06.30.08

mister

Posted in Uncategorized at 09:46 by crim3sp3rf3itos

X foi sondado pela federação tuguesa de futebola para o cargo de mister da selecção. Pediu, logicamente, tempo para pensar e só daria uma resposta após a conclusão do €. Ora já acabou e os germânicos caíram (dói muito bebé, não dói?) e os hermanos só se vão calar daqui a quatro años. Ora com as saídas do aragonês e do filipão e de outros que foram demitidos, resta no comando o tipo da camisa branca justa e cabelo pintado. Há que ter cuidado com este fulano num futuro próximo. De qualquer forma e fazendo as contas, esta é uma boa altura para assumir o comando da selecção nacional.
De seguida eis o rascunho do projecto que irei apresentar aos dirigentes da federação.
1. Equipa
Ora aqui começa a chicotada psicológica e outra bem real, que é meter os mininos de rabo desnudado para o ar e presenteá-los com uma dúzia de vergastadas mesmo bem dadas. Logicamente que a permanência do ricardo está fora de questão, mas há outros que eu também, como mister, vou despedir: todos os que não sabem dizer mister em condições, todos os que pintam o cabelo e todos os que usam jóias em orifícios não naturais. Sim, é verdade, o quaresma e o ronaldo. E depois? Um tem os pés tortos e o outro tem um pé já marcado. Nada demais. Sem vedetas, a equipa jogará melhor “em colectivo”. No meio campo mantinha o petit do benfica e o outro ainda mais petit do sporting. O problema com os brasileiros é que o deco, com contrato novo assinado, vai jogar como nos habituou, ou seja mal. Mas o pepe é um gajo valente… fica o pepe para dar aquele show de bola a que já estamos habituados. O gomes fica. E não me lembro de mais nenhum.
Ora para ter 11 bons jogadores, vamos buscar lá fora, como os alemães fizeram. Quero dois turcos, dois russos, um espanhol, um polaco e um holandês. Dar o b.i. tuga deve ser coisa fácil e ficamos com fãs em mais países que até gostam de futebol.
2. Táctica
1 – 1 – 1- 8
Ou seja, tudo prá frente que prá frente é que é o caminho! Podemos levar muitos golos, mas para vencer só temos que marcar mais um.
3. Autocarro da seleção
Nada de empurrões! Só mesmo a girassol. Vamos ser verdes!
3. Centro de estágio
Lisboa. Subir e descer as colinas para o físico, evitar os buracos para garante de rapidez e reflexos, banhos de lodo na doca da expo para a pele, atravessar a nado o tagus para a força anímica, explorar obras do terreiro do paço para não caír nas rasteiras das selecções adversárias e, finalmente e porque X não gosta, caír no asfalto em hora de ponta com a obrigação de ser lesto a levantar para não levar com um carro em cima, para evitar aquelas fitas da treta bem à portuguesa.

E pronto. Se me escolherem, saíremos vencedores para a próxima.

06.28.08

calor

Posted in Uncategorized at 12:04 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que começou a derreter com tanto calor. Começou por ver os seus pés a transformarem-se numa papa, de seguida as suas pernas, depois o tronco e braços e por fim a cabeça.
Todo ele era uma papa multicolor devido aos pedaços da roupa que se misturavam com os seus orgãos. Ficaram apenas os olhos que lhe permitiam olhar em redor mas numa perspectiva nova, em contra-picado. O seu cão cheirava-o muito alarmado. Sabia que aquilo era o dono mas não percebia onde ele estava. O pior aconteceu quando o cão o começou a lamber, freneticamente. Partes do seu corpo pastoso começaram a ser engolidos, pedaço por pedaço, até que, por fim, todo ele estava no estômago do seu cão.
Passaram alguns dias, os telefones tocavam sem parar, a campaínha soava. E com a campainha, os latidos do cão que revolviam as entranhas e o faziam ficar tonto.
Finalmente um amigo, preocupado com o seu silêncio, abriu a porta de casa. O cão fez-lhe uma grande festa, pois já não comia há dias e tinha muita vontade de ir à rua.
O homem, de repente, apercebeu-se do que lhe podia acontecer. Será que seria lançado para fora do seu cão e abandonado num canteiro qualquer? Dito e feito, o cão correu para o jardim e expeliu o outrora seu dono. E ainda lhe atirou areia, pó e pedrinhas para cima.
Depois cheirou-o sem parar, ganindo e ladrando. O amigo, sem perceber, teve que arrastá-lo com muita força. Estava demasiado calor e disse-lhe que ou saíam da rua ou derretiam os dois.

