03.31.08

aldeia

Posted in Uncategorized at 14:18 by crim3sp3rf3itos

X, quando era puto, ia à terra do seu pai com restante família. Havia o largo principal e todos os irmãos do meu pai tinham aí o seu casarão. Era um largo perfeito, maravilhoso, onde havia uma bica de água e onde eram realizadas as festas típicas. Havia um castelo em ruínas de que X se salvou por pouco não caindo no poço escondido pela vegetação. Havia um riacho transparente onde X e os primos apanhavam peixe com um pau e um fio, sem isco. Havia a matança do porco, havia as festas em torno dela, havia carroças que levavam o proveito da vindima e em que X mais um primo se empoleiravam a comer uvas. Toneladas de uvas. Havia burros e lagares.
A aventura de X tem a ver com um desses burros. Havia o mais velho, lento, cansado e grande e o mais novo, mais pequeno e muito rápido. Era nesse que as boas gentes da terra montavam X, enquanto o velho, coitado, lá ia levando com carregos em cima. Num desses dias, o burro mais novo assustou-se com qualquer coisa e largou a correr pela estrada de pó. X ia montado nele, todo contente e vaidoso. Parecia um nobre cavaleiro e ria-se até à exaustão com a adrenalina que até aí era desconhecida para ele. O problema é que o burro não parava e fugiu para longe.
Sempre disseram a X que os burros só sabiam um caminho que era o para casa. Ora o burro estava cansado, a noite surgia e X começava a ficar ora assustado, ora com fome.
Finalmente o burro lá se decidiu tomar o caminho de volta e, na memória de X, passaram horas até que ele entrasse na terra e fosse comer ao seu manjedouro. X, aliviado, nem notou que a aldeia estava vazia, pois toda a gente tinha ido em busca dele próprio. Foi para dentro dessa cozinha, viu leite e queijo e bebeu e comeu.
Depois desceu a ladeira que o levava para casa e, mal sabia ele, para a cama durante uns três dias devido a febres altas e outras coisas que o leite de cabra e o queijo foram os responsáveis.
X não sabe porque se lembrou disto. Talvez seja das uvas que está a comer. Ou talvez porque está a ficar menos jovem.

03.30.08

invisível

Posted in Uncategorized at 14:50 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de W, um homem que sempre foi fascinado pela imagem, tanto animada como retratada. W tinha algumas posses desde pequeno e comprava sempre a última camcorder ou a mais recente camara fotográfica. Em todas as festas era ele quem filmava. Em todos os locais era ele quem fotografava. Tinha centenas de horas gravadas com amigos, trabalhos profissionais e até alguns esboços para filmes. As gavetas cheias com rolos de 35mm, polaroids e cartões de memória.
W tinha agora uma idade já avançada e sabia que não duraria muito mais tempo. Portanto, lembrou-se de organizar todo o seu espólio imagético e fazer um album com a vida dele. Começou nas primeiras coisas e reparou que não aparecia em nehuma foto e em nenhuma filmagem. Foi procurando durante dias, mas nada. W pura e simplesmente não existia.
Para um homem que adorava imagens, o choque foi profundo. W não tinha imagem, não existia e, por conseguinte, a imagem da sua pessoa depressa seria esquecida.
W ficou triste, mas já não havia nada a fazer. Reuniu albuns com as imagens dos amigos e enviou-os pelo correio como oferendas.
Depois fechou os olhos para descansar, mas nunca mais acordou.
No seu velório, todos os amigos apareceram e, por incrível que pareça, todos tinham fotografias e imagens com ele, tiradas por outras máquinas que estavam no mesmo grupo. Depositaram tudo ao lado dele, dentro do caixão.
W ficaria feliz se as visse.

03.28.08

hipnose

Posted in Uncategorized at 13:54 by crim3sp3rf3itos

X hipnotizou-se a ele próprio, com a ajuda do espelho do quarto de banho. Fez regressão, entrou na barriga da mãe, foi feito antes de ter morrido de velho aos 80 anos.
X tinha sido antes de X um homem daqueles que andava com o cinema às costas, numa velha carrinha e que ia a todas as aldeias mais isoladas de Portugal. Era uma festa quando isso acontecia e todas as aldeias esperavam-no ansiosamente quando chegava o Verão.
X fez mais uma regressão e descobriu que tinha sido um piloto que integrou as forças aliadas na primeira grande guerra. A vida dele foi curta, pois foi abatido pelo Barão Vermelho. Tinha 22 anos.
Mais uma regressão e percebeu que tinha andado ao lado de reis nas grandes conquistas da nossa terra. Também morreu jovem, mas naquela altura todos morriam cedo.
Mas o que X percebeu é que tinha tido um filho nessa época. Bolas, um filho…. quem será depois de todas as reencarnações até hoje?
X acordou da sua hipnose e ficou a pensar no assunto. Sorriu e percebeu que sempre achou que alguém o acompanhava. Nunca tinha entendido esse sentimento até hoje. E foi bom.

