05.31.08
riscos
X hoje chegou ao carro já muito riscado pela mesma pessoa e deparou-se com dois novos brindes: uma suástica em cada porta do lado direito. Bom, para dizer a verdade, não é uma suástica nazi, pois está ao contrário, o que quer dizer que quem as desenhou ou é mesmo muito burra ou sabe muito de ícones históricos. Chegado a casa depois de observar atentamente a “calígrafia”, decidiu montar uma camara minúscula no interior do carro com a ajuda preciosa de L, um seu amigo da PJ. A queixa também foi formulada e há agora um veículo e uma identidade a serem seguidos com grande atenção. Mas o mais interessante e relevante deste acontecimento é a escolha de um ícone, partindo do princípio que seria o fascista, para desenhar no veículo automóvel de X. Afinal, X é racista? Tem um forno em casa? Rouba dentes de ouro? Não se compreende.
A não ser que… seja um aviso!
Talvez seja isso… um aviso. Será que este carro tem malapata? Será que no futuro entrará em derrapagem num aquaplanning? Será que o motor deixará de funcionar aos 50.000? Será que não é o carro ideal para X?
Ora depois de muito pensar, chega-se a uma conclusão fácil: quem o risca é vidente e protectora. Tem é vergonha de dar o aviso olhos nos olhos.
Enfim, ele há gentalha que deveria estar internada, em vez de internar outros.
Caro L, a batata agora é toda tua.
05.30.08
dor
Esta é a aventura de um homem que sofria de enxaquecas. As dores eram tantas que lhe provocavam desde náuseas à vontade de terminar com tudo. Não conseguia trabalhar, pois elas atacavam-no sem aviso, dó ou piedade. Não conseguia manter um relacionamento estável, porque as mulheres não acreditavam quando ele se desculpava com uma dor de cabeça. Não conseguia ver um filme inteiro, ouvir um disco do princípio ao fim. Resumindo, as dores eram tão fortes que ele até via estrelas.
Foi ao ler uma reportagem sobre as viagens ao espaço abertas a clientes muito endinheirados que decidiu, já que “via estrelas”, vê-las realmente.
Vendeu todos os seus pertences, que eram alguns, pediu dinheiro emprestado ao banco, reuniu uma quantia elevada de dinheiro. E comprou aos russos a sua viagem ao espaço.
Sentia-se muito nervoso antes da partida, sentado quase de pernas para o ar e dentro de um fato que não o deixava movimentar-se. Mas, depois de todo o barulho e forças Gs do arranque do foguetão, a enxaqueca que o dominava começou a atenuar-se. Depois passou a uma ligeira dor de cabeça. E quando entrou em órbita deixou de sentir qualquer dor.
Ficou radiante!
Momentos antes do regresso, pediu aos seus colegas de vôo que o deixassem ir lá fora, para sentir de perto as estrelas. E a vida.
Assim o fizeram mal sabendo que a ideia era outra. O homem fechou a porta atrás de si e rebentou com o mecanismo. Era impossível conseguir metê-lo novamente dentro da nave.
O homem sabia disso e, à janela, sorriu e despediu-se com um adeus.
Transbordava felicidade e olhou para o seu planeta, cada vez mais distante.
A dor, essa, nunca mais surgiu.
dor
Esta é a aventura de um homem que sofria de enxaquecas. As dores eram tantas que lhe provocavam desde náuseas à vontade de terminar com tudo. Não conseguia trabalhar, pois elas atacavam-no sem aviso, dó ou piedade. Não conseguia manter um relacionamento estável, porque as mulheres não acreditavam quando ele se desculpava com uma dor de cabeça. Não conseguia ver um filme inteiro, ouvir um disco do princípio ao fim. Resumindo, as dores eram tão fortes que ele até via estrelas.
Foi ao ler uma reportagem sobre as viagens ao espaço abertas a clientes muito endinheirados que decidiu, já que “via estrelas”, vê-las realmente.
Vendeu todos os seus pertences, que eram alguns, pediu dinheiro emprestado ao banco, reuniu uma quantia elevada de dinheiro. E comprou aos russos a sua viagem ao espaço.
Sentia-se muito nervoso antes da partida, sentado quase de pernas para o ar e dentro de um fato que não o deixava movimentar-se. Mas, depois de todo o barulho e forças Gs do arranque do foguetão, a enxaqueca que o dominava começou a atenuar-se. Depois passou a uma ligeira dor de cabeça. E quando entrou em órbita deixou de sentir qualquer dor.
Ficou radiante!
Momentos antes do regresso, pediu aos seus colegas de vôo que o deixassem ir lá fora, para sentir de perto as estrelas. E a vida.
Assim o fizeram mal sabendo que a ideia era outra. O homem fechou a porta atrás de si e rebentou com o mecanismo. Era impossível conseguir metê-lo novamente dentro da nave.
O homem sabia disso e, à janela, sorriu e despediu-se com um adeus.
Transbordava felicidade e olhou para o seu planeta, cada vez mais distante.
A dor, essa, nunca mais surgiu.
05.29.08
passarinhos
X não gosta muito de passarinhos. Só se forem fritos ou estiverem bem longe ou alto. Os únicos bichos voadores que aprecia são os caça-bombardeiros da série F e, depois, as águias, os falcões e os mochos, por esta ordem. Ok, X confessa que acha piada a um beija-flor e até aos picapaus, mas não há assim mais nada que o entusiasme.
A não ser quando ouve um passarinho dentro de um corpo de uma mulher que canta tão bem que encanta tal e qual como um bonito chilrrear madrugador.
E mais, imaginem a sorte que X teve quando mesmo ao seu lado estava outro passarinho que também cantava. Olhando em frente e semicerrando os olhos, as duas vozes entravam em sintonia perfeita e entoavam notas preciosas, puras, gentis e melódicas.
Foi daqueles momentos numa vida.
Obrigado M, obrigado R.
05.28.08
êxodos
Esta é a aventura de um homem citadino, ultra-urbano e que sempre viveu no meio da confusão, ruído, vivência social, oferta em escala e tudo o mais.
Um dia, acordou como em todos os outros dias e sentiu uma enorme vontade de mudança. Vendeu a casa, agarrou nas malas e viajou pelo interior. Chegou a uma terra bonita, pequena e arrumada, limpa e arejada e gostou de ser cumprimentado por todos os locais.
Primeiro deu uma volta. Depois, a pé, caminhou por entre as ruas até que descobriu o seu novo lar. Não houve intermediários e o dono até lhe facilitava a vida com um “quando quiser paga!”.
Entusiasmado, trouxe os móveis, os tarecos e as suas tecnologias para esta enorme casa, um t3 com jardim, cuja sala tinha 80m2, lareira e um curioso desnível, com dois degraus, para a perfeita colocação de sofás para longas tertúlias e bons filmes.
Os primeiros tempos foram ricos em aventuras, primeiro em longos passeios, depois no convívio com as gentes da terra, o encontro de fornecedores de legumes, pão fresco, leite e tudo o que fosse necessário, duas ou três raparigas interessantes, esse tipo de coisas. A internet facilitava-lhe o trabalho e evitava deslocações à capital. Poupava dinheiro, tudo era mais barato e de melhor qualidade. Claro que não existiam as lojas e os produtos que ele tanto gostava, mas também pouco se ralava com isso.
O tempo foi passando e a sua diferença para os demais começava a fazer-se notar. Já não era a novidade e já nada era novidade para ele. O silêncio começava a adormecê-lo. A pacatez da vila também. Os bares eram estranhos e a música que passava nas discotecas ia do mau tecno à maior saloidada e pimbalhada.
A solidão, por fim, surgiu. Os amigos já não apareciam aos fins de semana como antigamente, pois tinham a sua vida. A falta de tertúlias, gargalhadas e jantaradas com pessoas da mesma vivência e memórias causava mossa.
E foi antes do desespero que o homem decidiu jogar a vida na sorte. Comprou uma taluda e, por incrível que pareça, deu-se bem, ganhando um milhão de euros.
