05.28.09
esfera

Esta é a aventura de uma esferográfica com ponta tipo rollerball e o botãozinho para ela surgir ou desaparecer para não secar a tinta ou sujar o bolso da camisa. Em suma, esta é uma esferográfica tipo ponta e mola tal como as navalhas com a mesma alcunha e ela sabia que os seus escritos poderiam ferir tão ou mais que a lâmina delas.
Portanto, tinha muito cuidado com o que deixava escrever, entupia quando achava necessário e até tinha truques de último recurso, como jorrar mais tinta e criar um borrão no papel abrandando assim a criatividade de quem a utilizava. Tinha também as suas manias como recusar-se a escrever em papel humidificado por tristezas ou, horror dos horrores, em papel plastificado.
Tinha uma vida porreira, era usada bastas vezes e até gostava da maior parte do que escrevia. Tudo corria bem até que a sua própria carga começou a definhar. Primeiro foram uns entupimentos, depois umas valentes sacudidelas para ver se a tinta chegava à sua esfera. O fim da existência estava ao virar de uma página e foi com urgência que começou a escrever o seu testamento.
Depois de umas linhas onde deixou conselhos à esferográfica novinha que lhe seguiria os passos, preparava-se para assinar de cruz quando a sua alma se extinguiu. E na precisa altura em que foi atirada para o balde do lixo, desejou nunca ter sido uma ponta e mola mas apenas uma pena.