03.27.08

chave

Posted in Uncategorized at 13:52 by crim3sp3rf3itos

Certo dia, X ia a passar quando tropeçou num enorme chaveiro. Olhou para todo o lado mas não havia vivalma. Agarrou-o e contou 69 chaves, todas de diferentes tamanhos, feitios e cores.
Chegado a casa, tentou abrir a porta com uma delas. E conseguiu. Ficou perplexo e foi abrindo todas as portas de casa com chaves diversas. Cada vez mais preocupado, foi a casa de amigos e amigas. Todas as portas, todos os armários, todos os cofres, tudo era aberto com uma qualquer chave.
“Que raio” pensou a caminho de casa outra vez.
À porta do seu prédio esperava-o um velhote desgrenhado e com uma longa barba branca. Ao ver o molho de chaves suspirou de alívio e explicou a X que lhe pertenciam. X não queria acreditar e agora que sabia o poder das chaves não as iria entregar de mão beijada.
E foi aí que o velhote abriu o casaco. No interior deste estavam inúmeros chaveiros com imensas chaves. Havia um espaço vazio e o velhote apontou para ele “deixei-as caír por acidente e só reparei nisso quando cheguei lá acima”. X percebeu então quem era o velhote e perguntou que portas abriam todas as outras chaves. “Estas são para os sentimentos humanos, estas são para as portas do tempo, estas são para viagens para outras dimensões e as restantes abrem as portas de outros mundos” respondeu o velhote.
X ainda estava relutante, mas acabou por entregar o molho ao velhote. Este, sempre simpático, colocou-as no espaço vazio e tirou uma, a sexagésima nona. Ofereceu-a a X e disse “Com esta abres a porta para o teu coração. Quando chegar a hora, pensa nisso e anda sempre com ela, pois nunca se sabe o que poderá acontecer hoje ou daqui a 10 anos”.
Com um sorriso, o velhote despediu-se de X e continuou o caminho.
X está agora a olhar para a chave e a contar os dias.

03.26.08

trabalho

Posted in Uncategorized at 13:14 by crim3sp3rf3itos

L é um homem que perdeu o emprego, onde até ganhava mais ou menos o que os arrumadores ganham, ou seja, cerca de 1000€ limpos por mês. Como L também era “limpo”, o dinheiro chegava para viver naturalmente. Mas agora via-se desempregado e sem grandes expectativas.
Tentou ir ao gabinete do Sócrates para pedir um dos tais 150.000 postos de trabalho, mas nem conseguiu passar do porteiro.
Ora, enquanto isso, os portugueses já estavam habituados a não poder fumar em restaurantes. E o que L percebeu foi que a maior parte deles deixavam os seus pertences todos na mesa enquanto iam dar uma fumarada à porta dos estabelecimentos.
O que L fez foi comprar umas calças pretas e uma camisa branca. Dependendo dos tascos, juntava uma laço ou um avental. E esperava pacientemente numa mesa comendo uma sopa e sorvendo uma meia de tinto.
Depois era só atacar os bolsos dos casacos. Os telemóveis então, era uma facilidade pois estavam em cima das mesas. Como o confundiam como empregado, ninguém o olhava ou seguia os movimentos. Com a sua maleta cheia, pagava a sopa e o tinto e saia calmamente.
Mas L era de boas familias e, no dia seguinte, ia sempre depositar as carteiras, já sem o recheio, na gaveta dos CTT do respectivo tasco em que tinha trabalhado na noite anterior.

03.25.08

desencontro

Posted in Uncategorized at 15:35 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um casal suis-generis. Cada um vivia na sua casa a uns bairros de distância. Decidiram assim porque prezavam a sua independência, contudo a paixão era grande e os encontros, ora na casa de um ora na do outro, eram escaldantes.
A vida corria assim até um dia em que tudo foi estranho.
Ele estava com saudades e foi a casa dela. Ela estava com saudades e foi a casa dele.
Cada um esperou umas horas e regressaram às suas casas exactamente ao mesmo tempo. Nenhum usava telefone, nem fixo nem móvel, pois gostavam da sua independência e não queriam ser molestados. Nesse dia não falaram. Mas no seguinte, cada um fez o mesmo percurso e esperou as mesmas horas à entrada das casas.
Passou uma semana e a dúvida instalou-se: será que o amor tinha terminado, será que havia alguém novo?
Durante o fim de semana, tanto ele como ela optaram por ficar em casa até que o outro aparecesse.
Nunca mais se encontraram.

03.24.08

paranóia

Posted in Uncategorized at 13:23 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura entre um rapaz e uma rapariga. Ambos tinham corpos perfeitos, belos e com proporções ideiais, mas bastou alguém mais magro apontar umas gorduras localizadas para eles entrarem em pânico. Fizeram um acordo secreto e lacraram-no com o próprio sangue. O objectivo era perder peso, muito peso. A luta começou contra a alimentação e quanto menos comiam mais acreditavam estar gordos.
Passados uns meses já pais, amigos e colegas sabiam o que se estava a passar. Tentaram em vão chamá-los à razão, primeiro com conversas depois com especialistas.
Os dois jovens queixavam-se que estavam muito gordos e que os seus 50 e 39 kgs eram horrorosos. Nem queriam ir à rua com vergonha de serem apontados e gozados.
Surgiram médicos especialistas, ginásios preparados, nutricionistas e demais conselheiros.
Os jovens fugiram de casa, crendo que estavam a ser alvo de estudos governamentais. A paranóia ia subindo, o descernimento já não existia.
Passado um ano, os jovens desapareceram. Mas ainda estavam bem vivos, só que eram tão magros como um risco e ninguém os conseguia ver.
As buscas cessaram. Os pais choraram. E o casal continuou a achar-se gordo.