Com essa quantia, comprou 25 casas ao pé da sua. Equipou-as com as últimas tecnologias, decorou-as com extremo bom gosto e, depois de tudo, foi à sua cidade falar com os amigos e amigas que já não via há uns tempos.
A proposta era irrecusável e muitos mudaram-se para a vila. Como eram boas pessoas, foram bem acolhidos pela população local e todo um novo reboliço transformou a outrora pacata vila num centro de lazer, artes, cultura, tertúlias, comércio e indústria. A vida mudou e os ex-urbanos estavam felizes. O homem nunca mais esteve sózinho e o seu caso foi estudado por jornalistas, a sua vida documentada no canal Bio e em livros sobre personalidades de sucesso.
O problema foi quando o homem percebeu que as gentes da vila, fartas de tanta coisa nova, começaram a ir embora, abandonando a sua terra e os seus afazeres.
Muitos deles foram mesmo para as cidades, também desertas devido ao enorme êxodo dos seus habitantes para vilas no interior, em busca do segredo para a felicidade que o homem tinha encontrado anos antes.
Só que ninguém estava verdadeiramente feliz e o governo viu-se obrigado a combinar um grande debate entre as duas partes. O objectivo era trazer de volta as gentes para as suas terras e culturas. Todos apareceram.
05.27.08
xeque-mate
Esta é a aventura de um homem que se tornou numa peça de xadrez. Como, não interessa. Só se sabe que, num dia, acordou num corpo de madeira de um peão. Ficou, logicamente, atarantado, mas quando olhou para trás, viu uma rainha de porte altivo, bonita e muito elegante. Apaixonou-se de imediato, o que era facilitado pelo facto de só haver uma mulher para tanto homem. E isso sem contar com a outra rainha, inimiga, má e que só queria conquistar o reino que neste momento era o dele.
De jogo em jogo, ou batalha em batalha, o homem era sempre dos primeiros a ser sacrificado e começou a desejar um lugar mais alto na hierarquia, que lhe desse direito a um cavalo e a dormir numa das torres. Nesses momentos, via um dos bispos a passar-lhe à frente sempre com grande velocidade. Um outro peão tinha-lhe dito que era através do clero que ele conseguiria um favor e a partir daí desesperou por um encontro.
Foi-lhe difícil apanhar o bispo, mas quando o conseguiu falou-lhe da sua anterior condição como homem. O bispo percebeu que poderia ter nele um aliado contra a nobreza e passou-lhe o título de cavalo.
O homem agora tinha mais poder e acesso às torres. Algum tempo depois, já o rei e a rainha contavam com a sua valentia para guarda pessoal. E foi aí que ele conseguiu, finalmente, conhecer a gentil criatura. Percebeu logo depois que havia um enorme obstáculo, chamado… rei.
Decidiu conversar com o bispo. Este confidenciou-lhe que o rei era um fulano lento, que só andava de casa em casa. Mas era matreiro e difícil de apanhar. Para tirá-lo do tabuleiro, precisaria da ajuda do adversário, principalmente da rainha má.
O homem estudou todas as possibilidades. Era-lhe difícil atraiçoar os seus, mas a paixão falava mais alto. Até que aconteceu outro jogo, outra batalha. O adversário estava muito forte, desta vez. Dizia-se que havia uma força russa por trás, mais sapiente e mais aguerrida. Um a um, todos os soldados de ambos os lados eram removidos do tabuleiro. Até que restou ele, o seu rei e rainha e a rainha má com as suas duas torres.
Durou muito tempo o xeque ao seu rei. As duas torres más deram a vida por isso e a rainha má estava em condições de terminar a batalha. Foi aí que o homem percebeu que essa rainha era tão ou mais bonita que a sua. E a dúvida instalou-se: quem ajudar? A sua que ficaria com o seu rei, ou a má que ficaria com ele?
Ainda hoje o tabuleiro está na mesma.
xeque-mate
Esta é a aventura de um homem que se tornou numa peça de xadrez. Como, não interessa. Só se sabe que, num dia, acordou num corpo de madeira de um peão. Ficou, logicamente, atarantado, mas quando olhou para trás, viu uma rainha de porte altivo, bonita e muito elegante. Apaixonou-se de imediato, o que era facilitado pelo facto de só haver uma mulher para tanto homem. E isso sem contar com a outra rainha, inimiga, má e que só queria conquistar o reino que neste momento era o dele.
De jogo em jogo, ou batalha em batalha, o homem era sempre dos primeiros a ser sacrificado e começou a desejar um lugar mais alto na hierarquia, que lhe desse direito a um cavalo e a dormir numa das torres. Nesses momentos, via um dos bispos a passar-lhe à frente sempre com grande velocidade. Um outro peão tinha-lhe dito que era através do clero que ele conseguiria um favor e a partir daí desesperou por um encontro.
Foi-lhe difícil apanhar o bispo, mas quando o conseguiu falou-lhe da sua anterior condição como homem. O bispo percebeu que poderia ter nele um aliado contra a nobreza e passou-lhe o título de cavalo.
O homem agora tinha mais poder e acesso às torres. Algum tempo depois, já o rei e a rainha contavam com a sua valentia para guarda pessoal. E foi aí que ele conseguiu, finalmente, conhecer a gentil criatura. Percebeu logo depois que havia um enorme obstáculo, chamado… rei.
Decidiu conversar com o bispo. Este confidenciou-lhe que o rei era um fulano lento, que só andava de casa em casa. Mas era matreiro e difícil de apanhar. Para tirá-lo do tabuleiro, precisaria da ajuda do adversário, principalmente da rainha má.
O homem estudou todas as possibilidades. Era-lhe difícil atraiçoar os seus, mas a paixão falava mais alto. Até que aconteceu outro jogo, outra batalha. O adversário estava muito forte, desta vez. Dizia-se que havia uma força russa por trás, mais sapiente e mais aguerrida. Um a um, todos os soldados de ambos os lados eram removidos do tabuleiro. Até que restou ele, o seu rei e rainha e a rainha má com as suas duas torres.
Durou muito tempo o xeque ao seu rei. As duas torres más deram a vida por isso e a rainha má estava em condições de terminar a batalha. Foi aí que o homem percebeu que essa rainha era tão ou mais bonita que a sua. E a dúvida instalou-se: quem ajudar? A sua que ficaria com o seu rei, ou a má que ficaria com ele?
Ainda hoje o tabuleiro está na mesma.
05.25.08
gerações
Esta é a aventura de um homem muito rico, hiper-milionário que, como tantos outros, padeceu de uma doença prolongada e grave que o transformou por completo e acabou mesmo por matá-lo.
Este homem, consciente e com a noção do que iria acontecer, tinha feito um pedido: congelar o seu corpo para quando, num futuro próximo, houvesse cura para a sua doença.
Tal veio a acontecer dois séculos depois. Tinham acontecido duas guerras mundiais, a primeira delas global e com os computadores a funcionar, a segunda local e com armas rudimentares.
Mas o seu corpo tinha sido guardado num bunker ultra-secreto, onde aguardavam outros 5877438 corpos (todos eles ex ultra-milionários), até que a própria natureza se encarregou de mostrar qual era a cura: apenas sol, bom ambiente e pouca humidade.
Os descendentes dos cientistas sobreviventes aos holocaustos tinham por missão salvaguardar estes corpos e fazer os impossíveis para os recuperar para a vida. Esta situação, naturalmente, era facilitada por estarem presos e confinados neste espaço a 700 metros do solo.
Quando o homem recuperou a vida, e com ela a memória e a dignidade, quis subir lá acima, quis ver o mundo actual, mesmo depois de ter sido informado que tal poderia não existir.
O problema era que, como os cientistas, também ele estava preso na sua dourada prisão. E nenhum dinheiro, acções, ouro, diamantes, zinco, oxigénio, água potável e pilhas recarregáveis lhe valeram.
A sua fortuna era inconsequente e inútil. Perguntou depois aos cientistas porque carga de água é que tinha sido curado e acordado para esta miséria. E todos o olharam com pena.
gerações
Esta é a aventura de um homem muito rico, hiper-milionário que, como tantos outros, padeceu de uma doença prolongada e grave que o transformou por completo e acabou mesmo por matá-lo.
