anos passavam e ele estava a ficar velho. Já não tinha tanta esperança de encontrar a sua alma gémea. Decidiu tentar ainda mais uma vez. Mudou de casa, profissão e cidade, acabando num país longínquo do seu. Mas nada.
Desistiu da perseguição aos 70 anos. Para ele, já não era idade para namorar, mas sim para preparar a sua partida.
Num desses dias apanhou uma valente gripe e teve que ser internado no hospital de uma grande cidade. O seu estado piorou, mas houve uma enfermeira que sempre acreditou na sua cura e restabelecimento. Nunca o deixou e quando ele abriu os olhos, sorriu. Sorriu prolongadamente com lágrimas de felicidade. A enfermeira deu-lhe a sua mão antes de começar também ela… a sorrir.
esperança
Esta é a aventura de um homem que acreditava na alma gémea. Decidiu desde novo encontrá-la, mudando de cidade, emprego e trabalho. Enganou-se algumas vezes, acreditando que as mulheres com que viveu o eram. Mas passados uns tempos, percebia que não. Contudo, cada nova partida era cheia de coragem, como se fosse virgem. Mudou de países, aprendeu outros idiomas, aventurou-se com outras cores, mas nada. Os anos passavam e ele estava a ficar velho. Já não tinha tanta esperança de encontrar a sua alma gémea. Decidiu tentar ainda mais uma vez. Mudou de casa, profissão e cidade, acabando num país longínquo do seu. Mas nada.
Desistiu da perseguição aos 70 anos. Para ele, já não era idade para namorar, mas sim para preparar a sua partida.
Num desses dias apanhou uma valente gripe e teve que ser internado no hospital de uma grande cidade. O seu estado piorou, mas houve uma enfermeira que sempre acreditou na sua cura e restabelecimento. Nunca o deixou e quando ele abriu os olhos, sorriu. Sorriu prolongadamente com lágrimas de felicidade. A enfermeira deu-lhe a sua mão antes de começar também ela… a sorrir.
03.17.08
Acordem
Esta é a aventura de um rapaz a quem deram uma viola no aniversário. A sua felicidade foi notória assim como o seu desaparecimento, ou seja, fechou-se no quarto horas a fio. Diariamente esquecia-se das refeições e nem a mãe tinha esperanças que ele comesse se o prato lhe fosse dado no quarto.
O pai culpou-se de ter dado a prenda ao filho, mas os amigos que lá iam beber um copo ou jantar, silenciavam-se para ouvir a já extrema técnica do rapaz, mesmo com o som abafado pelas portas fechadas.
Nos anos vindouros, o rapaz emagreceu e deixou que o cabelo lhe caísse já pelas costas. O aspecto não era grosseiro, pois ele tinha feições bonitas, mas já parecia uma daquelas estrelas de rock que animam as plateias quando mexem a cabeça ao ritmo da batida.
Entretanto, o rapaz tinha poupado todas as mesadas que lhe eram dadas e o total dava para comprar uma guitarra eléctrica e um amplificador. Os sons e melodia suaves deram então lugar a virtuosos solos. A guitarra chorava, gania, gritava e acompanhava os discos que o rapaz ia colocando para tocar por cima.
Os pais, rendidos, propuseram-lhe a ida a um concurso de novos talentos, o que aconteceu e onde a plateia e o júri ficaram silenciados com tamanha genialidade. As palmas começaram tardiamente e solitárias, até se transformarem numa ovação de muitos minutos.
Os convites de bandas e novas bandas surgiram às dezenas, toda a gente queria trabalhar com o rapaz. Mas este só queria tocar a sua guitarra dentro do seu próprio mundo e cabeça.
Por fim, aceitou gravar um disco numa grande editora que foi distribuído por todo o mundo e que vendeu milhões.
O rapaz estava rico. Muito rico.
Finalmente os pais conseguiram entrar no seu quarto para saber o que ele iria fazer com tanto dinheiro. Após pensar um pouco, respondeu que queria que os pais deixassem de trabalhar e que abrissem uma loja no bairro de instrumentos musicais. Os pais até acharam uma boa ideia, money makes money, tal e coiso. Mas o rapaz disse que não era para vender instrumentos, mas sim para dá-los a quem entrasse e mostrasse um interesse enorme por uma guitarra, um piano, um violino ou uma flauta.
Anos depois, alguns rapazes e raparigas que obtiveram o seu instrumento nesta loja, conheceram também a riqueza e o génio.
E também eles abriram lojas, estúdios, escolas, teatros e agências de management.
A cidade mudou para melhor, os direitos recebidos criavam novos hospitais e campos universitários.
Até que aconteceu a desgraça. O rapaz, num dos seus mais fantásticos solos, rebentou uma corda. No meio de tanta genialidade ele não sabia mudar as cordas da guitarra.
E nunca mais tocou.
Acordem
Esta é a aventura de um rapaz a quem deram uma viola no aniversário. A sua felicidade foi notória assim como o seu desaparecimento, ou seja, fechou-se no quarto horas a fio. Diariamente esquecia-se das refeições e nem a mãe tinha esperanças que ele comesse se o prato lhe fosse dado no quarto.
O pai culpou-se de ter dado a prenda ao filho, mas os amigos que lá iam beber um copo ou jantar, silenciavam-se para ouvir a já extrema técnica do rapaz, mesmo com o som abafado pelas portas fechadas.
Nos anos vindouros, o rapaz emagreceu e deixou que o cabelo lhe caísse já pelas costas. O aspecto não era grosseiro, pois ele tinha feições bonitas, mas já parecia uma daquelas estrelas de rock que animam as plateias quando mexem a cabeça ao ritmo da batida.
Entretanto, o rapaz tinha poupado todas as mesadas que lhe eram dadas e o total dava para comprar uma guitarra eléctrica e um amplificador. Os sons e melodia suaves deram então lugar a virtuosos solos. A guitarra chorava, gania, gritava e acompanhava os discos que o rapaz ia colocando para tocar por cima.
Os pais, rendidos, propuseram-lhe a ida a um concurso de novos talentos, o que aconteceu e onde a plateia e o júri ficaram silenciados com tamanha genialidade. As palmas começaram tardiamente e solitárias, até se transformarem numa ovação de muitos minutos.
Os convites de bandas e novas bandas surgiram às dezenas, toda a gente queria trabalhar com o rapaz. Mas este só queria tocar a sua guitarra dentro do seu próprio mundo e cabeça.
Por fim, aceitou gravar um disco numa grande editora que foi distribuído por todo o mundo e que vendeu milhões.
O rapaz estava rico. Muito rico.
Finalmente os pais conseguiram entrar no seu quarto para saber o que ele iria fazer com tanto dinheiro. Após pensar um pouco, respondeu que queria que os pais deixassem de trabalhar e que abrissem uma loja no bairro de instrumentos musicais. Os pais até acharam uma boa ideia, money makes money, tal e coiso. Mas o rapaz disse que não era para vender instrumentos, mas sim para dá-los a quem entrasse e mostrasse um interesse enorme por uma guitarra, um piano, um violino ou uma flauta.
Anos depois, alguns rapazes e raparigas que obtiveram o seu instrumento nesta loja, conheceram também a riqueza e o génio.
E também eles abriram lojas, estúdios, escolas, teatros e agências de management.
A cidade mudou para melhor, os direitos recebidos criavam novos hospitais e campos universitários.
Até que aconteceu a desgraça. O rapaz, num dos seus mais fantásticos solos, rebentou uma corda. No meio de tanta genialidade ele não sabia mudar as cordas da guitarra.
E nunca mais tocou.
03.16.08
sexsells
Um amigo de X alertou-o para o facto de haver sites online com raparigas tipo prostitutas que vendem o corpo tal e qual como se fazia antigamente nas maquinetas ali para os lados do Coliseu.
O que é engraçado é que X fez, para o jornal de um liceu (o gande PAV) uma matéria sobre o assunto. E duas décadas depois vê-se envolvido exactamente no mesmo esquema, mas… digital.
O nome do site(s) não é para aqui chamado, mas é fabuloso meter conversa com um dos vários tipos de raparigas inseridas por pele, cor, região ou interesses.
Ora X, na sua profundeza e humildade, decidiu recuperar esse endereço, pois tinha-o guardado nos favoritos. Agora já há teenagers. É verdade. Miúdas da idade das filhas das minhas amigas que progenitaram mais cedo.
O que é que um homem faz então num sítio destes?
Mete conversa e do administrador recebe uma mensagem da donzela que diz que este fulano é um cromo, um virgem, bom para ganhar guito.
Então o homem, neste caso X, desiste. Mas a perturbação de tal realidade e crueza de sentimentos faz pensar. E muito.
sexsells
Um amigo de X alertou-o para o facto de haver sites online com raparigas tipo prostitutas que vendem o corpo tal e qual como se fazia antigamente nas maquinetas ali para os lados do Coliseu.
O que é engraçado é que X fez, para o jornal de um liceu (o gande PAV) uma matéria sobre o assunto. E duas décadas depois vê-se envolvido exactamente no mesmo esquema, mas… digital.
O nome do site(s) não é para aqui chamado, mas é fabuloso meter conversa com um dos vários tipos de raparigas inseridas por pele, cor, região ou interesses.
Ora X, na sua profundeza e humildade, decidiu recuperar esse endereço, pois tinha-o guardado nos favoritos. Agora já há teenagers. É verdade. Miúdas da idade das filhas das minhas amigas que progenitaram mais cedo.
O que é que um homem faz então num sítio destes?
Mete conversa e do administrador recebe uma mensagem da donzela que diz que este fulano é um cromo, um virgem, bom para ganhar guito.
Então o homem, neste caso X, desiste. Mas a perturbação de tal realidade e crueza de sentimentos faz pensar. E muito.
03.15.08
frankenX
X replicou-se na máquina que inventou e em que trabalhou estes últimos anos. O novo X, X2, seria um X limpo de vícios, como o alcoól, tabaco e outras misturas, seria mais magro que X devido a esse comportamento, o que lhe permitia vestir os fatos que X comprou anos atrás sem saber muito bem porquê.
De manhã, X levou X2 a comprar os jornais e a escolher as ofertas de emprego. Como X2 nunca tinha existido, foi fácil fabricar-lhe os documentos, entre eles vários canudos, MBAs e etc.
Passadas umas semanas, a subida vertiginosa de X2 numa empresa fez com que esta comprasse outras, em dumpings sucessivos e arrasadores. A bolsa reflectiu esta desordem e instalou-se o pânico. À noite, X2 vinha para o laboratório de X onde lhe eram injectadas novas memórias e os conhecimentos necessários para continuar o seu belo trabalho.
Eram a equipa perfeita.
O problema foi quando X arranjou namorada nova e X2 não entendia certos tipos de comportamentos, o suar, o gemer e todos os demais.
Como já tinha inteligência própria, procurava durante a noite todo este novo mundo e, durante dias só pensava nisso. As suas conquistas e êxitos profissionais abrandaram, os restantes empresários suspiraram de alívio, a bolsa conseguiu manter alguma sanidade.
Num dia, X2 disse a X que queria também uma namorada, o que apanhou de surpresa e perturbou X.
X sabia que X2 não saberia interpretar os gestos, olhares, comportamentos e disfunções mensais femininas. Mas X2 exigiu.
X foi ter com a sua namorada e explicou-lhe o que estava a acontecer. A princípio ela não acreditou na história, mas já tinha ouvido falar de um certo empresário que tomou o mercado de rompante. X apresentou-lhe o seu clone e ia perguntar-lhe se ela permitiria ser clonada quando, de repente, viu-a a atirar-se para os braços de X2.
Ao fim e ao cabo, X2 era a versão perfeita de X…
frankenX
X replicou-se na máquina que inventou e em que trabalhou estes últimos anos. O novo X, X2, seria um X limpo de vícios, como o alcoól, tabaco e outras misturas, seria mais magro que X devido a esse comportamento, o que lhe permitia vestir os fatos que X comprou anos atrás sem saber muito bem porquê.
De manhã, X levou X2 a comprar os jornais e a escolher as ofertas de emprego. Como X2 nunca tinha existido, foi fácil fabricar-lhe os documentos, entre eles vários canudos, MBAs e etc.
Passadas umas semanas, a subida vertiginosa de X2 numa empresa fez com que esta comprasse outras, em dumpings sucessivos e arrasadores. A bolsa reflectiu esta desordem e instalou-se o pânico. À noite, X2 vinha para o laboratório de X onde lhe eram injectadas novas memórias e os conhecimentos necessários para continuar o seu belo trabalho.
Eram a equipa perfeita.
O problema foi quando X arranjou namorada nova e X2 não entendia certos tipos de comportamentos, o suar, o gemer e todos os demais.
Como já tinha inteligência própria, procurava durante a noite todo este novo mundo e, durante dias só pensava nisso. As suas conquistas e êxitos profissionais abrandaram, os restantes empresários suspiraram de alívio, a bolsa conseguiu manter alguma sanidade.
Num dia, X2 disse a X que queria também uma namorada, o que apanhou de surpresa e perturbou X.
X sabia que X2 não saberia interpretar os gestos, olhares, comportamentos e disfunções mensais femininas. Mas X2 exigiu.
X foi ter com a sua namorada e explicou-lhe o que estava a acontecer. A princípio ela não acreditou na história, mas já tinha ouvido falar de um certo empresário que tomou o mercado de rompante. X apresentou-lhe o seu clone e ia perguntar-lhe se ela permitiria ser clonada quando, de repente, viu-a a atirar-se para os braços de X2.
Ao fim e ao cabo, X2 era a versão perfeita de X…
03.14.08
entas
X é quarentão recente e fez tudo o que o livro dos quarentões recentes diz para fazer. Mudou de imagem, deixou crescer a barba três dias, o cabelo está um misto preto/branco (ironias do destino) o que lhe confere uma certa aura de galã ou sedutor, entenda-se por estes adjectivos aqueles que as mulheres utilizam, e só lhe falta fazer um certo número determinado de coisas para assumir o ser quarentão.
Ora um cabrio já o teve, era trintão. Dinheiro já o teve, era trintão. Mulheres, felizmente, sempre as teve. Homens não. Mas tem um cão, coisa que não existia quando era trintão.
Aqui coloca-se a dúvida: os novos 40 são os 30 de antigamente.
Ora excelente.
Mas, de repente, X percebeu que estava a viver os 50, pois tudo o que um novo quarentão faz, fez ele 10 anos antes.
E X ficou decepcionado. Muito decepcionado.
É que não conhece cinquentões para perguntar o que eles fariam se fossem os novos quarentões.
03.13.08
fora
O mundo está louco. Há novos pecados mortais, o Ronaldo deixou crescer a carapinha, um buda qualquer foi preso por ter roubado 40 filmes triple X, perdemos um lugar qualquer na classificação futebolística lá para 2009/2010 e, no entretanto, Mr X deu a maior cambalhota que se pode dar, ao preferir a sessão nocturna e chata televisiva dos treinos de Fórmula 1, a uma conversa particularmente interessante com uma pessoa que vive a uns 350 kms.
O mundo está louco… mas o mundo é assim mesmo.
bairrismos
X gosta de arte moderna e considera-se um naive (naiff). Por estas e outras, escreve em blogs, pinta uns quadros, faz umas músicas, ele sabe lá. Tudo o que vem à rede é peixe.
X gostava de continuar a elaborar a tese de um curso inexistente, com toda a sua produção em catadupa, de peças que com outro nome valeriam milhões…. ou até não.
Mas X tem que trabalhar mais! No ponto de secura, no ponto de viragem e até mesmo no famoso ponto G. Ora para X o G não é um ponto, mas sim uma força.
A força G!
Talvez seja por isso tão desesperante encontrar um ponto que é forte como uma fortaleza. Ou talvez não, pois depende muito do outro lado.
Hoje X começou a trabalhar numa nova área. Numa nova vida. E, quem sabe, num recomeço.
Está na hora. E vai com toda a força, G e H e T. As que forem necessárias.
O primeiro passo a tomar? Mudar de bairro.
Vamos a isso!
03.12.08
agradecimento
Esta é a aventura de um rapaz que só tinha mais este dia de vida. Na noite anterior tinha feito imensos planos, mas ao acordar achou-os fúteis e inúteis. Decidiu fazer as contas da sua vida, o que tinha conquistado, onde foi derrotado. Passou o dia inteiro nisto, com rapidez, cálculos e conclusões, a trabalhar sobre um sumário que era a sua existência. O resultado final era positivo, se bem que não por muito. Escreveu um longo email a todos os seus amigos onde se despedia e lhes pedia alguns favores e mudanças de atitude. Escreveu uma longa carta aos familiares, onde explicou porque não os tinha visto mais vezes. Foi directo, conciso e muito realista.
Enviou o mail, foi aos correios onde pagou os selos para o serviço, foi ao seu restaurante preferido e, ao chegar a casa, contemplou todos os objectos que possuia. Já tinha escrito uma lista, longa, onde escreveu para quem seriam. Depois, extenuado, deitou-se e esperou.
Ela apareceu pouco tempo depois. E ele agradeceu.
03.10.08
dormir
Esta é a aventura de um dorminhoco. Ele bem que queria acordar cedo e bem disposto, mas não conseguia. Foi a médicos, encheram-no de medicamentos mas mesmo assim, na manhã seguinte, os vários despertadores não o acordavam. Por vezes conseguiam-no, mas o dorminhoco virava-se para o lado e continuava a dormir. A família e os amigos estavam cada vez mais preocupados, pois isto começava a durar demasiado tempo. Arranjaram diversas formas para o tentar acordar, mas sempre em vão. Pediram explicações aos médicos, mas nem eles conseguiam explicar, aconselhando-lhes a psicoterapia regressiva ou mesmo hipnose. Tentaram a primeira sem sucesso, mas com a hipnose alcançaram algum sucesso. E foi nessas sessões, em que apanhavam o dorminhoco meio acordado que descobriram a razão de todo o seu sono: mais valia estar a dormir do que andar numa roda viva para chegar a lado nenhum.
A médica foi para o consultório e pouco tempo depois fechou-o. Ouvia-se roncar lá dentro, mas ninguém ousava abrir a porta. Da família e amigos nunca mais ninguém soube nada.
Musa
Neste dia feio, tempestuoso, ela veio com a chuva. Era uma gota diferente das outras, mas que entrou em casa de X e se transformou numa pérola. Numa lindíssima mulher, fonte de vida.
X achou que estava a delirar ou ainda a sonhar, mas não. Ouviu uma voz quente e rouca e uma pergunta simples e objectiva: “O que vais fazer da tua vida?”. X não gosta desta pergunta, pois há outros que lha fazem. E não gosta porque quer fazer mais que uma coisa. Só não sabe como. Não sabe como ir buscar o resto das forças para ir à luta. E foi isso que respondeu.
A rapariga pediu a X que lhe inventasse um nome. Um nome só para ele e ela. Um nome que ficaria guardado para sempre nas suas almas. X demorou um bocado, mas escolheu Mar.
Mar disse então que seria a musa de X, uma nova, aquela que ele precisava e queria neste momento. E que só abandonaria a sua vida quando X terminasse uma das muitas coisas que quer e tem que fazer. Havia só uma questão: tudo aquilo que X fiizesse seria dela. A segunda versão de tudo o que era dela, seria para ele.
X percebeu então o porquê de ter uma nova musa. E escolheu uma gota do imenso mar das suas ideias. E começou.
03.07.08
paz
X passeava no outro dia pelo maior jardim de Lisboa que curiosamente, a não ser as visitas de estudo, está sempre vazio. O jardim botânico é de uma magia singular e de uma paz avassaladora.
Num dos bancos de descanso estava um velhote sentado, enrrugado e encurvado. Na sua mão um passarinho chilreava. O velhote ia fazendo sinais com a cabeça. Nada de estranho, pensou X. Mas de repente, muitos pássaros se juntaram aos dois num estilo assembleia. X parou por uns instantes. Seria uma excelente foto, se houvesse camara. De repente, o velhote disse qualquer coisa e todos os pássaros foram embora. Era meio dia e X decidiu regressar no dia seguinte à mesma hora. Chegou um pouco atrasado, mas deu para ver os pássaros a largarem o velhote e ele a levantar-se para ir para aquilo que seria a sua vida. X no dia seguinte não falharia. Às 11h30 estava já lá. O velhote apareceu e sentou-se. O mesmo pássaro de sempre veio pousar na sua mão. Os outros depressa surgiram, mas desta vez eram muitos mais. O velhote parecia abatido e cansado. Neste dia, a reunião demorou bastante tempo mais. E outros pássaros pousaram nos ombros, na cabeça e nas pernas do velhote. Umas horas depois, ele levantou-se mas os pássaros ficaram ao pé do banco vendo-o a afastar-se. Por acaso encaminhou-se até ao banco onde X estava sentado. Parou, sorriu e disse “Jovem, já reparei que você tem boa alma pois percebeu o que se passava. Mas ainda não entendeu a verdadeira situação.” X ficou curioso, mas não abriu a boca fazendo força para que o velhote continuasse, o que aconteceu: “Jovem, estes pássaros foram os meus companheiros no final da minha vida. Amanhã escusa de vir até aqui, pois hoje foi a minha última vez.”
X Não conseguiu ficar calado e perguntou porquê. “Porque hoje vai ser o meu último dia nesta terra”. X ficou pouco à vontade. Afinal o velhote já estava senil. Ou não? Será que há qualquer coisa com os pássaros? O velhote, percebendo perfeitamente o que X pensava, disse-lhe: “Caro jovem, quando estiver nos seus últimos dias, venha até aqui conversar com os pássaros. Serão eles que o acalmarão e indicarão o caminho que deve seguir. Não falam com Deus, nada disso, mas voam mais alto que nós, têm mais liberdade que nós e sabem bem mais que nós. Há que ouvi-los.”
Com um Boa tarde, retomou o seu caminho, encurvado e cansado. Mas na sua face estava estampado um sorriso que nada nem ninguém iria conseguir tirar.
03.06.08
sonho
Esta é a aventura de um sonho. Durante a noite, o sonho saíu do corpo de quem sonhava e foi ver como o mundo era na realidade. O pior é que foi perseguido pelo pesadelo, que viu ali uma janela de oportunidade para ir aterrorizar esse mundo que o sonho visitava pela primeira vez.
Havia cerca de 100 metros de distância entre um e outro, numa esburacada e mal iluminada rua secundária. O sonho via oportunidades em tudo: ali naquele segundo andar vive a cara metade do corpo que o aloja, observava os casais a dormir e a fazer amor, deliciou-se com os cheiros dos restos do jantar e percebia, por um minuto, porque surgia tantas vezes quando o corpo que o continha estava menos preocupado. Mas o pesadelo vinha atrás, e a tal cara metade ia ser a pior dor de cabeça do corpo. Os casais gritavam discutiam, alguns dormiam em quartos separados e o cheiro dos restos era repugnante.