06.25.08

além

Posted in Uncategorized at 12:08 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que queria ser escritor. Não sabia se tinha queda ou não, mas era um desejo profundo. Pensou em histórias, formatos, soluções, mas nada de muito especial lhe vinha à cabeça. Falava com amigos, tentando desesperadamente um conselho. Seria melhor escolher romance, ficção, poesia? Literatura infantil, tão na moda, argumentos para tv ou cinema? A dúvida preenchia-lhe todo o tempo em que deveria estar a escrever e isso fascinava-o ao mesmo tempo que o desesperava.
Começou a frequentar tertúlias, convenções e lançamentos literários. Passou muito tempo a estudar capas e a ler os resumos dos best-sellers. Qual seria a solução?
Com a cabeça no ar, saiu para beber um café. Foi atropelado violentamente por um grunho que guiava um Punto cheio de tupperwares, luzes azuis e tecno a bombar. O puto fugiu. Ele ficou à espera da ambulância e olhava em estado de choque para aquilo que tinham sido as suas pernas.
A operação correu mal e ficou sem elas. Ao mesmo tempo, entrou em estado crítico, após ter perdido muito sangue e não haver quantidade suficiente do seu grupo muito específico.
Entrou num coma profundo e a junta médica avisou parentes e amigos para que se preparassem para o pior.
Acordou três anos depois. A primeira coisa que pediu foi caneta e papel.
Começou a descrever todas as imagens com que tinha vivido durante esse tempo, um mundo tão estranho quanto mágico, em que seres diferentes conviviam com os que consideramos normais, em que os animais irracionais eram racionais, em que a natureza tinha formas e cores diferentes das que estamos habituados.
Demorou um ano. Para lhe fazer a vontade, a família enviou o original a uma editora que imediatamente o lançou.
O sucesso foi enorme, os leitores liam sobre a vida que existia para além dela própria, sobre um mundo para além do nosso, sobre tudo para além de qualquer coisa.
O homem, finalmente, sorriu. Fechou os olhos e partiu para casa.

06.23.08

mosca

Posted in Uncategorized at 23:19 by crim3sp3rf3itos

X tem, por vezes, vontade de ser K. Ou W. Ou Z. Ou até, em dias mas estranhos, Y.
Não sabe porquê. É uma vontade, não uma necessidade. Tal e qual aquela vontade que se tem quando se quer ser mosca, esse ser repelente. Porquê? Apenas para estar em lugares sem dar nas vistas. E já agora, porque pedir não custa, vontade de ser outra gente, ter mais experiências, viver outras vidas.
É isso! Há uma forte possibilidade de se conseguir isso… basta pensar nos time-sharings: em vez de trocar apartamentos, trocam-se personagens e vida. Agora podemos ser um piloto de vôos comerciais no Zimbabwe, mais logo o mordomo do Bill Gates, amanhã aquele astronauta russo que está a pedir preservativos na estação espacial, depois voltamos à terra e somos mosca.
Porquê repetir a mosca? Porque era bom ser uma, ou até várias, e estar em tantos espaços diferentes ao mesmo tempo que até dói. Imaginem por um bocadinho… vá, sem medo!
Imaginem escutar, legalmente claro está, as conversas da mafia futebolista e/ou governamental. Imaginem estar na sala dos nossos inimigos. E já agora, dos amigos. Imaginem escutar o telefonema que a nossa amante faz imediatamente para a melhor amiga, logo após nos termos despedido. Imaginem o que os clientes dizem quando fechamos a porta, o que os cozinheiros fazem quando dizemos que a comida não presta, o que a malta dos bares e discotecas riem com as camaras nos WCs. Imaginem.
Ser mosca agora até que não é assim tão mau, pois não?
O problema é elas só viverem 24 horas, pelo que dizem.
Se calhar é sob o peso de tanto segredo…

dlimdlom

Posted in Uncategorized at 17:32 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que andava stressado com inúmeras visitas à casa e a casas, contas e recontas, promoções e descontos, escadas e elevadores, ruas e ruelas, avenidas e praças, vistas e traseiras, parqueamento ou impossibilidade, polibans e banheiras, obras ou não, telefonemas e mensagens, campaínhas e porteiras, vizinhos e comércio, transportes ou jardins, etc e etc.

Num repente esqueceu-se de todas as passwords dos seus sitios netianos, telemovianos e quejandos. Entrou ainda mais em stress por não conseguir responder a emails ou inventar histórias.

Na verdade… isto é mentira. Mas não conseguia arranjar outra desculpa para não ter escrito na altura devida. Só depois de receber umas missivas ameaçadoras de quem lê é que encontrou cinco minutos. 

Dlim dlom! A campainha tocou. São os das seis e meia. Ou meia meia, como se diz do outro lado do Atlântico. E às sete há outros…

06.20.08

frangos

Posted in Uncategorized at 05:19 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que antes de sê-lo já era o carrasco de uma nação.
E avisos não faltaram. Só o mister novo-milionário foi teimoso. Mais uma vez!