Este homem, consciente e com a noção do que iria acontecer, tinha feito um pedido: congelar o seu corpo para quando, num futuro próximo, houvesse cura para a sua doença.
Tal veio a acontecer dois séculos depois. Tinham acontecido duas guerras mundiais, a primeira delas global e com os computadores a funcionar, a segunda local e com armas rudimentares.
Mas o seu corpo tinha sido guardado num bunker ultra-secreto, onde aguardavam outros 5877438 corpos (todos eles ex ultra-milionários), até que a própria natureza se encarregou de mostrar qual era a cura: apenas sol, bom ambiente e pouca humidade.
Os descendentes dos cientistas sobreviventes aos holocaustos tinham por missão salvaguardar estes corpos e fazer os impossíveis para os recuperar para a vida. Esta situação, naturalmente, era facilitada por estarem presos e confinados neste espaço a 700 metros do solo.
Quando o homem recuperou a vida, e com ela a memória e a dignidade, quis subir lá acima, quis ver o mundo actual, mesmo depois de ter sido informado que tal poderia não existir.
O problema era que, como os cientistas, também ele estava preso na sua dourada prisão. E nenhum dinheiro, acções, ouro, diamantes, zinco, oxigénio, água potável e pilhas recarregáveis lhe valeram.
A sua fortuna era inconsequente e inútil. Perguntou depois aos cientistas porque carga de água é que tinha sido curado e acordado para esta miséria. E todos o olharam com pena.
05.23.08
Fidelidade
Esta é a aventura de um homem solitário que encontrou no seu cão o fiel e mais corajoso amigo do mundo. Chegou a divorciar-se da mulher ao fim de uns anos de razoável união, devido a ela não gostar do seu Kaiser. Este pastor alemão de porte altivo e inteligência acima da média de alguma população, acompanhava-o para todo o lado. Ficava à porta do emprego até que ele saísse, ia à banca de revistas buscar o jornal matinal, garantia-lhe protecção na rua e em casa e, acima de tudo, estava sempre contente por ter o dono ali a seu lado.
O Kaiser fez mesmo um esforço sobre-canino para que a ex-dona gostasse dele, dando-se bem com o velho gato que ela trouxe para casa e com o piriquito que nunca se calava. Mas tal não foi suficiente e o canino arranjou uma depressão, à imagem do seu dono.
Ficaram mais ou menos felizes quando ela se foi embora, mais ou menos contentes com a companhia um do outro, mais ou menos satisfeitos por viverem novamente com calma e silêncio.
Mas algo faltava nesta vida. E esse algo era, novamente, a companhia feminina.
Juraram um ao outro encontrar a resposta ao mesmo tempo, indo passear para a expo ou visitar feiras caninas e outros acontecimentos do género. Inscreveram-se em clubes, iam a passeios organizados, participaram em festas. Mas nada surgia ou acontecia.
O tempo ia passando, eles iam ficando menos jovens. O Kaiser começava a denotar alguns problemas de saúde, até que adoeceu.
O seu dono nunca mais foi o mesmo, tentou por tudo curá-lo gastando o dinheiro que não tinha.
Já quase no fim da linha, o Kaiser mostrou que queria ir à rua por uma última vez. Estava, inclusivé, muito obcecado com isso. Já lá fora, apontou o nariz para um jardim e levou o seu dono até lá.
Nesse jardim estava uma senhora com uma cadela velhota. Kaiser foi sentar-se ao pé dela e os dois cães ficaram juntos a tarde toda, enquanto observavam os seus donos a interagir.
Trocaram telefones e regressaram a casa. Passados uns dias, a senhora telefonou dizendo que a sua cadela tinha morrido. Os dois juntaram-se a ela e o Kaiser, depois de um longo olhar para o seu dono, fechou também os olhos. Tinha encontrado o novo amor da vida do seu dono e já podia ir em paz.
O homem e a mulher casaram e adoptaram dois canitos recém-nascidos.
Ainda hoje estão juntos.
Fidelidade
Esta é a aventura de um homem solitário que encontrou no seu cão o fiel e mais corajoso amigo do mundo. Chegou a divorciar-se da mulher ao fim de uns anos de razoável união, devido a ela não gostar do seu Kaiser. Este pastor alemão de porte altivo e inteligência acima da média de alguma população, acompanhava-o para todo o lado. Ficava à porta do emprego até que ele saísse, ia à banca de revistas buscar o jornal matinal, garantia-lhe protecção na rua e em casa e, acima de tudo, estava sempre contente por ter o dono ali a seu lado.
O Kaiser fez mesmo um esforço sobre-canino para que a ex-dona gostasse dele, dando-se bem com o velho gato que ela trouxe para casa e com o piriquito que nunca se calava. Mas tal não foi suficiente e o canino arranjou uma depressão, à imagem do seu dono.
Ficaram mais ou menos felizes quando ela se foi embora, mais ou menos contentes com a companhia um do outro, mais ou menos satisfeitos por viverem novamente com calma e silêncio.
Mas algo faltava nesta vida. E esse algo era, novamente, a companhia feminina.
Juraram um ao outro encontrar a resposta ao mesmo tempo, indo passear para a expo ou visitar feiras caninas e outros acontecimentos do género. Inscreveram-se em clubes, iam a passeios organizados, participaram em festas. Mas nada surgia ou acontecia.
O tempo ia passando, eles iam ficando menos jovens. O Kaiser começava a denotar alguns problemas de saúde, até que adoeceu.
O seu dono nunca mais foi o mesmo, tentou por tudo curá-lo gastando o dinheiro que não tinha.
Já quase no fim da linha, o Kaiser mostrou que queria ir à rua por uma última vez. Estava, inclusivé, muito obcecado com isso. Já lá fora, apontou o nariz para um jardim e levou o seu dono até lá.
Nesse jardim estava uma senhora com uma cadela velhota. Kaiser foi sentar-se ao pé dela e os dois cães ficaram juntos a tarde toda, enquanto observavam os seus donos a interagir.
Trocaram telefones e regressaram a casa. Passados uns dias, a senhora telefonou dizendo que a sua cadela tinha morrido. Os dois juntaram-se a ela e o Kaiser, depois de um longo olhar para o seu dono, fechou também os olhos. Tinha encontrado o novo amor da vida do seu dono e já podia ir em paz.
O homem e a mulher casaram e adoptaram dois canitos recém-nascidos.
Ainda hoje estão juntos.
05.22.08
terreola
Neste feriado chuvoso que coincide com uma ponte e em que toda a gente vai para a terra, ou a sua própria ou a dos pais ou avós, X fica sempre um bocadinho nostálgico. Isto de ser alfacinha é muito útil e tal, mas não se pode considerar a cidade como… a terra.
Devido a esta razão, e à sua fraca aptidão no que respeita a trabalhar a terra, ela própria, X tem tentado ao longo dos tempos criar uma pequena horta na marquise para se aproximar de uma terra que gostaria que fosse a sua. Já plantou de tudo, desde cebolinho a salsa, mas as coisas não crescem e não cheiram. É que nem o cão lá vai pesquisar a verdura. X gostava de ter tido uma terra para aprender a… trabalhá-la e, se o conseguisse, era meio caminho andado para ser um excelente cozinheiro. Poupava fortunas, emagrecia e combatia o colesterol, seria mais fácil atirar com outro charme para cima das convidadas e, em suma, seria mais… terra a terra.
Porque carga de água é que uns a têm e outros não?
terreola
Neste feriado chuvoso que coincide com uma ponte e em que toda a gente vai para a terra, ou a sua própria ou a dos pais ou avós, X fica sempre um bocadinho nostálgico. Isto de ser alfacinha é muito útil e tal, mas não se pode considerar a cidade como… a terra.
