08.25.08

ciclo

Posted in Uncategorized at 02:25 by crim3sp3rf3itos

Esta é a história de uma aventura com sono. Não dormia bem há uns tempos, deitava-se tarde e acordava cedo, andava a sentir-se cansada, dorida e, muitas vezes, acordava toda partida.
Queria aventurar-se numa nova vida, mas era difícil. Já estava velha, com pouco ânimo e nada de anormal lhe tinha acontecido ultimamente.
Mas uma aventura é uma aventura e sentia sempre a necessidade de ir procurar qualquer coisa a cada nova manhã. Aventurava-se pelas ruelas de bairros típicos, pelas praças, pelos jardins secos e agonizantes com a falta de trato e água, andava por todo o lado, até que escurecia e regressava a casa.
Aí ficava triste pois era todo um dia que passava sem que nada acontecesse.
Os dias foram passando, os meses, os anos.
Vieram décadas e, por fim, a aventura desistiu. Hoje já ninguém gosta de ficar sentado a ouvir uma nova história, ninguém é fã de jovens aventureiros e dos seus cães, poucos dão importância à grande qualidade narrativa, criativa e, algumas vezes, original.
Com o fim dos seus dias a aproximar-se, a aventura decidiu deixar registadas todas as suas histórias, das mais fantásticas às mais ousadas, das inacreditáveis às realistas, das enternecedoras às diabólicas.
Deixou tudo num molho de folhas escritas à mão, com caligrafia bonita e imaculada.
Anos depois da aventura ter sido esquecida por todos, houve um puto novo que descobriu as folhas amareladas e cheias de pó. No intervalo de um jogo online, começou a lê-las e não conseguiu parar. Decidiu passar tudo para word. Depois convidou uns amigos jogadores para lerem o que tinha descoberto. E todos se entusiasmaram a tal modo que, um deles, teve a ideia de passar todas as histórias para o formato de um jogo online. Outros fizeram os videos, a música, as vozes off, as narrativas e tudo o mais.
Num ápice, como só a internet permite, as novas aventuras da velha aventura estavam na boca de toda a gente, no monitor de toda a gente e no teclado de toda a gente.
Trocavam-se emails com truques para chegar mais longe, sms com pedidos de ajuda num quebra-cabeças, fizeram-se foruns de discussão, blogs, sites de fãs…
A aventura estava de novo a ser vivida de uma forma tão mágica que nem ela própria teria pensado que tal aventura pudesse acontecer.

08.22.08

assalto

Posted in Uncategorized at 13:51 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um assalto. Estava farto de quantias pequenas e navalhitas suiças. Queria ser um grande assalto, daqueles que abrem telejornais e fazem delirar comentadores mais ou menos esclarecidos. O melhor que tinha conseguido até agora foi ver-se roubado juntamente com a mochila do dono, onde ia também um laptop, documentos vários e, isto ninguém sabe, soluções para o caos financeiro europeu, que nunca mais foram vistos.
O assalto queria ser violento, dinâmico e extraordinário. Daqueles tipo filme que até o mais honesto e normal cidadão gostaria de cometer, com sotaque britânico, yamamoto ou kenzo como vestimenta, panerai no pulso e chave de bugatti.
O assalto queria ter conhecimentos fantásticos de informática, ser um prodigioso hacker para enfaralhar as polícias, ser muito inteligente para gozar com os negociadores e, acima de tudo, ser perfeito.
Na sua busca mudou-se para um país corriqueiro, à beira-mar plantado, conhecido pela pacatez geral e inadaptado à grande violência.
Tentou ourives, depois ourivesarias, umas quantas escaramuças em bairros problemáticos, uns banquinhos e umas carripanas amarelas com dinheiro.
Mas não era por ali.
Ainda por cima, havia humanos que nem sabiam o que faziam, sendo apanhados ou, pasme-se, mortos.
Mas houve um dia em que o assalto foi tomado… de assalto! Com grande lata, um assaltozito novito e pequenito entrou nos seus domínios e roubou-lhe tudo o que ele tinha adquirido até então. Um assaltozito da treta, estúpido e ignorante que teve foi sorte e o apanhou a dormir.
Alerta, muniu-se de alarmes contra roubo e tal, mas o mesmo estúpido atacou-o outra vez e levou-lhe o que tinha esquecido da primeira vez.
Triste e destruído, o assalto percebeu que este país já não tinha condições de segurança e protecção para oferecer a quem o escolhia para viver.
Mais valia mudar-se para uma grande cidade americana. Pelo menos lá os assaltos são tratados dignamente.

