05.28.09
esfera

Esta é a aventura de uma esferográfica com ponta tipo rollerball e o botãozinho para ela surgir ou desaparecer para não secar a tinta ou sujar o bolso da camisa. Em suma, esta é uma esferográfica tipo ponta e mola tal como as navalhas com a mesma alcunha e ela sabia que os seus escritos poderiam ferir tão ou mais que a lâmina delas.
Portanto, tinha muito cuidado com o que deixava escrever, entupia quando achava necessário e até tinha truques de último recurso, como jorrar mais tinta e criar um borrão no papel abrandando assim a criatividade de quem a utilizava. Tinha também as suas manias como recusar-se a escrever em papel humidificado por tristezas ou, horror dos horrores, em papel plastificado.
Tinha uma vida porreira, era usada bastas vezes e até gostava da maior parte do que escrevia. Tudo corria bem até que a sua própria carga começou a definhar. Primeiro foram uns entupimentos, depois umas valentes sacudidelas para ver se a tinta chegava à sua esfera. O fim da existência estava ao virar de uma página e foi com urgência que começou a escrever o seu testamento.
Depois de umas linhas onde deixou conselhos à esferográfica novinha que lhe seguiria os passos, preparava-se para assinar de cruz quando a sua alma se extinguiu. E na precisa altura em que foi atirada para o balde do lixo, desejou nunca ter sido uma ponta e mola mas apenas uma pena.
05.20.09
Mangueira

Esta é a aventura do telhado da casa de Mr. X. Quando chovia ficava encharcado, quando soprava a nortada sentia um frio imenso, mas o pior era mesmo o pico dos 40 graus do Verão lisboeta e o seu calor insuportável.
Nessas alturas e muito de vez em quando, um puto vizinho abria a mangueira do seu terraço e, como se fosse um jogo da playstation, entretinha-se a acertar nos pombos meio mortos pela brasa, molhando os telhados circundantes e, com sorte, o da casa do Mr. X. Sabia bem este fresquinho mas depressa se evaporava.
O que o telhado desejava era mesmo um banho fresco e prolongado. Até que teve uma ideia: aproveitou a beata acesa que outro vizinho lhe atirou para cima, permitiu que o vento a soprasse com força e num repente, as chamas cresceram. Já iam altas quando os bombeiros chegaram. Os bombeiros, o camião cisterna e as suas fantásticas mangueiras.
Cordame

Esta é a aventura de um tasco que queria crescer e ser restaurante daqueles com bar. Um sonho muitas vezes traído pelas contas sócratianas, novo carro em segunda mão do dono e pelas inspecções da Asae que eram sempre um azar dos diabos.
A sua localização era óptima, de frente para o mar e rodeado por extenso areal. Higienicamente não era perfeito, nem na cozinha, nem nos lavabos. Um conjunto de problemas persistentes e, convenhamos, chatos.
As épocas passavam até que uma amiga deste tasco, a Dona Taberna, lhe contou um segredo: ao que parece, os políticos e jetsetianos gostam de ser vistos neste tipo de covis porque acham giro misturarem-se com o povo. Portanto, se o tasco quisesse ter essa frequência era só puxar os cordelinhos certos para que o seu sonho passasse a ser uma realidade.
O tasco deixou a Dona Taberna saír, correu para a loja mais próxima e comprou a maior corda que encontrou.