Devido a esta razão, e à sua fraca aptidão no que respeita a trabalhar a terra, ela própria, X tem tentado ao longo dos tempos criar uma pequena horta na marquise para se aproximar de uma terra que gostaria que fosse a sua. Já plantou de tudo, desde cebolinho a salsa, mas as coisas não crescem e não cheiram. É que nem o cão lá vai pesquisar a verdura. X gostava de ter tido uma terra para aprender a… trabalhá-la e, se o conseguisse, era meio caminho andado para ser um excelente cozinheiro. Poupava fortunas, emagrecia e combatia o colesterol, seria mais fácil atirar com outro charme para cima das convidadas e, em suma, seria mais… terra a terra.
Porque carga de água é que uns a têm e outros não?
05.21.08
recados
Esta é a aventura de um homem que tinha um grave defeito, defeito esse que só era prejudicial para ele próprio: o nunca desligar os telemóveis, um de cada rede, por nada deste mundo. Era um problema de infância devido a ter assistido vezes sem conta à partida a meio da noite do seu pai devido a um telefonema, ainda para a rede fixa e única existente.
Desde miúdo que vivia assombrado por não estar contactável quando dele precisassem, fosse para resolver um problema ou para ajudar alguém a resolvê-lo. E assim passaram os anos, com os telemóveis ligados 24h non stop.
Até que chegou um dia em que o homem se fartou de ser escravo numa prisão que ele próprio construíu. Desligou os telemóveis e marcou uma viagem para se afastar deles.
Partiu sorridente. Seria uma quinzena perfeita e silenciosa.
Quando regressou a casa, satisfeito e descansado, ficou a olhar para os telemóveis. Ligou-os um a um e foi inundado por centenas de chamadas não atendidas e milhares de sms.
Nessa quinzena tinham nascido duas primas e um primo. A sua ex-mulher casou novamente, a sua filha decidiu emigrar para a Nova Zelândia, perdeu inúmeros trabalhos e até um seu amigo deixou de sê-lo pois tinha precisado de um conselho urgente.
O homem ficou perplexo. E nunca mais desligou os telemóveis.
05.20.08
visuais
Esta é a história de um homem que não conseguia comunicar verbalmente com as pessoas. Muito menos com mulheres. Demasiado tímido, nunca sabia o que dizer, o que fazer, o que escolher.
Refugiou-se num seu mundo criado à sua medida e, no seu pequeno mas solarengo T1, escutava atentamente todas as músicas, lia todos os livros e via todos os filmes.
Este era um homem culto, interessante, educado e simples. Mas nunca ninguém o via, a não ser o dono da mercearia ao lado da sua casa, o dono do tasco do outro lado da rua, a senhora da padaria e o homem da fruta.
Os dias foram passando solitários até que o homem comprou um computador e uma ligação à net. Descobriu como fazer um blog e deixou-se cativar por este novo mundo. Os seus interesses e paixões criaram uma enorme legião de fãs, entre eles muitas mulheres que lhe dirigiam frases simpáticas nos comentários dos posts. Mas ele continuava tímido… embora menos.
Até que, num dia qualquer de uma semana qualquer, recebeu um mail de uma mulher que lhe tinha percebido a vida. Também ela era tímida, também ela tinha medo.
A pouco e pouco, ele lá foi cedendo um espaço dentro do seu espaço e os mails começaram a ser diários. Depois de hora em hora até que se transformaram em conversas directas através do messenger.
A paixão crescia sem imagens, a saudade durante a noite era tremenda e o início de um novo dia a parte mais importante dele próprio.
Decidiram, muito tempo depois, encontrarem-se fisicamente.
Quando se olharam, viram as pessoas mais bonitas do mundo. Para ela, ele era um deus grego, perfeito, alto, com um sorriso magnífico e um olhar meigo. Para ele, ela era radiosa, linda de morrer, graciosa e com um olhar penetrante e cúmplice.
Abraçaram-se e deram um longo beijo. Quem passava olhava incrédulo para o que estava a ver. Um homem tão franzino e baixo com uma mulher tão gorda e feia. Estavam bem um para o outro, pensavam. E seguiam a sua triste existência.
05.19.08
demência
Há muitos anos, X escreveu o seu primeiro livro, ainda em máquina de escrever pois nem existiam computadores ou processadores de texto. Havia apenas uma cópia que, logicamente e por ser apenas uma, foi perdida. Aliás, não foi. X emprestou-a a uma pessoa para uma leitura, só que nunca mais viu essa pessoa e não, não havia telemóveis, emails e etecéteras.
Nesse seu livro, a personagem principal chamada David era um jornalista/documentarista que entrou num mundo estranho depois de uma dica anónima. Esse mundo eram alguns doentes de uma ala do Hospital Júlio de Matos que, em vez de serem loucos, resguardavam-se do mundo e dos seus perigos e cuidavam de um enorme segredo. Passando também ele por demente, conseguiu entrar nessa ala e o que ele viu e descreveu, to cut a long story short, não foi bem recebido pela “sua” sociedade. Estes “loucos” falavam com deus, esperavam a sua hora com uma calma transparente e conseguiam manter contactos com outros mundos, outros seres, outras galáxias.
David foi, logicamente, expulso da sua sociedade que o apelidou de louco entre outros mimos. E, numa camisa de forças, foi depositado nessa mesma ala onde, em vez de sofrer as represálias de quem tinha atraiçoado, foi recebido de braços abertos e sorrisos cúmplices.
Tudo isto para dizer que ontem, X passou o dia entre pessoas que estão nesse limbo. Umas sabem-no, outras não. Mas o que X entendeu, finalmente, é que também uma parte dele está nesse espaço entre o que é lógico e o que queremos que seja lógico.
05.16.08
números
Esta é a aventura de um homem que não conseguia memorizar números. Faziam-lhe confusão, não lhes percebia a utilidade e rejeitava a sua complexidade.
Este homem teve sempre que andar com os seus muitos cartões, desde identificação a passe, multibancos e derivados. Desesperou-se cada vez que surgia uma nova operadora telefónica, ou quando lhe enviavam um novo cartão de débito/crédito com um novo pin. Isto já para não falar dos puks, nibs, nifs, etc.
Com um grande, mas grande esforço, conseguiu memorizar o número do prédio onde habitava, assim como o andar, mas mencionava-os sempre por extenso “olhe, é para o sessenta e nove, quarto direito”.
Por outro lado, a sua memória era invejada no que respeitava a literatura e cinema, geografia e filosofia. Não percebia nada de música, pois era matemática pura, assim como não gostava de computadores, devido à linguagem dos uns e dos zeros.
Este homem viva atormentado com pequenas coisas, tipo o peso da fruta e legumes ou as cadeiras marcadas nos espectáculos.
Sonhou e desejou ser diferente. Muitas vezes. Mas acordava sempre da mesma forma, rejeitanto o alarme com números digitais, optando pela luminosidade certa que lhe garantia serem nove da manhã.
Já com cinquenta anos, fez uma promessa a si próprio: tentar jogar no euromilhões, fazendo cruzinhas sem ligar pataviva aos números que tinha que escolher.
Assim o fez e assim o entregou. Guardou o recibo e arreliou-se com o facto de este só ter números. Nunca mais olhou para ele. Nem mesmo quando, nessa semana, o prémio saíu a um português. Nem mesmo passado um mês, quando se anunciou que o prémio ainda não tinha sido levantado…
05.15.08
ovação
Esta é a aventura de uma rapariga, na casa do quarto de século, que não era reconhecida pela sua inteligência. Contudo, tinha uma cara mais ou menos laroca e um corpo mais ou menos respeitável, o que fazia com que tivesse algum sucesso, principalmente na camada masculina com o mesmo nível de QI.
Esta rapariga tinha um sonho, que era ser cantora e famosa, tal e qual como tantas outras. Demorou uns anos mas, finalmente, lá conseguiu encontrar parceiros estratégicos para lhe gravarem o disco e o editarem em Portugal.
Seguiram-se as entrevistas promocionais e outras, onde debitava um discurso memorizado escrito por alguém que não ela e em que utilizava palavras ocas cheias de um significado que só para ela tinha sentido. Tudo corria bem, os jornalistas faziam o frete e a coisa ia andando. Até que chegou o dia em que o crítico musical de um jornal diário foi obrigado a sair da redacção e ter que ir ter com a rapariga para lhe fazer outra entrevista. Chateado, o jornalista foi gravando o que ela dizia até que percebeu uma ligeira diferença de discurso para todos os outros que já tinha entrevistado.