06.19.08

anti-virus

Posted in Uncategorized at 09:48 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem viciado em cinema e música, produtos taxados com imposto de luxo e iva no seu máximo. A vida não estava para grandes gastos, mas ele gostava de viver as aventuras dos protagonistas dos filmes e seriados, assim como ouvi-las nas letras e melodias dos variadíssimos artistas que gostava e ia conhecendo. Logicamente, este homem usava a internet para sacar o máximo de “informação”. Quando lhe perguntavam se se sentia bem ao roubar os direitos dos autores, ele respondia sempre da mesma forma: tinha também sido um autor e nunca recebeu os totais direitos a que tinha, enfim, direito.
Até que um dia o drama aconteceu. Os filmes que queria ver traziam virus. As músicas, outra bicharada. O seu computador foi-se abaixo mais que uma vez. Mas ele continuava, mesmo sabendo o grande risco de ser infectado. Ora isso aconteceu por várias vezes até o fartar.
Decidiu ser um vingador! Vestiu uma armadura, armou-se de um cabo de alimentação e fez um upload a si próprio. Demorou tempo a conseguir meter todo o seu corpo na internet, mas uma vez lá chegado, começou a inquirir quem encontrava onde podia conhecer o tal de Virus. A primeira pergunta foi a uma miúda bem gira chamada Wikipedia. Respondeu-lhe que era por ali, depois virava à esquerda e seguia sempre em frente. Logicamente e conhecendo a reputação da Wikipedia faltar à verdade, decidiu-se pela direita. Deu de caras com o Sr. Google, um cota simpático sempre sentado no meio da sua biblioteca virtual e com as mãos agarradas a agendas de contactos e coisas do género. O Sr. Google disse-lhe que não seria muito fácil explicar o caminho por palavras até ao maldoso Virus e aconselhou-o a pedir ajuda ao seu enteado, o puto-maravilha Youtube.
O homem foi até lá, apanhando o comboio rápido na linha Adsl 24 megas, pois a T1 estava fechada para obras de melhoramento. Chegado à porta do Youtube, ainda ficou interessado em olhar para o que uma gentil senhora vendia. Esta tinha vindo da Amazón(ia) e era já uma sua conhecida de tempos idos, quando só havia dvds nos EUA. Ela reconheceu-o e sorriu-lhe um desconto de 20%. Mas o homem estava decidido a encontrar o tal de Virus. Bateu finalmente à porta do Youtube que a abriu numa grande algazarra, cheio de filmes pequeninos que berravam por todo o lado. Ouviu a sua pergunta com atenção e escolheu um filmeco obscuro e quase desconhecido para a maioria dos internautas. Deu-lhe um conselho muito útil que era adquirir um anti-virus original, sem ser sacado das entranhas do seu mundo. Com sorte, conseguiria encontrar o Virus e teria assim uma arma que o ajudaria a vencê-lo.
Depois de ver o caminho, o homem finalmente encontrou a casa do Virus. Era uma porta blindada, com imensas fechaduras e trancas. Vestiu o fato novo que era uma máscara integral de um Panda e tocou à campainha.
A porta abriu-se e num repente o homem foi atingido por inúmeros projécteis, quais balas perfurantes e dolorosas. Era o primeiro ataque do Virus que tentava encontrar um espaço aberto na sua carapaça de panda. O homem aguentou-se firme e ia avançando lentamente e com muito esforço até ao trono do Virus. Depois de uma luta desigual, conseguiu fitá-lo frente a frente, agarrando-o com força pelo pescoço. Só que o Virus mantinha-se forte e manhoso. Era um Virus muito importante que tinha conseguido infectar muitos milhões de computadores.
Lutaram durante todo um dia até que o homem, exausto, começou a perder faculdades e defesas. O Virus estava radiante. Tinha conseguido quebrar o fato Panda e a luta aproximava-se do fim.
Restava uma última hipótese ao homem: carregar no botão de auto-destruição. Perderia toda a sua memória, todos os dados, acontecimentos que tinha registado, todas as músicas, filmes e documentos que eram importantes na sua vida. Mas a explosão seria tão forte que também irradicaria o Virus do mundo.
O botão estava logo ali e com muita dificuldade, aproximou o dedo e tocou-o. Teria ainda força para pressioná-lo?

06.18.08

olhar

Posted in Uncategorized at 01:23 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que é particularmente atento. Observa tudo e todos, apreende factos, acontecimentos, notícias, possibilidades, futuros. Conhece as pessoas, lê-lhes a mente, sabe o que vão fazer a seguir. Chega ao cúmulo de perceber que nas próximas grandes chuvadas, este, aquele e aqueloutro prédio vão sofrer infiltrações por causa dos dejectos e penas dos pombos. Sabe que a gasolina vai mesmo faltar a sério e que os cereais serão o novo crude. Sabe que os taxistas portugueses podem agora optar por comprar um Prius, carro híbrido carote mas ideal para os centros urbanos. Mas sabe também que todos os que compraram uma viatura de serviço têm que esperar cinco anos para fazer menos mal ao ambiente. Sabe truques para pagar metade dos bilhetes, onde ou para onde eles sejam, como fazer comida japonesa ou requintadas entradas para os convivas. Sabe também que os portugueses não serão campeões, a não ser no endividamento público. Sabe que o desgoverno continuará a açoitar a populaça e sabe que o futuro não é aqui.
Este homem sabe muito. Tanto que poderia ser uma extraordinária ajuda para os governantes, qual borda d´água. Só que, como tantos outros, a sua perspicácia, inteligência e noção não valem de nada num país que elege barracal como seus representantes máximos. E um país destes merece o que tem.
E ele merece ter que encontrar um emprego precário, viver com o ordenado mínimo e saber que nunca conseguirá almejar nada mais acima. É o preço por ter saído da fasquia, por ter levantado a cabeça, por não ser medíocre, comparsa ou compadre. Nem que fosse por cinco minutos. Custaram-lhe bem caro esses minutos…

06.17.08

mic

Posted in Uncategorized at 12:00 by crim3sp3rf3itos

Há objectos que, se pudessem, muitas aventuras tinham para relatar. Aventuras, acontecimentos, conhecimentos, segredos, etc. Imagine-se um microfone de palco. Ou de estúdio. Quantas bocas os beijaram, sussuraram, cuspiram e cantaram para eles? Um microfone, de palco, já deu volta ao mundo. Já aumentou as vozes de muita gente catita. Já emocionou e já fez a malta vibrar e gritar nos refrões. Já o de estúdio, aguarda no seu trono quem vem. Agracia-os com uma qualidade exemplar confinado nas suas quatro paredes cheias de truques e materiais caros.
Um microfone dá também voz a quem nunca a teve, como os populares que comentam qualquer coisa para as tvs, ou aspirantes a políticos, também grevistas, polícias e demais.
Infelizmente dá voz a quem pensa que a tem, como magistrados, políticos, governos e desgovernos e, pior, futebolistas e misters.
O que seria do mundo sem microfones? Não haveria mesas de mistura e colunas mais outros aparelhos menos convencionais. As más vozes seriam sempre más vozes. As boas, que cantam sem a sua ajuda, continuariam a cantar ou falar ou dizer.
Mas ainda bem que os há. Imaginem o que eles teriam para nos contar.