Chegava a madrugada e com ela a obrigação de retornarem e retomarem o seu lugar no corpo que era a sua vida.
No dia seguinte, depois de acordar, X não se lembrava de nada. Mas estava indeciso entre ficar alegre ou chateado. Tinha sido estranha toda a noite…
03.05.08
discussão
Te quiero mucho. I love you forever. Je´taime beaucoup. Ich liebe dich.
Bom, na verdade, X andou a ouvir estas frases por todo o Chiado. Seria o perfume ou o seu belo cão? Seria a alma? A aura?
Ao telefone com uma amiga, ela respondeu “Aura. Tens qq coisa X, que mais ninguém tem. Só mesmo o teu amor, a tua cara metade te poderá responder na mesma moeda.” Mas onde ela está, questionei. “Algures mais perto e tão próximo que não a vejas. Andas com binóculos em vez de lupas”. X estremunhou e entristeceu. Realmente às vezes acontecem guerras e são proferidas frases que não são sentidas. E depois sofremos o dia inteiro, ou semanas, ou anos. Consome-nos, tira-nos a esperança, faz com que sejamos mais velhos num repente.
Mas a amiga, depois de uma longa pausa de X, confirmou “conheço-te bem demais e sei que não és estúpido”.
X desligou o telefone. Foi comprar um novo telemóvel para que todos os próximos contactos e mensagens tivessem um sabor novo. Mudou também de operadores de comunicação. Tudo seria perfeito. Uma mudança era o melhor pedido de perdão.
Eis que chega a noite. Eis que chega a pessoa amada, ainda triste com a discussão matinal.
X atirou-se aos braços sem pedir a obrigatória desculpa. X é homem, não percebe nada do coração das mulheres. E foi aí que deu mais uma barraca. O ser amado queria uma desculpa, não ser amado. Mas X amou. As forças do ser amado também ficaram menos fortes.
E toda a noite foi memorável.
Na manhã seguinte, olharam um para o outro e um recomeçou a discussão anterior.
Levou com uma almofada na cara e os dois riram-se. Deram 31 beijinhos.
Lá fora estava frio e sol, o melhor dos tempos para X.
Saíu de casa que nem um rei, como ontem tinha saído que nem uma migalha.
duplas
X tem duas personalidades: a que manda abaixo e a entusiasta. É uma guerra sem quartel e nenhuma dá o braço a torcer. No outro dia, X teve que fazer uma coisa que nunca tinha feito, um trabalho técnico difícil e com um vocabulário quase desconhecido para ele. X tomou a decisão de antes de adormecer na véspera, tinha que encontrar um truque para prender a personalidade manda abaixo. Lembrou-se de prender um pé à cama, o que deu péssimo resultado. Depois atou uma guita ao dedo. Não satisfeito, colocou algumas armadilhas do quarto a todo o resto da casa. As que caçam ratos devem caçar a manda abaixo, pensou. Logicamente que no dia seguinte não se lembrava do que a guita lhe queria dizer e foi pisando todas as armadilhas. Ferido e com o orgulho em baixa, telefonou a pedir ajuda a uma amiga que tem o mesmo problema na vida. A amiga disse que tudo ia correr bem, visto que com tanta coisa, a força da personalidade manda abaixo estaria cansada e não deveria criar problemas durante o trabalho. De repente, o entusiasmo encheu X e foi assim que se deslocou para o trabalho. Tudo correu bem e o trabalho até foi apreciado pelos presentes. X ficou contente e a sua personalidade entusiasta estava cansada e feliz.
Quando chegou a casa, a personalidade manda abaixo já estava com as forças refeitas e chateada, muito chateada. Os planos para um jantar entre amigos foi cancelado um a um, X decidiu ficar sózinho e foi comprar comida. O supermercado estava fechado, os frangos assados tinham uma fila de uma hora, não tinha álcool em casa, nem uma lata de atum.
Foi ao restaurante do costume que estava cheio de crianças aos berros a fazer corridas por entre as mesas. Comeu, mas o prato não estava saboroso. Retornou a casa e combinou uma conversa séria entre as duas personalidades. Ainda estão os três a discutir.
03.04.08
suicidio
X, na sua ânsia de não ficar velho para os tempos de hoje, quanto mais para os que vêm já aí, gosta de se informar diariamente. E não é à toa que gosta de filmes gore, maquiavélicos em que os orientais estão muito à nossa frente. Mas os Snuff movies é que lhe deram a volta e anda entretido a tentar descobrir e penetrar nesse mundo. Sem sucesso. Nos Snuffs a coisa até é fácil. Convida-se uma amiga, embebeda-se a amiga e depois de muito sexo, mata-se a amiga, com golpes lentos, loucos, sedentos e doentes. Tudo isto é filmado em video e rende milhões. Mas X não tem câmara de video. Nem garagem. Nem compartimento secreto. Nem cave. Portanto, não pode entrar no esquema. Depois, também de origem nipónica, ficou muito curioso com o suicidio em massa de gentalha que nem 18 anos tinha. Combinam o local/coval e matam-se. Em grupo, como em grupo pensavam. Uma ida a Tokyo é caríssima e Osaka não fica mais barato. Portanto, outra não possibilidade.
Só que, num repente, abre-se todo um mundo barato, quase de borla e aos dedos de semear. A net, os seus grupinhos, os seus segredos e as suas combinações. Até as revistas de cariz menos popular falam e alertam para o facto do suicídio netiano, ou seja, a maltex combina com os amigos, liga a webcam, mete os comprimidos e finnito. Tásse bem e props para kem fika.
Ora isto assim já é fácil.
X quer agora criar uma rede de amigos, secreta ou quase (que tem que surgir no noticiário) para combinar uma matança à antiga, digna de reis e cavaleiros, nobres e plebe. Toda uma batalha campal na net em que faremos história e ficaremos para a história.
Resta agora descobrir o que vamos conquistar.
Imaginem… imaginem….
03.03.08
casamento
X foi convidado para um casamento, frete sempre assumido pela amizade, mas frete. Conhecia H desde os seus tenros anos, vizinhos de bairro e bola. Mas não fazia a mínima ideia de quem seria a bela noiva. E se viria de branco imaculado ou outra cor mais consentânea com a sua esperiência de vida. Ora chegado o dia anterior, os homens foram convidados para apanharem uma valente bebedeira enquanto as mulheres optaram por um clube de strip.
No dia seguinte nenhum homem atinava com o nó da gravata, peça indumentária ridícula e inútil, mas lá se encontraram todos, mais ou menos à mesma hora, numa capela pequenita.
Quando X viu a noiva, não escondeu um certo nervosismo. Tinha sido sua namorada anos antes. Assim como foi namorada de alguns amigos do bairro. Todos os mais íntimos não conseguiram disfarçar a sua comoção. É que a noiva M, de boa memória para todos, tinha acabado os romances quando os homens se apaixonavam. Dizia ela que não gostava de se sentir presa e abalava para outra alma com toda a força do mundo.
Hoje estava ali, no altar com um, mas ao alcance de todos.
X decidiu vir fumar um cigarro cá fora. E foi a meio dele que ouviu um turbilhão de vozes, gritos, cadeiras a arrastar e pessoas a saír.
Pensou num incêndio com as velas, o vestido da noiva a arder, mas não. O que tinha acontecido quando se fez a pergunta”se alguém tem algo contra que o diga agora ou se cale para sempre” foi digno de um filme. Todos os ex da noiva se levantaram em protesto, correram para o altar. Uns tentaram raptá-la, outros rasgavam o véu e a longa cauda do vestido. Amigos eram inimigos. E todos continuavam apaixonados por M.
X saiu sorrateiramente, meteu-se no carro e foi fumar um Monte Cristo 5 e beber um belo Jameson em jejum. Depois riu-se à gargalhada brindando a M que tanto lhe tinha dado numa certa altura da sua vida. É que ao contrário dos restantes, tinha sido M a apaixonar-se por X em vez do contrário. E mesmo assim foi ela que abalou.
03.02.08
Internet
Esta é a aventura de uma senhora idosa que queria tirar um curso de internet daqueles para a terceira idade. O filho avisou-a para não o fazer, já que a senhora nem sabia diferenciar uma cassete VHS de um DVD. Mas ela insistiu e assim aconteceu. Como filho estremoso, comprou-lhe um laptop, de baixa gama e preço em conta. E todos os dias levava-a ao Centro da Junta de Freguesia onde, entre dominós e pilatos, estava um informático a dar aulas.
Na primeira semana o filho estranhou a ausência de comentários ou mesmo questões. Mas ao iniciar da segunda, a senhora começou a colocar dúvidas: “Mas ouve lá, quem é o dono da Internet?” Depois de uma explicação dos 0 aos 3 de idade, rematou “Mas ouve lá, quem é que tem esses servidores, é o tal de Gates?”. Ao fim do mês de curso, a senhora deveria estar apta a enfrentar o grande mundo da web. Telefonou para o filho e questionou-lhe: “Mas ouve lá, o que é que tenho que fazer para entrar na internet? Como? Olha lá, não me fales assim, eu já não tenho a mesma cabeça… Cabo de alimentação? Ah, sim, tenho aqui um cabo. Já está. Ligar o botão? Ó filho, tenho aqui tanto botão… Não me grites, não precisas de ficar assim. Olha, telefono-te amanhã”.
03.01.08
passeio
Esta é a aventura de um rapaz a quem deram uma camara de video última geração e com todos os truques. O rapaz até que adorava cinema, mas não tinha nenhuma ideia para um argumento. Um dos dias em que filmava qualquer coisa, esqueceu-se de desligar o Rec enquanto andava pelas ruas à procura de qualquer coisa. Quando chegou a casa reparou que não tinha bateria e ligou a camara ao computador. Aí percebeu o que tinha filmado o chão e ficou fascinado com os passeios, os passos, as diferenças das sombras e do sol. Gostou de reparar nos outros sapatos que via e era interessante pensar no resto da pessoa. Quem seria, como seria, onde viveria. Agarrou no pouco dinheiro que tinha e fez-se à Europa. Filmou o chão e os passos em Londres, em Paris, em Madrid, em Barcelona, Milão, Viena, etc. Filmou até se acabar todo o dinheiro. Pediu ajuda monetária aos pais para o regresso a casa onde passou semanas a editar o que tinha filmado. Depois de finalizar o projecto, concorreu aos festivais portugueses onde foi vaiado. Mas depois, a cada festival estrangeiro a que ia, o sucesso era grande. E os prémios amontoaram-se. Ao contrário dos portugueses, os estrangeiros adoraram ver o que caracterizava as várias cidades. E tal como o autor, também gostavam de imaginar as pessoas que passavam calçadas na calçada.
02.29.08
ventania
X adora vento. Um forte e vigoroso vento. Daqueles que permitem que nos desloquemos para a frente, num ângulo que nos faria caír se não fosse essa força contrária.
Por isso é que escolheu morar no último andar de um prédio solto dos outros. Nos dias de ventania, tudo vibra, tudo treme.
Há uns tempos, o temporal foi tão grande que o prédio cortou as amarras do chão e começou a subir. Os vizinhos, alguns desesperados, vieram ter com X, ao último andar, pois ele era o timoneiro desta estranha carruagem. As discussões começaram. Com esta hipótese, poderíamos mudar o prédio de sítio ou de bairro. Uns novos ricos pediram Belém ou a Lapa, os mais antigos queriam um local perto do Santa Maria, os mais jovens, como X, até que mudariam para um local mais próximo da Senhora do Monte, não mudando tanto assim de bairro.
O prédio já estava bem alto e era necessária muita força no leme (os autocolismos viravam para a esquerda ou direita, dependendo da casa de banho) e os vizinhos corriam para uma ponta da casa se quisessem ir em frente ou para a outra em sentido contrário. Os primeiros momentos foram caóticos mas depois lá se decidiu dar uma volta pela cidade para descobrir um espaço escondido por uma qualquer fachada ou grupo de prédios. X foi para o computador e ligou-se ao Google Earth. Havia inúmeros espaços fantásticos para viver, mas tinhamos que ser rápidos, pois o vento abrandava. Mas as pessoas não chegavam a acordo.
Decidimos voltar para onde sempre estivémos para fazermos uma reunião extraordinária de condóminos e discutirmos com calma a possibilidade de localização, sem histerismos ou gritaria.
Assim o fizemos, numa segunda às 21 horas. A reunião terminou com uma votação secreta e o local foi definido.
Agora todos esperamos por um temporal igual ou mais forte que o outro.
02.28.08
tuppersex
O convite prometia festa rija. Sexual e sensual. Mais sexual que sensual. X recebeu o curioso papelucho só com um destino e o horário. Teria que comparecer acompanhado de uma dama. Eram as únicas regras. Depois todo um palavreado ousado, quase hardcore.
X teria alguém para convidar? Pensou em quem alinharia na brincadeira e de repente lembrou-se de Z. Combinaram ao telefone e ela ficou particularmente interessada, pois já tinha ouvido falar destas parties.
No dia lá se juntaram e seguiram para o destino, um velho palacete em Belém, iluminado por fogachos e algumas velas, indicando o caminho até à porta. X estava bastante nervoso. Z estava delirante. À porta foram recebidos por uma jovem muito bela vestida de napa. Tinha uma mascarilha. X ficou mais nervoso, Z estava em pulgas, atirou o casaco para as mãos de X e correu para a porta que a gentil porteira indicava. X também tirou o casaco e perguntou onde os colocar. A sensual rapariga agarrou-lhe na mão e encaminhou-o para o andar de cima. “Estranho”, pensou X. “E então a Z? Estará bem?” Lá de baixo ouviam-se risadinhas e gargalhadas, além de outros barulhos estranhos que X não conseguia desvendar.
Finalmente chegados à porta de uma sala no segundo andar, X viu que todos os que estavam lá dentro eram homens, com ar carrancudo, atónito ou aparvalhado. A meio estava uma mesa toda equipada com aquilo que os homens gostam, desde charutos aos melhores malte.
A rapariga despediu-se, repetindo a X aquilo que todos os outros já tinham ouvido: “Obrigada por trazer a sua amiga, daqui a umas horas viremos buscá-los”.
X cumprimentou os presentes, alguns mais simpáticos que outros, perguntando o que raio se estava a passar. Todos tinham teorias e fantasias. Mas nada podiam fazer, pois a porta da sala estava fechada à chave. A única opção era mesmo beber, fumar e esperar.
Horas depois, meio abalados, ouviram muitas vozes femeninas a subir para o segundo andar e encaminharem-se até eles. Houve prontidão no arranjo da roupa e cabelo, umas quantas pastilhas para o hálito e a porta abriu-se. Todas traziam umas malinhas vermelhas na mão. Estavam contentes, felizes, suadas, radiantes e graciosas.
Uma a uma agarraram na mão do seu parceiro. Z agarrou em X e disse-lhe que estava na hora de sair.
Já no carro, X perguntou o que se tinha passado. “Nem queiras saber, querido. Se tiveres sorte ou coragem ainda o gozarás esta noite”.
Irish
Como é que um bêbado fala com outro bêbado? Bebendo cada vez mais? Certo. É eficiente. No final, são todos os melhores amigos e no dia seguinte, ninguém sabe com quem falou.
É interessante esta matéria. Como é que 10 horas antes um homem conhece o seu melhor amigo e depois esquece-o para sempre? Acontecerá o mesmo com a mulher? Ou com uma mulher? Imaginem: um homem ébrio conhece uma mulher quase no mesmo estado (elas aguentam mais o álcool que nós, assim como o parto e quejandos). A mulher faz-se à dose, o homem capitula.
Mas no dia seguinte acorda sózinho. O que é feito da dama? Ou, no pior dos casos, do seu novo melhor e maior amigo?
X gosta de álcool. É fanaticamente irlandês. Houve tempos, idos, em que pedia um James num restaurante. Ninguém sabia do que ele estava a falar. Hoje é o que se vê. Agora X, que nunca foi fã de Bush, anda numa de tulllmeware, tullpare, tullwa, gore, dor, more…. emfim, qualquer coisa assim.
Maldito. Delicioso. Uma lágrima de sensualidade falsa no olho de uma Jessica (escolham a que quiserem)… Tullmore grey? Não, não é bem isso. Mas a curva está lá e a lágrima também.
Nota-se que quem bebe irish é diferente dos outros bêbados. O hálito é três vezes destilado, portanto não tão mau e a subtileza de movimentos, o cai-não-cai, é todo um romance digno de quem habita uma ilha abandonada pelo seu próprio continente.
X gosta de tudo o que venha da Irlanda. Menos dos U2 há 10 anos. Mas adora as Corrs, principalmente a baterista, pois aí ainda pode ter uma possibilidade. Mau, dizem-lhe que já casou.
Enfim, esta foi uma aventura irlandesa de X e do seu cão, que ainda continua com o dreno no pescoço. X adora o arrepio das pessoas quando notam o tubinho de plástico. Olha tão bonito… AHHHHHHHHH, keurrore! É mais ou menos o mesmo que pedir em terras estranhas um Irish. “Desculpe? Não temos! Pode ser Vat69? Ou um fantástico Curti starque? Olhe que isto é pomada da boa…”
X já esteve em tascos que servem irish como em restaurantes 4 stars quem nem sabem o que isso é.
Mas porque é que estamos a escrever sobre beberagem? Estavamos a falar da amizade duradoura de quem se conhece num bar e sai dele abraçado.
Os homens fazem isto.
As mulheres farão precisamente o quê?
02.26.08
sonho
X acordou hoje à martelada. Eram precisamente oito e cinco. O pior não foram as marteladas, mas sim o terminar abrupto de um sonho em que estava particularmente a sair-se bem. Tentou ir buscá-lo, adormecendo outra vez. Houve tempos em que o conseguia. E desta vez assim foi, recomeçou no preciso momento, ou fotograma, onde tinha parado. Agora que acordou, não fazia a mínima do que estava a acontecer. E isso perturbou-o a tal ponto que nem saltou logo da cama.
Depois pensou… “e se fosse escrever para ver se o conseguia recuperar?” e aqui estava, a esforçar-se, a enervar-se. “Olha parece que é agora! Não. Bolas, que frustração.” Bebeu um café, fumou um cigarro e… e…. não. Pronto, lá teria que inventar qualquer coisa.
“X estava na sua fase de inventor. Há anos que trabalhava numa maquineta que permitia capturar os sonhos das pessoas. Tinha dois segmentos distintos, um para os sonhos outro para os pesadelos. O invento era estranho, com várias antenas que se colocavam na cabeça do dorminhoco e vários leds informavam o estado do sonho, do vermelho para o verde. Quando estivesse verde pressionava-se o botão “Rec” para gravar o sonho. O aparelho tinha outras teclas, como Play, Delete e Delete forever. Estava quase pronto mas havia um pequeno problema não técnico: só dava para quem dormisse com alguém ao lado, para esse alguém capturar os sonhos. E geralmente esse alguém também estaria a dormir. Para solteiros, então, era tarefa impossível.”
Pronto, e é assim que lá se vai um sonho. O de ficar rico com a venda do aparelho.
memória
X está a tentar relembrar-se do seu primeiro livro, escrito aos 18, à máquina e de que só havia um exemplar. Original esse que foi emprestado a uma rapariga para a entusiasmar com o seu génio, o que não conseguiu. Perdeu-se o amor e, pior, o original.
X ficou desolado duplamente nessa altura. E quase que chorou. Era de todo impossível reescrever o texto que tinha passagens de assinalável qualidade.
Mas hoje X lembrou-se disso e também de certas memórias.
Havia um jornalista ao estilo do Robert Redford naquele filme sobre a barraca do Nixon, que por vários motivos, boatos e confidências descobrira a história que lhe garantiria um prémio chorudo se fosse americano.
Esse jornalista infiltrou-se na ala mais desoladora e perigosa do Júlio de Matos, tentando compreender o que se passava ali. Tinham-lhe dito que os verdadeiros loucos estavam mais próximos de Deus que os restantes. Mas o que ele não esperava eram reuniões que lhes permitiam falar com a divindade. Trocavam histórias do dia a dia por frases calmas e conciliadoras. E nesse momento, o jornalista sentiu uma paz imensa, uma força sem limites.
Desapareceu para sempre da sociedade onde tinha uma boa vida e companhia.
Foi procurado durante muito tempo. Até que deram o caso como perdido.
De vez em quando, aconteciam outros desaparecimentos…
túnel
X decidiu passar uma temporada no oriente, iniciando a aventura na China. Ora as viagens são caríssimas, depois a segurança nos aeroportos, depois o que se gasta em táxis para o centro de, digamos, Shangai. Ora X não tinha dinheiro para isto, mas teve uma ideia ao continuar a ser massacrado ao longo de um mês por martelos pneumáticos e perfuradoras profissionais e desceu um andar.
Depois de perguntar quando terminariam as obras, decidiu propôr um novo trabalho aos trolhas. Já cá estavam as máquinas, o sangue e suor. Porque não fazer um buraco, sempre a direito, até ao outro lado do mundo?
X está à espera que as obras terminem para iniciar a sua grande obra. Um túnel.
02.23.08
perfume
Esta é a história de um homem mal cheiroso, tinhoso e antipático para a vizinhança. Resmungava em vez de dar os bons dias, andava sempre sózinho e vivia numa casa térrea que também não via limpeza há anos.
Por vezes o cheiro era tão intenso que se distribuia por toda a terreola.
Os vizinhos não sabiam o que pensar sobre o pobre coitado. Não bebia, não fumava, apenas não era limpo. Juntaram-se para ajudá-lo por uma vez. Compraram produtos de limpeza, shampôs, sabões, escova de dentes e tudo o mais e deixaram o saco à porta. Ficou lá durante dias. Até que desistiram.
Passado umas semanas, o mau cheiro parou. Toda a gente percebeu e muitos pensavam que o pobre coitado tinha ido embora.
Aliviados, foi com alegria que sentiram os odores magníficos das outras coisas, da fruta aos jardins, dos canteiros às flores.
Para comemorarem prepararam toda uma festa. E foi durante esta que alguém interrompeu o artista que cantarolava para dizer que o pobre coitado não se tinha ido embora. Estava morto há dias e dias em casa. Ao contrário de toda a gente quando morre, em vez do mau cheiro ele emanava frescura primaveril.
O choque foi geral. A tristeza também. Afinal, o homem podia ser horrível por fora, mas o seu coração era de ouro.