Chegado à redacção, foi imediatamente escrever a peça. Terminou-a com o discurso directo dessa jovem:
“Ah, o que eu quero mesmo é palmadinhas!”
“Disse… palmadinhas?”
“Sim, palmadinhas. Terminar um concerto e receber muitas palmadinhas!”
“É mesmo esse o seu sonho?”
“Claro, qual o artista que não gosta delas?”
“Pois, não sei. Não sou muito dado a esse tipo de intimidades….”
05.14.08
fraude
Esta é a aventura de um pintor extraordinário e consideradíssimo pelos seus pares. Infelizmente, nasceu em Portugal e tinha um BI que o confirmava. Por muito genial que fosse, as suas peças não lhe garantiam o sustento mensal necessário para uma vida simples e com tempo para pensar e criar. Houve mesmo alturas em que o pintor teve que pintar paredes, exteriores e interiores, para conseguir pagar as contas, as tintas, as telas e os pincéis.
O pintor estava cansado e farto dessa dupla vida. Num passeio matinal, domingueiro e solharengo, encontrou um amigo de longa data, músico que agora pintava paredes, exteriores e interiores, para sobreviver. O músico disse-lhe que neste país só depois de morto é que um artista conseguia viver, pois as suas peças valiam logo dinheiro num mercado que espera essa realidade.
O pintor foi para casa e pensou. Pensou durante um longo dia e decidiu.
No dia seguinte, após ter enviado um mail aos amigos e alguns agentes, meteu a cabeça dentro do forno e ligou o gás. Nessa precisa altura, o valor dos seus quadros subiu vertiginosamente, o telefone tocava sem cessar, alguns amigos tocavam, desesperados, à porta.
O pintor ainda estava vivo, pois o gás natural tem pouca chama e a instalação tinha sido mal feita aquando esse grande acontecimento que mudou todos os bicos de todos os fogões lisboetas. Após algumas horas decidiu tentar o salto do seu andar. E foi nessa curta viagem para a varanda que viu a luz a piscar do seu atendedor de chamadas. Decidiu ouvir as mensagens e, para sua enorme supresa, todas as suas telas tinham sido vendidas a um preço exorbitante. Estava, finalmente, rico. E famoso.
Mas era uma fraude. Estava vivo.
05.13.08
pés
Esta é a aventura de um homem que se chamava K. Sempre viveu com um grave problema de equilíbrio, trocando os pés e estatelando-se vezes sem conta. Metade da sua vida foi passada em hospitais, tendo sido operado diversas vezes aos muitos ossos que ia quebrando.
Foi num dia chuvoso e ventoso que o drama aconteceu: K, ao tentar atravessar uma avenida, não deu conta que o semáforo dos peões tinha deixado de estar verde e, ao reparar na horda de automóveis que vinham na sua direcção, atrapalhou-se, tropeçou nele próprio e foi varrido por duas viaturas. K veio a falecer pouco tempo depois, quando a ambulância que o transportava chocou de frente com um autocarro cheio de pessoas que vinham de Fátima.
Contudo, e como diz um qualquer ditado, o azar de uns é a sorte de outros e nessa precisa altura, o Hospital São José recebia um acidentado que tinha ficado sem os dois pés, num qualquer acidente de trabalho numa obra lisboeta.
O grupo de médicos de serviço, alguns deles espanhóis e outros com mais de três turnos seguidos, decidiram cortar os pés de K, ainda quentinhos, e tentar juntá-los ao corpo do trolha.
A operação, por incrível que pareça, foi um sucesso e o trolha, após vários meses de recuperação e fisioterapias, recomeçou a andar.
Ainda no Hospital, tropeçou algumas vezes, mas a junta médica achava natural. Afinal, o processo era complicado e a recuperação total levaria anos.
Com umas muletas, o trolha começou a tentar encontrar um novo trabalho, preferencialmente sentado a uma secretária.
Esperou alguns meses até ser chamado para uma entrevista. Querendo dar o seu melhor, largou as muletas e aperaltou-se com o fato domingueiro.
Foi ao atravessar uma avenida que o pé esquerdo teimou em ser o direito e o resultado foi uma estrondosa queda no asfalto. Nesse preciso momento, um autocarro cheio de mulheres que vinham ver um concerto de um dos Carreira, travou a fundo. Mas não conseguiu evitar a tragédia.
Uma testemunha relatou à polícia que tinha visto um acidente parecido poucos anos atrás…
pés
Esta é a aventura de um homem que se chamava K. Sempre viveu com um grave problema de equilíbrio, trocando os pés e estatelando-se vezes sem conta. Metade da sua vida foi passada em hospitais, tendo sido operado diversas vezes aos muitos ossos que ia quebrando.
Foi num dia chuvoso e ventoso que o drama aconteceu: K, ao tentar atravessar uma avenida, não deu conta que o semáforo dos peões tinha deixado de estar verde e, ao reparar na horda de automóveis que vinham na sua direcção, atrapalhou-se, tropeçou nele próprio e foi varrido por duas viaturas. K veio a falecer pouco tempo depois, quando a ambulância que o transportava chocou de frente com um autocarro cheio de pessoas que vinham de Fátima.
Contudo, e como diz um qualquer ditado, o azar de uns é a sorte de outros e nessa precisa altura, o Hospital São José recebia um acidentado que tinha ficado sem os dois pés, num qualquer acidente de trabalho numa obra lisboeta.
O grupo de médicos de serviço, alguns deles espanhóis e outros com mais de três turnos seguidos, decidiram cortar os pés de K, ainda quentinhos, e tentar juntá-los ao corpo do trolha.
A operação, por incrível que pareça, foi um sucesso e o trolha, após vários meses de recuperação e fisioterapias, recomeçou a andar.
Ainda no Hospital, tropeçou algumas vezes, mas a junta médica achava natural. Afinal, o processo era complicado e a recuperação total levaria anos.
Com umas muletas, o trolha começou a tentar encontrar um novo trabalho, preferencialmente sentado a uma secretária.
Esperou alguns meses até ser chamado para uma entrevista. Querendo dar o seu melhor, largou as muletas e aperaltou-se com o fato domingueiro.
Foi ao atravessar uma avenida que o pé esquerdo teimou em ser o direito e o resultado foi uma estrondosa queda no asfalto. Nesse preciso momento, um autocarro cheio de mulheres que vinham ver um concerto de um dos Carreira, travou a fundo. Mas não conseguiu evitar a tragédia.
Uma testemunha relatou à polícia que tinha visto um acidente parecido poucos anos atrás…
05.11.08
desventura
Hoje, a aventura do Mr X foi perceber que, mesmo que se deseje muito, algumas aventuras são muito difíceis de viver. Talvez porque seja Domingo e o dia esteja fanhoso… ou talvez porque não se fez um telefonema a tempo. Ou mesmo talvez porque é imperativo um regresso.
desventura
Hoje, a aventura do Mr X foi perceber que, mesmo que se deseje muito, algumas aventuras são muito difíceis de viver. Talvez porque seja Domingo e o dia esteja fanhoso… ou talvez porque não se fez um telefonema a tempo. Ou mesmo talvez porque é imperativo um regresso.
05.10.08
dias
Esta é a aventura de um homem que gostava do Sábado. Aliás, só gostava mesmo desse dia. Detestava o Domingo e odiava todos os dias do resto da semana. Nunca soube porquê. Mas aceitou essa realidade quando atingiu a maioridade e decidiu saír de casa dos pais que não compreendiam tal demência.
Era ao Sábado que ele recuperava as energias, fazia exactamente o que queria, quando desligava os telemóveis e nem sequer ligava o computador. O Sábado, como muitas namoradas vieram a descobrir e depois desistir era só dele. Só para ele.
