12.31.08
Ano novo

Esta é a aventura de um ano novo, pequenito, imberbe, descalço, desorientado. Apareceu numa noite de chuva. Estava lixada a noite, molhada, demasiado molhada. O ano novo ficou cheio de frio e tentou encontrar algum ano que lhe desse guarida. Nenhum ano passado lhe abria a porta. Estavam furibundos. O seu tempo tinha passado e não era um jovem parvo que lhes tomaria o lugar por dá cá essa palha. O ano novo continuava a deambular, tentando apanhar um toldo, um parapeito, um varandim. Mas todos recuavam. Todos lhe tiravam o capote. Afinal este ano novo é diferente dos anteriores. É mau. Vai trazer penúria, crise, fome, desemprego. O ano novo não sabia disso nem queria saber. Só desejava um sitio quente e seco para poder pernoitar e estar em toda a sua glória daqui a umas poucas horas. Tinha esperado 364 dias por isto. Tinha sido formado, ensinado, educado. Sabia o que era sol e chuva, vento e frio, calor e humidade, geada e brisa. Sabia as estações. Sabia o borda d´água. Sabia até que tinha 364 dias de vida.
Só não sabia que os homens tinham medos antigos. E que não pensavam por si próprios.
12.29.08
Esperanto

Esta é a aventura de um homem que passou toda a vida a ser boa pessoa. Teve e tem amigos, teve e tem inimigos, vá-se lá saber porquê. A vida até que nem foi madrasta. Colheu frutos das suas opiniões e tornou-se num cronista de sucesso. Com as crónicas ficou famoso no circuito dos intelectualóides e, sabendo que não era um deles, andou por ali colhendo mais frutos para um passo seguinte. Esse aconteceu quando um editor lhe propôs uma aventura editorial. Era um conceito engraçado: um jornal diário com um especial semanal e um super especial mensal. Tudo em um, um em tudo. A publicação colheu todos de surpresa. Até mesmo aquela gentalha que se auto-intitula crítico de qualquer coisa. O bota-abaixo tão tradicional neste cantinho, demorou a acontecer. Os velhos de Restelo não sabiam o que opinar. A concorrência quase directa, porque não havia outra, tentava encontrar resposta à altura, porém sem sucesso.
A publicação tornou-se conhecida além fronteiras e o editor, na reunião anual de objectivos e essas merdas, propôs uma edição bilingue. Francófono de raíz, queria francês/português. O homem queria inglês, como lingua actual e de futuro e nada morta, como a outra.
Não chegavam a acordo. Esse só aconteceu quando o homem teve a ideia de fazer a revista em esperanto. Todos se entreolharam, mas lançaram-se à obra. A primeira edição bilingue estava a ser feita quando os pedidos de todo o mundo exigiram uma maior tiragem. Esgotou numa hora.
Lá fora, ninguém sabia falar esperanto e muito menos português. Abriram escolas por todo o lado. Os cursos eram um sucesso e, passado um ano, meio mundo falava esperanto.
Isto deu lugar a toda uma mudança na relação entre povos e nações. De repente, todos se entendiam o que mesmo com o inglês não acontecia.
O homem estava orgulhoso, mas sabia que o seu caminho nesta publicação tinha atingido o auge e estava na altura de mudar. O seu editor não aceitava. Os seus colaboradores não entendiam.
O homem só queria continuar a ser boa pessoa e a perseguir alguns sonhos que tinham ficado para trás. Era um desejo normal para um sujeito normal.
A luta foi árdua para saír do mundo que entretanto criara. Mas conseguiu encontrar e formar gente capaz para lhe tomar o lugar.
No primeiro dia de liberdade, sorriu satisfeito para um estranho.
Levou um tiro.
Levou outro.
E ainda mais outro.
12.26.08
Chaminé

Mr. X tentou comemorar o Natal à antiga. Ia estar com putos mesmo putos que ainda acreditam no sujeito e para quem a noite ainda é mágica. Combinaram-se pendas, embrulhos e local. E pediram para que me vestisse de coca-cola e entrasse pela chaminé.
A subida para o telhado já em si foi complicada. Um tipo vestido com uma cena engordalhante com barbas postiças e a puxar um enorme saco com embrulhos fica, como dizer, um bocado lento e pesado. Mas lá se chegou.
O problema aconteceu com a chaminé por onde devia descer. Não tinha buraco, mas sim uma coisa metálica redonda que girava sobre si própria. Como então entrar nisto?
Mr. X não queria dar parte de fraco, principalmente depois de se ter esfalfado a subir até lá. Mas não havia solução à vista. As frinchas eram demasiado pequenas e estavam sempre a rodar. As prendas eram demasiado grandes para conseguir meter nos buracos, mesmo correndo à volta da chaminé.
Mr. X, após longas horas, foi batido pelo cansaço. Uma desorientação extrema. Uma tristeza imensa. Lá do telhado olhou os telhados das outras casas e viu um já muito velho e danificado de um casebre pobre. Algum fumo saía pela chaminé. Essa tinha buraco. Pela janela viu duas crianças que olhavam para uma lareira sem prendas ao lado…
12.24.08
Caminho