03.23.08

destinos

Posted in Uncategorized at 19:39 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que tem azar ao amor. Luta com todas as suas forças, mas a timidez prejudica-o sempre. Quando ele pensa que o caminho está traçado e que o pulo final será dado com segurança, descobre com o ramo de flores na mão que o seu lugar já foi preenchido. E não se julgue que as donzelas o renegavam… pura e simplesmente não queriam perder mais tempo que o necessário. E tantas vezes ficou ele com as flores murchas na mão.
Esse homem tem amigos que o incentivam, que lhe explicam e ensinam as melhores tácticas de ataque. Mas a timidez faz com que falhe. Ou pior, que nem tente.
Passado uns tempos e num repente, o homem tentou marcar o telefone de uma prostituta fina. Nessa tarde, vestiu-se o melhor que podia, perfurmou-se e tocou à porta da gentil e prestável rapariga. Já no sofá, sentou-se para assistir a um glorificante strip. Com vara e tudo. Alguns minutos passaram até que a rapariga o começou a tocar. Aí ele não aguentou, deixou o dinheiro na mesinha ao lado do sofá e sumiu do apartamento. Infelizmente, o dinheiro estava dentro da carteira e com todos os seus documentos.
A rapariga, perfeita de corpo e cara, com um cérebro a condizer, ficou admirada. E embirrenta.
Nunca nenhum homem lhe tinha fujido e este não seria o único.
Agarrou no cartão pessoal e telefonou. Ele atendeu e ficaram a falar horas.
O casamento deu-se num dia de Abril com muita chuva.

03.21.08

futuro

Posted in Uncategorized at 15:29 by crim3sp3rf3itos

Hoje X ao levantar-se deu um pulo enorme em direcção à porta do quarto. Naturalmente, estampou-se a meio do caminho. Ainda sem saber o que se passava, atira-se contra a porta fechada, o que fez com que o nariz sangrasse e, devido a segunda queda redonda, magoasse o cóxix. Ainda desorientado entrou a cambalear no WC. Meteu-se na banheira e esperou pela grande cascata que o lavaria num ápice. Mas nada de água límpida e fresca. Decidiu então abrir as torneiras. Pronto, banho tomado. Depois colocou-se por baixo do candeeiro que nestas alturas é um aspirador de enorme potência que limpa e seca X em 3 segundos. Nada de nada, o candeeiro só dava mesmo era luz. Depois de se limpar, andou à procura do fato de peça única, feito com materiais electrónicos e repelentes. Não o encontrando, vestiu uma t-shirt e uns jeans.
X estava demasiado confuso… o que se estaria a passar? Com mais um esforço de enorme concentração, tentou teletransportar-se para o café do bairro. Nada, apenas uma enorme dor de cabeça e o nariz novamente a pingar sangue.
X sentou-se na sala, pensando muito bem no que não estava a acontecer. E de repente, tudo veio à cabeça: tinha sonhado que era um homem do futuro com os poderes normais dos homens do futuro. Gritou uma data de asneirada porque tudo nesta época dá um trabalho danado.

futuro

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Hoje X ao levantar-se deu um pulo enorme em direcção à porta do quarto. Naturalmente, estampou-se a meio do caminho. Ainda sem saber o que se passava, atira-se contra a porta fechada, o que fez com que o nariz sangrasse e, devido a segunda queda redonda, magoasse o cóxix. Ainda desorientado entrou a cambalear no WC. Meteu-se na banheira e esperou pela grande cascata que o lavaria num ápice. Mas nada de água límpida e fresca. Decidiu então abrir as torneiras. Pronto, banho tomado. Depois colocou-se por baixo do candeeiro que nestas alturas é um aspirador de enorme potência que limpa e seca X em 3 segundos. Nada de nada, o candeeiro só dava mesmo era luz. Depois de se limpar, andou à procura do fato de peça única, feito com materiais electrónicos e repelentes. Não o encontrando, vestiu uma t-shirt e uns jeans.
X estava demasiado confuso… o que se estaria a passar? Com mais um esforço de enorme concentração, tentou teletransportar-se para o café do bairro. Nada, apenas uma enorme dor de cabeça e o nariz novamente a pingar sangue.
X sentou-se na sala, pensando muito bem no que não estava a acontecer. E de repente, tudo veio à cabeça: tinha sonhado que era um homem do futuro com os poderes normais dos homens do futuro. Gritou uma data de asneirada porque tudo nesta época dá um trabalho danado.

03.20.08

memória

Posted in Uncategorized at 13:04 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um rapaz cuja memória pregava-lhe algumas partidas. Era uma memória selectiva, pensava por ela própria e memorizava o que lhe interessava e apetecia, deixando de fora todas as outras, quiçá as mais importantes.
Foi devido a ela que o rapaz perdeu amigos, namoradas e, inclusivé, uma noiva, pois pura e simplesmente nada lhe vinha à cabeça.
Até que houve um dia que decidiu tomar comprimidos para melhorar a situação. A memória, por sua vez, erguia grandes obstáculos contra as drogas, mas de vez em quando, lá entrava uma mais importante.
A luta era constante, mas os medicamentos conseguiam ganhar algum terreno. O rapaz começou a telefonar nos dias de anos dos amigos, ir a reuniões marcadas e fazer bem o trabalho que deixava sempre para amanhã.
Com sorte, conheceu uma bela jovem. Conversaram muito, trocaram contactos e as coisas corriam bem.
O problema aconteceu quando o telemóvel do rapaz teve uma avaria. Perdeu a memória interna e apagou os números que foram guardados mais recentemente, inclusivé o da jovem.
Mas a sua memória, que lhe tinha feito a vida num oito, teve pena do rapaz e deu-lhe o nº de telefone da sua nova amiga.
E foi assim que o futuro teve um final feliz.