Enquanto a vida dos amigos e amigas se enchia de problemas de variadíssima ordem, ele conseguia reunir em apenas 24 horas todas as forças que lhe permitiam viver o resto da semana sem grandes confusões. Quem o conhecia bem invejava-lhe tal sorte. Mas para ele era um azar. Quantos relacionamentos acabaram devido a isso? A quantos casamentos e aniversários faltou? Contudo e chegando o Sábado seguinte, todos esses dramas eram ultrapassados.
O problema aconteceu quando o seu pai morreu num Sábado. O que fazer? Afinal, durante anos o Sábado era dele. Como é que isto aconteceu? O homem ficou desorientado, sem saber o que fazer. Por um lado, não poderia faltar a este funeral, por outro toda a sua existência deixava de ser real.
Como em muitas coisas da vida, há que tomar uma decisão para ultrapassar uma situação muito difícil e isso também aconteceu com ele.
Escolheu um 15º andar de um prédio na Av da liberdade…
dias
Esta é a aventura de um homem que gostava do Sábado. Aliás, só gostava mesmo desse dia. Detestava o Domingo e odiava todos os dias do resto da semana. Nunca soube porquê. Mas aceitou essa realidade quando atingiu a maioridade e decidiu saír de casa dos pais que não compreendiam tal demência.
Era ao Sábado que ele recuperava as energias, fazia exactamente o que queria, quando desligava os telemóveis e nem sequer ligava o computador. O Sábado, como muitas namoradas vieram a descobrir e depois desistir era só dele. Só para ele.
Enquanto a vida dos amigos e amigas se enchia de problemas de variadíssima ordem, ele conseguia reunir em apenas 24 horas todas as forças que lhe permitiam viver o resto da semana sem grandes confusões. Quem o conhecia bem invejava-lhe tal sorte. Mas para ele era um azar. Quantos relacionamentos acabaram devido a isso? A quantos casamentos e aniversários faltou? Contudo e chegando o Sábado seguinte, todos esses dramas eram ultrapassados.
O problema aconteceu quando o seu pai morreu num Sábado. O que fazer? Afinal, durante anos o Sábado era dele. Como é que isto aconteceu? O homem ficou desorientado, sem saber o que fazer. Por um lado, não poderia faltar a este funeral, por outro toda a sua existência deixava de ser real.
Como em muitas coisas da vida, há que tomar uma decisão para ultrapassar uma situação muito difícil e isso também aconteceu com ele.
Escolheu um 15º andar de um prédio na Av da liberdade…
05.09.08
comunicar
Num país distante, há um homem que fala com as mãos. Não é mudo, apenas nunca gostou do som da sua voz e recusava-se a falar. Portanto, construíu toda uma linguagem para que os seus vizinhos e todos os outros o entendessem sem grandes confusões. Teve sucesso nessa tarefa e os anos foram passando sem que ninguém se chateasse muito com a situação.
O país onde vivia era muito longe dos outros países e as visitas, por isso, raras. Mas houve um dia em que um circo chegou à cidade. Era um circo normal, com animais e trapezistas, palhaços e figurinistas. Como o país era pequeno, quase todos se juntaram numa noite para ver o espectáculo e foi na fila para os bilhetes que o homem viu uma mulher por quem se apaixonou imediatamente.
Esta mulher falava com os pés e tinha uma graciosidade única.
Rapidamente foi ter com ela e percebeu que tinham inventado quase a mesma forma de se fazerem compreender.
Casaram quase de imediato, foram extremamente felizes nos primeiros tempos até que nasceu o primeiro filho.
Ele queria que ele aprendesse a falar com as mãos, ela com os pés.
Nunca se entenderam e o filho nunca chegou a aprender a comunicar.
comunicar
Num país distante, há um homem que fala com as mãos. Não é mudo, apenas nunca gostou do som da sua voz e recusava-se a falar. Portanto, construíu toda uma linguagem para que os seus vizinhos e todos os outros o entendessem sem grandes confusões. Teve sucesso nessa tarefa e os anos foram passando sem que ninguém se chateasse muito com a situação.
O país onde vivia era muito longe dos outros países e as visitas, por isso, raras. Mas houve um dia em que um circo chegou à cidade. Era um circo normal, com animais e trapezistas, palhaços e figurinistas. Como o país era pequeno, quase todos se juntaram numa noite para ver o espectáculo e foi na fila para os bilhetes que o homem viu uma mulher por quem se apaixonou imediatamente.
Esta mulher falava com os pés e tinha uma graciosidade única.
Rapidamente foi ter com ela e percebeu que tinham inventado quase a mesma forma de se fazerem compreender.
Casaram quase de imediato, foram extremamente felizes nos primeiros tempos até que nasceu o primeiro filho.
Ele queria que ele aprendesse a falar com as mãos, ela com os pés.
Nunca se entenderam e o filho nunca chegou a aprender a comunicar.
05.08.08
virtualidades
Esta é a aventura de um homem que criou toda uma entidade na internet. Tinha sites, blogs, nicknames, Hi5, myspaces, enfim, tudo e mais alguma coisa. Passava a vida agarrado ao computador, aguardava que os seus muitos contactos surgissem para uma converseta no messenger, via filmes pelo computador e ouvia música da mesma forma.
Trabalhava na construção de sites, o que lhe permitia estar sempre ao… computador.
Os anos foram passando e a sua entidade física era esquecida a pouco e pouco por toda a gente que tinha conhecido ao longo da sua vida. Para conseguir contactá-lo, ou era por email ou por msn. Ou então através de comentários nos seus diversos blogs.
Não foram raras as vezes que se apaixonou online. Mas dessas, só ainda mais raras vezes é que teve a sorte de conhecer fisicamente o outro lado. E, como seria de esperar, as coisas não aconteciam como num conto de fadas.
Decidiu então comprar uma Real Doll. Assim os seus desejos mais carnais seriam mais ou menos satisfeitos. Naturalmente, dentro de casa. Naturalmente, sem compromisso e sem desventura.
O tempo foi passando até que ele foi esquecido pela vida real. Foi envelhecendo e ficando corcunda. A sua pele estava velha, os seus olhos gastos. Os pulsos esgotados, os dedos quase quebrados.
Sem se aperceber, já estava ligado fisicamente tanto à cadeira como às máquinas. O seu corpo tinha criado raízes, estava cada vez menos perceptível e, tal como uma árvore, cada vez mais estático e adormecido.
Nunca mais ninguém o viu até ao dia em que também desapareceu do mundo virtual. Alguns contactos dele acharam demasiado estranha esta ausência e combinaram ir ver o que se passava.
Quando chegaram a casa dele, foi necessário arrombar a porta. À porta da sala onde estava o computador, espantaram-se com um cenário grotesco. O homem confundia-se com tudo onde tocava. Já não era humano, mas também não era máquina. Não estava morto nem vivo. Tudo era uma massa disforme, transformada e distorcida.
Abandonaram a casa em pânico. E cada um deles, ao chegar às suas, destruíu os computadores e tudo o que lhes estava associado. Encontraram-se dias depois, num acaso perfeito, bebericando umas imperiais numa esplanada cheia de sol. Ninguém falou. Não era necessário.
virtualidades
Esta é a aventura de um homem que criou toda uma entidade na internet. Tinha sites, blogs, nicknames, Hi5, myspaces, enfim, tudo e mais alguma coisa. Passava a vida agarrado ao computador, aguardava que os seus muitos contactos surgissem para uma converseta no messenger, via filmes pelo computador e ouvia música da mesma forma.
Trabalhava na construção de sites, o que lhe permitia estar sempre ao… computador.
Os anos foram passando e a sua entidade física era esquecida a pouco e pouco por toda a gente que tinha conhecido ao longo da sua vida. Para conseguir contactá-lo, ou era por email ou por msn. Ou então através de comentários nos seus diversos blogs.
Não foram raras as vezes que se apaixonou online. Mas dessas, só ainda mais raras vezes é que teve a sorte de conhecer fisicamente o outro lado. E, como seria de esperar, as coisas não aconteciam como num conto de fadas.