02.22.08
óscar
X prepara-se afincadamente para os Òscars do próximo Domingo. É toda uma madrugada atenta às interrupções musicais e asneirada dos comentadores nacionais, mas é sempre giro ter uns comes e bebes na mesa e fazer uma noitada com amigos.
Mas a grande satisfação de X é ter ganho um Óscar. Sim, X tem um Óscar. Foi há sete anos que um Óscar lhe foi oferecido devido a uma prestação notável. Um olhar de medo misturado com curiosidade, um tamanho pequeno que se previa chegar a grande e toda uma viagem ao interior da casa, fizeram dele um excelente actor. Se bem que de quatro patas.
Portanto, há sete anos que vemos a emissão juntos. Eu tenho os meus preferidos, ele deverá ter outros.
02.21.08
pedra
Houve um dia em que X, numa pequena cidade, colocou a primeira pedra. E ao lado um poste que continha a mensagem “Pedra a Pedra, juntos chegamos lá!” As pessoas que passavam interrogavam-se no chegar onde, mas com alguma curiosidade lá traziam uma pedra e colocavam-na ao lado e por cima da primeira. Meses depois estava construída uma enorme casa. X, que tinha entretanto aberto ao público uma loja que vendia pedras, tansformou-a rapidamente numa que vendia tijolos, vidros e demais materiais de construção.
Num dia foi até ao lugar, colocou a primeira telha e mudou o sinal para “Juntos estamos quase lá!”
Foi num ápice que o povo lhe esgotou o sotck e, um mês depois a casa estava totalmente pronta.
Enquanto que os locais se abrigavam lá dentro e discutiam “O chegar lá, mas onde?”, X fechou a loja e partiu para outra terra…
02.20.08
Oco
X conheceu há muitos anos, num passeio numa praia pelas duas da manhã, um fulano muito ébrio que se tentava levantar mas o corpo decidia sentar-se na areia. X perguntou-lhe se estava bem, se precisava de ajuda. A resposta foi negativa mas, porque há sempre um mas, gostaria de ter alguém ao lado para desabafar. X sentou-se e ouviu a história mais extraordinária que podia ter ouvido. Este fulano era militar e a bebedeira que tinha apanhado era comemorativa de ter deixado o posto onde ficou enterrado 10 anos. “Enterrado” pensou X e a sua curiosidade foi imediatamente satisfeita. O fulano tinha mesmo trabalhado debaixo da terra durante uma década. Era um alto funcionário de uma força governamental secreta portuguesa que, em conjunto com outra semelhante dos EUA, traçaram em Portugal toda uma linha defensiva ou de ataque a mísseis de longo alcance. X perguntou, “desculpe lá, mas isso é lá nas Lages”, ao que ele muito divertido e depois de uma sonora gargalhada afirmou uma coisa que ainda vem ao pensamento de X de vez em quando. “Não, meu amigo, não!” e continuou ” toda a costa vicentina é oca. Está cheia de laboratórios e comandos de ataque e defesa governamentais. Vocês têm debaixo do chão mais de 2000 mísseis do mais avançado que há!”.
X ficou subitamente alerta. Mas que raio de delírio e deixou escapar um “pois, pois”.
Ao levantar-se, o fulano disse-lhe para tentar chegar a certas partes da costa que pareciam desertas. Que reparasse em estranhas construções de betão. E em redes que proibiam a passagem para a frente. E, se tivesse sorte, até veria uns jipes a passar levantando algum pó.
Pó, pensou X. Deve ser mas é do pó.
Despediu-se e deixou o fulano feliz sentado na praia. X só contou esta história anos depois a amigos e todos lhe chamaram nomes.
02.19.08
inteligência
Hoje X leu que em 2029 as máquinas vão ser tão inteligentes como o Homem. Ora bem, X reflectiu sobre o assunto e a notícia até que é positiva. Reparem, em 29 X terá mais 21 anos, ou seja, já se encontrará naquele sector denominado terceira idade. Ou quase, pois os 40 são os novos 30 e por aí adiante. De qualquer forma, necessitará de ajuda para vários efeitos. Os músculos não vão ser os mesmos, a memória então nem se fala, as próprias necessidades do dia a dia vão ser tarefas complicadas, difíceis, transtornantes.
Ora pensando nisto tudo, X até acha que a inteligência artificial será muito bem vinda, se fôr colocada num robot bonito, de silicone e com movimentos quase humanos.
Mas, pensando melhor, se as máquinas forem tão inteligentes como nós também sabem que podem dizer “não”.
Ora X tem que repensar todo o assunto.
raiz
Esta é a aventura de um homem que tinha muito amor aos animais. Principalmente aos seus cães, pois já ia no terceiro. Sempre da mesma raça o mais parecidos possível.
Este homem começou a ser conhecido pelos vizinhos, depois foi vendo os vizinhos a desaparecerem, uns por óbito outros para a estranja e foi cada vez ficando mais sózinho.
Muitos anos depois, já o homem tinha uma certa idade e o seu cão também.
Ninguém sabe porquê, mas ficaram de pé, um ao lado do outro, no jardim durante muito tempo.
Diz quem passou por lá que a situação não mudava, mas também não era conta de ninguém. Veio um Verão, um Outono e um longo e frio Inverno. E eles os dois sempre ali. Na mesma posição, impávidos, serenos.
Um mês depois alguém chamou as autoridades que, por acaso já sabiam deste estranho homem e do seu cão. Guiaram o jipe da GNR até lá e aproximaram-se devagarinho. Quando chegaram mesmo mesmo perto perceberam que estavam mortos. Assim, naquela posição. Parte das pernas de ambos já estava enrolada por raízes que os mantinham presos ao chão e de pé.
Os agentes não sabiam o que fazer e, após relatórios e relatórios, intervenções políticas, etc e tal, viam os anos a passar. E com eles as raízes a subirem cada vez mais.
Quando finalmente veio uma ordem de um ministro qualquer, já o homem e o cão eram vegetação. Duas árvores plenas de vida.
E assim se mantiveram.
02.17.08
dimensão
No outro dia, X visitou uma estranha dimensão em que as coisas são bem mais realistas do que as que vivemos.
Tudo parecia feito à imagem dos relógios de Dali, só que nesta dimensão o efeito passava por tudo e todos consoante a idade. Por exemplo, os velhos muito velhotes pareciam pessoas derretidas e em camadas. Mas toda a sociedade estava preparada para isto, pois os velhos muito velhotes eram transportados em carrinhos feitos de propósito para eles. As lojas que frequentavam tinham balcões muito baixos assim como tudo o resto que eles necessitavam. Havia supermercados específicos, as máquinas para os bilhetes tinham 5 cm de altura, as primeiras filas dos teatros e cinemas eram revervadas para eles, etc.
Mas isto acontecia em tudo, por exemplo, quando um automóvel começava a ficar velho e inútil, todas as suas formas estavam mais, como dizer, derretidas. E o dono sabia que era o tempo para trocar. X achou esta dimensão bem curiosa e muito mais honesta que a sua. Mas só lá conseguia chegar de vez em quando e sabia que não podia viver lá. É triste, mas verdade.
02.16.08
clarão
Numa cidade de colinas, algures neste mundo, houve um dia em que um grande clarão surgiu no céu durante 1 minuto. As pessoas ficaram cegas por ele e foi o caos na cidade. Contudo, o mais interessante foi esse mesmo clarão fazer com que as pessoas perdessem a memória durante umas largas horas. O que aconteceu de seguida teve coisas boas e más, como carros estacionados em descidas sem o travão posto, pessoas que ofereciam boleia a quem estava nas paragens de autocarro, pessoas que ao chegar ao emprego devido à repetição desse trajecto durante anos, pararem os carros e oferecerem as chaves a quem surgisse porque já não necessitavam dele, malta jovem quem se esqueceu para que servia um skate e passaram horas à conversa sentados em circulo, etc. Aconteceu de tudo um pouco. X acordou mais tarde que o habitual e falhou o clarão, razão para vos estar a esrever o que viu e viveu durante esse dia memorável na tal cidade com colinas.
02.15.08
ideias
X escrevinhou freneticamente na sua sebenta uma ideia que tinha tido há muito tempo e que agora lhe tinha reaparecido. Foi à procura de apoios que, logicamente, não encontrou. Depois falou com os amigos e amigas e perguntou-lhes se conheciam quem tinha carros antigos e pequenos e que quisessem livrar-se deles. Havia três, um Polo antigo, um Fiesta dos primeiros e, pasme-se, um Fiat 127 que ainda andava.
X foi buscá-los um a um e ainda lhe agradeceram por tirar as carroças das mãos dos donos.
Depois foi ter com um amigo que também estava in between jobs e propôs-lhe uma aliança. Com algum dinheiro mandaram fazer uns vinis para colocar nos carros. Eram patadas de animais e um nome. Mas antes disso pediram a um amigo pintor de automóveis que, a preço do material, lá fez com que os três carros ficassem verde alface.
Aproveitaram estar na garagem, tiraram os bancos de trás, colocaram duas jaulas em cada um e pronto. Os vinis estavam quase todos colocados, faltava o mais importante. “PETCAB”!
Pediram a uma amiga que também estava in between jobs e os três fizeram-se à estrada.
No primeiro dia não entrou dinheiro. No segundo já algum. Ao fim de um mês, suficiente.
Combinaram o próximo passo: telefonar a amigos para mais três carros velhos e abrir um pequeno escritório para alguém atender os telefonemas.
Passados seis meses a frota incluia 12 carros e o escritório já era bem maior.
02.14.08
buraco
X guia determinado a poupar o seu veículo automóvel, evitando os buracos das ruas mais esburacadas da europa. Mas às vezes não dá e lá se vai mais um pouco de saúde dos pneus e amortecedores. No outro dia, para evitar bater num camião, meteu-se mesmo num grande buraco. Este cedeu e X mais o carro ainda caíram umas dezenas de metros. O mais bizarro foi caírem em cima de outros veículos… um Opel Senator, um Ford Escort, um Simca 1100, etc. Não havia cadáveres, portanto X não se alarmou muito. Vestiu o seu colete verde incandescente, tirou o GPS do carro, uma lanterna e fez-se ao, enfim, caminho.
A sua ideia era, com o GPS, apanhar a saída de esgoto nos restauradores por onde entram as pessoas que querem ver as catacumbas da cidade. O sinal estava fraco mas era para oeste. Tudo bem. Ao avançar lentamente foi descobrindo quadrigas, vestes, arcos, setas, algumas colunas de pedra, banhos públicos, parte de casas fenícias, outras romanas, até que ouviu um barulho.
“Olá! Está aí alguém?”, perguntou. Uma voz feminina gritava nervosamente “Aqui, aqui!!!” e X foi à procura. Encontrou-a ainda dentro do automóvel que tinha caído num outro buraco. Ajudou-a a descer os vários automóveis por baixo e contou-lhe que lhe tinha sucedido o mesmo.
Abraçados, porque só havia uma lanterna, lá foram descobrindo coisas de outras épocas. Depois passaram por estacas secas e quebradiças devido à falta de água e deram com uma parede de cimento. Caminharam ao lado dela e viram uma porta. “Finalmente” gritou X “uma saída”.
Abriram a porta e entraram num túnel escuro. De repente duas luzes brancas. “Estamos quase lá” disse um aliviado X. Mas as luzes vinham contra eles depressa demais e só tiveram tempo de se encostarem à parede. Iam morrendo de susto e choque. Ao que a fulana diz “Bolas, já sei onde estamos. Ali ao fundo fica a estação de Metro do Cais do Sodré”. Correram até à galeria. E não é que ela estava certa?
corpo
Tcharam! X acordou cedo. Não sabia a quantas andava. Eram 2 da matina, hora de dormir. Mas num tcharam e num tímido toc toc toc, X vislumbrou uma luz que o convidava a segui-la. Porque não, questionou. Mas que coisa é esta, questionou. Vou ou não vou, questionou. E no meio de tantas dúvidas, lançou-se à luz.
Deu a mão a uma coisa branca, tão pura e tão forte que da sua mão só via o esqueleto. Gostou de ver os ossos impecáveis da sua mão. O ser apercebeu-se disso e abraçou-o. Um longo e apertado abraço. X, depois do susto, deixou-se penetrar por aquela luz tão límpida, forte e única. Viu todo o seu interior. Descobriu mazelas no fígado e nos brônquios. Percebeu alguns problemas no fluxo da sua corrente sanguínea. Viu a gordura acumulada em todo o seu corpo. Descobriu a beleza do seu interior, com avermelhados, rosas e roxos. Viu também azuis de todas as tonalidades. E muitos verdes secos. X tinha uma corpo maravilhoso, limpo e cheio de vida. Mas não sadio. E foi neste preciso momento que acordou. Que raio… mais um ET que lhe veio dizer para ter cuidado.
02.13.08
Monstro
X não gosta de andar de barco por razões que para aqui não são chamadas. Mas certa vez teve que atravessar todo um mar dentro de um iate. Sentiu-se indisposto dias seguidos e só via a linha do horizonte. De repente, toda uma violenta tempestade se atirou para cima do barco. Era o salve-se quem puder, todos se agarravam a qualquer coisa, o Z caiu ao mar, não podíamos fazer nada a não ser atirar-lhe uma bóia de salvação. Para piorar as coisas, um enorme monstro marinho surgiu das profundezas. Tinha o tamanho de um prédio de cinco andares e, ao abrir a sua enorme boca, sabiamos que estavamos perdidos. Todos nós e o barco foram engolidos pelo maldito monstro, escorregámos por uma espécie de garganta cheia de destroços de outros barcos e coisas que não percebíamos. Até que parámos.
Vimos se todos estávamos bem, abraçámo-nos, chorámos pelo Z, tirámos haveres do que restava do barco e caminhámos para o interior do animal. De repente demos com a bóia que atirámos ao Z e, com esperança, gritámos-lhe o nome. Tudo ecoava naquele espaço que se ia alargando. Um de nós viu uma claridade lá ao fundo e, num repente a voz de Z. Corremos desenfreados até a uma parte do corpo do bicho que estava cheia de gente. O Z era um deles. Todos sobreviventes de aventuras semelhantes. Uns estavam lá há anos e iam comendo o que o monstro engolia, desde peixes a crustáceos. Havia inclusivé habitações, feitas de partes de iates, barcos pequenos, grandes veleiros. Constituiram-se famílias que até geraram e percebemos que iamos passar o resto dos nossos dias ali.
X ao ser apresentado a toda a gente descobriu XX. E a partir daí não se importou com mais nada.
02.12.08
Cruz
Nesta altura do campeonato, convém dizer que X, por vezes, não encontra uma ideia para escrever em cinco minutos. Tenta desesperadamente encontrar um sonho, um episódio, uma memória. Mas parece que tudo trava quando se deseja escrever. Então onde está essa barreira, esse travão maldoso? X foi para o espelho da casa de banho tentar descobrir o local dessa desgraça. Observou-se muito tempo. Será nos olhos, que não vêem o que devem ver? Será na boca que não transmite o que deve dizer? Será na testa ainda sem rugas? Bolas, um tipo da idade de X tem que ter rugas, mas não se vislumbram… ah, gordurinha. Pois, deve ser isso… talvez. X examinou os ouvidos que parecem não querer ouvir o óbvio e manobram o que entra com uma vontade muito própria. Depois passou para as mãos. Mãos quadradas, dedos redondinhos, unhas mordinhas com perfeição. Mas a pele está seca. X detesta cremes. Blharcccc.
Não, o mal deve estar noutro lado, algures por aí.
E nem quero desculpar-me com as obras do vizinho de baixo que rebenta com paredes e azulejos. Desde as 9 às 19 que os martelos pneumáticos, berbequins e maços enchem a casa de X.
Não, o problema deve ser outro. Ou então…. bem, amanhã é outro dia.
02.11.08
Morte
“Vamos liquidá~la?”
Todos na mesa anuíram. A discussão passou a ser sobre o quando, as armas que eram necessárias, a rapidez de todo o processo, quem iria à frente e quem seguia no fim, se naquele bairro ou num mais central, etc.
Finda a reunião com tudo preparado e decorado, cada um seguiu o seu caminho.
Era questão de uma semana, para preencher os requisitos. Mas durante essa semana alguns não conseguiam dormir e outros só com a ajuda de químicos.
O dia, entretanto, chegou. Era a hora.
X vai na frente com Z, logo seguidos por A e C. Entram com rapidez nas instalações.
Esperaram o momento certo, pois não queriam dar nas vistas.
Esperaram bastante até surgir a oportunidade. Os quatro lançam-se rapidamente para o balcão e, quase em uníssono, dizem: “Queremos liquidar uma empresa!”
02.10.08
sexo
X decidiu falar de sexo para ver se o tráfego aumenta. É um truque que lhe ensinaram para aumentar as visitas ao blog. Portanto, e para além do título, X vai mencionar diversas ocasiões, diversões, posições e vocábulos vários que se relacionam com o título.
Reparem: X sonhou que estava a ser perseguido por um número enorme de cães. Era uma canzana perigosa. Por outro lado X é religioso, quase puro e beato e assumiu a posição de missionário para que os cães não o perseguissem mais. Eram 69 cães, uma matilha, portanto. Vamos lá checar o sitemeter. Nada ainda. O melhor então é escrever um estrangeirismo, tipo sex. E como sexo é a mesma coisa que sex mas com mais uma vogal, poderemos assim procurar mercado no estrangeiro.
Giro seria observar a cara dos cámones quando chegassem ávidos a este blog e não percebiam nada do que estava escrito.
De qualquer forma, X está consciente que alguns serão tugas e que uma ínfima parte deles se manterá por cá diariamente.
Portanto, meus valentes, às armas: sexo, sexo a valer, muito sexo, s.e.x.o. , sim muito e aiai.
É um texto curto mas é Domingo.
E atenção, não confundir com seixo. Isso era mau demais.
Bom resto de descanso.
02.09.08
valentia
Esta é a aventura de um homem valente. Era quem lançava os foguetes na sua terra aquando as festarolas e era considerado como um mestre na sua profissão.
Era também um perfeccionista e nunca ficava satisfeito com o resultado dos seus fogos de artifício que faziam as delícias das gentes da terreola.
Assim, decidiu fabricar os seus próprios foguetes e derivados. Deu a força de dois a cada um. A notícia espalhou-se rapidamente pela terra e todos ansiavam a próxima festa de um qualquer santo.
Chegado o dia, o homem valente chegou ao centro do povoado e tirou todo o arsenal da carroça perante exclamações entusiasmadas e muitos aplausos.
O homem valente, que agora já era considerado o mestre valente ficou inchado com tanto orgulho. A hora estava a chegar e chegou precisamente enquanto X escrevia esta linha.
O mestre valente preparou um foguete enquanto toda a terra se silenciou. Fchhhhhhhhhhhhhhhhhhiuuuuu, lá foi entre muita fumarada e barulho. Todos os olhos olhavam deliciados nos belos efeitos e cores deste super foguete.
Depois olharam para o mestre valente que se contorcia com dores horríveis, pois a sua mão direita tinha ido com o foguete. O povo horrorizado levou-o para o hospital mais próximo da terra, a uns valentes kms, onde lhe fizeram um coto bem redondo e perfeito.
Estas festas populares duram três dias e o povo estava triste por não ter mais fogo de artifício e também pelo que acontecera ao outrora mestre e agora homem valente.
E quem o viu chegar ao centro da vila e tirar com mais dificuldade o arsenal que tinha criado, nem queria acreditar. “Ainda tenho uma mão, porra!” exclamou. O povo preocupado aconselhou-o a não o fazer mas o homem era um valente.
Agarrou noutro dos seus superfoguetes, acendeu-o e pfchzzzzziiiuuuuu, lá foi. Este ainda tinha efeitos mais bonitos e cores mais fortes. Todos aplaudiam e gritavam hurras!
Mas depois da poeira assentar, o homem valente já não tinha a outra mão e chorava ferido de orgulho e dor enquanto era transportado para o hospital.
“E agora?” perguntava um aflito presidente da freguesia no último dia de festas da sua terra.
“Agora?”, respondeu o homem valente, “agora ainda tenho dois pés, raios partam!”Pediu entre os jovens um assistente e a multidão gritou “Ahhh VALENTE”.
02.08.08
cantinho
Certa vez X encontrou um sapo grande e verde. Olharam-se os dois e X seguiu o seu caminho por entre um mar de árvores e vegetação cerrada. Passado um par de horas, X decidiu descansar e reconfortar-se com uma bela sandes de presunto e queijo da serra e um termo de café bem puxado. De repente uma voz assusta-o: “Vais comer essa sandes toda?”. X olhou em redor e nada viu. Seria uma partida da psique? “Olha cá para baixo!” E ao descer o olhar viu o sapo que o tinha seguido ao longe. “Mas tu falas, sapo?”. “Falo sim, domino quatro linguas e geralmente fico calado mas essa sandes abriu-me o apetite”. “Concerteza que podes comer parte dela”. X então cortou-a ao meio e mesmo assim as duas partes eram grandes. O sapo deu a primeira lambidela e depois, muito depressa, engoliu a parte dele. “Mhhhh, um cafézito até que ia” disse. X ofereceu-lhe um café. Achava divertido estar a lanchar e convesar com um sapo. Já lhe tinha acontecido estar com um cão e até com um cavalo, mas esses não dominavam quatro idiomas. Nem um.
Depois de se deitarem regalados, o sapo disse “Pois é, tu vens do cantinho das coisas boas!”. X olhou para o sapo com um ar admirado. “E que cantinho é esse?”. O sapo riu, pois a sua grande sabedoria sabia que nenhum humano dava valor aquilo que tinha de mão beijada. “Vens de Portugal, não é? Onde existe o queijo da serra, niza e azeitão, onde o pão de centeio, alentejano e mafra acolhem manteiga pura e com sal e um belo presunto pata preta, sem falar dos vinhos do norte ao sul… e nem quero falar mais”. X ficou atónito e respondeu afirmativamente ao sapo.
Depois dormiu uma sesta e sonhou com as cebolas algarvias, a sopa da pedra, o cozido à portuguesa, os chocos fritos, o polvo à lagareiro…
Quando acordou procurou o sapo mas este já se tinha ido. Então decidiu regressar à sua terra. Ao seu belo cantinho.
02.07.08
matraquear
O que fazer quando se anda com uma música na cabeça e não se sabe o nome do artista ou grupo ou o título da mesma? Bom, em princípio deixa-se esquecer a coisa. Ela há-de bater mais tarde ou mais cedo. Mas o pior para X é que ia acordando dias seguidos com a maldita melodia na cabeça. Da-da-di da-da-dum, da-da-di da-da-dum. Era o refrão, cantado por uma senhora. E era, logicamente dos anos 80. Ora X telefonou a amigos e amigas e cantava essa parte. Alguns riram-se porque X não sabe cantar e outros devem ter posto a mão à frente da boca para abafarem uma risada. Um ou outro lembravam-se. Da-da-di da-da-dum… “epá, eu conheço isso…. mas não faço a mínima de quem é” era a resposta dos com boa memória auditiva.