memória

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Esta é a aventura de um rapaz cuja memória pregava-lhe algumas partidas. Era uma memória selectiva, pensava por ela própria e memorizava o que lhe interessava e apetecia, deixando de fora todas as outras, quiçá as mais importantes.
Foi devido a ela que o rapaz perdeu amigos, namoradas e, inclusivé, uma noiva, pois pura e simplesmente nada lhe vinha à cabeça.
Até que houve um dia que decidiu tomar comprimidos para melhorar a situação. A memória, por sua vez, erguia grandes obstáculos contra as drogas, mas de vez em quando, lá entrava uma mais importante.
A luta era constante, mas os medicamentos conseguiam ganhar algum terreno. O rapaz começou a telefonar nos dias de anos dos amigos, ir a reuniões marcadas e fazer bem o trabalho que deixava sempre para amanhã.
Com sorte, conheceu uma bela jovem. Conversaram muito, trocaram contactos e as coisas corriam bem.
O problema aconteceu quando o telemóvel do rapaz teve uma avaria. Perdeu a memória interna e apagou os números que foram guardados mais recentemente, inclusivé o da jovem.
Mas a sua memória, que lhe tinha feito a vida num oito, teve pena do rapaz e deu-lhe o nº de telefone da sua nova amiga.
E foi assim que o futuro teve um final feliz.

03.18.08

esperança

Posted in Uncategorized at 12:56 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um homem que acreditava na alma gémea. Decidiu desde novo encontrá-la, mudando de cidade, emprego e trabalho. Enganou-se algumas vezes, acreditando que as mulheres com que viveu o eram. Mas passados uns tempos, percebia que não. Contudo, cada nova partida era cheia de coragem, como se fosse virgem. Mudou de países, aprendeu outros idiomas, aventurou-se com outras cores, mas nada. Os anos passavam e ele estava a ficar velho. Já não tinha tanta esperança de encontrar a sua alma gémea. Decidiu tentar ainda mais uma vez. Mudou de casa, profissão e cidade, acabando num país longínquo do seu. Mas nada.
Desistiu da perseguição aos 70 anos. Para ele, já não era idade para namorar, mas sim para preparar a sua partida.
Num desses dias apanhou uma valente gripe e teve que ser internado no hospital de uma grande cidade. O seu estado piorou, mas houve uma enfermeira que sempre acreditou na sua cura e restabelecimento. Nunca o deixou e quando ele abriu os olhos, sorriu. Sorriu prolongadamente com lágrimas de felicidade. A enfermeira deu-lhe a sua mão antes de começar também ela… a sorrir.

esperança

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Esta é a aventura de um homem que acreditava na alma gémea. Decidiu desde novo encontrá-la, mudando de cidade, emprego e trabalho. Enganou-se algumas vezes, acreditando que as mulheres com que viveu o eram. Mas passados uns tempos, percebia que não. Contudo, cada nova partida era cheia de coragem, como se fosse virgem. Mudou de países, aprendeu outros idiomas, aventurou-se com outras cores, mas nada. Os anos passavam e ele estava a ficar velho. Já não tinha tanta esperança de encontrar a sua alma gémea. Decidiu tentar ainda mais uma vez. Mudou de casa, profissão e cidade, acabando num país longínquo do seu. Mas nada.
Desistiu da perseguição aos 70 anos. Para ele, já não era idade para namorar, mas sim para preparar a sua partida.
Num desses dias apanhou uma valente gripe e teve que ser internado no hospital de uma grande cidade. O seu estado piorou, mas houve uma enfermeira que sempre acreditou na sua cura e restabelecimento. Nunca o deixou e quando ele abriu os olhos, sorriu. Sorriu prolongadamente com lágrimas de felicidade. A enfermeira deu-lhe a sua mão antes de começar também ela… a sorrir.

03.17.08

Acordem

Posted in Uncategorized at 11:48 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um rapaz a quem deram uma viola no aniversário. A sua felicidade foi notória assim como o seu desaparecimento, ou seja, fechou-se no quarto horas a fio. Diariamente esquecia-se das refeições e nem a mãe tinha esperanças que ele comesse se o prato lhe fosse dado no quarto.
O pai culpou-se de ter dado a prenda ao filho, mas os amigos que lá iam beber um copo ou jantar, silenciavam-se para ouvir a já extrema técnica do rapaz, mesmo com o som abafado pelas portas fechadas.
Nos anos vindouros, o rapaz emagreceu e deixou que o cabelo lhe caísse já pelas costas. O aspecto não era grosseiro, pois ele tinha feições bonitas, mas já parecia uma daquelas estrelas de rock que animam as plateias quando mexem a cabeça ao ritmo da batida.
Entretanto, o rapaz tinha poupado todas as mesadas que lhe eram dadas e o total dava para comprar uma guitarra eléctrica e um amplificador. Os sons e melodia suaves deram então lugar a virtuosos solos. A guitarra chorava, gania, gritava e acompanhava os discos que o rapaz ia colocando para tocar por cima.
Os pais, rendidos, propuseram-lhe a ida a um concurso de novos talentos, o que aconteceu e onde a plateia e o júri ficaram silenciados com tamanha genialidade. As palmas começaram tardiamente e solitárias, até se transformarem numa ovação de muitos minutos.
Os convites de bandas e novas bandas surgiram às dezenas, toda a gente queria trabalhar com o rapaz. Mas este só queria tocar a sua guitarra dentro do seu próprio mundo e cabeça.
Por fim, aceitou gravar um disco numa grande editora que foi distribuído por todo o mundo e que vendeu milhões.
O rapaz estava rico. Muito rico.
Finalmente os pais conseguiram entrar no seu quarto para saber o que ele iria fazer com tanto dinheiro. Após pensar um pouco, respondeu que queria que os pais deixassem de trabalhar e que abrissem uma loja no bairro de instrumentos musicais. Os pais até acharam uma boa ideia, money makes money, tal e coiso. Mas o rapaz disse que não era para vender instrumentos, mas sim para dá-los a quem entrasse e mostrasse um interesse enorme por uma guitarra, um piano, um violino ou uma flauta.
Anos depois, alguns rapazes e raparigas que obtiveram o seu instrumento nesta loja, conheceram também a riqueza e o génio.
E também eles abriram lojas, estúdios, escolas, teatros e agências de management.
A cidade mudou para melhor, os direitos recebidos criavam novos hospitais e campos universitários.
Até que aconteceu a desgraça. O rapaz, num dos seus mais fantásticos solos, rebentou uma corda. No meio de tanta genialidade ele não sabia mudar as cordas da guitarra.
E nunca mais tocou.