Esta é a aventura de um homem que queria escrever uma aventura sobre o Natal. Pensou em todos os clichés, em todos os bonecos, em todos os persépios, em todos os cânticos. Olhou todas as iluminações, todas as árvores, todos os pais-natal de plástico made in china que demonstram extrema facilidade em assaltar apartamentos e até mostram o caminho. Pensou em todos os que têm grandes familias e que fogem delas. Pensou nos que não têm ninguém mas que ficam até aliviados porque é apenas uma noite má. Pensou nos que ajudam toda a gente que precisa de carinho. E percebeu….
Esta é a aventura de um homem que gostaria de dar um abraço a todos aqueles que numa noite de crença e de dogmas, se fazem à estrada e às ruas e becos e dão um mimo, por mínimo que seja, a quem está mesmo sózinho nesta altura.
A todos vocês, caríssimas Pessoas, fica a aventura de quem sabe a vida e que para ela acordou mais cedo que todos nós.
Obrigado.
12.23.08
Macro

A calçada à portuguesa revela os seus buracos, caminhos por entre as pedras com areia cimentada de lixo vário. Da sua brancura negra, um lancil de passeio. Para-se, observa-se bem aquele bocado de qualquer coisa estranha. Não interessa e continua-se o caminho. Alcatrão, muito alcatrão. Aqui e ali alguns cagalhotos e restos de óleo de um motor com pouca saúde. Mas o que é isto? Um papel voador que se pega a quem não voa? Raios partam, custa tirá-lo do caminho. O alcatrão rola depressa como pára bruscamente. Mais um lancil. Alcatrão novamente e a calçada à portuguesa. Aqui um bocado mais limpa do que lá em baixo.
De repente tudo fica mais longe. Agora o chão não está tão perto. Olho para cima e vejo o meu dono, Mr.X, a dizer-me para saír do meio da rua pois vem lá um carro.
Que chatice pá, não se pode andar em lado nenhum.
Indecisão sem decisão

Este é um homem que se perdeu entre duas aventuras. A maior parte das vezes, um homem não tem nem uma. Mas este era um felizardo e num repente estava perante a maior indecisão da sua vida.
A aventura da esquerda prometia-lhe amores, paixões, bem estar físico e um sorriso temporário.
A aventura da direita prometia-lhe fortunas, fama, facilidades e um bem estar social também temporário.
O que fazer?
12.18.08
Buracos

Estava a chover intensamente e a trovejar aqui e ali. Mr. X tinha que passear o cão, mas aguardava pacientemente à janela pela bonança que nunca mais acontecia. O cão gania, uivava, fartinho de estar com a barriga cheia e de muitas horas sem correr e sem cheirar odores alheiros. Mais a mais, este é daqueles cães que adora chuva e não tem medo de trovões e do seu barulho grave e fantasmagórico.
As horas passaram e não havia nada a fazer. Mr. X saiu para a intempérie pedindo ao cão que se despachasse mas sabendo de antemão que isso não iria acontecer.
A trovoada estava mais próxima, a chuva mais densa, o frio mais intenso. Num repente, um raio caíu a centímetros. O chão estremeceu e abriu-se numa profunda fenda. Mr. X foi engolido por esse desmonronamento e só ficou preso pela trela ao seu cão, que fazia um esforço sem limites para não ser puxado para o buraco.
Mr. X sabia que para salvar o seu cão teria que largar a trela. O bicho percebeu esse olhar e começou a ladrar e a puxar com mais força ainda. Mas as patas derrapavam na lama e nas pedras e o precipício estava cada vez mais próximo para o bicho.
Enquanto Mr. X tomava a sua última decisão, o cão decidiu que não podia acabar assim. E não ia!
Voltando-se ao contrário e num último esforço, começou a esgravatar a terra e a atirá-la para dentro do buraco onde estava o dono. As pedras, lamas, ramos e demais detritos passavam por cima da cabeça de Mr.X e aterravam lá em baixo. Ao fim de uma hora, já o cão tinha feito um enorme buraco paralelo ao outro que estava cada vez a ficar menos fundo. Até que aconteceu… Mr. X conseguia tocar com os pés num chão artificial mas salvador. Mais uma hora e começou a trepar pela parede até ao cimo, com a ajuda de alguns ramos bem presos e de pedras milagrosas. Até que conseguiu saír do buraco.
Correndo para o seu cão, vislumbrou-o no fundo do buraco que tinha feito com as suas patas. Chamou-o, gritou-o e percebeu que o seu cão estava em paz. Chorou-o. Muito. E muito. E muito. E muito.
12.12.08
Reflexo
![]()
Esta é a aventura de uma máscara. Era sabidona, andava por cá há muito muito tempo. Já tinha sido usada por monges, políticos, médicos, pintores, donas de casa e cozinheiros. Conhecia todas as artes, todas as manhas. Sabia sorrir e chorar, fazer beicinho e assustar. E assustar-se.
De todas as vidas que mascarou, lembra algumas mais ousadas. Outras mais dementes. E ainda outras extraordinárias. Mas a que mais a marcou foi aquela que já tinha uma máscara vestida. A princípio não percebeu que estava a ser a sobre-capa da já existente. Mas uma constante comichão e mal estar fazia com que olhasse para a cara que mascarava. Só via o seu reflexo, nada demais. Mas era um reflexo tão perfeito que, por vezes, a assustava. De dia para dia o desconforto era maior. Até que não resistiu e procurou outra vida. Quando estava naquele momento de passar de uma para outra, um nanosegundo imperceptível para nós que as usamos sem saber, alguma coisa a fez abrandar o salto: era o seu reflexo que a não queria deixar ir. Só aí ela percebeu a sua verdade. Desmascarada. E nua.
Nunca mais olhou para trás.
12.10.08
Crise