08.21.08

emblema

Posted in Uncategorized at 12:32 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um carro alemão, de grande gabarito e panache, idolatrado e desejado por muitos portugueses, ávidos de mostrar aos vizinhos e amigos o seu emblema. Este carro foi comprado por muito dinheiro, 12 créditos bancários e levou a família à inexistência social, pois o dinheiro ia todo para ele. Este jovem casal que participava nas festas socialite portuguesas, gostava de aparecer nas revistas que de rosa nem cor têm, gastava muito dinheiro em roupa e acessórios e nos restaurantes da moda, viu-se assim com um emblema ostentatório na rua, mas sem nada para comer, nada novo para vestir e, tragédia das tragédias, nenhuma possibilidade de continuar a sua dourada vida.
No mesmo prédio e como vizinho de andar, habitava um homem já vivido no alto dos seus 40 anos. Ele também tinha tido emblemas, mas nesses anos de trabalho dourado, comprava a pronto. Com a crise instalada no país e, logicamente, na sua vida profissional, viu-se obrigado a adquirir um carro semi-novo, daqueles japoneses que duram uma vida e gastam pouco. Servia para as deslocações, algumas viagens e era meter gasolina e andar. O homem sentiu o ar de manifesta superioridade do casal jovem que demorava bastante tempo a estacionar o veículo emblemático nos primeiros dias de comunhão. Mas apercebeu-se que o carro saía raramente do seu lugar.
Este homem, nas grandes jantaradas que gostava de oferecer aos seus amigos, questionava o que realmente era importante na vida dos portugueses. Se o meio de transporte, se o emblema que esse meio trazia colado. Alguns diziam que gostariam de ter um modelo do tal emblema, outros estavam-se nas tintas e, pasme-se, outros até nem carro tinham, só andavam de taxi. Estes jantares bem comidos e bem regados, acompanhados por excelente música debitada pelo amplificador e colunas britânicos, duravam horas tertúlianas de boa disposição. Vivia-se bem, comia-se melhor e saboreava-se desde o Douro ao Alentejo com conhecimento e grande prazer.
No apartamento do lado, sem conseguir dormir com a desculpa do barulho da casa do vizinho, o jovem e ex-promissor casal rosa e social olhava para o emblema estacionado na rua, comendo directo de uma lata de atum e bebendo, para afogar as mágoas, duas bem frequinhas minis.
O carro, esse, apodrecia as borrachas novas, os acabamentos superiores e os pneus semi-racing.
Tinha nascido para devorar quilómetros com grande destreza, mas só tinha essa alegria aos fim de semana… e devagarinho, bem devagarinho.

08.20.08

CONCURSO

Posted in Uncategorized at 01:53 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um blog de aventuras que chega às 5000 pageviews. Claro que não são estas que contam, mas sim as visitas que ainda nem vão nas 4000. Mas bolas, há que considerar as 5000 pageviews. Por duas razões: porque são pages e porque são views.
Ora quem as page e quem as view merece ser autor de uma aventura.
E porque não escrever uma?
E porque não enviá-las ao Mr. X?
E porque não pedir ao Mr.X que crie um blog anexo que conterá as aventuras dos seus amigos e leitores?
HEIN?
Medo?
Medo de quê?

Pois então aqui fica um manual de instruções para criar uma aventura:

1. Aventure-se e abra o espírito, a mente e a alma.
2. Junte dados autobiográficos com aspectos sociais reais ou não.
3. Beba um copo ou mais para descontraír e escreva coisas que sabe de que se arrependerá mais tarde. Pode sempre criar um homónimo ou, quiçá, uma personagem, enfim, diferente da sua.
4. Beba mais um copo. Não receie, aventure-se!
5. Utilize e misture o passado com o presente e até com o futuro. E inverta a ordem.
6. A liberdade é total. Principalmente quando olhar para um quadrado branco vazio à espera das primeiras palavras.
7. Tenha sempre em consideração que só tem cinco minutos para escrever a aventura. A primeira palavra dará lugar às demais. Não receie. Tenha fé. E faça força.
8. Não se preocupe com dislexias ou erros gramaticais. Muito menos de síntaxe. Cinco minutos servem apenas para escrever uma aventura, não um pullitzer.
9. Acima de tudo, sonhe! E divirta-se.
10. Vá, pense durante 15 segundos e comece a escrever. Sem medo. A vida são só dois dias.