06.16.08

maquinetas

Posted in Uncategorized at 14:39 by crim3sp3rf3itos

As memórias permitem-nos viajar no tempo e no espaço. A história deste homem é feita delas, algumas palpáveis, outras sensoriais, ainda outras mais fugazes, quase esquecidas.
Foi para elas que o homem inventou uma máquina do tempo. Não com fins históricos ou científicos, mas apenas com o propósito de reviver essas experiências para poder reguardá-las num canto obscuro da sua própria memória.
A primeira viagem correu bem. Ele apenas se lembrava de tardes soalheiras num sol ameno de Verão com o mar calmo e quente. Teve que andar 20 anos para trás para conseguir reviver essas sensações. Com mais 10 conseguiu saborear novamente iogurtes, gelados e refrigerantes da sua meninice. E a fruta? Tinha sabor e sumo, não apenas água e verniz.
Durante uns tempos compilou o que se ia lembrando, revisitando tudo e mais alguma coisa, até que chegou a hora de poder fazer isso com entes já idos e amigos desaparecidos antes do tempo. Aí teve dúvidas. Era uma possibilidade, um sonho ansiado, mas agora com a viagem ao alcance de um toque num botão, tinha dúvidas se seria a melhor coisa para si. Foram momentos demasiado cruéis para sofrê-los novamente. Decidiu não carregar no botão e continuar o que restava da sua vida.
Guardou, isso sim, todas as suas memórias para quando chegasse o seu dia, as tivesse bem frescas para mostrá-las a quem iria revisitar.
Agora só faltava inventar outra máquina que tornasse isso possível. E meteu mãos à obra.

06.14.08

energia

Posted in Uncategorized at 11:02 by crim3sp3rf3itos

X tem graves dificuldades em escolher café ou chá para um acordar mais rápido para todo um novo dia. O café está-lhe nas entranhas, mas também cria manchas nos dentes. O chá, falando dos bons, é tão saboroso que um litro sabe a pouco. Mas depois o coração fica nervoso com tanta teína.
É sempre um drama que, às vezes, dura mais que cinco minutos. Hoje, enquanto fazia café, fez também chá. Olhou para o pote com liquido castanho escuro e para o pote com liquido amarelado. As cores até que se conjugam, pensou, e pumba, juntou os dois potes num só. O resultado foi estranho. Bebeu uma xícara e percebeu que tinha ingerido uma bomba! Em 20 minutos foi passear o cão a correr, literalmente, fez compras no super, convocou os genes maternos para o almoço, tratou de umas papeladas e, mais importante, pensou. A mistura foi tão revigorante que podia muito bem ser a bebida energética que o mundo (ainda não sabe que) quer.
Juntou uns amigos, deu-lhes a provar e gostou do ar de satisfação. Escolheu um nome, lógico e começou a pensar no logotipo. O “Chafé” tinha passado também para o papel. Com toda uma proposta de lançamento, marketing, distribuição e venda debaixo do braço e no portátil, foi ter com o Nabeiro. Apertaram as mãos em concordância. Também lhe ia dando um treco quando provou a novidade e ficou revitalizado para toda uma nova vida.
Tudo corria bem, muito bem. E alguns analístas já proclamavam o fim da dependência do país em relação à UE e USA e demais. Não temos petroil, mas bolas, temos Chafé!
De repente o governo entra em acção através do Ministério das “financas”. Começaram os entraves, as papeladas, os impostos, as negas, os dramas e as tragédias.
Xá tinha agora duas hipóteses: ou agarrava em tudo e ia para o estrangeiro ou convidava os responsáveis para uma longa maratona de palheta. Decidiu-se por esta e preparou um Chafé especial para os burocratas. As doses foram mais apuradas e os níveis de cafeína e teína quase nefastos para o corpo humano. Avisou os presentes e ofereceu-lhes o produto.
Como era uma borla, todos beberam. E quanto mais bebiam, mais libertavam o país.

06.13.08

aniversários

Posted in Uncategorized at 13:16 by crim3sp3rf3itos

Hoje faz anos que um homem franzino de bigode e óculos nasceu. Hoje faz também anos que um homem anafado, bom cantor de fado e que chamava palerma aos demais, pereceu.
São duas aventuras distintas, muito maiores que a vida. A cidade de Lisboa, na ressaca de mais uma noite de folia, esquece assim os seus heróis.
Lá fora, houve outros bucha e estica. Muito mais famosos. Mesmo depois de mortos.