X procurou pelo da-da-di na net, nada. Sabia de cor os acordes sintetizados e o beat. E era isso que fustrava. Ou talvez porque fosse das poucas músicas que dançava nas disco algarvias há 25 anos atrás.
Novo dia, X acorda e não é o da-da-di da-da-dum que ouve. Fica aliviado, contente. Mas após o primeiro café, lá surgiu na sua mente toda a música. Raios parta!
Da-da-di da-da-dum… da-da-di da-da-dum
02.06.08
mudança
A ressaca é uma coisa muito boa. No dia seguinte uma pessoa lembra-se automaticamente do que exagerou mal passa pela coisa. X conheceu um amigo que nesse dia seguinte prometeu nunca mais misturar drogas com álcool. Acordou com uma fé que não possuia na noite que tinha terminado há umas horas. Prometeu largar as bebidas e todos os associados. Até o tabaco, ou seja, tudo o que lhe pesava na consciência… e na boca.
Telefonou a X para informá-lo desta grande decisão e X aplaudiu. Encorajou-o e deu-lhe força.
Nessa mesma noite, convidou-o para jantar. Abriu uma garrafa de vinho apenas para ele e deu um copo alto de água ao amigo. Este entretanto atrasou-se e quando chegou trazia num saco plástico duas de tinto e uma de scotch. Mal se sentou puxou de um cigarro.
X indagou… “Então pá? Essa decisão?”ao que o amigo, muito contente, respondeu “É para comemorar a grande mudança X! Amanhã é que começo”…
02.05.08
carnaval
X chamou o seu amigo génio que concede desejos a quem souber contactá-lo. O nº de telefone é difícil de conseguir, mas X ganhou-o numa rifa numa festa popular lá para o norte numa terreola perto de Sabúgal.
Chegado o génio, X pediu-lhe que nesta época carnavalesca, fizesse com que todos os mascarados, enfeitados, foliões e todos os demais, ficassem assim durante todo um ano.
“Isso é cruel” respondeu o génio.
“Cruel porquê? As pessoas mascaram-se do que queriam ser, portanto façamos-lhe a vontade.”
O génio tirou a sua varinha do bolso, disse umas quantas coisas que só ele sabe e o feitiço estava dado.
X riu-se. Foi a sua partida de carnaval deste ano.
02.04.08
números
X é fã das novas tecnologias, mas como tudo, estas também falham. Assim decidiu escrever numa agenda de papel todos os números de telefone que tem e que vem guardando ao longo dos anos.
A primeira surpresa foi encontrar dezenas de que não se lembrava das pessoas. Tentou forçar a memória, mas nada. A segunda surpresa foi recuperar momentos quando encontrava alguém que fora especial por uma razão ou outra.
Depois de completar a tarefa, que exigiu algum tempo, demorou-se em alguns nomes, riu algumas vezes e teve saudades outras tantas.
O que fazem os números…
02.03.08
cores
X acordou um dia e só depois de abrir os olhos percebeu que só via uma cor e as suas sombras. Foi à sala, outra sala, ao computador, à cozinha, sempre a mesma cor. Um verde que era intenso algumas vezes, noutras menos e por vezes tocava o azulado.
X foi à sua enorme varanda ver Lisboa. Toda a cidade estava colorida nestes tons.
“Que estranho”, pensou. Voltou a meter-se na cama e obrigou-se a dormir mais uma hora.
Quando reacordou estava tudo diferente, mas igual. O verde foi substítuído pelo amarelo, que desde torrado a claro, confundia-lhe as coisas e os passos. Mesmo assim, encheu-se de valentia e foi dar uma volta pela cidade. À medida que ia mudando de rua, as cores mudavam também. A sua era amarela, a de baixo azul. A praceta violeta, a avenida grande castanha.
Perguntou a quem passava se viam o mesmo que ele. Alguns chamaram-lhe louco, outros daltónico.
Mas um velhote parou. Pediu para se sentarem num banco de jardim e explicou-lhe que também ele tinha acordado assim num dia. Ouviu todas as perguntas de X e só no final falou: “Sabes, cada cor é um medo teu ou uma dúvida. Quando conseguires resolver essas coisas, todas as cores se juntarão como antes “. Levantou-se, despediu-se de X com um forte aperto de mão e prosseguiu o seu caminho.
Agora restava a X acreditar e foi para casa. Pintou uma parede de branco, depois desenhou-lhe uma quadrícula em preto. Mas ambos continuavam amarelos para ele. Em cada espaço vazio escreveu os seus problemas. E estava na hora de os ultrapassar.
02.02.08
justiça
O grande problema eram os amores que ambos os cavalheiros nutriam pela mesma donzela.
Tantas as desavenças que, numa madrugada de nevoeiro denso, cada um deu 120 passos de costas viradas e ao grito de um “ataque” dispararam as pesadas pistolas. Ambos caíram sem vida.
A donzela chorou e foi aí que um antepassado de X a reconfortou. Fê-lo de tal forma bem que a donzela rapidamente se tornou na sua donzela. O problema era que o antepassado de X não era lá muito católico e a união dos dois, na sociedade da altura, não era bem vista.
Ambos viviam em pecado e quando o primeiro filho nasceu, X Júnior, a populaça apareceu em fúria destruíndo por completo todos os pertences da família X.
Revoltados, mudaram de país, enriqueceram, tornaram-se muito famosos em toda a europa.
Quando chegou a hora para X encontrar esposa para o seu primogénito, decidiu fazê-lo na cidade que o tinha expulsado.
A família X surgiu num dia de sol, as suas vestes eream coloridas e ricas, os seus criados faziam fila atrás. O governador do local quis logo fazer figura e ordenou aos habitantes que vestissem o melhor possível as suas filhas e as colocassem em fila na rua principal da terra.
Uma a uma X e o seu filho olharam para a cara de todas elas e nunca pararam numa em especial.
Mas, de repente, o olhar de X Júmior abriu-se, ao mesmo tempo que a montada parava. Fez sinal ao seu pai que, olhando, viu uma linda rapariga, criada de uma das mais influentes famílias da zona.
Foi com graciosidade que X Júnior lhe estendeu a mão. E foi corada que a rapariga subiu para o seu cavalo.
A populaça revoltada, dizia que era uma criada e não uma donzela e que tal não poderia acontecer.
O antepasssado de X, já num tom mais autoritário, pediu silêncio e que o seguissem até o local que tinha sido a sua casa.
Todos pararam diante das ruínas e todos perceberam quem era este senhor.
Com uma forte gargalhada, perguntou ao filho se aquela era a rapariga certa e ouviu a resposta afirmativa.
Poucos anos mais tarde nasceu um lindo rapaz, X Júnior Júnior.
O tetravô do actual X.
02.01.08
lua
Se no mundo existisse uma lua, seria lá que X moraria. Não era necessário uma lua muito grande, mas que tivesse espaço para se poder andar à vontade, brincar com o cão, tomar uma banhoca ao luar e estar longe e perto de tudo e todos.
O que X mais adoraria era poder soltar a lua das suas amarras e mudar de ares e território de tempos a tempos. Assim viveria nos continentes da sua predilecção, sobre os oceanos que o maravilham, poderia subir muito alto à noite e descer até ao chão durante o dia. É que no chão estão as raízes e as saudades da terra onde se nasceu. Essa mesma terra onde, num dia, uma pequena esfera cor de pérola caíu no seu quintal e foi crescendo, crescendo até chegar à sua dimensão actual.
Afinal viver no mundo da lua não é para todos, mas que é fantástico ninguém pode negar.
01.31.08
voar
X, quando era puto, aproveitava a falta de um ou outro professor para se meter no autocarro nº 44 e ir para o grande terraço do aeroporto. Adorava vê-los a descolar e aterrar, a fumarada dos pneus quando tocavam a pista. Imaginava o terror sentido por alguns passageiros nessas alturas.
Depois o aeroporto foi mudando e já não bastavam 5 minutos de 44 para chegar lá.
Mais velho, ainda frequentou uma bar com vista para a pista, onde piscava o olho às hospedeiras e outras gentes que também tinham esse vício.
Quando aconteceu a primeira viagem de X dentro de um avião, deixaram-no ir ao cockpit. Ficou fascinado com tantas luzes e botões, tanta tecnologia que permitia ao homem fazer de pássaro.
E o bichinho pela aeronáutica aumentou. Com uns amigos, decidiu escavar um túnel de fora para dentro da pista. Escavaram-no até onde mais ou menos os aviões descolam. Fizeram um buraco até à pista e taparam-no com uma porta de ferro.
Sem os pais saberem, muitos finais de tarde deste grupo de amigos era seguir pelo túnel até ao portão de ferro. Adaptaram uns coletes com grandes elásticos e um gancho que apanhava uma das rodas do avião. Era um grande esticão, mas a sensação de viajar àquela velocidade era a melhor coisa do mundo. Quando sobrevoavam o Tejo, cortavam o elástico e com um lençol a fazer de pára-quedas, aterravam na água sem grande violência.
O pior de toda esta aventura era explicar aos pais porque estavam todos molhados se não tinha chovido naquele dia.
Até hoje o túnel lá está, secreto, e a porta já sofreu um remendo de alcatrão.
X comprou uma picareta recentemente. E telefonou aos amigos.
01.30.08
obras
X está incomunicável! Não por causa do cão (a operação correu bem mas ainda lá ficou), mas porque os vizinhos mesmo por baixo iniciaram as grandes obras, o que significa tirar todos os azulejos, algumas paredes e outras coisas que nem sei.
Ora X trabalha em casa e nem se ouve pensar. Daí ter colocado uns phones anti-ruído exterior para abafar a coisa. Mas no entretanto também abafa os telefones e a campainha da porta.
E o pensamento? Como se consegue abafar um ruído externo para se conseguir pensar? X avaliou várias propostas no mercado, entre elas destacavam-se armas de tiro para acabar num repente com o barulho, mas também gás, spray pimenta, etc. Uma solução doméstica era colocar as colunas no chão e pôr o amplificador no máximo com temas que sabemos que os trolhas não toleram (tipo música) ou ainda apresentar um ar doente e pedir aos novos donos do apartamento em questão uma suite no hotel do Chiado.
Mas não, X não consegue decidir-se. Uma tempestade sonora abafa-lhe inclusive os gritos.
Os pés ficam dormentes com a tremedeira. Faltam ainda horas para que os moços acabem a tortura. E X está, neste preciso momento, auditivamente incomunicável.
O quê? Hein? Não percebo… Hein?
01.29.08
telefonema
Hoje a grande aventura de X é esperar por um telefonema. Uma chamada que pode ou não ser boa. O que fazer entretanto para esquecer esta terrível angústia nas horas que vão passando muito devagar? A cabeça está longe, a concentração não existe, o sorriso fácil também não.
Só resta esperar que a intervenção ao canídeo quadrúpede corra bem e que ele volte a ser o maluco que era. Até manhã.
01.28.08
lex
X está a gostar desta nova lei do tabaco. Tem conhecido e travado conversas com inúmeras pessoas à porta de restaurantes, cafés e estabelecimentos vários.
Há uma empatia imediata, uma conversa automática, o mundo mudou.
Está mais simpático, as pessoas deixam casacos, malas e comida para vir à porta dar a fumaça.
No outro dia, um amigo de X estava a fumar à porta do seu tasco preferido quando a seu lado surgiu uma rapariga que também é pecadora. Y e Z olharam um para o outro e fumaram vários cigarros. Apaixonaram-se de imediato, pagaram as contas, deixaram penduradas as pessoas com quem estavam e foram ser felizes.
Quando Y contou que adorava amar e ser amado como nunca foi, X sorriu e desde então tem fumado muitas vezes às portas dos seus tascos preferidos. Mas para além de agradáveis conversas, ainda não encontrou a sua ninfa.
01.27.08
domingo
É Domingo. X, ao Domingo, gosta de fazer um pequeno-almoço digno de um membro de uma família real. Uma refeição variada e altamente calórica para enfrentar um dia cheio de exercício físico e respirar ar puro para manter o seu corpo são e sólido. Agarra no seu carro com a bicicleta no tejadilho, pára em Belém, prepara a bicla, tira o seu cão do porta-bagagens, ata-o à bicla e começa a pedalar paralelamente ao Tejo. Leva algumas tabletes energéticas e água para o cão. Assim passa a manhã. Pelas duas da tarde regressa a casa, cansado mas feliz. Almoça uma salada, dá de comer ao cão e relaxa uma horita no sofá. Depois de um grande banho esfoliante, vai dar uma volta, se o tempo permitir, até a uma estrada lindíssima que vai para Almodovar. Vê o pôr-do-sol e janta num restaurante da terra. Regressa a casa para passear o cão.
Driiiimg, ouve-se repetidamente.
São 11 da manhã e X acorda. Raios parta, que sonho mais beto.
01.26.08
funeral
Uma das coisas que mais gozo dá a X é o terminar de mais um bloco de apontamentos e depois juntá-lo à direita dos outros preenchidos com textos, letras, poemas, desenhos, rabiscos, projectos, ideias, parvoíces e parvoeiras.
X tem todo um ritual preparado para este acontecimento. Fecha cuidadosamente o bloco após ver se todas as folhas estão direitas, ata-lhe uma guita e lacra o nó da dita. Depois encosta-o aos outros, sem títulos ou números. Para quê? Isso das datas só são importantes para uns e os títulos para aqueles que gostam de tê-los.
Trata-se de todo um funeral em que se relembram as últimas peripécias que estão neste bloco de apontamentos. Mas não é um funeral triste. É só mais um.
Daqui a muitos anos, X irá reabri-los um por um, da esquerda para a direita e assim relembrar toda a sua vida
01.25.08
anseolítico
X acordou sobressaltado. Aliás, reacordou, pois o despertador deu-lhe o aviso horas antes. Foi à casa de banho num pulo, lavou-se à gato, vestiu a primeira roupa que encontrou, agarrou nos vários pertences modernos e tradicionais, atirou-os para dentro da mochila, foi passear o cão nervosamente, o cão não se despachava nem por nada, finalmente lá fez tudo, deixou-o em casa, alguém tinha estacionado em segunda fila precisamente ao lado do seu carro, apitou furiosamente, barafustou contra a mulher que trazia sacos de supermercado, andou a 100 onde o radar permite 50, deve ter apanhado uma data de multas, deixou escapar a saída certa da segunda circular, logo a seguir veio a fila interminável de gente nos carros e quase que desistiu.
Tomou um anseolítico para aguentar mais esse tempo perdido, olhava para todos os relógios, o do carro, o do telemóvel e o do pulso e reparou que todos estavam com minutos diferentes, decidiu telefonar para avisar que ia chegar atrasado, finalmente lá conseguiu fazer mais uns metros e saír na próxima saída (como dizem os GPS), andou para trás numa estrada secundária cheia de pessoas sem passadeiras, com passeios feitos de alcatrão, reparou que só estava atrasado dois minutos, o anseolítico começou a funcionar, a funcionar extremamente bem porque lhe toldou a visão e X, uns kms à frente teve mesmo que encostar o carro para dormir quimicamente.
Acordou horas depois e só se lembrava que tinha uma reunião importante, ligou o carro e olhou para os três relógios. Percebeu que tinha falhado. Telefonou para com quem se ia reunir e não atendia, telefonou outra vez e, com uma voz quimicamente ensonada alguém perguntou quem era. X respondeu a justificar o atraso. Do outro lado, e depois de uma série de asneiras, Y disse que tinha tomado um anseolítico e que parou numa bomba qualquer.
Riram-se os dois e combinaram a reunião para o jantar.
01.24.08
vento
X teve um amigo que adorava duas coisas: palavras e vento. Era um eterno apaixonado pela vida, pelas iguarias, pelas tradições e romarias. Mas o que gostava mesmo era de se sentar no pico do monte mais alto para escrever palavras. Algumas soltas, outras em frases. Depois atirava as folhas ao ar e o vento encarregava-se de distribui-las por todo o lado.
Certo dia ele apaixonou-se por uma bela rapariga lá da cidade onde vivia. Como era tímido, só a seguia encantado pela sua elegância e beleza. Perguntou a X o que fazer ao que a resposta foi a única que se poderia dar: “Tens que ultrapassar essa timidez e falar com ela.” Mas ele não conseguia. Um dia, quando se cruzou com ela, ambos ficaram quietos a olhar profundamente para a a alma de cada um. Mas ele não conseguiu profrerir uma palavra e fugiu para o cimo do monte.
Passou dias a pensar no que fazer e, num repente, descobriu a solução: iria escrever mil poemas de amor, mas só um seria para ela. Se o vento os levasse para a cidade e se ela apanhasse o seu, perceberia finalmente o quanto ele estava apaixonado e viria ter consigo ao cume do monte.
Então, começou a escrever e a lançar as folhas ao vento.
01.23.08
rolamentos
X teve na sua infância, como a maior parte dos putos excepto um primo, todo um fantástico carrinho de rolamentos feito por si.
Mas depois de muitos choques, quedas violentas, grandes arranhões e pele queimada, estas verdadeiras bombas rolantes deixaram, a pouco e pouco, de fazer parte da vizinhança.
Só ficámos com as biclas, a bola de futebol, piões e berlindes. Ah, e carrinhos e Action Man´s.
Muitos anos passaram e foi muito recentemente que, num restaurante típico de bairro, que se fez novamente luz na cabeça de X. Havia pais que tentavam encontrar um espaço para arrumar o último grito no que respeita a carrinhos de bebés. Devem ter passado o mesmo lá fora, a tentar estacionar o deles.
X olhou demoradamente para este novo veículo, um verdadeiro triciclo topo de gama, com travões, suspensões e um belo banco que mais parecia uma bacquet de competição, com cinto de segurança e tudo.
E quanto mais olhava, mais perto via a concretização de um campeonato original, uma verdadeira competição entre estes carrinhos nas várias descidas de Lisboa.
No dia seguinte foi ver estes carrinhos às lojas. Havia com três, quatro rodas, até modelos com suspensões activas e pneus em jantes de alumínio. O preço é que era um problema. Precisaria de um financiamento bancário e patrocínios de vária ordem para conseguir levar o projecto ávante.
Para se preparar, comprou um modelo de três rodas, gama média, adaptou um guiador à frente com os travões, aumentou a cadeira ocupando o espaço das bagagens e ficou com um bólide nas mãos passados uns dias de trabalho árduo e criativo. Agora só tinha que o levar para o bairro onde morou em petiz e lançar-se nas mesmas descidas e na “curva da morte do artista”.
X iniciou a descida, bateu recordes de velocidade e também bateu em qualquer coisa que não se lembra. Aliás, ainda hoje não se lembra de nada. Nem de ninguém. Só consegue ver paredes brancas almofadadas e alguém lhe vestiu uma camisa com umas mangas tão compridas que se juntam atrás prendendo-lhe os movimentos com umas estranhas algemas de cabedal grosso.
01.22.08
patins
X olhava curioso para os putos que usam aqueles ténis que se tansformam de repente em mono-patim. Gostava de ter uns, mas de certeza que o seu equilíbrio não o iria permitir fazer razias às populações que habitam os centros comerciais. Mas que chegaria de A a B mais depressa, lá isso chegaria. Tinha que pensar numa solução e, ao ver as montras, encontrou-a na forma daqueles ténis que mostram os pitons na parte do calcanhar e que depressa alcunhou de ténis incompletos. Comprou uns e foi ter com X2, amigo de infância que habitava uma cave escura e se intitulava inventor. Quando transcrevia essas invenções para papel, intitulava-se escritor. X2 era um gajo engraçado e multiusos.
Sempre muito fiel aos seus All Stars, claro que largou uma forte gargalhada quando viu os ténis incompletos. X aguentou o gozo e transmitiu-lhe a ideia. “Ora temos meia dúzia de pitons em cada ténis, não é? Os quais quero transformar em rodas. Dá mais estabilidade e serão bem mais rápidos que os outros”. X2 achou brilhante e pediu dois dias a X.
Passadas 48h lá estava X a admirar o belo trabalho de X2, que em vez de rodinhas, colou pequenas esferas metálicas “para te dar mais liberdade na direcção e tudo, topas?”.
X achou que um inventor tem sempre razão, calçou-os, meteu-se na primeira rua e, num milésimo de segundo, cada perna se afastou para os lados numa esparregata perfeita, dinâmica, extraordinária a que qualquer júri de ginástica daria um perfeito 10/10.
X2 riu-se mas depressa percebeu que o seu amigo agonizava. Ajudou-o a retirar a invenção, levantou-o e deixou-o no sofá da cave enquanto chamava uma ambulância.
Na próxima vez que X foi ao centro comercial foi apoiado em duas muletas, com pontas de borracha para evitar qualquer deslize.
E foi com elas que X passou uma tarde a pregar rasteiras aos putos dos ténis mono-patim.
01.21.08
casa
X quer mudar de casa. Há muitas razões, mas a primeira é que se tornou grande demais e bastante confusa. Quer um espaço grande, com sala grande, com algumas curiosidades e recantos, etc. Bom, mas acima de tudo quer um jardim para o seu cão e lugares de estacionamento.
X então comprou muitos balões, centenas deles, uma bilha de gás e um cesto de verga. Como mora no último andar, ninguém viu os preparativos. Levaria uma bússula, um pequeno gerador e uma ventoínha grande para o empurrar contra o vento, se tal fosse necessário.
Enchidos 100 balões, meteu o seu cão no cesto, depois entrou e cortou a amarra com o canivete.
Lentamente o seu veículo de pesquisa começou a subir. Finalmente viu alguns segredos do seu bairro, desceu e subiu as colinas e ia tirando muitas fotografias.
Quando algum espaço era merecedor de maior atenção, X explodia 5o balões para descer o mais possível e ver melhor. Depois, com a ajuda da botija de gás, depressa enchia 50 balões novos e voltava lá para cima.
A sua cidade tem recantos lindos, jardins escondidos, prédios que guardam espaços no seu interior, pequenas vilas com árvores e putos a jogar à bola.
Mas não viu a casa dos seus sonhos. Empurrando os balões com a ventoinha regressou ao seu andar e pensou num plano.
Amanhã necessitaria de milhões de balões para poderem levantar parte da sua casa do resto do prédio. E assim poderia viver no céu. Sempre que fosse necessário, desceria para passear o cão e fazer as compras do dia. Não teria vizinhos, mas também podia ouvir música às horas que lhe apetecesse.