Depois envie em email registado e com aviso de recepção para

mr.x.adventure@gmail.com

Será uma aventura receber uma. Duas já é sorte. 10 será um fascínio e 24367839874 um caso sério.

Boa ventura!

08.19.08

Olimpo

Posted in Uncategorized at 11:20 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de uma medalha que não queria ser conquistada por um país de fraca auto-estima, cheio de invejas e fala-baratos e de treinadores de bancada. Esta medalha foi apontada pelas outras, porque isso não se fazia. Nem sequer se pensava. Mas a pouco e pouco, outras medalhas começaram a perceber que teriam uma vida muito mais interessante noutros países que tratavam bem os atletas e os levavam a sério desde pequeninos. E quanto mais fossem conquistadas, mais companhia e folia teriam juntas. Ao menos não ficavam solitariamente a contar os anos para ter uma amiga ao lado.
A medalha conseguia, com este tipo de razões, ter aliadas. E com mestria, conseguiram fugir a atletas portugueses, desde aqueles que dizem que de manhã é para se dormir, outros que ficam paralisados quando entram num estádio, outros apenas porque é giro fazer umas férias pagas e tal. Nada de mais. Mas a medalha em questão teve azar. Foi escolhida para premiar o salto em comprimento feminino. Tanta manha e tanto discurso e lá seria ela a ter que ir para um país pequenito e longe de tudo.
Chegou a prova e lá vinha a atleta. A medalha rezava para que alguma coisa falhasse. E essa coisa falhou três vezes. Três. A medalha estava radiante! As suas preces tinham sido ouvidas e iria para um outro país. Depois olhou para a atleta. Ficou até com pena. Coitada. Mas então querida, não treinaste todos os milímetros da corrida? Esses passos não deviam estar cronometrados ao milésimo? Não percebeste que não era necessário bater o recorde do mundo nesta fase? Porque é que o tentaste?
Enfim. Drama foi na vela. Um ponto. Essa medalha até gostaria de ir para um país de velejadores e marinheiros que deram novos mundos ao mundo. Seria das únicas a querer vir para este país. Mas a sorte ou falta dela não quer nada com as gentes do mar.
Mas o Gustavo tem o seu lugar no Olimpo. Porque merece.

comentários

Posted in Uncategorized at 00:13 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um blog que mudou de imagem repentinamente. Na verdade, e após inúmeros pedidos, o blog até queria ser mais amigo dos seus leitores, abrindo, por exemplo, o campo dos comentários. Mas não conseguiu. Fartou-se de andar pelas configurações, até se meteu com software de origem duvidosa o que mudou não sabe bem o quê para ter comentários, mas nada. Niente. Nicles batatóides. Nada!
Enfim, a vida é mesmo assim. Umas vezes consegue-se dar a volta, outras não.