Esta é a aventura de um homem que apanhou uma grande, enorme gripe.
Caiu na cama, envolto em papel higiénico para fazer bolinhas para o nariz estancar, termômetro para ver quando tinha febre, medicamentos fora do prazo para a tosse, garganta, catarro e… solidão.
Era nestas alturas que este homem, sempre fogoso e dinâmico, percebia que estava sózinho no dia a dia. E era também nestas horas que maldizia a vida matreira e sedutora que não o levava a lado algum, a não ser a caminho de casa numas quantas madrugadas.
Farto de sofrer com mais esta forte constipana decidiu que, para a próxima vez, era ele que perseguiria a gripe e lhe pegaria o bem estar.
E assim foi! Passado uma Primavera e um Verão e chegados a um Outono estranhíssimo com chuva e frio, o homem apanhou a gripe numa ruela aberta a correntes de ar e pum, espetou-lhe com um bem estar!
A gripe esperneou, tossiu e espirrou, mas não conseguiu fugir da teia de temperatura ideal, pulmões limpos e sem catarro, tez com cor vivaça e força muscular.
O homem sorriu e deixou-a à sua sorte, voltando-lhe as costas e despindo o chapéu, luvas e cachecol que o acompanhavam há precisamente um ano.
O tempo foi gradualmente mudando e deste Outono agreste aconteceu um Verão fora do prazo.
As pessoas ficaram contentes e felizes. Os dias pareciam maiores. A luz acordava o torpor.
Mas as plantas e os animais ficaram acabrunhados… e com muito medo da crise.
12.05.08
Frieza

A sua alma deixou de ter aura. O seu corpo deixou de ter calor. Os olhos mais vazios que nunca olhavam desgastados para o que o rodeava. Sentiu-se frustrado, incapacitado. Tudo o que tinha feito estava ali à sua frente, num monte de cinzas com fogo de origem criminosa. Todos os pensamentos, sonhos, ideias, gritos e confortos tinham desaparecido. Havia quem não permitisse que a verdade viesse à tona. Eram poderosos esses inimigos da vida. E tinham fósforos e gasolina. Sentiu um frio imenso e entrou em casa decidido a varrer o pó do seu corpo com um prolongado duche. A água jorrava com força e o vapor do seu calor encheu toda a casa, saindo depois pelas janelas e abraçando a cidade como se um manto de nevoeiro fosse.
Nas casas dos inimigos também se preparavam os duches. Mas a água brotava em cubos de gelo.
12.04.08
Partículas

Mr X aventurou-se hoje a abrir a janela. Estava a chover aquela gota miudinha e chata. Esperou atrás da porta, olhando as nuvens que faziam desenhos estranhos provocados pelas gotas nos vidros. Tentou, em vez de coelhos felpudos ou adamastores, vislumbrar qualquer traço mais caótico, mais desconhecido, que suscitasse a maior das curiosidades.
Nada.
As nuvens assinaram a paz durante uma hora em que o sol surgiu, tímido mas bonito. A altura para finalmente abrir a janela tinha chegado. E mal o fez, inúmeras partículas de pó e fumo fugiram, deixando para trás a casa que os acolheu. Mr.X ficou a vê-las desaparecer, juntando-se a todas as outras das outras casas que tinham aberto também as janelas.
E passou mais um dia.
12.01.08
Decisão

Esta é a aventura de um homem encruzilhado. Toda a sua vida era um nó complicado e quase impossível de desmanchar. Eram laços de confusões, a maior parte delas sem culpa própria, mas também dela, pois um homem moderno não pode ser simples e santo. Tem que fazer cara de mau ao mais pequeno problema. Mas este homem não gostava de conflitos. Contudo, eles tocavam-lhe à porta como se tivessem sido convidados e o homem, sabendo que era estúpido, abria-a na sua ingenuidade e bom senso.
Num dia a campainha tocou. Era a resolução. O homem entreabriu a porta. Já não acreditava em ninguém, muito menos numa situação positiva. Curioso confesso, também não a fechou. E ficaram a falar durante largos minutos. A resolução disse ao que vinha, para o que vinha e que vinha só, sem truques nem manhas. O homem ficava mais perplexo a cada frase proferida. E, receoso, teve um momento de demência absurda: fechou a porta com medo. Medo…
Passados poucos minutos, e sabendo o que poderia ter perdido, reabriu a porta. A resolução estava lá, esperando pacientemente pela resolução deste homem.