Ora pensado, dito e só faltava o feito. X foi buscar o serrote e começou a dividir a sua casa do resto do prédio.
01.20.08
papel
Telefonaram a X a pedir um requerimento de 2003. Uma coisa qualquer que só tem importância para quem faz requerimentos. Já foi difícil para X encontrar o telefone e só lá conseguiu chegar auditivamente. Requerimento quer sempre dizer que qualquer coisa de muito mau irá acontecer. Então X resolve levantar-se. Ficou ainda sentado com os inúmeros papéis de várias cores, tamanhos, amarrotados ou por ordem a voarem em todas as direcções até lhe caírem novamente em cima. X olhou em volta. Toda a sala (ou seria o quarto?) estava cheia de papelada. Uma confusão assinalável. Não se via um palmo de chão. Só papéis, dossiers, pilhas de apontamentos, livros gastos, livros por abrir e papelada. Sim, muita papelada. Desorganizada, pensava toda a gente que visitava X. Mas para ele esta suposta desorganização tinha mais ou menos alguma lógica.
Começou à procura do ano 2003. Estava entre o 2006 e o 1997. Ali mais para o canto esquerdo por baixo de uma das janelas. Andou de gatas por cima de todos os anos, todos os acontecimentos, todas as missivas, todos os pensamentos. De vez em quando perdia-se e sentava-se a ler qualquer coisa que lhe tinha sido importante. Mas o telefonema foi ameaçador e lá estava X debaixo da janela. Ora 2003, 2003…. tanta coisa de 2003. Foi há tanto tempo. Perdeu horas a tentar descobrir o tal de requerimento. Até que se lembrou que, ensonado e durante o telefonema, ninguém lhe disse de que requerimento se tratava.
Podia ter ficado perturbado, mas como neste Portugal um pedido segue sempre outro, como os requerimentos, voltou para o centro da sala (ou seria o quarto?) e, como quem se atira para dentro de uma piscina, afundou-se de onde tinha saído. E adormeceu tranquilamente.
01.19.08
cor
O mundo tinha mudado. As cores tinham desaparecido e por muito que X vestisse a roupa mais colorida, mal saía de casa, tudo se transformava em preto e cinzento. Era estranho, mas já toda a gente se tinha habituado.
Foi num nestes dias e no meio de todo o reboliço de um Chiado cheio de gente que X viu, muito ao de leve, uma cor. Foi um choque. Decidiu segui-la para saber o que era. Foi díficil conseguir abrir caminho por tanta gente e obstáculos, mas de vez em quando lá estava o rasto da cor.
X reforçou com ganas a sua perseguição e cada vez se aproximava mais desta cor, que cada vez também era maior. De repente tudo parou. Havia alturas em que tudo e todos paravam, mesmo X. Mas desta vez, não se sabe porquê, só a cor e X se moviam e foi com rapidez que X conseguiu alcançá-la.
Por baixo de um grande sobretudo preto surgia, escondido, um bonito vestido cor de mel e turqueza. Era um vestido. Portanto era uma mulher. X olhou para cima, para o seu rosto. E ela já estava também a admirá-lo. Tirou os óculos escuros e brindou X com um magnífico sorriso colorido pelo azul dos olhos.
Todos os outros se começaram a mover ao mesmo tempo e X só teve tempo de lhe agarrar na mão e puxá-la até si.
E enquanto tudo e todos se moviam eram eles que ficaram parados. Para sempre.
01.18.08
Reviravolta
X gosta de trocar as voltas. É giro e sabe-lhe bem. Quando troca a volta a uma volta, parece que fica tudo na mesma. Mas não. Fica ao contrário. E isso troca as voltas a muito boa gente. O trocar a volta não é uma tarefa muito simples. Nem imaginária. É simplesmente fazer ao contrário daquilo que se disse que se ia fazer. Pode trocar-se a volta em inúmeras situações. Até em linha recta, o que é fabuloso. É uma coisa de adolescente, cria um sorriso traquina na face e dá-nos aquele arrepio fininho pelo corpo todo porque fizemos asneira. Mas não da grossa, pois aí o arrepio deixaria de ser fininho.
Há efeitos práticos que X utiliza de vez em quando. Por exemplo, à questão “vamos dar uma volta?”, X tem duas respostas simples e directas: um “não” simples e seco ou um ar de enfado imediato. Geralmente resultam.
À questão “não consegues dar a volta a isso?”, X é mais cauteloso. O “Epá, isto não tá fácil” tem barbas e já ninguém acredita no “Atão não?”.
Por muitas voltas que se dêem, há sempre aquela que fica marcada para sempre. O passo ao lado, errado, o tropeção. Entristece-nos, persegue-nos, atira-nos para um estado ausente ou arreliado. Ficamos mesmo em baixo. E aí já não há volta a dar-lhe.
Com a razão satisfeita e o objectivo conquistado, o Mr. X não queria deixar de contar as suas pequenas aventuras. Mas um trato é um trato e este blog terminou.
Contudo, tudo continuará na mesma. Mas aqui:
É só clicar.
Um até já.
Fidelidade
Isto de ser fiel tem muito que se lhe diga. É-se fiel a um companheiro, seja ele bípede ou quadrúpede, a uma marca de automóveis e electrodomésticos (linha branca ou castanha), a um operador de telemóveis, aos tascos e restaurantes onde nos tratam bem. Gosta-se mais de umas séries tv que outras, discutimos os nossos preferidos com quem tem outros, é-se fiel até a pequenas coisas do dia a dia, como tomar banho e lavar os dentes depois ou vice versa.
É-se fiel a amigos, mais fiel a uns que a outros. Nos encontros ocasionais, dá-se aquele abraço e promete-se logo telefonar para uma patuscada, o que nunca faremos. Portanto somos infiéis não o sendo.
Quando nos chateamos com o nosso operador de sempre, seja de telecomunicações ou tv, bancário ou segurador, mudamos logo para outro que seja mais barato ou apelativo na comunicação. Somos fiéis aos companheiros até ao dia que não o somos. E depois não o somos outra vez. E tempos depois passamos a ser fiéis a outra companhia. Somos fiéis aos bichos até eles morrerem e arranjamos logo um mais pequenino e fofinho para lhe tomar o lugar. Mudamos de marca de automóvel quando a concorrência dá mais pelo nosso ou faz aquele modelo “uau”.
Afinal, somos fiéis a quê e, melhor, porque razão somos fiéis?
Toda esta conversa só tem um motivo: o Mr X terminou o objectivo do outro lado, mas é fiel à comunicação e, porque não, a quem o lê.
Portanto aqui está uma verdadeira razão para comemorar a fidelidade. A verdadeira. Aquela de que se gosta e que só depende de nós.
01.17.08
promessa
01.16.08
último
X só tem um cigarro. Descuidou-se, é tarde e está um forte temporal lá fora. Se for de carro até a uma bomba sabe que não terá lugar para estacionar ao regressar. É um pesadelo.
X olha para o maço davidoff preto. Abre e fecha-o várias vezes, na esperança que exista o milagre da multiplicação. Mas não, continua lá aquele sózinho, desamparado, todo branco.
Um cigarro simples, sem cores, a contrastar com a negra caixa.
X tira-o finalmente da dita. Olha-o, pousa-o na mesa. Fá-lo rolar uma e outra vez. Tenta mantê-lo na vertical. Consegue pelo lado do filtro, mas não se aguenta pela outra extremidade.
X agarra-o com as pontas dos indicadores. Sente-o, deseja-o. Cheira-o uma e outra vez.
Coloca-o na ponta dos lábios. Imita o acto de fumar várias vezes, expelindo ar e tudo.
Decide voltar a colocá-lo na caixa. Mas é por pouco tempo.
Ao voltar a colocá-lo nos lábios, agarra no bic. Sente as suas formas arredondadas, inspecciona o mecanismo, abana-o, acende-o duas ou três vezes.
Chegou a hora!
E o pesadelo acontece: de tanto brincar com o cigarro, colocou-o na boca ao contrário e acendeu o filtro. O sabor e o cheiro são angustiantes. Impetuosamente atira-o para longe, ainda aceso. Escorrega para trás da secretária e o cheiro a queimado começa a ser notório.
Bolas! X lança-se para baixo dela. Lá estava o sacana a começar a arder um dos cabos do computador.
Filho da mãe! Com esforço conseguiu retirá-lo lá do canto e foi com uma forte e determinada pisadela que destruíu por completo… o seu último cigarro.
Tremeu.
E agora?
01.15.08
blogues
X decidiu entrar nessa moda actual e fazer um blogue. Pensou, pensou e teve algumas ideias. Então decidiu fazer vários blogues. O primeiro seria simples, com um design daqueles que vêm pré-escolhidos e em que tudo é automático para ajudar quem não percebe muito destas coisas. Este servir-lhe-ia para comunicar os outros, mais complexos e arrojados. Que tal para publicidade? Tinha era que encontrar um nome sugestivo…. ora “Blob” ou “Cão que ladra morde” ou “Gata assanhada precisa de manicure” pareciam bem. Este blogue apenas conteria informação para as verdadeiras ideias de X, ou seja, os outros blogues. Uma delas, visto que os tempos estão difíceis para todos, era criar uma fábrica de desejos. O nome poderia ser “Dá para todos” ou “Ponha-se na Fila” e garantia que toda a gente que o visitasse entregaria 5€ numa conta destinada para o efeito. Ora o primeiro que estava inscrito, por exemplo X, queria dinheiro para comprar uma camara de video toda hightech e alta definição e tal para fazer filmes. Precisaria de 1700€. Ora se toda a gente entrasse com 5€, e partindo do princípio que X é uma pessoa séria, digna de confiança e único administrador do blogue, depressa se atingiria a quantia pretendida. Mal isso acontecesse, quem estivesse em segundo passava para primeiro e precisava de 5000€ para pagar as dívidas ao fisco. Este blogue seria cada vez mais popular e a coisa seria um sucesso.
O segundo era um blogue de trocas de material e coisas, com um nome tipo “truca-truca” ou “troque aqui”. As pessoas só enviariam o que queriam trocar e escolhiam na lista uma coisa do mesmo valor. Simples, sem comissões e útil para a sociedade. A verdadeira reciclagem.
X tinha mais ideias, mas era melhor começar já.
E quando se preparava para abrir as contas no blogger, pumba, cortaram-lhe a net por falta de pagamento.
01.14.08
desejos
O Mago disse a X “Toma três desejos, tens que os pensar bem pois desejo pedido não tem retorno”. X achou estranho, pois pensava que era o génio da lâmpada que concedia esta sorte, mas a cavalo dado não se olha o dente e decidiu arriscar: “Ok, o meu primeiro desejo é egoísta, pois quero-o para mim!”. O Mago, pensativamente, esperou pelo pedido de olho meio franzido. “Pois quero que tudo o que me foi tirado por inveja, incompetência e mediocridade, me seja dado. E com juros rectroactivos”, pediu X, entusiasmado.
O Mago, com olhar assustado, concedeu o pedido e disse a X para aguardar um dia.
Mal acordou X ouviu as notícias: algumas indústrias tinham sido fechadas, muitos negócios acabados e muitas pessoas tinham sido detidas pelas falcatruas que fizeram ao longo da vida. Por outro lado, X tinha o sucesso merecido em certas áreas e a sua conta mais recheada que o costume.
Não era bem isto que ele queria, mas também não se preocupou muito com os reflexos do seu pedido.
O Mago reapareceu pelas 11 da manhã. “Tens mais dois, afirmou!”.
X reflectiu. Bastante. No meio de tanta coisa, não sabia bem o que escolher. “Olha lá, ó Mago, já concedeste estes desejos a alguém?”. O Mago respondeu afirmativamente. “E alguém pediu paz entre os homens e comida para todos?”. O Mago respondeu afirmativamente. “Então porquê é que continua a haver guerra e fome?”
O Mago sentou-se. Encolheu os ombros e disse que não sabia. “Em princípio devia ter acontecido, mas ficou tudo na mesma. Ando um bocado destroçado e preocupado com isso…” – disse.
X pensou. “Então Mago, já sei quais são os meus outros dois desejos.”
O Mago levantou-se num repente, alegre por concluir mais uma missão e esperou ansiosamente pelo pedido.
X disse, calmamente: “O meu segundo desejo é que voltes à tua terra e aprendas como fazer mesmo, mas mesmo, a vontade de quem te pede o quase impossível.”
O Mago estranhou, mas acedeu. “E o terceiro?”
“O terceiro – respondeu X – é que regresses outra vez a mim para que eu te possa pedir essas mesmas coisas”.
O Mago entendeu a tarefa, despediu-se de X e desapareceu numa nuvem de pó mágico.
X ficou na dúvida se alguma vez o voltaria a ver.
01.13.08
fumo
X acordou e olhou para a sua grande janela, a mesma que lhe permite ver a sua cidade quase por inteiro e finais de tarde inesquecíveis.
Mas hoje o tempo estava diferente. Um estranho nevoeiro cobria a tão afamada luz da cidade. Cheirava diferente, pior que as marés mais vazias.
X olhou para baixo, para as ruas do seu bairro. Ali e acolá via pequenas luzinhas vermelhas, rápidas, fugazes e com movimentos bruscos e escondidos.
Decidiu descer para ir beber o café e passear o cão. Também ele estava diferente, mais amedrontado, receoso até. Um estranho silêncio habitava o prédio enquanto o elevador descia os vários andares.
Mal abriu a porta do elevador, achou estranho o amontoado de pessoas à porta do seu prédio, como se estivessem a resguardar-se de uma chuva que não acontecia. Muita gente calada. O fumo aqui era tão denso que não deixava descobrir as suas caras, subindo numa grossa espiral negra e densa que depois se misturava com o cinzento da atmosfera.
Foi com alguma dificuldade que X ultrapassou com o seu cão esta horda de gente estranha e ameaçadora. Mas ao fazê-lo reparou que todos eles tinham umas estranhas luzinhas vermelhas nos dedos e que as levavam à boca, em movimentos rápidos e quase simultâneos.
X viu que eram cigarros. Simples cigarros. Ao olhar em redor viu diversos grupos, de costas voltadas para o exterior, fumando os seus cigarros como se fosse o último pecado nem assim tão original.
Toda a gente o evitava olhar, passando rapidamente com a cabeça baixa, com um chapéu bem puxado para a frente. Alguns alarmes tocavam em pequenos cafés e estabelecimentos comerciais e era só uma questão de segundos para ver gente atrás de um fugitivo, a agarrá-lo, a atirá-lo para o chão e pontapeá-lo.
Logo a seguir surgiu uma carrinha da nova força policial especial para o combate a este crime. Dela saíam soldados armados como no Iraque e com máscaras anti-gás. Um minuto depois atiravam o criminoso encapuçado, atado, semi desmaiado para dentro da carrinha.
Uns quantos populares gritavam urras de satisfação e reentravam nos estabelecimentos. Os pequenos grupos que se viravam de costas nem se mexiam e já tinham há muito apagado qualquer vestígio dos seus crimes.
Passadas semanas, o pânico tinha-se instalado na cidade. Pessoas corriam para se proteger de algum bufo, escondiam-se nas esquinas, nas entradas dos prédios. O céu de Lisboa estava cada vez mais negro e as sirenes tocavam e passavam por todo o lado.
O Verão chegara, mas o sol não.
As outroras maternidades, hospitais e urgências que o governo tinha fechado, serviam agora de prisão para os cada vez mais condenados. Alguns crimes mais violentos iam sendo cometidos, como por exemplo, o roubo de máquinas de tabaco em vez de caixas de multibanco.
O governo, sempre disposto a ajudar drogados com metadona e kits especiais, recusava baixar os impostos e nem dava desconto nos tratamentos anti-tabágicos, pois essas receitas eram cada vez mas necessárias.
Mas este Verão cinzento e sem sol trouxe uma outra novidade: a falta de turistas, a falência das cervejarias e cafés com esplanada, da indústria de gelados. O “vá para fora cá dentro” depressa foi esquecido e em apenas um ano Portugal perdeu 83% das receitas turísticas.
Novas equipas de limpeza urbana tiveram que ser criadas para limparem as ruas dos milhões de beatas acumuladas, a maior parte atiradas dos prédios ou de carros em movimento. As sargetas estavam entupidas.
Os barcos não cruzavam o Tejo, pois os motores não tinham força para abrir caminho entre todo o lixo amarelo e branco.
Portugal faliu, as indústrias fecharam, os caminhos estavam obstruídos, não havia água nem electricidade e aos poucos, os lisboetas abandonaram a sua cidade e rumaram ao campo, às vilas abandonadas, à desertificação que já tinha sido esquecida.
Aí tiveram que aprender novos ofícios, como caçar, pescar, fazer roupa da pele dos animais, lareiras que os aqueciam pela noite, troca directa e afins…
O céu era azul e eles finalmente viviam num ar livre, livre, livre.
01.12.08
rei
X gostaria de morrer como um rei, numa barcaça ardente ao sabor do Tejo.
Enquanto as chamas o envolveriam, olharia a sua bela cidade, relembrava as suas aventuras, as noites, os amores e desamores, os amigos e inimigos, as traições e as fidelidades.
Quando as chamas chegassem a ele e o fumo já não o deixasse ver nada, cerraria os olhos e embalado pela maré e pelo calor, relembraria as viagens que fez, os rostos que conheceu, as mulheres que desejou, as que encontrou, os silêncios de algumas horas, os barulhos de tudo e todos, a paz e o corropio.
Mas X não é rei, portanto nunca morrerá como um.
Quando esse dia chegar, serão os amigos, as amigas, as pessoas que o conheceram e gostavam dele a estarem presentes para um último adeus. E aí, quem não se sente e é um verdadeiro rei?
01.11.08
caminho
X quando toma a esquerda sabe ao que vai. Quando toma a direita, finge-se dividido, mas também sabe ao que vai. Portanto encontrou uma solução para não ter que tomar a decisão: segue em frente! E isto porquê? Porque tem sempre a possibilidade de recuar por um caminho que já conhece. Deste modo, pensa, protege-se.
O problema acontece quando a esquerda se afasta cada vez mais da direita, e vice versa, e lá muito ao fundo fazem uma inversão de 180º e voltam a reencontrar-se mesmo no centro, onde X está. Como fugir? Andar mais para a frente ou recuar!
Mas tal como na construção de vias de comunicação, a esquerda e a direita voltam a separar-se e a reencontrar-se vezes sem conta. E a linha onde X se resguarda está cada vez mais minada, mais atravessada, mais complicada.
Dizem que somos nós, homens, que dificultamos a própria vida e existência, mas afinal tudo não passa de encontros desencontrados.
01.10.08
indecisão
Qual o despertador que acorda X, o do telemóvel ou do relógio alarme? Bom, um deles faz o trabalho. Quando X se levanta tem duas possibilidades, qualquer uma só após o brinde de vida, de alegria e de lamdidelas do seu cão. Ou dorme mais aquele bom bocadinho ou levanta-se num ápice, como se não houvesse amanhã.
Desta vez resolveu levantar-se. Calça os chinelos ou vai descalço até à casa de banho? E ao lá chegar, vê a barba de quatro dias, a que já não é cool, e não sabe se a vai fazer ou não. Se sim, será com lâmina ou máquina? A lâmina é mais rápida mas a máquina faz melhor.
Decide tomar um banho. Duche ou imersão? E qual o shampôo a utilizar? O que trata os cabelos brancos, o do cheirinho a flores, o desportivo masculino ou somente o sabão de glicerina que também faz espuma e lava muito bem?
Fecha a torneira enquanto se ensaboa ou deixa-a a gastar água com aquela temperatura óptima e ideal que levou tanto tempo a conseguir?
Por fim, já lavado, que toalhão escolher? O mais velho e gasto mas que seca mais rapidamente ou o novo e felpudo que parece que não funciona? Limpa-se dentro da banheira ou sai para o tapete e molha-o todo?
Voltando à barba. Será que a fez? Se sim qual o bálsamo a utilizar? O mais corriqueiro, o todo especial e caro ou aquele que até dá para a pele toda da cara com vitaminas, proteínas e tudo e mais alguma coisa?
Os ouvidos. Deixará para ficar para amanhã ou opta pelas tradicionais cotonetes em vez daquelas todas modernas que chegam a todo o lado mas que assustam e ainda estão dentro da embalagem?
Ok, tudo feito, tudo perfeito, mesmo depois de ter que decidir qual o desodorizante e o perfume para hoje.
X vai para o quarto e o cão dá-lhe as boas vindas. Outra vez.
E agora, que roupa escolher?
Que calças, shorts, meias, sapatos, ténis, cinto, t-shirt, camisa, casaco, cachecol, blusão?
No fim de tudo isto e já na rua, X fica muito satisfeito por só ter um veículo ligeiro e uma chave na mão.
Lembrou a altura em que teve dois e o drama que era a escolha.
01.09.08
cara metade
X subiu até ao telhado do seu prédio. Estava uma noite magnífica, estrelada, mesmo mágica e ele sabia que era agora ou nunca.
Viu a primeira estrela-cadente, mas passou demasiado longe. Uma segunda e terceira também. Mas a quarta vinha mesmo na sua direcção. X tomou balanço, saltou e conseguiu agarrar o extremo final da cauda desta estrela-cadente.
Iniciava assim a viagem que o seu pai, avô, bisavô, tetra avô tinham feito e contado aos descendentes. X ainda não tinha filho mas chegava a hora, daí esta viagem ser tão importante.
Via a sua casa a desaparecer depressa, a sua cidade transformou-se num pequeno ponto de luz igual a tantos outros que eram outras cidades de outros países e depois de outros continentes.
Subiu a pulso a cauda da estrela e montou-a como se fosse o seu dragão alado. Viu mundos paralelos em que os seus antecessores lhe disseram adeus. X retribuiu com lágrimas de felicidade, estavam todos juntos e bem.
Viajou por portas mágicas, tempos sem tempo, lugares sem espaço, sonhos nunca dormidos.
Até que a estrela-cadente lhe deu o sinal para ele a largar e deixar-se caír.
Caiu, caiu, caiu durante muito tempo, mas ia sendo amparado pelas estrelas, depois pelas nuvens e a velocidade ia diminuindo.
Começou a adivinhar o ponto de luz que era a sua cidade e foi com uma brisa forte e quente que aterrou no seu terraço.
Estava chegada a sua hora e já podia contar a história da sua família.
Só faltava agora encontrar a sua cara-metade.