08.18.08

renascimento

Posted in Uncategorized at 11:30 by crim3sp3rf3itos

X fartou-se de ver aventuras este fim de semana. Chamam-se filmes, pois é. E viu alguns fora de série, um israelita em que uma banda militar de música fica perdida em nenhures, um sobre a obra dos Beatles que é francamente genial e é pena que tenha saído na altura da febre sueca e ainda outro que provocou este post que tem a ver com a possibilidade de se viver outra vez. Curiosamente, ou talvez não, um dos filmes que à priori seria bom foi quase um frete. Mas passando aos pensamentos provocados pelo tal sobre a experiência do renascimento:
Ele há pessoas que acreditam piamente num deus, como há outras que não. E existem ainda aquelas que dizem que não mas quando o fim se aproxima mais vale rezar não vá o diabo tecê-las. E também há aquelas que dizem que acreditam para não prejudicarem a sua vida familiar e, quiçá, profissional.
Ora este filme baseia-se num princípio que é o da segunda oportunidade. Quantas pessoas não gostariam de vivê-la para tomar uma decisão diferente daquela que fez com que toda a vida fosse condicionada? Ou não proferir aquela maldita frase que estragou uma amizade? Ou declarar realmente amor à pessoa certa que nos passou pelos dedos porque na altura pensavamos que não o era? Ou não ir para os copos naquela noite em que ficámos sem carta? Ou e ou e ou?
Pois, toda a gente gostaria de ter a oportunidade de viver a vida outra vez, mas de uma forma diferente. Sim, porque uma simples decisão é deveras importante e com a vida vamos aprendendo isso.
X podia estar para aqui a falar das más decisões que tomou ao longo da vida e das quais se arrepende. Podia também fechar os olhos e imaginar uma vida paralela e no que estaria a fazer agora mesmo. E podia, talvez o mais importante, pensar nas paixões da sua vida e porque é que elas terminaram. E já agora, imaginar cada uma como se tivessem sobrevivido. Seriam, concerteza grandes amores, não é? Daqueles que enchem livros, espíritos, almas e vidas.
Seria interessante…
Bom, X lembra-se agora porque é que começou este post. Toda esta temática fê-lo pensar num dos maiores juramentos católicos, aquele em que se promete, aquando o casório, que amaremos o conjuge até ao dia da nossa, ou dele, morte. Da morte… Ora, e pensando apenas nos ensinamentos e verdades católicas, isto não é uma grande mentira? É que se existe vida para além da morte, como é que poderemos jurar que só amamos a pessoa até ao nosso último dia de vida, enfim, terreno?
Pois é…
X prefere pensar que ainda terá mais uma hipótese na vida, em termos românticos, e que todo o calo o ajudará a tomar a decisão correcta. Será isto a segunda oportunidade? Neste caso será a trigésima, quadragésima… o que não faz muito sentido quando se lê todo o post e se vê o tal filme.
Afinal, uma segunda oportunidade não chega… mas deus é grande, generoso e um mãos largas.
Há que aproveitar!

08.15.08

Bem aventurada

Posted in Uncategorized at 11:35 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de uma aventura pequenina que queria ser uma aventura grande. Era pequenina em tudo, dimensão, conteúdo e importância. E invejava aquelas grandes, que salvam vidas e dão voltas ao mundo. Tinha como maior desejo fazer parte da história e ficar nela.
Muito fez para que passasse a ser mais conhecida. Meteu-se em aventuras e desventuras, quase que ia sendo esquecida, mas voltava sempre à carga através da memória de alguém.
O desespero era grande, pois uma aventura pequenina não passa disso mesmo. Até que se encheu de coragem e foi pedir um conselho à maior aventura que conhecia. A resposta desorientou-a e foi a pensar nela que, cabisbaixa, seguiu o caminho para casa.
Será que é verdade? Que mesmo pequena, uma aventura tem sempre a maior importância para quem a vive? Afinal o tamanho não interessa?
No dia seguinte acordou com um novo espirito. Sorriu e preparou-se para todo um dia de novas, embora pequenas, aventuras. Estava feliz.