06.12.08

greve

Posted in Uncategorized at 11:11 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que nunca tinha feito uma greve e que se fartou das greves dos outros. Já não lhe interessava quem tinha razão, pois ele é que saía prejudicado no fim do dia.
Por isso decidiu fazer greve. Não a uma coisa, mas a todas elas.
Primeiro lutou contra os grevistas e associados do transporte de mercadorias. Escolheu a saída de um dos muitos parques onde eles estacionam e atravessou o seu automóvel para não deixar ninguém entrar ou saír. Depois, foi até ao posto de combustível mais próximo, meteu uns litros num jerrycan e, à entrada da bomba, despejou-os numa linha recta, incendiando-os em seguida. Ninguém conseguia entrar e os que lá estavam saíram à pressa. Ouviu as últimas notícias e apressou-se a apanhar um táxi. No fim da viagem, para um supermercado, disse que não pagava a corrida e a confusão instalou-se, com muitos taxistas a virem defender o seu colega contra este acto criminoso. No meio da confusão, esgueirou-se para dentro do supermercado. E aí, para terminar o dia, começou uma greve de fome.
O governo não sabe responder a esta última exigência, mas já lhe disse que não baixava os impostos.

06.10.08

feriado

Posted in Uncategorized at 11:11 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que estava tão agarrado à rotina do dia a dia que ficava completamente perdido nos fins de semana e, pior, feriados.
Por exemplo, no dia de hoje em que conseguiram fazer um três em um (raça + idioma + ultra e alémmar), ele sofria três vezes mais.
O seu café estava fechado, o seu tasco estava fechado, a papelaria fechada estava, o café da tarde idem e a esplanada ibidem.
Confinou-se à sua casa, fechando-se nos seus 50m2 do último andar de um prédio com 100 anos.
Fechou as luzes, deitou-se na cama e esperou que o dia passasse. Jurou mais uma vez que para o ano não seria assim.
Com esse propósito em mente foi-se transformando num guerrilheiro durante o ano que se seguia. Aprendeu a fazer bombas pela internet, descobriu as moradas dos responsáveis políticos pela internet, alugou um carro pela internet, despediu-se enviando um mail pela internet, sacou o dinhero que tinha no banco pela internet, fez um blog onde convidou toda a gente para a sua causa e criou um virus muito potente que seria lançado do seu computador para o mundo no dia 10 de Junho de 2009.
Esperou todo um ano, preparando-se com afinco, fazendo ginástica e mentalizando-se para morrer pela sua causa.
O problema é que, sem emprego, o dinheiro acabou. E a conta de internet foi-lhe cancelada no dia 09 de Junho de 2009.

06.09.08

divergência

Posted in Uncategorized at 11:27 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que gostava de ter opiniões divergentes de todo o mundo. Quando alguém dizia sim, ele dizia não. Quando havia optimismo, ele era pessimista. Quando as pessoas estavam alegres, ele ficava triste. Levou toda a vida assim, não era defeito mas feitio. E já não se importava com nada, excepto quando confrontavam a sua verdade ou posição sobre algum facto ou evento.
Uma das histórias mais engraçadas e que as pessoas que assistiram ainda comentam, foi quando ao acompanhar umas cervejas com caracóis, alguém afirmou que estes seres rastejantes estavam bem temperados. O homem não discutiu o tempero, como todos esperavam, mas sim o facto de serem rastejantes. Não eram e até eram capazes de voar. No meio da gargalhada geral, o homem ficou raivoso e para provar a sua verdade, aproveitou a passada apressada de um empregado de mesa que ia colocar mais uma travessa de caracóis numa mesa do fundo, pregando-lhe uma valente rasteira. A travessa voou e os caracóis também. O homem, triunfante, gritou um urra, mas foi sovado imediatamente pelos outros que ficaram sujos e com queimaduras localizadas.
Já no hospital, negou o tratamento às feridas quando o staff as queria desinfectar.
O problema é que, no meio da zaragata, alguém o pontapeou com força na cabeça. Os médicos poderiam ter descoberto e resolvido o problema a tempo, se ele tivesse deixado.
Agora está numa cadeira de rodas que ele afirma ser um Smart dos novos. As pernas não se movem, mas ele garante que é por causa dos aumentos da gasolina e não tem dinheiro para andar mais. Num destes dias teve uma visita. A pessoa disse-lhe um “olá pai” e ele respondeu que nunca tinha tido filhos. Quando a viu a afastar-se ficou feliz. A sua opinião tinha saído vencedora mais uma vez.

divergência

Posted in Uncategorized at 11:27 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que gostava de ter opiniões divergentes de todo o mundo. Quando alguém dizia sim, ele dizia não. Quando havia optimismo, ele era pessimista. Quando as pessoas estavam alegres, ele ficava triste. Levou toda a vida assim, não era defeito mas feitio. E já não se importava com nada, excepto quando confrontavam a sua verdade ou posição sobre algum facto ou evento.
Uma das histórias mais engraçadas e que as pessoas que assistiram ainda comentam, foi quando ao acompanhar umas cervejas com caracóis, alguém afirmou que estes seres rastejantes estavam bem temperados. O homem não discutiu o tempero, como todos esperavam, mas sim o facto de serem rastejantes. Não eram e até eram capazes de voar. No meio da gargalhada geral, o homem ficou raivoso e para provar a sua verdade, aproveitou a passada apressada de um empregado de mesa que ia colocar mais uma travessa de caracóis numa mesa do fundo, pregando-lhe uma valente rasteira. A travessa voou e os caracóis também. O homem, triunfante, gritou um urra, mas foi sovado imediatamente pelos outros que ficaram sujos e com queimaduras localizadas.
Já no hospital, negou o tratamento às feridas quando o staff as queria desinfectar.
O problema é que, no meio da zaragata, alguém o pontapeou com força na cabeça. Os médicos poderiam ter descoberto e resolvido o problema a tempo, se ele tivesse deixado.
Agora está numa cadeira de rodas que ele afirma ser um Smart dos novos. As pernas não se movem, mas ele garante que é por causa dos aumentos da gasolina e não tem dinheiro para andar mais. Num destes dias teve uma visita. A pessoa disse-lhe um “olá pai” e ele respondeu que nunca tinha tido filhos. Quando a viu a afastar-se ficou feliz. A sua opinião tinha saído vencedora mais uma vez.