01.08.08
encontro
Ambos tinham-se conhecido por blogues. Cada um tinha o seu. Durante muito tempo comentaram as ideias de cada um. Até que surgiu o primeiro email. Depois o segundo. E muitos outros. Com algumas necessidades de gritar, ele criou um outro blog para lançar tudo o que tinha dentro, todas as taras, todos os desejos, todas as fantasias. E disse-lho. Era macabro, quase sanguinário, era verdadeiramente sensual e sexual. Até ele se assustou. Quando, no dia seguinte, se preparava para continuar a sua história, recebeu um email dela, continuando a história dele, ainda mais violenta, mais sanguinária e muito, mas muito mais sexual e sensual.
Ele ficou sem saber o que fazer. Optou por responder-lhe ao email, em vez de continuar a sua história no blogue recentemente criado. Respondeu-lhe como quis, sem tretas ou tramas, foi lógico, puro e duro. A resposta veio por email. E foi por email que escreveram uma das histórias mais bizarras de sempre. Depois disto, o encontro físico seria inevitável. Estava escrito, descrito, sentia-se a pele, sentia-se o cheiro. Sentiam-se.
Marcaram encontro em território neutro. Ele chegou primeiro que ela, mas pouco.
Ela surgiu radiosa, com um sorriso de desejo como ele há muito só via no cinema.
Entraram na casa que um deles tinha descoberto e arrendado.
Passados uns dias, toda a polícia da região e nacional procuravam dois jovens desaparecidos. Eram notícia de telejornal e nem ingleses eram. Houve alguém que leu os emails e os mostrou à judiciária. Foi difícil encontrá-los.
Lado a lado estavam enrolados, agarrados, dormiam para sempre, extenuados pela fome e sede. Mas a paixão e o delírio, os sentidos e a descoberta de outros que não existem nos livros, foram mais importantes que tudo. Até que da própria vida.
Os seus emails acabaram por ser editados em livro. Foram traduzidos em muitas línguas.
E pelo mundo, muitos jovens iam desaparecendo…
01.07.08
destino
X acordou sobressaltado. Nada lhe vinha à cabeça, nenhum pensamento, nenhuma ideia, nenhuma aventura. Então decidiu recorrer às bancas de jornais e a outros estabelecimentos. Nos jornais, nada a fazer, pois tudo já estava escrito. Tudo era velho, nada original. No café da esquina, as conversas eram as mesmas sobre o fumar-se ou não. Foi ao mercado de peixe. Aí, depois de deambular pelas peixeiras e os seus gritos rebeldes de uma vida dura, ouviu chamarem-lhe patrão várias vezes. Os convites vinham de todos os lados, as frescuras eram sempre as mais frescas e os bichos os mais salgados. Escolheu um peixe, pois a vendedora garantiu-lhe que encontraria o que buscava nas entranhas deste animal mal cheiroso. Chegou a casa, esvendrou o peixe e, com uma certa repugnância, remexeu-lhe as entranhas. Havia coisas estranhas, duras, pequenitas. Lavando-as, descobriu um anel de ouro com brazão e uma moeda de ouro de um galeão espanhol do séc XVIII.
Consultou a net, leu que havia registos de um galeão desaparecido ao largo do Tejo e decidiu descobri-lo.
Arranjou uma barcaça a motor, uma rede, uns óculos de mergulho e outros aparelhos. Mas, num repente, uma violenta tempestade assolou o Tejo e todo o Atlântico, a barcaça rodopiava em cima das vagas, subiu quilómetros dentro dos furações, viajou a uma velocidade incrível e ia desfazendo-se aos poucos.
Após uns dias, X acordou extenuado e com sede num mar calmo e límpido. À sua frente estava uma majestosa ilha. A sua barcaça, levada pela maré, entrou na baía, perfeita como nos filmes, e parou quando atingiu a areia branca e virgem da praia. X saiu da barcaça. Olhou em redor e ali mesmo, ao seu lado, estava o galeão espanhol.
01.06.08
quadro
X gosta de pintar. Não tem técnica nem conhecimento que o justifique, mas os resultados até que nem são maus. Num destes dias, numa das muitas tertúlias domésticas, viu-se diante de uma discussão entre dois sabichões que não concordavam em nada. Quase que se incompatibilizaram e saíram zangados, talvez também devido a algum álcool consumido.
Ora X depois disto teve uma enorme vontade de fazer uma obra-prima, pois entendeu que se alguém detestasse a pintura, haveria outro alguém que a adoraria.
Meteu mãos à obra com tudo o que encontrou em casa, desde tintas plásticas, óleo, farinha, gesso, pimenta em grão, raminhos, folhas secas e, para finalizar, uma grande lata de laca para colar tudo muito bem.
Admirou o resultado. Até que tinha ficado uma coisa de jeito, pensou.
O segundo passo era conseguir entrar numa galeria de arte e expôr o seu. Assinou como Mr X, reparou que estava lá uma quadrito foleiro exposto como nº5, trocou-os e depois foi fazer a mudança nos folhetos informativos, onde reescreveu o nome do seu quadro “incognitum” com um valor que julgava justo, cerca de 25000€.
Foi para casa contente. No dia seguinte passou pela galeria e não viu o seu quadro.
Foi falar com a galerista que, ao saber que X era o Mr X, gritou de alegria e abraçou-o com força.
“Incognitum” tinha sido vendido não por 25000, mas por 32.500€, pois dois clientes habituais queriam mesmo levar aquela obra maravilhosa para a sua colecção.
X agarrou no cheque, saíu e ainda vagueou um pouco pelas ruas próximas sem saber muito bem se havia de gritar ou somente sorrir.
01.05.08
saúde
Dois grandes amigos de infância, tropa e festanças, entraram naquela idade em que a última visita poderá ser mesmo a definitiva. Numa viagem ao Algarve, juntaram as vontades e decidiram ir visitar um amigo que não viam há décadas.
Chegados à terreola, iam perguntando ali e acolá se alguém conhecia o Sr Z. E foi logicamente na taberna/café/mini mercado que alguém o conhecia. “O Z? Epá, vocês tiveram mesmo azar. O Z morreu…”
Os dois amigos ficaram chocados, mais ainda porque tinha sido durante essa mesma noite e o corpo estava a ser velado na capela da igreja. Foram imediatamente para lá, no passo mais rápido que a idade lhes permitia.
Ao entrar na capela, deram logo com Z, deitado num caixão aberto com um lenço rendilhado a tapar-lhe parte do rosto.
Calhou a W desenrascar um discurso fúnebre: “Epá Z, então vimos nós de tão longe para te rever e encontramos-te neste estado? Olha, não sei muito bem o que te dizer. Bem, boa saúde é que todos precisamos, portanto toma bem conta da tua, ouviste?”
Nessa altura, K agarrou no braço de W e sussurrou-lhe “Ó homem, despacha lá isto que já estás a dar muita barraca”.
No caminho de regresso iam relembrando os outros amigos da mesma altura. Mas não encontraram coragem para ir visitar um só que fosse.
01.04.08
adeus
Os mais difíceis adeus são aqueles que se prolongam na memória, não os físicos ou os reais. Dizer adeus a alguém ou algo que foi importante na nossa vida é muito perturbador. Exige sacrifício, revisitar memórias, alteração comportamental e há quem prefira a isto tudo apanhar somente uma valente bezana. Parece que faz esquecer tudo, mas isso é mentira.
X ainda tem muitos adeus por concluír, finalizar, concretizar. Mas por qualquer razão, não é um pensamento que está constante na sua vida. Só por momentos, porque associa qualquer coisa a qualquer coisa, revisita o passado com tudo o que tem de bom e mau.
E aí, ao revisitá-lo, percebe que é uma boa pessoa, digna, de confiança. Valente até.
Poderia ser um qualquer azelha, porque o mundo actual é deles. Mas não, incomoda-se quando falha, tem dúvidas se é bom amigo ou se poderia ser melhor e até se preocupa se é bom na cama ou egoísta na mesma.
Será que são todos estes pensamentos que o impedem de dizer um adeus? De se despedir condignamente? Mas então para que é que se preocupa com estas coisas? Não será melhor dizer adeus a todas estas questões? Assim, de uma forma simples e directa, como… adeus!
01.03.08
ser
Quando X era pequenino gostava de ser coisas diferentes dos outros meninos. Queria ser um carro de bombeiros, quando eles queriam ser bombeiros. Depois quis ser um carro de corridas quando eles queriam ser pilotos. Houve uma altura em que quis ser avião e eles passageiros.
Essa fase, como todas as fases, passa depressa.
Ao chegar ao liceu, X só queria passar os anos sem grandes marranços, enquanto alguns dos outros viviam obcecados com notas e médias finais e deixavam a vida passar ao lado.
Tudo foi assim na vida de X.
Hoje continua a querer ser coisas diferentes. Gostava de ser o tempo porque todos os outros fazem a vida por ele. Gostava de ser água porque todos a bebem. Gostava de ser calor, pois todos precisam dele. Gostava de ser doce, pois a vida é bastante amarga.
X gostava, acima de tudo, de ser um pouco de tudo, porque tudo o que os outros têm, o que até pode ser muito, não vale absolutamente nada.
01.02.08
pedras
X gosta muito da calçada portuguesa. Ok, é-lhe difícil encontrar calçado que aguente tempo seco e chuva sem derrapanços e, à parte uma escorredadelas, a coisa faz-se por meio dos buracos, dos pedaços sem predras, dos desníveis devido às raizes de uma árvore que quer ver o sol e das cagadelas de cão, do lixo esvoaçante, da falta de espaço por causa dos automóveis, mas é o preço a pagar por ter uma calçada portuguesa e portugueses com falta de educaçao.
Tudo isto para dizer que X às vezes faz um estranho jogo com a calçada. Não pode ser daquela toda branca, mas daquela com desenhos a preto com motivos naturais, históricos ou até matemáticos.
Por vezes até têm simbologias e nomes de bairros de antigos patrões. Tempos idos.
Por tudo isto, X hoje escolheu um início para mais um percurso com destino incerto. Escolheu pisar só as pedras pretas nunca tocando nas brancas. Teve que saltar algumas vezes, outras dar passadas de corrida compridas e balanceadas, mas muitas vezes chegava ao fim de uma forma inglória. Acabavam-se as pedras pretas.
Há que regressar ao último ponto em que decidiu ir pela direita ou esquerda. E assim recomeçar o percurso que já era outro.
Uma coisa é certa: nunca mais chegou à pedra inicial.
01.01.08
castração
Este é o primeiro dia do que restava da liberdade individual. Hoje X comprou os mesmos maços de tabaco, não com a decisão de fumá-los, mas apenas para pagar os impostos ao governo, os lucros à tabaqueira e a miséria de percentagem a quem os vende.
Hoje, dia uno, é o primeiro dia do fim de uma liberdade que de tão livre que já nem era considerada um direito.
É engraçada a evolução das coisas.
Há muitos anos, fumar era cool
De há 10 anos para cá, já não é cool.
E a partir de hoje é condenável. É uma droga própria para drogados. É uma bela porcaria que mata tudo e todos aos poucos.
Por tudo isto, hoje X tomou uma atitude: ser um neo-rebelde.
Deixou o carro estacionado e levou os maços nos bolsos e dois isqueiros, não falhasse um. Parou à porta de cada café, restaurante ou estabelecimento aberto, acendia um cigarro e soprava valentes fumaças lá para dentro.
Por vezes agarraram-no, bateram-lhe, injuriaram-no. Outras vezes conseguiu fugir.
Ia comprando mais maços à medida que ia esgotando os que bafurava.
Numa dessas ocasiões, um paparazzi viu a atitude radical e tirou-lhe uma foto.
Surgiria no dia dois do ano em quase todas as primeiras páginas.
Os fumadores tinham agora um novo herói que assinava com um X.
X tinha orgulho na sua assinatura, assim como o Zorro gostava de singrar um Z, o Super-homem de mostrar um S no peito inchado e o Santana Lopes de continuar a gritar PPD-PSD até à exaustão.
12.31.07
pulo
Este ano X vai concretizar um sonho de antigamente. Vai ter a sua passagem de ano muito especial.
Para isso convidou o X com 10 anos, o X com 20 e o X com 30.
Seremos quatro à mesa, que convém requintada, farta e saborosa, e para a qual estamos a trabalhar para que tudo fique perfeito.
X10 trará as traquinices, as aventuras, a boa disposição e a gargalhada fácil. X20 trará os sonhos, os objectivos, os percursos, as pequenas conquistas e algumas derrotas. X30 é mais cuidadoso, diz que trará uma supresa, resumida, de muita coisa que aconteceu. X40 vai gostar de ter todos à sua volta e à sua mesa.
Juntos traçarão o caminho daqui para a frente, em que algumas coisas têm necessariamente que mudar. Há que abrir as garrafas que foram oferecidas no Natal e consumi-las pela noite dentro de uma forma regrada. Dormirão todos cá em casa para não haver problemas com os excessos ao volante.
Amanhã, por esta hora, acordarão num só com uma agenda cheia de coisas novas, de projectos para conquistar, de amantes para desejar e com tempo para existir.
PS: boas entradas.
12.30.07
telefone
X comprou um telefone inteligente, daqueles que fazem tudo e mais alguma coisa de tão espertos que são. Metade das funções não servem rigorosamente para nada, mas é sempre giro mostrar aos amigos.
Contudo, este telefone era diferente de todos os outros. Criou ideais próprias, tinha vontades inabaláveis e, sobretudo, era raro fazer o que X lhe pedia.
A princípio a coisa tinha alguma piada, pois obrigava X a conhecer as suas entranhas, os seus mais profundos e secretos folders, o sistema operativo e coisas do género.
Foi nos alarmes e nos avisos que, entretanto, a vontade do telefone começou a prevalecer sobre a do seu dono. Os alarmes matinais ouviam-se bem e eram repetidos à exaustão. Mas os alarmes para encontros com raparigas nunca soavam. O mesmo com algumas reuniões que o telefone achava que seriam uma perda de tempo.
X foi à assistência técnica que lhe comunicou que uma série deste modelo tinha saído com um processador muito mais avançado que os normalmente utilizados. Não podiam fazer nada.
X voltou para casa, leu todo o manual de instruções em busca de uma qualquer solução. Nada.
Até que farto de todo este empenho, decidiu telefonar para uma amiga recente, uma daquelas que prometia e cheirava a uma possível relação rápida e sem chatices.
Procurou e não encontrou o número. Aliás, começou a ver que nenhum dos números desse género estavam na memória. Olhou bem de frente para o telefone que, no seu ecrã de não sei quantas polegadas e milhões de pixels, mostrava uma mensagem “Não percas tempo pá e deixa-te de ilusões”.
X percebeu que o telefone tinha tomado conta da sua vida. Literalmente. Foi ver todos os contactos um por um, e dos mais de 500 que tinha só lá estavam uns 50. Desapareceram membros familares, amigos de circunstância, aqueles contactos que num qualquer dia poderiam ser úteis, números que inclusivé não sabia a quem pertenciam, graças a noites de mais folia alcoólica ou outra.
Restavam-lhe 50 contactos. E esses conhecia-os bem. Até quase que memorizou todos os números ao longo dos tempos.
Olhou novamente o telefone de frente e passados uns minutos, agradeceu.
12.29.07
paixão
Naquela esplanada, a primeira coisa que notou foi a coxa. Perfeita, esbelta, apoiada em cima da outra, num entrecruzar de sonhos e delírios, prazeres que de tão mundanos, são muitas vezes sonhos ou desejos delirantes.
Mas o que realmente procurava ver e conquistar era a anca, a sua curvatura para dentro e para fora, uma serpente de cada lado. Foi-lhe difícil percebê-la. A roupa larga não ajudava mas, por vezes e num movimento mais brusco, permitia-lhe ver como a roupa se colava às curvas e depois delas se desprendia.
Foi com prazer que a viu deslaçar as pernas, para conseguir baixar-se para retirar qulquer coisa que estava dentro da mala caída no chão. Foi assim que ele entendeu toda a sua formosura, em que lhe viu parte da pele, cor de mel com os dois buraquinhos de que tanto gostava.
Umas coxas perfeitas, uma anca sublime. Nada mais lhe interessava, nem as mamas, nem os ombros, os olhos, a boca, o pescoço.
Apenas aquelas coxas e aquela anca. Dois hinos ao prazer mais intenso.
De repente, ela levantou-se, qual deusa terrena.
E ao caminhar, coxeou da perna direita.
12.28.07
a chave
X escolheu aquele dia para mandar fazer uma chave. Foi a todas as casas de chaves que conhecia, mas ninguém tinha o modelo, ou a maquineta de corte ou qualquer outra coisa.
Decidiu encontrar um serralheiro que lhe disse que, pela particularidade, era tarefa impossível.
Falou com artistas modernos que de ar empinado e sofredor contemporâneo passaram de imediato à fuga e à indisponibilidade. Ninguém lhe iria fazer essa chave.
Já num bar, consciente que ia apanhar uma valente bebedeira, acercou-se-lhe um individuo de óculos redondos, lacinho e impecável no trato. Estendeu-lhe o cartão, visto que a compreensão de X já estava um pouco toldada.
No dia seguinte X acordou ressacado, mas ao tirar tudo dos bolsos encontrou o cartão de Y. Tentou lembrar-se a quem pertencia, mas tudo era muito vago. No entanto, decidiu telefonar-lhe.
Marcaram encontro para essa tarde.
Y apresentou-se como um fazedor de chaves mágicas e disse-lhe que conseguia criar a chave que X tanto ansiava. “E como é que sabe o que eu realmente quero?” – perguntou X ainda desconfiado – “Porque eu sei que o que pretendes é uma chave para fechar o coração.”
X não estava à espera da resposta certeira e ficou mudo por largos minutos. Y aguardou pacientemente. X queria perguntar-lhe de onde vinha, quem era e como soube, mas a cada início de frase, Y respondia-lhe com um não sorridente.
Tirou então uma pequena caixa da sua mala. Colocou-a em frente a X. Faltava um pormenor que era uma minúscula chave para abrir a caixa. E Y disse que X só teria de ter a certeza absoluta que queria fechar o seu coração para sempre, pois nunca haveria retorno dessa decisão. A certeza absoluta garantia-lhe a pequena chave para abrir a caixa onde estaria a chave especial para fechar o seu coração.
X, que tanta certeza tinha até então, começou a deixar-se minar pela dúvida. E Y sabia-o, tanto que começou a sorrir. “Sabes X, a chave verdadeira é a dúvida. E já a encontraste. Enquanto tiveres dúvidas, terás uma vida para viver. Essa é a chave da vida”.
Arrumou a caixa dentro da mala, levantou-se, despediu-se com um sorriso e desapareceu pela porta.
X, depois de beber mais um copo também começou a sorrir. E saíu pela mesma porta.
12.27.07
justiça
Tinha a de veículos ligeiros, mas necessitava de ser ainda mais ligeiro. Portanto, tirou a carta de motociclos. Comprou uma qualquer em 3ª mão para aprender a fazer uns piões, uns cavalinhos e uns rés-vés aos carros no meio do trânsito. Estatelou-se algumas vezes, passou pelo hospital outras tantas. Mas quem tem um projecto ultrapassa todos os obstáculos e esse era o seu lema.
Era um fulano de boas famílias, da antiga classe média abastada, mas as tropelias que fez ao longo da vida deixaram-no numa situação ingrata monetária e socialmente. Portanto, estava na hora de iniciar uma nova carreira e visto que os 40 são os novos 30 ainda tinha muito para dar.
Enquanto planeava a perfeição, tinha que encontrar formas de garantir o dinheiro para adquirir o equipamento necessário para esse trabalho. Então, vendeu coisas que tinha por metade do valor e comprou uma mota rápida, mista urbana/enduro, confortável e estável.
Escolheu a época natalícia para iniciar este novo percurso. Esperava ao pé dos multibancos e CTT. Arrancava com velocidade e roubava as malinhas ou sacolas das pessoas. Algumas eram puxadas dezenas de metros, outras apenas gritavam. Já tinha perícia suficiente para se esquivar de alguns cromos que tentavam impedir a sua fuga.
Num mês conseguiu juntar 3897€ e alguns cêntimos.
Durante um ano esse foi o seu emprego. Nem todos os meses eram bons, mas Junho e Novembro compensavam os piores, como Maio e Janeiro.
Passado um ano, vendeu a mota, o capacete e o casaco de cabedal. Tudo por 2000€.
Juntou todo o dinheiro de 365 dias de trabalho e chegou ao objectivo: 50.000€!
Conseguia assim o necessário para comprar equipamento video, audio e de gravação de extrema precisão e longo alcance. Alugou um andar defronte a uma sede de um dos maiores bancos portugueses e apontou a objectiva para os computadores pessoais dos principais directores. Conseguiu, com grande facilidade, filmar e gravar todas as passwords e códigos pessoais de acessos específicos a contas secretas e a fundos de desenvolvimento e investimento.
Como divertimento, ainda filmou uns quantos encontros escaldantes entre colegas de ofício, não que fossem secretárias e patrões, e enviou cópias para os mais importantes pedindo 50.000€ a cada para não as divulgar à imprensa cor-de-rosa. Combinava as trocas em locais públicos, disfarçava-se com um bigode falso, um boné grande e uns ténis cor de laranja shocking. Ele sabia que, se alguém fosse à polícia só se lembraria desses detalhes.
Com tudo isto, a segunda gaveta do seu armário tinha maços enrolados de notas que superavam meio milhão de euros.
Mas era altura para o grande golpe, o perfeito. Aquele que pensou e para que trabalhou todo este tempo. Juntou-se a um amigo hacker/nerd/gueek que estava prestes a ser preso por ter sido o responsável por uma rede P2P nacional e que precisaria do melhor advogado que o dinheiro poderia comprar e, com as passwords e códigos dos directores do banco, entrou nas contas, nos sistemas, nas off-shores, em tudo.
Descobriu muitos segredos, muitas contas engraçadas de gente muito famosa e social, mas o seu propósito era diferente. Distribuiu toda essa riqueza pelas contas de milhares de famílias portuguesas que tinham dificuldade em pagar as rendas das casas onde viviam. E porque não os carros? Dava para tudo. Pagou o Iva e os IRCs e a Segurança Social de todas as micro-empresas que desesperavam por não ter solução. E por fim, pagou as dívidas que o próprio banco tinha a centenas de fornecedores.
Deu metade do dinheiro que tinha ao amigo, rabiscou-lhe o número de um advogado e incendiou o pequeno apartamento onde todo o equipamento tinha feito o seu trabalho.
Entrou no pequeno Mazda que tinha alugado ao mês, olhou uma última vez para o grandioso incêndio que consumia o andar e foi beber um copo.