Acordem

Posted in Uncategorized at 11:48 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um rapaz a quem deram uma viola no aniversário. A sua felicidade foi notória assim como o seu desaparecimento, ou seja, fechou-se no quarto horas a fio. Diariamente esquecia-se das refeições e nem a mãe tinha esperanças que ele comesse se o prato lhe fosse dado no quarto.
O pai culpou-se de ter dado a prenda ao filho, mas os amigos que lá iam beber um copo ou jantar, silenciavam-se para ouvir a já extrema técnica do rapaz, mesmo com o som abafado pelas portas fechadas.
Nos anos vindouros, o rapaz emagreceu e deixou que o cabelo lhe caísse já pelas costas. O aspecto não era grosseiro, pois ele tinha feições bonitas, mas já parecia uma daquelas estrelas de rock que animam as plateias quando mexem a cabeça ao ritmo da batida.
Entretanto, o rapaz tinha poupado todas as mesadas que lhe eram dadas e o total dava para comprar uma guitarra eléctrica e um amplificador. Os sons e melodia suaves deram então lugar a virtuosos solos. A guitarra chorava, gania, gritava e acompanhava os discos que o rapaz ia colocando para tocar por cima.
Os pais, rendidos, propuseram-lhe a ida a um concurso de novos talentos, o que aconteceu e onde a plateia e o júri ficaram silenciados com tamanha genialidade. As palmas começaram tardiamente e solitárias, até se transformarem numa ovação de muitos minutos.
Os convites de bandas e novas bandas surgiram às dezenas, toda a gente queria trabalhar com o rapaz. Mas este só queria tocar a sua guitarra dentro do seu próprio mundo e cabeça.
Por fim, aceitou gravar um disco numa grande editora que foi distribuído por todo o mundo e que vendeu milhões.
O rapaz estava rico. Muito rico.
Finalmente os pais conseguiram entrar no seu quarto para saber o que ele iria fazer com tanto dinheiro. Após pensar um pouco, respondeu que queria que os pais deixassem de trabalhar e que abrissem uma loja no bairro de instrumentos musicais. Os pais até acharam uma boa ideia, money makes money, tal e coiso. Mas o rapaz disse que não era para vender instrumentos, mas sim para dá-los a quem entrasse e mostrasse um interesse enorme por uma guitarra, um piano, um violino ou uma flauta.
Anos depois, alguns rapazes e raparigas que obtiveram o seu instrumento nesta loja, conheceram também a riqueza e o génio.
E também eles abriram lojas, estúdios, escolas, teatros e agências de management.
A cidade mudou para melhor, os direitos recebidos criavam novos hospitais e campos universitários.
Até que aconteceu a desgraça. O rapaz, num dos seus mais fantásticos solos, rebentou uma corda. No meio de tanta genialidade ele não sabia mudar as cordas da guitarra.
E nunca mais tocou.

03.16.08

sexsells

Posted in Uncategorized at 02:00 by crim3sp3rf3itos

Um amigo de X alertou-o para o facto de haver sites online com raparigas tipo prostitutas que vendem o corpo tal e qual como se fazia antigamente nas maquinetas ali para os lados do Coliseu.
O que é engraçado é que X fez, para o jornal de um liceu (o gande PAV) uma matéria sobre o assunto. E duas décadas depois vê-se envolvido exactamente no mesmo esquema, mas… digital.
O nome do site(s) não é para aqui chamado, mas é fabuloso meter conversa com um dos vários tipos de raparigas inseridas por pele, cor, região ou interesses.
Ora X, na sua profundeza e humildade, decidiu recuperar esse endereço, pois tinha-o guardado nos favoritos. Agora já há teenagers. É verdade. Miúdas da idade das filhas das minhas amigas que progenitaram mais cedo.
O que é que um homem faz então num sítio destes?
Mete conversa e do administrador recebe uma mensagem da donzela que diz que este fulano é um cromo, um virgem, bom para ganhar guito.
Então o homem, neste caso X, desiste. Mas a perturbação de tal realidade e crueza de sentimentos faz pensar. E muito.

sexsells

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Um amigo de X alertou-o para o facto de haver sites online com raparigas tipo prostitutas que vendem o corpo tal e qual como se fazia antigamente nas maquinetas ali para os lados do Coliseu.
O que é engraçado é que X fez, para o jornal de um liceu (o gande PAV) uma matéria sobre o assunto. E duas décadas depois vê-se envolvido exactamente no mesmo esquema, mas… digital.
O nome do site(s) não é para aqui chamado, mas é fabuloso meter conversa com um dos vários tipos de raparigas inseridas por pele, cor, região ou interesses.
Ora X, na sua profundeza e humildade, decidiu recuperar esse endereço, pois tinha-o guardado nos favoritos. Agora já há teenagers. É verdade. Miúdas da idade das filhas das minhas amigas que progenitaram mais cedo.
O que é que um homem faz então num sítio destes?
Mete conversa e do administrador recebe uma mensagem da donzela que diz que este fulano é um cromo, um virgem, bom para ganhar guito.
Então o homem, neste caso X, desiste. Mas a perturbação de tal realidade e crueza de sentimentos faz pensar. E muito.