06.07.08

Posted in Uncategorized at 16:48 by crim3sp3rf3itos

Num dia em que o computador de X está a ser fortemente atacado por um virus meio amalucado, assim como pcs de outros amigos que se debatem com esta virulenta tragédia, começou o €.
Ora o € é amado e odiado, filtrado e esquecido, vivido e desmentido. X não gosta do Scolari desde que este perdeu o €04 e o Mundial 06. A culpa é dele. Os 30.000€ mensais também. X também não gosta do Ricardo. Não sai bem à bola, tem um problema na vista e tropeça nele próprio.
Mas pronto, X prepara-se para ver o Pt vs Tk. Convém dizer que X adorou uma cidade desse país e as suas gentes…
Mas vamos ao que interessa. A aventura de hoje passou-se em Lisboa. Estava uma tia muito tia a fazer compras numa loja chinesa, o que já é engraçado, quando estamos a tentar dizer aos proprietários que os cachecóis de 2006 já eram. A tia começou a resmungar contra o €, que não se percebe, que o país precisa de outros interesses para além do santo futebol, que é um crime putos das barracas ganharem tanto dinheiro, que é uma vergonha e escândalo nacional as notícias só darem €, etc e etc e etc e etc.
Depois de toda a lengalenga e para concluír, rematou:
“Bom, de qualquer forma, pendurei uma bandeira na janela e outra no carro, pois nunca se sabe o que pode acontecer”.

Vivó Portugáu, vivó Figo e o Rui Costa, vivó Pauleta e Sérgio Conceição, o Gomes, o pai do amaricado Veloso e o Humberto Coelho.
Que ganhe o melhor! Obviamente nós.

Posted in Uncategorized at 16:48 by crim3sp3rf3itos

Num dia em que o computador de X está a ser fortemente atacado por um virus meio amalucado, assim como pcs de outros amigos que se debatem com esta virulenta tragédia, começou o €.
Ora o € é amado e odiado, filtrado e esquecido, vivido e desmentido. X não gosta do Scolari desde que este perdeu o €04 e o Mundial 06. A culpa é dele. Os 30.000€ mensais também. X também não gosta do Ricardo. Não sai bem à bola, tem um problema na vista e tropeça nele próprio.
Mas pronto, X prepara-se para ver o Pt vs Tk. Convém dizer que X adorou uma cidade desse país e as suas gentes…
Mas vamos ao que interessa. A aventura de hoje passou-se em Lisboa. Estava uma tia muito tia a fazer compras numa loja chinesa, o que já é engraçado, quando estamos a tentar dizer aos proprietários que os cachecóis de 2006 já eram. A tia começou a resmungar contra o €, que não se percebe, que o país precisa de outros interesses para além do santo futebol, que é um crime putos das barracas ganharem tanto dinheiro, que é uma vergonha e escândalo nacional as notícias só darem €, etc e etc e etc e etc.
Depois de toda a lengalenga e para concluír, rematou:
“Bom, de qualquer forma, pendurei uma bandeira na janela e outra no carro, pois nunca se sabe o que pode acontecer”.

Vivó Portugáu, vivó Figo e o Rui Costa, vivó Pauleta e Sérgio Conceição, o Gomes, o pai do amaricado Veloso e o Humberto Coelho.
Que ganhe o melhor! Obviamente nós.

06.06.08

acordes

Posted in Uncategorized at 11:34 by crim3sp3rf3itos

X anda a bisbliotar algumas zonas de Lx para escolher a sua futura casa. Tem sido uma aventura das antigas… Ou a casa é muito bonita mas fica num terceiro sem elevador ou num bairro que não permite estacionamento automóvel ou precisa de obras ou fica ao pé de um hospital ou é um R/C muito baixo ou e ou e ou.
De qualquer forma, estão umas quantas debaixo de olho. Uma delas fica ao pé de uma super-esquadra o que também não é garante de aumento de segurança. Mas hoje, X reparou numa coisa extraordinária: ao lado dos polícias fica um antigo vidrão, daqueles onde a malta podia depositar tudo e todos. Ora hoje, pela hora de almoço, todos os trabalhadores camarários desse espaço estavam reunidos debaixo das árvores que ficam à porta. Um deles tocava acordeão. Não era um arraial popular, era um homem que tocava acordeão. O que mais fascinou X foi a originalidade de toda a situação. E, de repente, a tal casa que fica aí vizinha passou a ser ainda mais apetecida. A segurança pode ser teórica, mas pelo menos há música.

acordes

Posted in Uncategorized at 11:34 by crim3sp3rf3itos

X anda a bisbliotar algumas zonas de Lx para escolher a sua futura casa. Tem sido uma aventura das antigas… Ou a casa é muito bonita mas fica num terceiro sem elevador ou num bairro que não permite estacionamento automóvel ou precisa de obras ou fica ao pé de um hospital ou é um R/C muito baixo ou e ou e ou.
De qualquer forma, estão umas quantas debaixo de olho. Uma delas fica ao pé de uma super-esquadra o que também não é garante de aumento de segurança. Mas hoje, X reparou numa coisa extraordinária: ao lado dos polícias fica um antigo vidrão, daqueles onde a malta podia depositar tudo e todos. Ora hoje, pela hora de almoço, todos os trabalhadores camarários desse espaço estavam reunidos debaixo das árvores que ficam à porta. Um deles tocava acordeão. Não era um arraial popular, era um homem que tocava acordeão. O que mais fascinou X foi a originalidade de toda a situação. E, de repente, a tal casa que fica aí vizinha passou a ser ainda mais apetecida. A segurança pode ser teórica, mas pelo menos há música.