08.14.08

juizo

Posted in Uncategorized at 08:55 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um português com inteligência acima da média. Quis ser advogado e depois juiz, pois era um homem justo, sério e pacífico. A vida universitária não lhe foi fácil, tendo sido alvo de galhofa pelos alunos mais antigos e repetentes, assim como de escárnio pelas mais belas das mais belas que gostavam era dos repetentes e dos mais antigos.
Contudo, tirou o curso com notas acima da média, o que lhe garantiu facilmente um estágio numa das grandes e nomeadas firmas lisboetas. Ao fazer o trabalho de escravo, como recados para os doutores e cafés para o secretariado, percebeu que o seu objectivo de vida tinha sido a única opção possível para conseguir fazer justiça à sua vida e também à dos outros infelizes como ele.
Após penar uns anos, fez mais cursos e especialidades e, finalmente, lá conseguiu ser um senhor doutor juíz. A primeira vez que se sentou na cadeira central e teve o martelo à mão, levou logo com um caso muito em voga, ou seja, assaltantes de bancos. Tinham sido apanhados em flagrante, mataram um refém, duas pessoas que iam a passar na rua, albarroaram dois carros da polícia, feriram três agentes e atropelaram uma fila de crianças que iam de mão dada a atravessar a passadeira. Seria um caso fácil, pensou, prisão perpétua para os malfeitores. Mas não! À luz do novo código penal, os transgressores eram uns santos para quem, coitados, a vida tinha pregado rasteiras o que lhes criou desespero e tal e coiso. O resultado foi normal, à luz do novo código penal (para rimar): os ladrões assassinos foram para casa com sinalizadores nas pernas.
O homem já juiz ficou atordoado. Não dormia. Nem sequer conseguia pensar. Os casos seguintes, todos eles graves, eram tratados e resolvidos da mesma maneira. À luz do novo código penal, os ladrões, assassinos, violadores e terroristas iam para casa, os coitados dos empresários afogados em dívidas ao fisco iam dentro, assim como os parvos que não pagavam a emel e aquele caso extraordinário de uma velhota esfomeada que viu a sua vida arruinada por ter roubado um iogurte num supermercado.
O homem estoirou. Pediu licença sem vencimento e foi para casa. Pensou bastante sobre a sua vida. E sobre a dos outros. E chegou a uma conclusão: passaria a ser ladrão, roubaria quem enriqueceu à conta dos parvalhões, assaltaria informaticamente as grandes empresas que em tempos de crise não tinham vergonha de mostrar lucros que nunca poderiam ser honestos, etc e etc. Portugal é um oásis (!) para ladrões deste calibre.
E assim começou toda uma nova vida em que, finalmente, seria feita alguma justiça.

08.13.08

cafés

Posted in Uncategorized at 10:50 by crim3sp3rf3itos




Esta é a aventura de um café que abriu por volta de 1950 num bairro moderno de Lisboa. Ficava numa esquina redonda e tinha vitrines para ambas as ruas, o que lhe conferia um estatuto central. A renda começou nos cinco mil reis, puxado para a altura, mas que de bom grado era paga todos os meses até dia oito.
O café era conhecido por muita gente, pois servia de ponto de encontro para a rapaziada, salão de chá às cinco da tarde para a velhada, vendia bolos para fora e até fiambre e queijo a peso.
Este café viveu bons momentos e fez a fortuna do seu arrendatário. Mas também perdeu jovens clientes no ultramar, velhotes que se finavam naturalmente e até empregados que partiram em busca de um maior vencimento em terras de frança. Contudo, cada vez era mais conhecido e preferido pela malta do bairro e dos seus amigos de outros bairros.
Nos anos 70 viu-se meio para trocar segredos e bilhetes, ordens e contra-ordens. Recebeu a polícia várias vezes que prendia alguns elementos reaccionários na esplanada. Ninguém ousava apupar ou mesmo confrontar a ordem.
Nos anos 80 passou a ser a segunda casa de músicos, artistas plásticos, pintores, escritores e leitores. E putos dos liceus circundantes que queriam ser mas velhos e adoravam estar entre os mais velhos. Os anos 80 foram feitos de tertúlias, de fé e esperança, de acordar e reacordar.
Até que chegaram os 90. Nessa altura já era o filho do arrendatário que controlava o serviço, a caixa e o guarda-livros. Mas a construção próxima de um mega centro comercial metia medo a todos, principalmente porque havia uns iluminados que diziam e apostavam que este local seria uma cidade dentro da cidade. Após a inauguração e pela primeira vez em 40 anos, o café deixou de ter clientela, a não ser uns quantos, mas poucos, fiéis. Começaram os problemas com ordenados em atraso, dívidas a fornecedores, à SS e fisco.
Depois aconteceu outra tragédia, com a construção e abertura de mais uns quantos centros comerciais. E a certidão de óbito foi passada a este café e a quase todo o comércio do bairro. As pessoas preferiam passear artificialmente, comprar com crédito, ir ao supermercado e ao ginásio e ao cabeleireiro debaixo do mesmo tecto.
O café, fechado, foi arrendado a uma croissanteria. Depois a uma loja de bijuteria, depois a um banco, depois a uma loja de 300, depois a uma loja de 1,5€, depois a um restaurante chinês e depois fechou outra vez, pois no bairro só viviam mesmo velhotes. A malta nova teve que ir para o subúrbio.
Adivinhava-se um ponto final na tragédia, mas o milagre aconteceu.
O neto do primeiro arrendatário, talvez movido pela honra do nome, pela noção de história, pelo amor ao bairro ou qualquer outro sentimento nobre, vendeu o que tinha e pediu um reforço bancário. As obras, profundas, começaram com papéis nos vidros que atraiam mas não satisfaziam a curiosidade local.
E num glorioso dia no meio da década 00, as portas reabriram com uma festa. O café era agora todo um esplendor de cor, luz, produtos gourmet, mobiliário moderno misturado com antiguidades, empregados jovens vestidos com roupa assinada por alguém, pratos específicos e nada baratos, tudo muito moderno mas com bom gosto.
Na parede restava de tempos idos a fotografia da primeira abertura, com toda a gente sorridente.
Ao lado estava um espaço para uma outra, de agora, para toda a gente sorridente.
E a sorrir também ficaram os antigos clientes. Os menos velhos que regressavam quase diariamente já com os filhos e filhas. Toda uma nova geração.
Murmurava-se também que o grande centro comercial estava a fechar. Muitas lojas já nem existiam. E, de certeza, que isso aconteceria com todos os outros.