Decidiu então comprar uma Real Doll. Assim os seus desejos mais carnais seriam mais ou menos satisfeitos. Naturalmente, dentro de casa. Naturalmente, sem compromisso e sem desventura.
O tempo foi passando até que ele foi esquecido pela vida real. Foi envelhecendo e ficando corcunda. A sua pele estava velha, os seus olhos gastos. Os pulsos esgotados, os dedos quase quebrados.
Sem se aperceber, já estava ligado fisicamente tanto à cadeira como às máquinas. O seu corpo tinha criado raízes, estava cada vez menos perceptível e, tal como uma árvore, cada vez mais estático e adormecido.
Nunca mais ninguém o viu até ao dia em que também desapareceu do mundo virtual. Alguns contactos dele acharam demasiado estranha esta ausência e combinaram ir ver o que se passava.
Quando chegaram a casa dele, foi necessário arrombar a porta. À porta da sala onde estava o computador, espantaram-se com um cenário grotesco. O homem confundia-se com tudo onde tocava. Já não era humano, mas também não era máquina. Não estava morto nem vivo. Tudo era uma massa disforme, transformada e distorcida.
Abandonaram a casa em pânico. E cada um deles, ao chegar às suas, destruíu os computadores e tudo o que lhes estava associado. Encontraram-se dias depois, num acaso perfeito, bebericando umas imperiais numa esplanada cheia de sol. Ninguém falou. Não era necessário.
05.07.08
fotografia
Esta é a aventura de um homem que, embora tenha sido amado, nunca viveu a paixão avassaladora de um primeiro olhar ou de um primeiro toque mais ou menos fortuito. Este homem refugiava-se no trabalho, era um notável profissional e admirado por todos. Mas, chegando a casa, só tinha por companhia o seu casal de gatos que também pouco lhe ligavam.
Tinha amigos e amigas. Estas tentavam tudo por tudo encontrar-lhe um par, oferecer-lhe a paixão, convidá-lo para a vida. Mas por medo de falhar ou com a certeza de ter medo e falhar, este homem encontrava sempre desculpas para evitar encontros pré-marcados. E assim ia sobrevivendo.
Contudo, houve um dia em que viu uma fotografia de uma mulher que acompanhava aventuras de uma amiga. Olhou muito tempo esta fotografia, mas nunca para a amiga. Encheu-se de coragem e pediu-lhe mais fotos em que a tal criatura estivesse presente. A amiga fez-lhe a vontade e enviou-lhe uma dezena de fotografias. Uma a uma, o homem foi-se apaixonando. Pelos traços, pelos olhos, pelas posições, sorrisos e possíveis afectos. Pela tez morena, pelo cabelo negro, pelos abraços com que rodeava quem estava também na foto.
Como seria possível esta paixão? Como seria possível este encontro? O homem sorria. Sentia. E ansiava. Mas quanto mais se apercebia do seu estado, mais receios ia construindo, mais muralhas e medos. Se calhar não estava toldado para viver uma paixão. Se calhar a sua vida teria que passar ao lado de uma fotografia.
Quando finalmente aconteceu o encontro, já ele tinha vestido uma armadura intransponível, ciente e certo que essa era a sua melhor defesa para os seus próprios sentimentos não o ferirem.
Mas os milagres acontecem e a mulher da fotografia ficou curiosa. Muito curiosa. Trocaram contactos. O tempo ia passando, a armadura não desarmava. O homem começou a evitar, fugindo para os seus gatos e para o seu trabalho que fazia até à exaustão.
Desapareceu de tudo e todos, inclusivé da sua amiga.
Uns anos depois reencontrou a mulher. Esta já estava casada e com filhos. Olhou-o e disse-lhe que o tinha amado apaixonadamente. Mas que o mundo anda depressa. Demasiado. Pediu-lhe desculpa e seguiu o seu caminho.
A armadura do homem partiu-se em mil pedaços, cacos que permaneceram no chão enquanto ele a olhava a afastar-se. Estava, finalmente, pronto para viver.
fotografia
Esta é a aventura de um homem que, embora tenha sido amado, nunca viveu a paixão avassaladora de um primeiro olhar ou de um primeiro toque mais ou menos fortuito. Este homem refugiava-se no trabalho, era um notável profissional e admirado por todos. Mas, chegando a casa, só tinha por companhia o seu casal de gatos que também pouco lhe ligavam.
Tinha amigos e amigas. Estas tentavam tudo por tudo encontrar-lhe um par, oferecer-lhe a paixão, convidá-lo para a vida. Mas por medo de falhar ou com a certeza de ter medo e falhar, este homem encontrava sempre desculpas para evitar encontros pré-marcados. E assim ia sobrevivendo.
Contudo, houve um dia em que viu uma fotografia de uma mulher que acompanhava aventuras de uma amiga. Olhou muito tempo esta fotografia, mas nunca para a amiga. Encheu-se de coragem e pediu-lhe mais fotos em que a tal criatura estivesse presente. A amiga fez-lhe a vontade e enviou-lhe uma dezena de fotografias. Uma a uma, o homem foi-se apaixonando. Pelos traços, pelos olhos, pelas posições, sorrisos e possíveis afectos. Pela tez morena, pelo cabelo negro, pelos abraços com que rodeava quem estava também na foto.
Como seria possível esta paixão? Como seria possível este encontro? O homem sorria. Sentia. E ansiava. Mas quanto mais se apercebia do seu estado, mais receios ia construindo, mais muralhas e medos. Se calhar não estava toldado para viver uma paixão. Se calhar a sua vida teria que passar ao lado de uma fotografia.
Quando finalmente aconteceu o encontro, já ele tinha vestido uma armadura intransponível, ciente e certo que essa era a sua melhor defesa para os seus próprios sentimentos não o ferirem.
Mas os milagres acontecem e a mulher da fotografia ficou curiosa. Muito curiosa. Trocaram contactos. O tempo ia passando, a armadura não desarmava. O homem começou a evitar, fugindo para os seus gatos e para o seu trabalho que fazia até à exaustão.
Desapareceu de tudo e todos, inclusivé da sua amiga.
Uns anos depois reencontrou a mulher. Esta já estava casada e com filhos. Olhou-o e disse-lhe que o tinha amado apaixonadamente. Mas que o mundo anda depressa. Demasiado. Pediu-lhe desculpa e seguiu o seu caminho.
A armadura do homem partiu-se em mil pedaços, cacos que permaneceram no chão enquanto ele a olhava a afastar-se. Estava, finalmente, pronto para viver.
05.06.08
pivot
Esta é a aventura de um jornalista que conseguiu subir no canal televisivo onde trabalhava até ser pivot de telejornal e, também, editor do mesmo. Todos os dias ele encarava as piores notícias, todos os dias as dava aos teleespectadores, todos os dias chegava a casa transtornado, doente e incapaz de fazer qualquer coisa a não ser sofá surfing e zapping, tal e qual muitos vizinhos e restante população.
Mas houve um dia em que tudo mudou. Acordou diferente, foi para o emprego e decidiu não dar uma única má notícia. Escolheu coisas boas, dignificantes para a raça humana, historias bonitas e finais felizes. Mal o noticiário terminou, foi chamado ao patrão, um conjunto de figuras sinistras escondidas em grandes cadeirões e afastadas entre elas por uma enorme mesa de reuniões. Não estavam felizes. Pelo contrário. Mostraram-lhe os dados da audiência, provando-lhe que a sua ideia tinha sido um fracasso colossal. E concluiram dizendo que, se ele mantivesse essa nova linha editorial, estaria na rua em menos de uma semana.
O jornalista, com dois filhos e casa + carro + créditos + mobiliário + electrodomésticos + seguro + alimentação + etc para pagar, sentiu-se encurralado. Tinha-se sentido muito bem ao fazer aquele noticiário. E, quiçá, teria conseguido que alguém, do outro lado, se tivesse sentido melhor que nos outros dias.
Decidiu.
No dia seguinte, iniciou as notícias com peças bem dispostas. Pelo auricular, o realizador gritava que parasse, pois no seu próprio auricular estava um produtor aos berros cujo auricular estava ligado ao patronato.