06.05.08

casa

Posted in Uncategorized at 10:47 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que viveu uma aventura quando mudou de casa. Tinha x dinheiro e pediu a uma vendedora que lhe comprasse um Tê qualquer, com vista desafogada e, caso fosse um andar alto, elevador. Não lhe interessava saber mais nada. Queria entrar na nova casa como se fosse um estranho. Queria conhecê-la como virgem, descobrir os seus recantos mais íntimos, os seus esconderijos mais úteis. Ao fim e ao cabo, pensou na nova casa como se fosse uma mulher e este seria o seu primeiro blind date.
A vendedora achou o pedido estranho. Afinal, tratava-se da compra de um bem muito caro, mas assumiu a responsabilidade e fez o seu melhor.
Passados uns meses, foi marcada a escritura e depois desta, passou-lhe as chaves para a mão, com um papelinho onde estava descrita a morada e algumas curiosidades sobre a vizinhança.
O homem estava entusiasmado. Olhou para as chaves e apertou-as com força. Não reconheceu a morada. Nunca tinha ouvido falar da rua e chamou um táxi.
A rua era estreita, numa das colinas de Lisboa, o que não lhe agradou à partida. Mas o prédio nº5 estava em boas condições, recentemente limpo e pintado. As escadas interiores tinham sido recuperadas e o verniz brilhava como se fossem novas. Subiu até ao primero andar e viu que a porta era das antigas, com aquela pequenita janelita com gradeamento que dá para espreitar quem lhe toca. Meteu a chave e abriu-a.
A primeira sensação foi estranha. Não estava à espera de uma sala tão grande, com um pé direito fenomenal e tecto trabalhado. Duas portadas deixavam entrar a luz quente do final de uma tarde de Verão. Aproximou-se delas e olhou longamente para as janelas dos seus vizinhos.
Há uma coisa interessante sobre os vizinhos. A maior parte dos inquilinos pensa que os seus vizinhos são quem mora no mesmo prédio, porta com porta, degrau a degrau, mas essa é a maior mentira das cidades. Os vizinhos reais são aqueles que habitam o prédio em frente do nosso, cuja janela lhes abre a vida para a vermos e vivermos. Ou então, os que habitam os prédios das traseiras, cujas varandas ou marquises mostram a roupa que foi lavada ou o que se come na cozinha. O homem estudou ambos os lados. A vista desafogada que pediu ficava atrás, onde se via o majestoso panteão e parte do rio. Não estava muito mal.
Passou umas horas a vaguear pelos quartos e cozinha. A casa de banho tinha hidromassagem e a arrecadação dava para guardar muitas mercearias.
O homem ficou contente e telefonou à vendedora para lhe agradecer. Combinou que, passadas umas semanas, teria todo o gosto em lhe oferecer um jantar na sua nova habitação.
Ela respondeu afirmativamente e quando o dia chegou, apareceu bonita e com um sorriso rasgado. Afinal, tinha escolhido a casa para ela e agora só ansiava que o homem abrisse, não somente a porta, mas também o coração.

casa

Posted in Uncategorized at 10:47 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que viveu uma aventura quando mudou de casa. Tinha x dinheiro e pediu a uma vendedora que lhe comprasse um Tê qualquer, com vista desafogada e, caso fosse um andar alto, elevador. Não lhe interessava saber mais nada. Queria entrar na nova casa como se fosse um estranho. Queria conhecê-la como virgem, descobrir os seus recantos mais íntimos, os seus esconderijos mais úteis. Ao fim e ao cabo, pensou na nova casa como se fosse uma mulher e este seria o seu primeiro blind date.
A vendedora achou o pedido estranho. Afinal, tratava-se da compra de um bem muito caro, mas assumiu a responsabilidade e fez o seu melhor.
Passados uns meses, foi marcada a escritura e depois desta, passou-lhe as chaves para a mão, com um papelinho onde estava descrita a morada e algumas curiosidades sobre a vizinhança.
O homem estava entusiasmado. Olhou para as chaves e apertou-as com força. Não reconheceu a morada. Nunca tinha ouvido falar da rua e chamou um táxi.
A rua era estreita, numa das colinas de Lisboa, o que não lhe agradou à partida. Mas o prédio nº5 estava em boas condições, recentemente limpo e pintado. As escadas interiores tinham sido recuperadas e o verniz brilhava como se fossem novas. Subiu até ao primero andar e viu que a porta era das antigas, com aquela pequenita janelita com gradeamento que dá para espreitar quem lhe toca. Meteu a chave e abriu-a.
A primeira sensação foi estranha. Não estava à espera de uma sala tão grande, com um pé direito fenomenal e tecto trabalhado. Duas portadas deixavam entrar a luz quente do final de uma tarde de Verão. Aproximou-se delas e olhou longamente para as janelas dos seus vizinhos.
Há uma coisa interessante sobre os vizinhos. A maior parte dos inquilinos pensa que os seus vizinhos são quem mora no mesmo prédio, porta com porta, degrau a degrau, mas essa é a maior mentira das cidades. Os vizinhos reais são aqueles que habitam o prédio em frente do nosso, cuja janela lhes abre a vida para a vermos e vivermos. Ou então, os que habitam os prédios das traseiras, cujas varandas ou marquises mostram a roupa que foi lavada ou o que se come na cozinha. O homem estudou ambos os lados. A vista desafogada que pediu ficava atrás, onde se via o majestoso panteão e parte do rio. Não estava muito mal.
Passou umas horas a vaguear pelos quartos e cozinha. A casa de banho tinha hidromassagem e a arrecadação dava para guardar muitas mercearias.
O homem ficou contente e telefonou à vendedora para lhe agradecer. Combinou que, passadas umas semanas, teria todo o gosto em lhe oferecer um jantar na sua nova habitação.
Ela respondeu afirmativamente e quando o dia chegou, apareceu bonita e com um sorriso rasgado. Afinal, tinha escolhido a casa para ela e agora só ansiava que o homem abrisse, não somente a porta, mas também o coração.