08.12.08

crime perfeito

Posted in Uncategorized at 11:34 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que tinha como objectivo idealizar e cometer o crime perfeito. Passou toda uma vida a magicar esquemas, soluções e fugas. Pensou em bancos, hospitais, caixas da fnac, veículos blindados de transporte de dinheiro e até esquadras de polícia. Só tinha uma questão: teria que cometer o crime solitariamente, pois não acreditava que algo fosse perfeito se tivesse que contar com outrém sem ser ele próprio.
Depois de pesar os prós e contras, decidiu pedir conselhos a elementos das FP25. Descobriu que o mais mediático assalto a uma carrinha de valores tinha sido copiado de uma série britânica que passava na altura, intitulada “as viúvas”. Pensou também em inscrever-se na PJ, depois seria uma carreira como agente infiltrado e, na reforma, usaria essa rede de contactos para se transformar num padrinho. Tentou saber onde se tiravam cursos de super-vilões, visto que em Portugal não existiam, até à data, Super-Heróis para o travar. Cursou química para conhecer os elementos que o ajudariam a enviar cartas com antrax ou construír bombas. Pensou mesmo em tudo, mas para ser um crime perfeito, havia sempre uma ponta solta que ficaria por desvendar.
Quase desistindo do seu projecto de vida, aos 50 e tal anos, sentou-se pela última vez na sua poltrona virada para a varanda de onde via a paz do rio Tejo em dias e noites de céu limpo.
Encheu o copo de whisky, acendeu o último monte cristo e semicerrou os olhos, concentrando-se em busca de uma última solução, de algo que se tivesse esquecido ou, melhor, nunca pensado.
De repente fez-se luz. E daquela muito luminosa, com uma lâmpada a fazer “tilt” por cima da sua cabeça.
Saíu de casa a correr e foi-se inscrever num dos dois partidos que ganham sempre as eleições. O plano era simplex… Quando fosse formado o novo governo, ele estaria à porta do concelho com boas soluções para alguns problemas. Subiria a sub-secretário de estado. Depois secretário de estado. E finalmente ministro.
Sorriu e brindou a ele próprio.
Tinha finalmente conseguido o golpe perfeito. E ninguém daria por nada e muito menos o chamaria a responder pelos crimes cometidos.