12.26.07
guerra
O bairro de X vive um problema, não social, mas real: a proliferação de pombos, esses nojentos ratos voadores. Há sempre duas ou três velhinhas da praça que se revezam para dar-lhes milho do bom todos os santos dias. A população tem aumentado a olhos vistos, os algerózes entupidos, as inundações frequentes, etc e etc, já para não falar das doenças e dos automóveis.
A população bairrista já se indignou várias vezes, mas não há nada a fazer quando as velhinhas respondem que eles também são criaturas de Deus.
E foi este o primeiro passo para uma guerra sem quartel.
De um lado, os moradores. Do outro, todos os velhinhos amantes de pombos, que atiravam verdadeiras bombas em forma de pequenos sacos cheios de milho, que faziam mossas nos carros, partiam vidros e até algumas cabeças. E com o milho derramado por todo o lado, todos os pombos da cidade surgiram para o festim. Era a guerra total. Os moradores armaram-se de caçadeiras, cal com veneno, fisgas e cães de caça. A polícia de choque ficou chocada com o estado de sítio e o bairro, mais os circundantes foram fechados para garante da segurança de toda uma cidade. Carros foram queimados. As lojas pilhadas. O recolher passou a ser obrigatório, mas ninguém queria saber de mais nada. Cada cagadela ácida na cabeça de um morador era respondido com uma rasteira à bengala que apoiava um velhinho.
Surgiram os partidos e as centrais sindicais, as televisões e os jornais. Mas a chuva ácida estragava câmaras, antenas de satélite e casacos de caxemira.
Por cada pombo que morria, mais 100 surgiam. E com esses 100, outros tantos velhinhos que já vinham em excursões montadas pelas câmaras municipais de cidades bem distantes.
Até que foi chamado o Presidente da República que, com o 1º ministro, trataram de escrever O Segundo Tratado de Lisboa.
Muitas horas de reuniões se passaram. Na mesa estavam representantes dos moradores, dos velhinhos, da polícia e até um pombo.
Passado muito tempo foi conseguida uma resolução!
Toda a baixa pombalina, com os seus notáveis prédios decadentes e esburacados, seriam tomados pelos pombos que aí fariam o seu pequeno estado, prometendo abandonar todos os outros bairros de Lisboa. O milho era-lhes entregue por camiões especiais, que a entidade pública pagava com mais um imposto municipal.
Apertaram-se mãos e asas e casa um foi à sua vida.
Passada uma semana, as três velhinhas juntaram-se em segredo. E escondidas pela noite foram depositar grandes sacos de milho no mesmo sítio onde o faziam antes.
12.25.07
oferenda
Treinou anos para aquela noite, aquela performance, aquele momento irrepetível no tempo e no vento.
Treinou desde que nasceu, desde o raiar do dia ao adormecer da noite.
Treinou, sofreu, chorou, mas nunca desistiu.
Aquela noite estava-lhe fadada, alguém lho tinha sussurado ainda no berço.
E esse alguém, cuja voz nunca mais tinha ouvido, sabia, tinha a certeza que estaria presente naquela noite.
Foi preciso um quarto de século para que ele se sentisse apto. Foram precisos mais cinco anos para que ele conseguisse colocar o projecto em pé porque, afinal, tratava-se de um português.
Mas depois daquele sussurro de quase 30 anos estava, agora, totalmente concentrado.
Entrou no palco. Toda uma plateia aplaudiu discretamente. Nem gritos de apoio teve, pois nunca conheceu amigos.
Começou! Um minuto da sua arte correspondia a um ano de vida de ensaio, portanto, era uma performance que nem chegava a meia-hora.
Mas durante a actuação já a plateia aplaudia, aqui e ali. Ao fim de um quarto de hora, metade da sala gritava, exultava. Aos vinte minutos foi-lhe difícil concentrar no resto de todo o seu génio e no mais perfeito dos perfeitos finais.
25 minutos passaram.
E ele parou. Ofegante, orgulhoso, desgastado, quase morto. Mas sorriu.
À sua frente uma plateia vidrada, rouca pelos “vivas” e gritos vários, mãos já com bolhas de tanto aplauso enérgico, veemente.
Mas ele só queria mesmo ouvir um “Bravo” daquela voz sussurrante de que se lembrava tão bem. E estava disposto a não arredar pé até que a ouvisse.
O problema é que os espectadores também não arredavam pé e o barulho continuava ensurdecedor.
Cá fora, um velho pai abandonava o teatro, chorava, gritava Bravos de alegria. E com comoção deixou-se esconder e desaparecer pelo manto escuro de uma noite fria tendo como banda sonora o ruído estridente que se concentrava numa meia-hora de pureza.
12.24.07
oh oh oh
X, quando era miúdo, acreditava no Pai Natal. Acreditava tanto que até gostava de conhecê-lo num qualquer Natal. Esperava, todos os anos, escondido atrás do sofá da sala, a olhar para a lareira ainda acesa debaixo da chaminé, para a árvore e presépio. Mas acabava sempre por adormecer. Houve um ano, já mais crescido e com mais força, que dormiu o dia todo para estar bem alerta à meia-noite.
E assim aconteceu! Quando acabaram de tocar as 12 badaladas, lá começou a ouvir barulhos na chaminé. Eram os presentes a caírem, um atrás do outro. Mas Pai Natal, nem vê-lo. Assim, X decidiu correr para a chaminé, subir pelos presentes até lá acima e foi com algum esforço que conseguiu agarrar-se com muita força à grande mochila vermelha que levava milhares de presentes.
O Pai Natal não deu por ele e a viagem de trenó puxado por renas que galopavam no céu era muito rápida, com curvas muito apertadas, grandes travagens, subidas e descidas vertiginosas. X começou a ficar muito enjoado e perdia pouco a pouco as suas forças. Começou a gritar para que o salvassem, mas o barulho era imenso com tantos brinquedos a tocarem música dentro da mochila, carros que andavam nas pistas, combóios nos carris, bonecas a falar, robots a dispararem e todos os outros brinquedos juntos, que nem as renas nem o Pai Natal o ouviam.
De repente foram-se as forças e X deixou de conseguir agarrar na mochila.
Caíu de muito alto, passou pelas estrelas que cantavam hinos de Natal. Passou pela lua, ainda meia adormecida que lhe piscou o olho e ofereceu-lhe queijo. Cada vez caía com mais velocidade e, com tanta emoção, desmaiou.
“Pelo menos, o Pai Natal existe”, pensou antes de perder os sentidos.
Acordou de manhã, com os pais a entrarem pelo quarto com os presentes dele numa grande algazarra. Feliz Natal, Feliz Natal, gritavam todos contentes. E X, para não estragar a festa, decidiu nunca contar a sua aventura.
Até hoje.
12.23.07
sorte
X sempre foi um homem de sorte. Ultrapassou doenças graves enquanto bebé, teve alguns acidentes complicados dos quais saiu ileso, nunca se esforçou muito para conseguir o que queria, enfim, foi uma pessoa bafejada.
Mas como tudo na vida, também essa companheira teria que o abandonar e foi sem pedir licença, ou uma qualquer desculpa que, num dia, a sorte despediu-se de X.
Ninguém está preparado para uma partida destas, muito menos X que sempre contou com a sua protecção.
Daí ser estranho todo aquele novo dia.
O relógio com alarme não o acordou para uma entrevista importante, com pressa teve que se vestir duas vezes pois entornou o café na primeira camisa, ao passear o cão começou a chover fortemente, esqueceu-se do CV quando saiu de casa após mal secar o cão, o carro estava bloqueado com um autocolante amarelo que o rodeava, não havia um único táxi disponível e, para azar dos azares, X acabou por ser atropelado numa passadeira.
Acordou no hospital, deitado numa maca num dos corredores frequentados por eternos gemidos de dor, ninguém vinha ter com ele, roubaram-lha a mala, carteira e relógio e a perna começava a doer até à exaustão.
Reacordou na mesma maca do mesmo hospital horas depois. Já tinha apanhado uma constipação e, sem saber, outras doenças. Tentou levantar-se, mas foi com um estrondo que se estatelou no chão. E só aí viu a sua perna, quase desfeita pelo anterior acidente.
Gritou, gritou, gritou tanto que, finalmente, uma enfermeira trouxe qualquer coisa para o adormecer.
Acordou num quarto, cheio de outros doentes. A sua perna não se mexia. Aliás, nada se mexia. Nem os braços, os dedos das mãos. A princípio pensou que era da droga ou anestesia. Mas foi quando um médico, com ar grave e aspecto cansado, se lhe acercou que X soube da grande notícia: a operação tinha corrido mal, a perna teve que ser amputada e, por um número inexplicável de acontecimentos, ele tinha ficado tetraplégico.
X nem queria acreditar. Nem se atreveu a chorar, aliás, nem o conseguia.
Tentou mexer tudo e mais alguma coisa.
O médico pediu-lhe calma, para que não se enervasse. Enfermeiros chegaram para o drogar e foi um deles que reparou que o dedo indicativo de X mexia. Mexia freneticamente.
Depois de várias reações incrédulas, o médico olhou para X, colocou-lhe a mão na testa e, quase em surdina disse-lhe “Parece que vamos conseguir um milagre. O senhor tem muita sorte.”
12.22.07
esperança
X2 é o melhor amigo de X. Conversam há anos, desconversam há outros tantos. Falam muito das amarguras da vida, pois ambos sabem que o seu lugar, num qualquer outro país, era bafejado pela decência e pela justiça.
Mas aqui, em Lisboa, continuam a amargurar. O problema, bem real, é que estão velhos. Mas sabem mais que os jovens. Sabem tanto mais que até chateia e eles gozam com isso.
Numa destas noites, X2 confessou a X que tinha encontrado alguém. Alguém!!! Isto, no que respeita a X2, um homem acima de qualquer sentimento mundano e humano, queria dizer muito. Por acaso, e só por mero acaso, X conheceu essa diva, essa luz, essa transparência.
E quando X2, no alto dos seus muitos irlandeses com gelo lhe confessou que somente a presença dessa luz o fazia ser e sentir terreno, fez com que X, bem antes da hora da aventura, quisesse expôr esta verdade. Antes que a esquecesse. E antes que adormecesse.
X tem agora um amigo que é mais real, mais humano e mais sofredor do que pensava. E então traçou um plano: o início do novo ano está já aí. E com ele, para além de todos aqueles que vão perder a vida nas estradas, haverá sempre a remota hipótese de algo no ano de 2008 dar certo.
X já sabe que não é o ano dele. Timimg, azar, estupidez, qualquer coisa. Mas o X2 está mudo, quedo, calado, silencioso. E são a estes mistérios que a vida, por vezes, dá a mão.
Amigo X2, nem sei como fazê-lo, mas o teu novo ano vai ter certamente mais flores que o dos restantes. Palavra de X. O que também não quer dizer nada.
12.21.07
pagar
Via-se que o homem não estava bem. Caminhava para cima e para baixo na mais famosa rua do Chiado. Umas vezes mais acima até ao poeta, outras abaixo até mesmo à porta dos armazéns.
O homem vestia um sobretudo largo, de bom corte, mas que não lhe assentava perfeitamente. Mas o que era mais estranho era a forma como agarrava a mala rígida de uma guitarra eléctrica, nem muito grande nem muito pequena, com ambas as mãos e demasiada força.
De repente, o homem parou à porta do grande armazém e gritou, gritou muito alto.
Contaram depois, quem sobreviveu, que tudo aconteceu muito rápido, numa questão de minutos. Ou segundos mais lentos. Esse tal homem, que agora estava ali deitado numa enorme poça do seu próprio sangue, abriu a mala da guitarra, tirou uma metralhadora e foi entrando pelo armazém, disparando sem cessar e varrendo pessoas, presentes, telemóveis, malas, mochilas, tudo mas mesmo tudo. Entrou ainda na loja francesa onde destruíu a rajadas toda a electrónica exposta, desde as últimas gerações de telefones e câmaras, aos portáteis, aos GPS e, logicamente, todas as pessoas que por ali andavam.
Desceu triunfante até ao andar de baixo. Todos os que ainda viviam estavam deitados, escondidos, uns em pânico, outros a chorar, alguns desmaiados.
O homem chegou às prateleiras dos livros, procurou o que queria, subiu as escadas e parou na caixa para pagar.
Foi aí que muitos polícias o aguardavam, ainda atónitos e, sem uma ordem superior, cravejaram-no de balas.
O homem, já meio morto, ainda colocou o livro na caixa e o dinheiro correspondente.
A sua última frase foi dita num suspiro, ao ouvido da empregada que lhe dava a mão, o livro no saquinho amarelo e o troco: “Sabe, eu não tinha muito tempo para vir às compras e esperar horas para pagar”.
12.20.07
nevoeiro
X era um homem ansioso. Não nervoso, mas ansioso. Vivia numa cidade cuja luz era exemplarmente branca e afamada por isso. Mas o que ele esperava, todas as madrugadas, era um manto de nevoeiro. Acordava sempre muito cedo e mirava o rio pela sua janela. Quanto mais cerrado fosse o manto, mais probabilidades havia de sucesso.
Só que esta cidade, de luz branca, raramente acordava às escuras. X mantinha-se atento à meteorologia, ao céu, aos satélites através do computador. Só lhe restava mesmo esperar.
Até que, passados uns meses, um aviso: naquela madrugada de 25 de Julho a cidade acordaria sob um espesso manto de nevoeiro.
X vestiu-se, agarrou na mala feita para estas ocasiões e lançou-se numa cidade fantasmagórica.
Depressa chegou à beira-rio, por baixo da ponte velha.
Não se via nada, mas conseguia perceber outros como ele, vultos meio vivos, meio mortos.
Todos olhavam o rio e todos tinham um só desejo.
As horas passaram e com a manhã veio mais luz, raios que atacavam o nevoeiro, que o desfaziam e que, passado algum tempo, o venceram.
X e os outros desconhecidos levantaram-se. Olharam ainda uma vez para o rio, mas já se via a outra margem.
Desconsolados e derrotados, viraram-lhe as costas.
Ainda não foi desta que se deu o regresso.
Mas haverá sempre outro nevoeiro e outra esperança.
12.19.07
mentira
Alguém lhe tinha dito que ficava duas vezes mais forte, com o dobro do conhecimento, o dobro da rapidez, o dobro da inteligência, o dobro de tudo, enfim.
Durante dias pensou nisto, aliás, não conseguia pensar noutra coisa.
Durante dias olhou-se ao espelho, via as rugas a crescerem, as entradas maiores, uma maior flacidez geral.
Decidiu-se num Sábado à noite, porque as pessoas andariam na cidade até mais tarde e assim seria mais fácil escolher.
O alvo estava ali à sua frente, a descer um pequeno beco mal iluminado. Perseguiu-o a uma distância razoável, calçou as luvas, tirou o arame do bolso, enrolou-o fortemente nas duas mãos e verificou a sua força esticando-o com violência.
Houve um momento em que quase desistiu. Encostou-se a uma porta, ofegante. Mas segundos depois já estava a avançar determinado para a vítima.
Foi fácil apanhá-la, o cheiro a alcool era notório e foi com um grito abafado e movimentos lentos que se tentou defender. A corda estava bem puxada e a vítima ia perdendo a força, o conhecimento, a rapidez, a inteligência, enfim tudo.
Até que morreu. Ele abraçou-a e deixou-a escorregar pelo seu corpo até ao chão.
Sentou-se ao seu lado e esperou.
Esperou muito tempo. Não sentia nada. Nada a crescer dentro de si.
Alguns casais ébrios que tropeçavam por ali mandavam umas bocas e seguiam caminho.
A manhã surgiu. A polícia também.
E ele sentiu-se velho, muito velho. E muito fraco.
12.18.07
adeus
X sentou-se como todos os dias à secretária. Focou o monitor e, num movimento automático, ligou a tv que está atrás de si pelo telecomando. É só mais pelo som, pela companhia que o faz, mas está habituado a este ritual matinal. Concentrado no monitor nem deu pela morte da sua pequena tv. Só passados uns momentos e alertado pela falta de som, é que a olhou. O ecrã estava cada vez mais negro, as imagens cada vez mais inexistentes e o som cada vez mais ausente.
X desligou-a. Religou-a, nada. Esperou mais uns momentos, fez a mesma operação com os mesmíssimos resultados. Nada. Negro. Silêncio.
X tentou lembrar-se há quanto tempo tinha este televisor. Vinha do quarto de adolescente ou já era compra de jovem adulto? Não se lembrava. Levantou-se, desligou a ficha e a tomada de antena e, através da pequena pega que o chassis negro continha, transportou-a para a mesa da sala grande.
Aí olhou-a longamente, de todos os ângulos. Limpou-a cuidadosamente, com um pano específico para este tipo de plástico. Com cotonetes e uma novíssima escova de dentes, retirou-lhe o pó seco de tantos anos daquelas ranhuras que só servem mesmo para acumular pó.
Acariciou-lhe as formas arredondadas, quase como se fosse um magnífico corpo feminino.
Abraçou-a. E foi assim que a levantou da mesa. Abriu a janela da sua varanda muito alta, gritou para quem estava a passar na rua e, com um último aperto, deixou-a caír.
Estilhaçou-se por mil bocados que voaram para todos os lados.
Lá em baixo, as pessoas aplaudiram-no. Tinha sido uma última viagem digna de um filme de acção, certamente uma aventura por que ela gostaria de passar. E foram as próprias pessoas que retiraram os cacos do chão e os depositaram num caixote de lixo, não reciclável.
X ficou muito tempo à janela, relembrando todas as imagens que com ela tinha visto ao longo dos anos.
Também se sentia escuro e sem som. E já tinha saudades.
12.17.07
Natal
O choque era geral. No seu trono de um grande armazém lisboeta jazia o Pai Natal daquele ano, um velhote que só queria ganhar uns trocos a mais para dar uma refeição digna à sua família. Chamaram-se polícias e detectives, públicos e privados. As portas fecharam-se, a clientela ficou presa dentro do estabelecimento. Um porta-voz das forças de segurança avisou pelo sistema sonoro, que antes tocava repetidamente o mesmo cd natalício de todos os anos, que iria acontecer um inquérito imediato a todos os presentes e que o dia ia ser longo. Toda a gente foi colocada numa longa fila e foi com dificuldade que tentavam encontrar os respectivos telemóveis no meio de tantos pacotes e sacos de presentes.
A poucas dezenas de metros dali deu-se o alarme! Outro Pai Natal tinha sido morto. A polícia não sabia o que fazer e os clientes tinham encontrado a razão para exigirem a sua liberdade.
A meio da tarde os telejornais confirmavam os terríveis acontecimentos: cerca de 57 Pais Natal estavam sem vida. Foram convidados polícias, bruxos, psicólogos e tarólogas para um especial informativo, com linha telefónica directa para quem quisesse opinar do conforto da sala.
As lojas exigiam a reabertura, pois com a crise que anda aí, estes dias de Dezembro aliados aos subsídios dos clientes, eram demasiado importantes para a sua sobrevivência.
Carros da polícia apitavam por todas as cidades que tinham Pais Natal nas lojas, ainda conseguiram salvar alguns, naqueles centros paroquiais e bazares populares de terreolas desertas.
As crianças choravam em todas as casas e os pais não sabiam explicar que lhes tinham mentido durante estes primeiros anos de vida e que o Pai Natal não existia.
O estado do país passou para vermelho, por acaso cor da coca-cola…
Pelas cinco da tarde, um fotógrafo olhou para o céu. E gritou alto. Todos olharam para cima, toda a gente ficou parada, o trânsito também, até os animais que entretanto tinham sido abandonados pelos donos. Chegaram carros de exteriores e em todos os televisores de todas as casas surgiu um sinal de “especial informação”.
Foram segundos agonizantes até que a imagem surgiu.
Lá no céu, ria-se estridentemente um Pai Natal, sentado no seu longo trenó. As renas, muitas, esperneavam, prontas para uma largada/fugida. O céu tornou-se selvagem, negro, envolvendo estas personagens. Até que numa voz grave e poderosa, o Pai Natal gritou “Deixei uma prenda em cada uma das vossas casas, chaminés, meias, o raio que parta!!! Só uma, pois não é preciso mais!”. E foi com um enorme estrondo que as renas puxaram o grande trenó, fazendo uma curva bem por cima das cabeças das pessoas e desaparecendo no infinito.
Toda a gente correu para casa.
Toda a gente passou a noite inteira a olhar para a prenda depositada pelo Pai Natal.
Ninguém ousou abri-la.
12.16.07
botões
Neste Natal X pediu um comando de forward e rewind.
Só com esses dois botões.
O forward não permite grande coisa, pois não se sabe o que vai acontecer precisamente agora. E agora. Esperem… e agora.
Portanto, só servirá depois de fazermos um rewind e aí sim, podemos fazer um forward até qualquer parte já vivida. Como… agora.
Mas o rewind permite-nos escolher andar para trás, à velocidade x1, em câmara lenta ou muito depressa.
Podemos evitar erros e acidentes. Bom, se calhar não, pois ao fazermos forward passamos inevitavelmente por esses erros e acidentes.
Então para que servirá este telecomando? Será mais uma prenda cara e inútil? Será que o próximo modelo sairá melhor e mais barato?
Bom, na verdade X imagina-se deitado na cama, enroscado na mulher desse dia e depois, devagarinho, começa a fazer o rewind, movimento a movimento, posição a posição, cada vez mais roupa, cama impecável, o primeiro bejio, a primeira carícia e o primero olhar.
Depois stop. Aí mesmo nesse olhar. X gosta desse primeiro olhar, desse momento de entusiasmo que faz crescer água na boca. X deixaria o seu corpo e olhar em pausa e começaria a circundar o outro, olhando para a nuca, os cabelos, a anca, os mamilos. Depois regressaría ao seu corpo e faria play. Frame a frame até ao último fôlego. Até ao enroscanço.
X quer mesmo um destes comandos para o sapatinho.
12.15.07
mãos
X olhou para as mãos. Que instrumentos admiráveis. Duas mãos cheias de dedos, cada um com um formato próprio e, consequentemente, um propósito próprio. É engraçado como uma mão e os seus dedos mostram, por si só, o trabalho de equipa. Ou em equipa.
Imagine-se um dedo sózinho. Ou mesmo um coto. Mais de metade do mundo seria diferente por um qualquer acidente, deformação drástica ou um grande azar.
X usa os dois indicadores para teclar, com uma velocidade, diga-se, espantosa. Muitas vezes erra, também porque é disléxico, e por isso gosta de teclados com grandes teclas back e enter. Mas usa o mais comprido da mão esquerda enquanto esse e o indicador seguram um cigarro a arder.