06.04.08

pianola

Posted in Uncategorized at 03:07 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que recebeu um cd que dizia na capa Eric Satie. Este homem, dedicado a eventos culturais, nunca tinha entendido a grandiosidade explícita numa melodia de poucas notas, de tempos e espaços, de sonhos pacíficos que tocavam a paz.
Este homem, que já fazia tudo, percebeu que nada tinha feito. Ficou angustiado e revoltado com esta noção. Às pessoas que apresentava o cd, poucas percebiam o seu temor, o desespero por encontrar algo tão simples quanto mágico. Para o homem, a vida era mais complicada, mais estreita, rápida, dolorosa, torta. Um simples cd com um obra de piano não podia complicar-lhe a vida. Muito menos com tanta simplicidade.
O homem, desesperado, recorreu a X, amigo de infância, questionando-o se conhecia tal obra.
X respondeu afirmativamente e, pior, que era das coisas que mais ouvia enquanto escrevia umas larachas na internet. O homem não entendeu. Vociferou, protestou, gritou aos céus e aos deuses, até que perdeu as forças de tanto esforço.
Deu entrada no hospital mais próximo, ciente que o seu coração precisava de ajuda.
E não se enganou. Pouco tempo lhe restava a não ser que fosse sujeito a uma intervenção, não divina, mas crucial. Assinou os papéis e contou 10, nove e oito.
Os médicos que lhe iriam dar um novo coração colocaram um cd de Eric Satie na aparelhagem.

06.03.08

velho

Posted in Uncategorized at 17:26 by crim3sp3rf3itos

Esta é a história dramática de um homem casado. Já tinham passado 25 anos desse dia inesquecível em que alguns amigos e amigas foram vistos pela última vez.
O homem viveu mais ou menos infeliz durante este quarto de século e ainda guardava alguns presentes que lhe tinham sido oferecidos pela boda. Um deles era uma garrafa de whisky velho que ele prometeu abrir para brindar ao seu primeiro filho… que nunca chegou a nascer. A garrafa permanecia no bar da sala, daqueles de canto tipo saloon com espelhos e luzes embutidas. A garrafa estava ao centro, bem à vista e era sempre para ela que o homem olhava quando chegava cansado e descontente do mau emprego que tinha exactamente há 25 anos.
Num desses dias mais tristonhos, ficou a admirar a garrafa. A sua mulher, já desgastada pelo tempo e pela vida, passou por ele e mais uma vez exclamou qualquer coisa entre dentes tipo “ou a bebes ou a deitas fora”.
Só que nesse dia o homem não estava pelos ajustes. Olhava para o whisky cada vez mais velho e, portanto, melhor e depois comparava-o com o corpo da sua mulher cada vez mais velho e, portanto, pior.
Decidiu-se aos 25 minutos depois das oito da noite. Foi à cozinha, agarrou na faca do peixe, encontrou a sua mulher na casa de banho e matou-a. Depois, aliviado, foi até ao bar e abriu finalmente a garrafa. Bebeu o primeiro copo que lhe soube como a vida. Bebeu o segundo. Um terceiro. E quando chegou ao fim da garrafa telefonou à policia.

06.02.08

desventurado

Posted in Uncategorized at 17:18 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que não tinha tido uma única aventura na vida. Faltava-lhe isso para se sentir em paz consigo próprio e, acima de tudo, mais realizado.
Tudo na sua vida era estudado, cerebral, coerente, sem espaço para uma pequenita loucura. Não viajava porque tinha receio de perder as malas e enfrentar o desconhecido. Não se aventurava emocionalmente porque tinha medo do términus dessa relação. Não comprava nada em segunda mão, porque tinha medo que os artigos estivessem com defeito.
Enfim, não se dava ao trabalho de ter trabalho e isso porque tinha medo de ficar sem trabalho.
Levou toda uma vida assim. Nunca leu as Aventuras dos 5, dos 7 ou das Gémeas.
Fugia a sete pés de ter que escolher. Ou enfrentar. Até que se dedicou a um sonho: o de escrever tudo o que não vivia, de descrever tudo o que queria ver, de mostrar tudo o que queria sentir.
Tornou-se, num ápice, um sucesso de vendas.
Afinal, havia muita gente igual a ele que só esperava que alguém se aventurasse a mostrar a própria desventura.