08.11.08

tuga

Posted in Uncategorized at 11:55 by crim3sp3rf3itos

X foi convidado para criar uma personagem para uma série de episódios, tipicamente tuga, a exemplo do Mr Bean e do seu morris mini e teddybear, para concretizar um projecto audiovisual sonhado por alguém.
Ora X tem passado algum tempo a pensar nisto. Logicamente que é uma tarefa ingrata, pois todos os tugas sabem como um tuga típico é: a farta bigodaça, o avantajado estômago, o cabelo comprido puxado de um extremo ao outro para tapar a careca, as camisolas interiores com buraquinhos, os arrotos, a escandaleira na rua derivada à discussão com a “esponsa”, o carro artilhado com santos e santinhos, alguns tupperwares aerodinâmicos, autocolantes a dizer “Turbo” e a Bola debaixo do braço.
Muito há ainda por apontar, mas o retrato é fidedigno e, por incrível que pareça, típico de norte a sul, de oeste a este.
Ora X não gosta de ir por caminhos já trilhados e decidiu estudar o personagem e dar-lhe um toque original. Não foi difícil. Aliás, é até estupidamente fácil fazer o retrato do tuga moderno.
Então, o retrato/cromo de X é o seguinte:
Homem na casa dos trinta, mais ou menos agradável à vista, campeão em inúmeras actividades desportivas, tipo remo, judo, natação, equitação, rugby, esgrima, etc, extraordinário gestor empresarial, tipo presidente da Nissan, Vodafone Turca, comissão europeia, onu, refugiados, etc, poliglota, inventor e inventivo, tecnologicamente informado e, acima de tudo, interessado, bom nos copos, no sexo e nos pratos, inteligente, afável, brincalhão, com grande sentido de humor e, acima de tudo e o mais importante, DESENRASCADO.
X vai agora apresentar o seu tuga…

08.08.08

oriental

Posted in Uncategorized at 18:25 by crim3sp3rf3itos

X está ligado ao Oriente. Tem adn mongol, apelido nipónico e olhos até um bocadito rasgados. O chamamento e a vivência das culturas japonesa e chinesa é, por incrível que pareça, algo bem presente na sua vida. No entanto, só pisou solo oriental no ano passado…
Engraçado, X agora até percebeu que vai morar na zona mais oriental de Lisboa.
Enfim, tudo isto para dizer que X ficou embasbacado, emocionado, rendido, admirado e feliz quando viu as imagens da abertura oficial dos jogos olímpicos.
Só se pode dizer “Respect, camaradas, nem tudo é mau numa ditadura! Se não fosse ela este espectáculo teria sido impossível!”

Respect, camaradas!

08.05.08

vogais

Posted in Uncategorized at 15:37 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que trocava vogais nas palavras. Dizia que era disléxico, mas o problema era só mesmo falta de concentração e demasiada rapidez ao falar. Era tão lesto a dizer o seu ponto de vista que os interlocutores só percebiam metade da ideia mas anuiam com a cabeça porque já não tinham mais paciência para a repetição. Aliás, repetições.
Para citar alguns exemplos, eis frases proferidas por este homem que ficaram na memória dos amigos: “Eu pertenço à neta das netas!”, “Hoje o sal está abrasador”, “Ouviram o Cavaco a falar do dia da roça e da noção?”, “Por favor, uma boca pingada”, etc e etc. Dá para ficarem com uma ideia.
Porém, houve um dia que o homem alarmou os que o conheciam bem…
“Epá, tenho um temor…”
Todos se calaram e nenhum ousou perguntar mais nada. Fecharam o olhar e o sorriso e falaram sobre circunstâncias. No dia seguinte o homem continuava a queixar-se. E assim aconteceu durante uns tempos. Até que um amigo, querendo ajudar mesmo sabendo que a resposta poderia ser pior do que imaginava, fez-lhe a pergunta:
“Olha, quanto tempo te resta?”
“Cerca de dois meses…”
“Bolas, pá. Dois meses… nem sei o que dizer.”
“Conheces algum bom advogado?”
“Conheço, o K. Queres que ele te trate do assunto?”
“Sim, vou mesmo precisar de ajuda.”
“Compreendo… olha, tens aqui o nº: 555-5050…”
“Ok, obrigado. Olha, achas que é tipo para receber em prestações?”
“Epá, na tua situação acho que ele não vai em cantigas… Sabes como são os advogados.”
“Tens razão. Mas não custa perguntar, não é?”
“Sim…”
O amigo ficou a pensar por instantes e achou interessante o facto do homem não trocar vogais no discurso, como sempre fez até então.
“Reparei que já não trocas as vogais. Não deixa de ser curioso.”
“Bolas, desde que recebi a carta do fisco, o cagaço foi tão grande que esse problema passou…”
O amigo ficou branco… e já não perguntou mais nada.

08.02.08

branca

Posted in Uncategorized at 15:18 by crim3sp3rf3itos

X não tem mesmo nenhuma ideia… a mais pequena… um toque… um vislumbre.
Será que se acabaram as aventuras? É que não vem mesmo nenhuma à tona.
Será da dor de cabeça? Que a enche e nem vai lá com café ou comprimido?
Bom, melhores dias virão.