03.15.08

frankenX

Posted in Uncategorized at 14:53 by crim3sp3rf3itos

X replicou-se na máquina que inventou e em que trabalhou estes últimos anos. O novo X, X2, seria um X limpo de vícios, como o alcoól, tabaco e outras misturas, seria mais magro que X devido a esse comportamento, o que lhe permitia vestir os fatos que X comprou anos atrás sem saber muito bem porquê.
De manhã, X levou X2 a comprar os jornais e a escolher as ofertas de emprego. Como X2 nunca tinha existido, foi fácil fabricar-lhe os documentos, entre eles vários canudos, MBAs e etc.
Passadas umas semanas, a subida vertiginosa de X2 numa empresa fez com que esta comprasse outras, em dumpings sucessivos e arrasadores. A bolsa reflectiu esta desordem e instalou-se o pânico. À noite, X2 vinha para o laboratório de X onde lhe eram injectadas novas memórias e os conhecimentos necessários para continuar o seu belo trabalho.
Eram a equipa perfeita.
O problema foi quando X arranjou namorada nova e X2 não entendia certos tipos de comportamentos, o suar, o gemer e todos os demais.
Como já tinha inteligência própria, procurava durante a noite todo este novo mundo e, durante dias só pensava nisso. As suas conquistas e êxitos profissionais abrandaram, os restantes empresários suspiraram de alívio, a bolsa conseguiu manter alguma sanidade.
Num dia, X2 disse a X que queria também uma namorada, o que apanhou de surpresa e perturbou X.
X sabia que X2 não saberia interpretar os gestos, olhares, comportamentos e disfunções mensais femininas. Mas X2 exigiu.
X foi ter com a sua namorada e explicou-lhe o que estava a acontecer. A princípio ela não acreditou na história, mas já tinha ouvido falar de um certo empresário que tomou o mercado de rompante. X apresentou-lhe o seu clone e ia perguntar-lhe se ela permitiria ser clonada quando, de repente, viu-a a atirar-se para os braços de X2.
Ao fim e ao cabo, X2 era a versão perfeita de X…

frankenX

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X replicou-se na máquina que inventou e em que trabalhou estes últimos anos. O novo X, X2, seria um X limpo de vícios, como o alcoól, tabaco e outras misturas, seria mais magro que X devido a esse comportamento, o que lhe permitia vestir os fatos que X comprou anos atrás sem saber muito bem porquê.
De manhã, X levou X2 a comprar os jornais e a escolher as ofertas de emprego. Como X2 nunca tinha existido, foi fácil fabricar-lhe os documentos, entre eles vários canudos, MBAs e etc.
Passadas umas semanas, a subida vertiginosa de X2 numa empresa fez com que esta comprasse outras, em dumpings sucessivos e arrasadores. A bolsa reflectiu esta desordem e instalou-se o pânico. À noite, X2 vinha para o laboratório de X onde lhe eram injectadas novas memórias e os conhecimentos necessários para continuar o seu belo trabalho.
Eram a equipa perfeita.
O problema foi quando X arranjou namorada nova e X2 não entendia certos tipos de comportamentos, o suar, o gemer e todos os demais.
Como já tinha inteligência própria, procurava durante a noite todo este novo mundo e, durante dias só pensava nisso. As suas conquistas e êxitos profissionais abrandaram, os restantes empresários suspiraram de alívio, a bolsa conseguiu manter alguma sanidade.
Num dia, X2 disse a X que queria também uma namorada, o que apanhou de surpresa e perturbou X.
X sabia que X2 não saberia interpretar os gestos, olhares, comportamentos e disfunções mensais femininas. Mas X2 exigiu.
X foi ter com a sua namorada e explicou-lhe o que estava a acontecer. A princípio ela não acreditou na história, mas já tinha ouvido falar de um certo empresário que tomou o mercado de rompante. X apresentou-lhe o seu clone e ia perguntar-lhe se ela permitiria ser clonada quando, de repente, viu-a a atirar-se para os braços de X2.
Ao fim e ao cabo, X2 era a versão perfeita de X…

03.14.08

entas

Posted in Uncategorized at 00:59 by crim3sp3rf3itos

X é quarentão recente e fez tudo o que o livro dos quarentões recentes diz para fazer. Mudou de imagem, deixou crescer a barba três dias, o cabelo está um misto preto/branco (ironias do destino) o que lhe confere uma certa aura de galã ou sedutor, entenda-se por estes adjectivos aqueles que as mulheres utilizam, e só lhe falta fazer um certo número determinado de coisas para assumir o ser quarentão.
Ora um cabrio já o teve, era trintão. Dinheiro já o teve, era trintão. Mulheres, felizmente, sempre as teve. Homens não. Mas tem um cão, coisa que não existia quando era trintão.
Aqui coloca-se a dúvida: os novos 40 são os 30 de antigamente.
Ora excelente.
Mas, de repente, X percebeu que estava a viver os 50, pois tudo o que um novo quarentão faz, fez ele 10 anos antes.
E X ficou decepcionado. Muito decepcionado.
É que não conhece cinquentões para perguntar o que eles fariam se fossem os novos quarentões.