Toda esta conversa para quê? Bom, para sublinhar porque ainda está maravilhado ao fazer rolar um automóvel por 300 kms a uma velocidade acima do permitido por lei, usando apenas as mãos e os dedos. Os pés raramente estavam nos pedais e tudo foi controlado com cursores de automatismos vários. Ou… não. Por qualquer outra razão.
Mas a verdade é que toda esta aventura foi um curioso e satisfatório exame à adaptação de um ser, à rápida curva de aprendizagem e ao puro divertimento e gozo pela conquista do homem sobre a máquina. Mesmo que ela tenha sido inventada por e para nós.
12.14.07
viagem
De repente uma viagem. E logo para dois dias. X ficou pensativo. Como continuar as aventuras de cinco minutos diários sem falhar o seu propósito? Levaria a maquinaria toda para dois dias? Seria um bocado idiota e pesado. Será que o hotel tem wireless… ou mesmo net? Mas a que horas é que se postaria? Uma aventura é uma aventura e, convenhamos, ser à uma da manhã ou por volta do meio dia, o que interessa é que aconteça.
“Então vamos a ela”. X esfregou as mãos e olhou o cursor a piscar no ecrã branco do rectângulo das instruções. Mas isto deveria ser de cabeça fresca, não depois de todo um dia. “Vá X, tem de ser!”
Os seus olhos mergulharam no ecrã branco, sempre atrás do cursor preto que piscava piscava. Viravam à esquerda, à direita, passaram por sonhos, aventuras e pesadelos. X só queria agarrar num, mas a viagem era tão rápida que mal os via esquecia-se deles imediatamente. Ao fundo um rectângulo negro que se aproximava vertiginosamente. Tinha uns cabos pendurados. O cursor atravessou essa negritude plástica. X ainda tentou travar, mas tarde demais. Quando abriu os olhos estava defronte esse rectângulo, mas no sentido inverso.
O cursor lá estava a piscar no ecrã branco do rectângulo das instruções.
E X sorriu.
12.13.07
borrão
Uma gota grossa pingou-lhe a folha. A circunferência do borrão ia aumentando, comendo as palavras que já estavam escritas, os sentimentos que, com coragem infinita, depositou no papel.
Olhou para o mata-borrão, ali mesmo ao lado, mas deixou-se hipnotizar pelo percurso da tinta e pelas palavras que preferia esmagar, esconder, englobar.
Passados uns minutos, o borrão ocupava parte central do seu manuscrito. Tinha até uma figura poderosa, como se fosse um buraco negro.
Tentou espreitar se havia vestígios de palavras, de letras, de pontuação. Nada de nada.
Apenas as que ficaram na sua auréola, semi esmagadas e para sempre desacompanhadas.
Deixou secar bem a folha, dobrou-a cuidadosamente em três e enfiou-a no envelope que já era o seu destino.
Era a primeira carta de amor, de esperança que escrevera. Tinha um destinatário.
E agora, achou por bem, que fosse o destino a tratar do resto.
Se sim, se não, a resposta chegaria pelo correio.
Restava esperar até lá.
12.12.07
acordar
X acordou sobressaltado com uma ansiedade enorme. Sentiu um vazio estranho, um silêncio esmagador. Foi à janela e quase que enloqueceu com o choque. Nada existia, nada. Nenhum prédio, nenhum carro, ninguém na rua. Desceu rapidamente os seis andares esquecendo-se que tinha elevador. Chegou à entrada e abriu a pesada porta de vidro. Nada. Nem o passeio defronte, nem a confusão do bairro, nada.
Havia sim um silêncio profundo, a total ausência de qualquer coisa. De vida.
X assustou-se ainda mais quando entendeu que nem o som do seu coração ou dos seus passos se faziam ouvir. Bateu numa parede, nada. Gritou, nada. Deixou-se caír no chão de pedra mármore. Não lhe sentiu o frio. Passadas horas subiu cada um dos andares, tocando a cada porta. Mas as campaínhas não tocavam. Bater na porta não valia de nada. Chegou a casa, acendeu todas as luzes que, inacreditavelmente, davam luz. Lembrou-se da televisão, mas nada. Meteu um cd, mas a ausência de som era já esperada.
Foi para a cozinha, preparou um enorme lanche com os restos que encontrou e ficou horas a comer, olhando pela sua varanda o nada, o vazio.
Decidiu deitar-se, dormir profundamente e amanhã pensar sobre toda esta loucura.
Adormeceu rapidamente, como há muito tempo não o conseguia.
X reacordou sobressaltado com uma ansiedade enorme. Sentiu um vazio estranho, um aperto no coração. Foi à janela e quase que enloqueceu com a alegria. Tudo estava lá. O seu coração também.
12.11.07
tempo
A sua vida era dominada pelo tempo. Não do que faz frio ou calor, mas dos minutos, dos segundos, das horas. Do tempo que o próprio tempo tem. Vivia fascinado por relógios, comprava-os, exibia-os, desmontava-os, remontava-os, mas raramente usava um no pulso. Confiava no seu próprio relógio interno. Sabia quantos segundos eram uma passada e quantos minutos um quilómetro. Contava o tempo que esperava num semáforo ou numa fila para comprar um bilhete.
Nunca chegava atrasado. Aliás, preferia adiantar-se ao tempo do do próprio encontro. Apanhava grandes secas, é verdade. Mas não se importava. Nunca seria ele a atrasar o tempo.
Tinha duas grandes dores de cabeça por ano. Era quando a hora mudava. Era-lhe difícil mudar todos os relógios que tinha, dezenas, centenas. E tinha que ser ao segundo. Demorava uma eternidade e o último era sempre o mais difícil de acertar, pois já tinha passado bastante tempo da mudança horária.
Preparava-se sempre para este embate, mas perdia a calma, o jeito e a paz.
De tempos a tempos, até tinha vontade de esquecer o tempo. Mas depressa lhe passava.
“A seu tempo” – dizia – “a seu tempo conseguirei comprar tempo para me dar mais tempo”.
Numa qualquer manhã, levantou-se à hora certa, saíu de casa a tempo para ir apanhar o autocarro das 8h30. De repente, olhou para um relógio digital novo que a Câmara Municipal tinha colocado na praça. Estava adiantado dois segundos. Ao aproximar-se para ver melhor, foi colhido por um carro, sem tempo de reacção para se desviar do embate. Morreu a caminho do hospital sem tempo para sobreviver.
12.10.07
Luz
X rodeou-se de amigos e decidiram que sim. Entraram no auditório a abarrotar de carecas sisudas e olhares reprovadores contra a juventude do grupo, quiçá para as vestes diferentes, ou mesmo pela algazarra com que chegaram à primeira fila da plateia.
Sentaram-se bem dispostos, prontos para tudo. Ou para nada.
As luzes apagaram-se, abriu-se a cortina e um senhor já grisalho entrou no palco onde estavam um piano de cauda, um rádio antigo e um balde.
Tocou umas quantas notas ao piano, melodias que não o eram, acordes dissonantes. Levantou-se e retirou do balde uns quantos seixos que deixava caír nas cordas do piano. Um a um, vários ao mesmo tempo. A vibração enchia a sala e provocava os primeiros risos da jovem primeira fila, aumentados pelos acordes nas teclas que confundiam o som das cordas com o saltitar dos seixos.
O balde também continha água e o ploc ploc dos seixos ritmava com o ritmo da vibração incessante do piano. Depois o senhor levantou-se e, com o rádio antigo, procurou ruídos, vozes e aquilo a que se chama interferências.
A primeira fila dos amigos de X divertia-se, uns riam, outros olhavam embasbacados. A velhada cinzenta e pretensamente conhecedora do que estava a assistir, insultava-os, mandando-os calar e saír da sala.
E foi aí que o Sr. Karlheinz parou. Olhou para X e companheiros e agradeceu a nossa atitude, pois era isso que ele queria, porque era para isso que ele criava. Disse-nos que a partir daí, o resto do concerto seria só para nós e os outros, sim, todos os outros, podiam levantar-se e ir embora que não faziam falta nenhuma.
Muitos velhos cinzentos e carrancudos levantaram-se e desapareceram, outros ficaram, mais divertidos e à vontade.
X e os amigos foram no fim agraciados com um amigável aperto de mão e um franco sorriso na cara deste compositor.
O Stock acabou num dia 5. Ou seja, num Sol.
12.09.07
rocha
Estava velho. Velho da vida, dos fracassos, das derrotas, das injustiças. Estava velho com 50 anos. Sabia que já não tinha lugar na sociedade de hoje, pois era considerado ainda mais velho para reiniciar uma carreira. Teve sonhos, alguns concretizados e até foi um jovem dinâmico. Mas foi perdendo o fulgor ao longo dos anos. Primeiro porque o não compreendiam, depois porque ele não compreendia os outros.
Restava-lhe vender as suas posses e ir viver o resto da vida para um país barato, como o Brasil ou a Tailândia. Mas tinha medo da solidão e das doenças.
Relembrou-se de um sonho antigo, uma viagem que sempre quis fazer. E então traçou o seu último plano para o seu último destino. Vendeu tudo o que tinha, entregou os gatos a amigos e as plantas a amigas. Ofereceu os livros a escolas e os filmes a clubes de aldeias. Destribuiu os milhares de cds por toda a gente que encontrava na rua. Demorou algum tempo a fazer isto tudo.
Depois foi para o aeroporto. Apanhou o avião para um destino europeu. Depois apanhou outro para o outro lado do mundo. Chegado à cidade da ópera mais famosa do mundo, ainda deu uma volta, ouviu música nessa catedral e no dia seguinte apanhou outro avião para Uluru.
E chegou.
À sua frente estava finalmente a majestosa Ayers Rock, o monte alienígena, a pedra com todas as cores que a cor tem. Acampou aí. E preparou-se para o seu próprio ritual.
Passados uns dias, acordou e reparou numa tenda próxima da sua. Ficou revoltado, pois queria mesmo estar sózinho. Quando se preparava para desarmar a sua tenda, saíu da outra uma jovem mulher. Aparentava uns 40 anos, bonita e charmosa, de porte elegante.
Ela fez-lhe um adeus em inglês, ele retorquiu. E ambos sorriram. Sorriram como há anos não o faziam.
12.08.07
estacas
X não compreendia porque estava sózinho no mundo. Todos os dias andava dezenas de kms sempre na mesma direcção e sempre movido pela certeza que não era o único habitante desta terra. Dormia onde se podia abrigar melhor dos ventos e frio, caçava pequenos animais para recuperar forças e, diariamente, olhava o horizonte e iniciava a caminhada.
Foi depois de subir um pequeno monte que os seus olhos viram qualquer coisa estranha. Desceu a correr, tropeçando aqui e ali e cada vez estava mais perto. À sua frente estava uma cerca, de estacas perfeitas, todas da mesma altura e todas à mesma distância umas das outras. Uns centímetros que não o deixavam passar para o outro lado. A cerca não tinha fim, nem para a esquerda nem para a direita e perdia-se de vista. Decidiu acampar ali. Passaram alguns dias até que decidiu caminhar ao longo dela e para a esquerda. Tinha a certeza que alguém a tinha colocado e portanto não era o único nesta terra.
Caminhou muito, durante meses e a cerca sempre perfeita.
Numa madrugada acordou com um ruído. Levantou-se sobressaltado. Do outro lado estava um homem que o olhava receoso e espantado.
X cumprimentou-o e explicou-lhe toda a sua aventura que era, afinal, a sua vida. X2 apresentou-se. Também ele caminhava há muito tempo, paralelo à cerca.
Não tinham grande coisa para conversar, pois também não sabiam grande coisa. Tentaram forçar as estacas para conseguirem ultrapassar a cerca, mas sem sucesso. Caminharam juntos ao longo dela durante muito tempo. X falava muito e queria tentar sempre passar para o outro lado. X2 era mais calado e já estava farto de tentar forçar as estacas.
Começaram a discutir. Um pouco de cada vez, depois mais vezes até que iniciavam o dia aos gritos só se calando à noite.
Na manhã seguinte, X acordou e preparava-se para discutir quando reparou que X2 estava bem longe, lá ao fundo. Gritou por ele. X2 parou, voltou-se e fez um adeus com uma mão, para depois recomeçar a caminhada para o horizonte.
X ficara novamente sozinho. Agarrou nas estacas, não as forçou, despediu-se delas e virou-lhe as costas, iniciando a sua caminhada para o seu horizonte.
Cá em cima, sentado numa grande nuvem, Deus riu-se. Tinha dividido a terra em duas metades pela grande cerca de estacas. Encolheu os ombros, recostou-se e adormeceu.
12.07.07
chuva
X era um eterno romântico, mas tinha azar nas relações. Acertava sempre ao lado, ou seja, muitas vezes a pessoa certa era a amiga daquela com que ele namorava. E isso aconteceu várias vezes. Disseram-lhe que era dos signos, coisa que ele nunca acreditou. Disseram-lhe que ele tinha que ver os sinais, coisa que sempre desleixou. Mas ainda não tinha encontrado a sua alma gémea ao fim de tantas e tantas relações.
Numa manhã, ao ler o jornal, quedou-se mais tempo na página dos signos. Olhou e leu o dele. O Amor estava em alta e com todos os astros alinhados em pleno, este seria o dia perfeito. Pensou e decidiu-se. Correu para casa, agarrou num cartão e escreveu “Sou deste signo e hoje é o dia para encontrar a perfeição”.
Colocando-o no peito, foi para a rua, para as esplanadas, os largos e nada aconteceu. Cansado da caminhada e ferido no orgulho, sentou-se num banco de um grande jardim. Começou a pingar suavemente, mas essas gotas até lhe souberam bem. De repente, surgiu a trovoada e com ela uma tromba de água. Resguardou a cabeça com o cartão e correu para baixo de um toldo. Uns segundos mais tarde uma e outra pessoa chegavam ao abrigo. Até que viu uma linda rapariga, encharcada até aos ossos, com um cartão no peito. O seu coração saltou. A chuva parou e as pessoas debandaram à sua vida. Ele e ela ficaram a olhar-se. Quando ele puxa finalmente o cartão para o peito, reparou que o que escrevera estava desbotado e ilegível. O mesmo tinha acontecido no cartão dela. Despediram-se com o olhar, sem dizer uma palavra. Nenhum queria parecer ridículo e dizer o que tinha escrito no cartão. E foi sob um sol radioso que cada um foi para o seu lado.
12.06.07
horas
O dia foi mau e ele sabia que os dois seguintes não seriam melhores. Então teve a ideia de juntar os dois num só. Assim só seria mau o de amanhã e depois as coisas melhorariam. Traçou um plano. Hoje, naquele espaço entre o último segundo das 23 horas e o primeiro da meia noite, dava um salto. Deste modo não estaria na terra quando o novo dia começasse e saltaria um dia inteiro indo logo parar ao próximo. Enquanto estava no ar pensou “afinal não consigo juntar os dois, só me esquivo a um. Bom, pelo menos um dos maus já passou”.
Quanto desceu, pisou fortemente o alcatrão. Olhou para o calendário do seu relógio que de 4 passou para 6. Esquivou-se ao 5, ultrapassou sem dor essas 24 horas.
Ao andar alegremente, mesmo num dia mau, lembrou-se de repente que no de ontem que não aconteceu tinha um encontro marcado com a nova mulher da sua vida. O primeiro encontro.
Sentou-se e chorou. Afinal o dia mau que ele não viveu vai ficar marcado como o pior dos seus dias.
12.05.07
aura
Era o mais novo de cinco irmãos e duas irmãs e era o único que fumava. E fumava muito, quatro maços diários. Gostava de tertúlias, de beber o seu conhaque. Assistiu ao declínio da sua mulher, com quem já nem comunicava há anos. O seu filho, médico, avisava-o constantemente e até houve discussões em que o responsabilizou pela doença da mãe. Os seus irmãos estavam mais que habituados à densa nuvem de fumo, mas a vida era dele.
Um a um foram morrendo. De enfarte, de embolia, de cansaço e da vida. O único que fumava e bebia uns copos continuava vivo, de saúde.
Até que foi ao médico. Avisado que iria morrer em meses se não largasse o vício, assustou-se e deu a última bafurada do último cigarro do quarto maço desse dia.
A partir daí encheu os bolsos de rebuçados. Os casacos ficaram deformados com esse peso. Engordou e começou a sentir-se fraco.
Novamente no mesmo médico, foi-lhe diagnosticado diabetes. A ele, que nunca tinha tido uma única doença.
Pediu-lhe cinco minutos para ir à casa de banho, desceu à rua onde comprou um maço de tabaco e um pequeno canivete.
Já no consultório, abriu o pacote, acendeu um cigarro, deu uma valente fumaça sem ouvir os gritos do doutor. Quando acabou esse gozo, tirou o canivete da algibeira, abriu-o e deu dois valentes golpes nos pulsos.
Sorriu. E pediu ao médico que lhe acendesse outro cigarro e o colocasse na boca.
Morreu envolto na nuvem de fumo que já era a sua aura.
12.04.07
route 66
X tinha ido para a América, a tal terra do sonho, em busca de uma melhor vida. Para trás ficaram os haveres que um amigo prometeu vender. O tempo passava e esse dinheiro, vital para apresentar a sua ideia ao grande mercado americano, não chegava. Em pouco tempo, só tinha dinheiro no bolso para mais um mês. Até que da terra lhe telefonaram para dar uma má notícia: o amigo tinha desaparecido com o dinheiro da sua casa, pertences e carro.
X, no seu íntimo, já estava à espera disto. E também sabia que a terra do sonho americano só a é quando há algum dinheiro. Contou o que tinha: 850 dólares. Nem dava para um mês. Decidiu o que muitas vezes se decide nestas alturas. Passou por um stand, alugou um Cadillac Eldorado cor-de-rosa com estofos em pele de leopardo, baixou a capota e fez-se à Route 66. Passadas umas centenas de milhas, encontrou o que queria: um enorme outdoor publicitário daqueles que, nos filmes, escondem um carro ou mota da polícia. Travou, apontou, encheu-se de coragem e arrancou a todo o gás. Por causa de um ligeiro desnível na berma, o carro saltou e voou direitinho para o cartaz, como nos filmes. X fechou os olhos e despediu-se. O embate foi violento, pedaços de metal, vidro e cartão voaram para todo o lado. Quando finalmente o carro aterrou do outro lado, no meio de uma nuvem de pó e detritos, X abriu os olhos. Nada lhe acontecera. O cartaz gigantesco era de papelão. O cadillac tinha ficado sem pára-choques e faróis, mais nada. Polícia e jornalistas chegaram em pouco tempo. Perguntaram-lhe porquê. E um jornal ofereceu-lhe 50.000 dólares para ter a história em exclusivo. X lembrou-se que só necessitava de 40.000 para apresentar o seu negócio. E aceitou.
12.03.07
Queda
X voava e ria descontroladamente. O vento forte provocava-lhe lágrimas frias que secavam num instante. Mal conseguia abrir os olhos e a sensação de vertigem era doce, livre e limpa. Como Ícaro, tinha tentado chegar ao topo e esta era a queda natural e anunciada. Mas já não se importava. Admirava-se sim, porque tudo fazia sentido, pelo menos desta vez. E talvez pela primeira vez.
O vôo duraria pouco mais e ele queria aproveitá-lo ao máximo. Pensou em todos os amigos, relembrou vitórias e bons momentos. Abanou a cabeça quando surgiram as coisas más. Não estava para isso, não era o momento.
O fim desta viagem chegou. Assim, tão rapidamente quanto durara a vertigem.
Puxou com força a guita e o choque foi tremendo. Sentiu o peito e os ombros a latejar, mas era uma dor positiva, de conquista. Deixou-se então navegar ao sabor do vento até que pousou suavemente.
Admirou ainda a queda do pano que se enrolava nele próprio a poucos metros de distância. Havia agora que arrumar todo o material. Até à próxima vez.
12.02.07
Sangue
Desceu as escadas numa grande aflição. Tinha as mãos e a t-shirt sujas de um sangue escuro, pouco líquido. Na rua gritou por ajuda, mas afastavam-se dele, olhando-o com receio e até algum pânico.
Tresloucado, continuou a correr aos gritos, cada vez mais histéricos, até que esbarrou num polícia. Este, após um rápido olhar técnico, algemou-o e pediu-lhe calma. A esquadra mais próxima ficava a menos de 1000 metros, mas mesmo assim foi chamada uma viatura oficial que chegou estridentemente. Dois agentes da lei saltaram do veículo e deram-lhe duas valentes cacetadas. Um deles chegou mesmo a tirar a pistola do coldre, apontando-a nervosamente. Meio adormecido e com a cabeça a sangrar, foi metido numa cela. Após uma busca, os agentes não lhe encontraram identificação. Aliás, nada de nada. O golpe era profundo e a perda de sangue notória.
Nessa mesma altura, Y acordou no quarto que ele deixou a correr. Bolas, a cama estava toda suja. O periodo veio forte desta vez.
12.01.07
Crack
X tem no seu bicho o mais fiel dos cãopanheiros. Leva-o para todo o lado em grandes passeatas a pé ou de carro. Ensinou-o a detestar má música (porque a há) e a adorar a boa (porque é a que gosta). Ensinou-o a parar numa passadeira e a não comer nada do chão. Não o ensinou a dar a pata.
Leu-lhe uns quantos livros em voz alta e faz figuras ridículas com os headphones na cabeça. O bicho gosta. Num destes dias, X chegou a casa. O bicho estava a agonizar pelo jardim. X decidiu abrir o porta-bagagens e deixá-lo ir à vida, enquanto arrumava a stationwagon num lugar de smart.
As manobras sucediam-se para a frente e para trás. X começava a ficar preocupado pela soltura endiabrada do bicho. De repente ouviu um crack. Pensou num toque de pára-choques. Fez novamente a manobra e o crack repetiu-se. Seguiu-se um longo e aflitivo ganido. X fechou os olhos antes de saltar do carro. Entre a roda e o passeio estava o bicho, meio desfeito sob o peso do carro. X gritou e agachou-se, agarrando-o fortemente. O bicho ganiu baixinho, fez um último esforço para lamber o dono e, pelo que parece, ainda sorriu.

































































































































































































































