01.23.09
olhares

Esta é a aventura de uma paragem de autocarro.
Está colocada num eixo pouco central e só tem companhia duas vezes por dia: às sete da manhã e às 17. Inveja, por isso, as outras paragens daqueles bairros mais confusos, como as avenidas novas, o Rossio, a Almirante Reis, o Areeiro, etc. Gostava de ser uma dessas para conhecer mais pessoas e as histórias que essas pessoas contam da sua vida íntima às outras pessoas que são completos estranhos. Mas que numa paragem de autocarro passam a ser vizinhos, amigos, confidentes. Nem que seja por cinco minutos. Vá lá, uns 15 devido aos atrasos.
Contudo, houve uma manhã que mudou tudo.
Nesse dia, um jovem no alto dos seus 20 anos e headphones chegou pelo meio dia. Não há muitos autocarros a esta hora, portanto ele sentou-se no banco de ferro para aguentar a demora. Pouco tempo passou até que uma gentil rapariga, no alto dos seus 15 anos e headphones, chegou. Ficou tímida a olhar o rapaz e o espaço disponível no banco.
O autocarro chegou e ambos desapareceram.
No dia seguinte foi a rapariga que chegou mais cedo e, antes de se sentar, olhou em volta como se estivesse à procura de alguém.
O rapaz chegou depois e sentou-se ao lado. Não se olharam, apenas o fizeram para os telemóveis nos quais debitavam sms à velocidade da luz.
O autocarro chegou e ambos desapareceram.
Ao terceiro dia chegaram os dois ao mesmo tempo. Tiraram os headphones e, pela primeira vez, os olhos dos telemóveis. Ficaram a olhar um para o outro, tentando descobrir o que queriam descobrir.
O autocarro chegou mas partiu sem eles.
A paragem estava, finalmente, feliz.
01.20.09
Timing
Esta é a aventura de um homem que ficou parado no tempo.
Não à espera dele, mas nele. No próprio tempo.
Pela esquerda passava-lhe um tapete rolante do passado para o futuro.
Pela direita, do futuro para o passado.
O homem podia escolher uma qualquer direcção, assim como uma qualquer época, data, dia ou hora.
Mas com tanta possibilidade nunca se conseguiu decidir.
E foi por isso que ficou parado no tempo.
E ainda lá está.
01.02.09
Futurologia

- Hum…
- Então?
- O que achas?
- Não sei.
- Hum…
- Então?
- Não sei o que achar.
- Tábem.
…
- Mas e se…
- Porque não?
- Achas?
- Por mim…
- E…
- Não penses mais nisso.
…
- Mas dá que pensar, não?
- Lá isso…
- Tou com uma vontade…
- Vai em frente, porra.
- Não precisas é de ser mal educado.
- Ninguém te atura quando ficas assim.
- Assim como?
- Sem saberes o que achar.
…
- Achas?
- !