03.13.08

fora

Posted in Uncategorized at 22:21 by crim3sp3rf3itos

O mundo está louco. Há novos pecados mortais, o Ronaldo deixou crescer a carapinha, um buda qualquer foi preso por ter roubado 40 filmes triple X, perdemos um lugar qualquer na classificação futebolística lá para 2009/2010 e, no entretanto, Mr X deu a maior cambalhota que se pode dar, ao preferir a sessão nocturna e chata televisiva dos treinos de Fórmula 1, a uma conversa particularmente interessante com uma pessoa que vive a uns 350 kms.
O mundo está louco… mas o mundo é assim mesmo.

bairrismos

Posted in Uncategorized at 00:43 by crim3sp3rf3itos

X gosta de arte moderna e considera-se um naive (naiff). Por estas e outras, escreve em blogs, pinta uns quadros, faz umas músicas, ele sabe lá. Tudo o que vem à rede é peixe.
X gostava de continuar a elaborar a tese de um curso inexistente, com toda a sua produção em catadupa, de peças que com outro nome valeriam milhões…. ou até não.
Mas X tem que trabalhar mais! No ponto de secura, no ponto de viragem e até mesmo no famoso ponto G. Ora para X o G não é um ponto, mas sim uma força.
A força G!
Talvez seja por isso tão desesperante encontrar um ponto que é forte como uma fortaleza. Ou talvez não, pois depende muito do outro lado.
Hoje X começou a trabalhar numa nova área. Numa nova vida. E, quem sabe, num recomeço.
Está na hora. E vai com toda a força, G e H e T. As que forem necessárias.
O primeiro passo a tomar? Mudar de bairro.
Vamos a isso!

03.12.08

agradecimento

Posted in Uncategorized at 13:28 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um rapaz que só tinha mais este dia de vida. Na noite anterior tinha feito imensos planos, mas ao acordar achou-os fúteis e inúteis. Decidiu fazer as contas da sua vida, o que tinha conquistado, onde foi derrotado. Passou o dia inteiro nisto, com rapidez, cálculos e conclusões, a trabalhar sobre um sumário que era a sua existência. O resultado final era positivo, se bem que não por muito. Escreveu um longo email a todos os seus amigos onde se despedia e lhes pedia alguns favores e mudanças de atitude. Escreveu uma longa carta aos familiares, onde explicou porque não os tinha visto mais vezes. Foi directo, conciso e muito realista.
Enviou o mail, foi aos correios onde pagou os selos para o serviço, foi ao seu restaurante preferido e, ao chegar a casa, contemplou todos os objectos que possuia. Já tinha escrito uma lista, longa, onde escreveu para quem seriam. Depois, extenuado, deitou-se e esperou.
Ela apareceu pouco tempo depois. E ele agradeceu.

03.10.08

dormir

Posted in Uncategorized at 18:43 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um dorminhoco. Ele bem que queria acordar cedo e bem disposto, mas não conseguia. Foi a médicos, encheram-no de medicamentos mas mesmo assim, na manhã seguinte, os vários despertadores não o acordavam. Por vezes conseguiam-no, mas o dorminhoco virava-se para o lado e continuava a dormir. A família e os amigos estavam cada vez mais preocupados, pois isto começava a durar demasiado tempo. Arranjaram diversas formas para o tentar acordar, mas sempre em vão. Pediram explicações aos médicos, mas nem eles conseguiam explicar, aconselhando-lhes a psicoterapia regressiva ou mesmo hipnose. Tentaram a primeira sem sucesso, mas com a hipnose alcançaram algum sucesso. E foi nessas sessões, em que apanhavam o dorminhoco meio acordado que descobriram a razão de todo o seu sono: mais valia estar a dormir do que andar numa roda viva para chegar a lado nenhum.
A médica foi para o consultório e pouco tempo depois fechou-o. Ouvia-se roncar lá dentro, mas ninguém ousava abrir a porta. Da família e amigos nunca mais ninguém soube nada.

Musa

Posted in Uncategorized at 11:11 by crim3sp3rf3itos

Neste dia feio, tempestuoso, ela veio com a chuva. Era uma gota diferente das outras, mas que entrou em casa de X e se transformou numa pérola. Numa lindíssima mulher, fonte de vida.
X achou que estava a delirar ou ainda a sonhar, mas não. Ouviu uma voz quente e rouca e uma pergunta simples e objectiva: “O que vais fazer da tua vida?”. X não gosta desta pergunta, pois há outros que lha fazem. E não gosta porque quer fazer mais que uma coisa. Só não sabe como. Não sabe como ir buscar o resto das forças para ir à luta. E foi isso que respondeu.
A rapariga pediu a X que lhe inventasse um nome. Um nome só para ele e ela. Um nome que ficaria guardado para sempre nas suas almas. X demorou um bocado, mas escolheu Mar.
Mar disse então que seria a musa de X, uma nova, aquela que ele precisava e queria neste momento. E que só abandonaria a sua vida quando X terminasse uma das muitas coisas que quer e tem que fazer. Havia só uma questão: tudo aquilo que X fiizesse seria dela. A segunda versão de tudo o que era dela, seria para ele.
X percebeu então o porquê de ter uma nova musa. E escolheu uma gota do imenso mar das suas ideias. E começou.