O jornalista foi despedido em menos de uma semana.
Durante uns dias ficou a fazer sofá surfing e zapping. Até que o telefone tocou. Era uma senhora que lhe transmitia os parabéns por se ter sacrificado. Mal desligou, o telefone tocou outra vez. E assim continuou durante todo o dia. E toda a noite. O canal televisivo foi inundado por cartas de reclamação, pedindo o regresso do generoso jornalista. Passada uma semana, houve manifestações, artigos de opinião, especiais informativos nos outros canais.
A concorrência começava a entender que tinha ali uma possibilidade para conseguir mais audiências e criou os seus próprios tele-jornais bem dispostos.
Passados uns meses, o jornalista foi convidado a reingressar no seu canal, com o seu produto.
Preparou-se afincadamente para o regresso e, no dia em que chegou à porta das instalações, foi morto a tiro.
Os tele-jornais bem dispostos da concorrência iniciaram esse dia com a terrível notícia.
pivot
Esta é a aventura de um jornalista que conseguiu subir no canal televisivo onde trabalhava até ser pivot de telejornal e, também, editor do mesmo. Todos os dias ele encarava as piores notícias, todos os dias as dava aos teleespectadores, todos os dias chegava a casa transtornado, doente e incapaz de fazer qualquer coisa a não ser sofá surfing e zapping, tal e qual muitos vizinhos e restante população.
Mas houve um dia em que tudo mudou. Acordou diferente, foi para o emprego e decidiu não dar uma única má notícia. Escolheu coisas boas, dignificantes para a raça humana, historias bonitas e finais felizes. Mal o noticiário terminou, foi chamado ao patrão, um conjunto de figuras sinistras escondidas em grandes cadeirões e afastadas entre elas por uma enorme mesa de reuniões. Não estavam felizes. Pelo contrário. Mostraram-lhe os dados da audiência, provando-lhe que a sua ideia tinha sido um fracasso colossal. E concluiram dizendo que, se ele mantivesse essa nova linha editorial, estaria na rua em menos de uma semana.
O jornalista, com dois filhos e casa + carro + créditos + mobiliário + electrodomésticos + seguro + alimentação + etc para pagar, sentiu-se encurralado. Tinha-se sentido muito bem ao fazer aquele noticiário. E, quiçá, teria conseguido que alguém, do outro lado, se tivesse sentido melhor que nos outros dias.
Decidiu.
No dia seguinte, iniciou as notícias com peças bem dispostas. Pelo auricular, o realizador gritava que parasse, pois no seu próprio auricular estava um produtor aos berros cujo auricular estava ligado ao patronato.
O jornalista foi despedido em menos de uma semana.
Durante uns dias ficou a fazer sofá surfing e zapping. Até que o telefone tocou. Era uma senhora que lhe transmitia os parabéns por se ter sacrificado. Mal desligou, o telefone tocou outra vez. E assim continuou durante todo o dia. E toda a noite. O canal televisivo foi inundado por cartas de reclamação, pedindo o regresso do generoso jornalista. Passada uma semana, houve manifestações, artigos de opinião, especiais informativos nos outros canais.
A concorrência começava a entender que tinha ali uma possibilidade para conseguir mais audiências e criou os seus próprios tele-jornais bem dispostos.
Passados uns meses, o jornalista foi convidado a reingressar no seu canal, com o seu produto.
Preparou-se afincadamente para o regresso e, no dia em que chegou à porta das instalações, foi morto a tiro.
Os tele-jornais bem dispostos da concorrência iniciaram esse dia com a terrível notícia.
05.05.08
prisão
Esta é a aventura de um homem que perdeu quase tudo na vida. Só restava a imaginação e mesmo essa falhava de vez em quando. Escrevia peças sobre variados temas para publicações que lhe permitiam pagar as contas e alguns, raros, mimos pessoais. Escrevia tudo em pequenas sebentas de folhas lisas e já tinha uma colecção grande delas. Estavam arrumadas por ordem numa pequena gaveta, longe do pó e de olhares curiosos.
Houve um dia em que teve que comprar uma nova sebenta mas, por qualquer motivo, as suas preferidas, lisas, estavam esgotadas em todo o lado. Teve que contentar-se com uma quadriculada o que lhe causava uma certa confusão.
Abriu-a na primeira página ímpar onde escreveu os seus dados pessoais, passando depois para a seguinte ímpar. Só escrevia nas ímpares, como muito boa gente.
O que se passou a seguir deve ter acontecido devido à quadrícula. Não havia nenhuma outra explicação. Começou por desenhar uns bonecos até ter a ideia para uma peça encomendada. De repente, os bonecos tomaram vida própria e, para seu espanto, começaram a tentar saír da folha.
Mas a quadrícula, tal e qual as grades de uma prisão, não permitiam tal liberdade. O homem pensou e saíu à rua desesperado para tentar comprar uma sebenta de páginas lisas. Após horas, lá conseguiu encontrar uma e correu para casa. Juntou as duas e desenhou um caminho na primeira com uma saída para a folha lisa da nova sebenta. Uns instantes depois, os bonecos conseguiram saír da sua prisão. Estavam finalmente livres e com espaço para viver e respirar.
O homem ficou aliviado. Olhou para a sua casa e imaginou-a como uma quadrícula. Percebeu finalmente que estava numa prisão. A sua prisão. Decidiu vendê-la e quando o conseguiu, agarrou em algumas tralhas e guardou-as em casa de amigos. Com uma mochila, alguma roupa e várias sebentas novas, decidiu apanhar um comboio. O destino não era importante. Ele sabia que tudo iria dar certo outra vez.
Passado um ano escreveu aos seus amigos. Estava longe, num continente afastado. Estava a fazer o que mais gostava outra vez. E tudo era perfeito… como uma quadrícula.
prisão
Esta é a aventura de um homem que perdeu quase tudo na vida. Só restava a imaginação e mesmo essa falhava de vez em quando. Escrevia peças sobre variados temas para publicações que lhe permitiam pagar as contas e alguns, raros, mimos pessoais. Escrevia tudo em pequenas sebentas de folhas lisas e já tinha uma colecção grande delas. Estavam arrumadas por ordem numa pequena gaveta, longe do pó e de olhares curiosos.
Houve um dia em que teve que comprar uma nova sebenta mas, por qualquer motivo, as suas preferidas, lisas, estavam esgotadas em todo o lado. Teve que contentar-se com uma quadriculada o que lhe causava uma certa confusão.
Abriu-a na primeira página ímpar onde escreveu os seus dados pessoais, passando depois para a seguinte ímpar. Só escrevia nas ímpares, como muito boa gente.
O que se passou a seguir deve ter acontecido devido à quadrícula. Não havia nenhuma outra explicação. Começou por desenhar uns bonecos até ter a ideia para uma peça encomendada. De repente, os bonecos tomaram vida própria e, para seu espanto, começaram a tentar saír da folha.
Mas a quadrícula, tal e qual as grades de uma prisão, não permitiam tal liberdade. O homem pensou e saíu à rua desesperado para tentar comprar uma sebenta de páginas lisas. Após horas, lá conseguiu encontrar uma e correu para casa. Juntou as duas e desenhou um caminho na primeira com uma saída para a folha lisa da nova sebenta. Uns instantes depois, os bonecos conseguiram saír da sua prisão. Estavam finalmente livres e com espaço para viver e respirar.
O homem ficou aliviado. Olhou para a sua casa e imaginou-a como uma quadrícula. Percebeu finalmente que estava numa prisão. A sua prisão. Decidiu vendê-la e quando o conseguiu, agarrou em algumas tralhas e guardou-as em casa de amigos. Com uma mochila, alguma roupa e várias sebentas novas, decidiu apanhar um comboio. O destino não era importante. Ele sabia que tudo iria dar certo outra vez.
Passado um ano escreveu aos seus amigos. Estava longe, num continente afastado. Estava a fazer o que mais gostava outra vez. E tudo era perfeito… como uma quadrícula.
