03.07.08

paz

Posted in Uncategorized at 13:25 by crim3sp3rf3itos

X passeava no outro dia pelo maior jardim de Lisboa que curiosamente, a não ser as visitas de estudo, está sempre vazio. O jardim botânico é de uma magia singular e de uma paz avassaladora.
Num dos bancos de descanso estava um velhote sentado, enrrugado e encurvado. Na sua mão um passarinho chilreava. O velhote ia fazendo sinais com a cabeça. Nada de estranho, pensou X. Mas de repente, muitos pássaros se juntaram aos dois num estilo assembleia. X parou por uns instantes. Seria uma excelente foto, se houvesse camara. De repente, o velhote disse qualquer coisa e todos os pássaros foram embora. Era meio dia e X decidiu regressar no dia seguinte à mesma hora. Chegou um pouco atrasado, mas deu para ver os pássaros a largarem o velhote e ele a levantar-se para ir para aquilo que seria a sua vida. X no dia seguinte não falharia. Às 11h30 estava já lá. O velhote apareceu e sentou-se. O mesmo pássaro de sempre veio pousar na sua mão. Os outros depressa surgiram, mas desta vez eram muitos mais. O velhote parecia abatido e cansado. Neste dia, a reunião demorou bastante tempo mais. E outros pássaros pousaram nos ombros, na cabeça e nas pernas do velhote. Umas horas depois, ele levantou-se mas os pássaros ficaram ao pé do banco vendo-o a afastar-se. Por acaso encaminhou-se até ao banco onde X estava sentado. Parou, sorriu e disse “Jovem, já reparei que você tem boa alma pois percebeu o que se passava. Mas ainda não entendeu a verdadeira situação.” X ficou curioso, mas não abriu a boca fazendo força para que o velhote continuasse, o que aconteceu: “Jovem, estes pássaros foram os meus companheiros no final da minha vida. Amanhã escusa de vir até aqui, pois hoje foi a minha última vez.”
X Não conseguiu ficar calado e perguntou porquê. “Porque hoje vai ser o meu último dia nesta terra”. X ficou pouco à vontade. Afinal o velhote já estava senil. Ou não? Será que há qualquer coisa com os pássaros? O velhote, percebendo perfeitamente o que X pensava, disse-lhe: “Caro jovem, quando estiver nos seus últimos dias, venha até aqui conversar com os pássaros. Serão eles que o acalmarão e indicarão o caminho que deve seguir. Não falam com Deus, nada disso, mas voam mais alto que nós, têm mais liberdade que nós e sabem bem mais que nós. Há que ouvi-los.”
Com um Boa tarde, retomou o seu caminho, encurvado e cansado. Mas na sua face estava estampado um sorriso que nada nem ninguém iria conseguir tirar.

03.06.08

sonho

Posted in Uncategorized at 15:53 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um sonho. Durante a noite, o sonho saíu do corpo de quem sonhava e foi ver como o mundo era na realidade. O pior é que foi perseguido pelo pesadelo, que viu ali uma janela de oportunidade para ir aterrorizar esse mundo que o sonho visitava pela primeira vez.
Havia cerca de 100 metros de distância entre um e outro, numa esburacada e mal iluminada rua secundária. O sonho via oportunidades em tudo: ali naquele segundo andar vive a cara metade do corpo que o aloja, observava os casais a dormir e a fazer amor, deliciou-se com os cheiros dos restos do jantar e percebia, por um minuto, porque surgia tantas vezes quando o corpo que o continha estava menos preocupado. Mas o pesadelo vinha atrás, e a tal cara metade ia ser a pior dor de cabeça do corpo. Os casais gritavam discutiam, alguns dormiam em quartos separados e o cheiro dos restos era repugnante.
Chegava a madrugada e com ela a obrigação de retornarem e retomarem o seu lugar no corpo que era a sua vida.
No dia seguinte, depois de acordar, X não se lembrava de nada. Mas estava indeciso entre ficar alegre ou chateado. Tinha sido estranha toda a noite…

03.05.08

discussão

Posted in Uncategorized at 16:21 by crim3sp3rf3itos

Te quiero mucho. I love you forever. Je´taime beaucoup. Ich liebe dich.
Bom, na verdade, X andou a ouvir estas frases por todo o Chiado. Seria o perfume ou o seu belo cão? Seria a alma? A aura?
Ao telefone com uma amiga, ela respondeu “Aura. Tens qq coisa X, que mais ninguém tem. Só mesmo o teu amor, a tua cara metade te poderá responder na mesma moeda.” Mas onde ela está, questionei. “Algures mais perto e tão próximo que não a vejas. Andas com binóculos em vez de lupas”. X estremunhou e entristeceu. Realmente às vezes acontecem guerras e são proferidas frases que não são sentidas. E depois sofremos o dia inteiro, ou semanas, ou anos. Consome-nos, tira-nos a esperança, faz com que sejamos mais velhos num repente.
Mas a amiga, depois de uma longa pausa de X, confirmou “conheço-te bem demais e sei que não és estúpido”.
X desligou o telefone. Foi comprar um novo telemóvel para que todos os próximos contactos e mensagens tivessem um sabor novo. Mudou também de operadores de comunicação. Tudo seria perfeito. Uma mudança era o melhor pedido de perdão.
Eis que chega a noite. Eis que chega a pessoa amada, ainda triste com a discussão matinal.
X atirou-se aos braços sem pedir a obrigatória desculpa. X é homem, não percebe nada do coração das mulheres. E foi aí que deu mais uma barraca. O ser amado queria uma desculpa, não ser amado. Mas X amou. As forças do ser amado também ficaram menos fortes.
E toda a noite foi memorável.
Na manhã seguinte, olharam um para o outro e um recomeçou a discussão anterior.
Levou com uma almofada na cara e os dois riram-se. Deram 31 beijinhos.
Lá fora estava frio e sol, o melhor dos tempos para X.
Saíu de casa que nem um rei, como ontem tinha saído que nem uma migalha.

duplas

Posted in Uncategorized at 12:03 by crim3sp3rf3itos

X tem duas personalidades: a que manda abaixo e a entusiasta. É uma guerra sem quartel e nenhuma dá o braço a torcer. No outro dia, X teve que fazer uma coisa que nunca tinha feito, um trabalho técnico difícil e com um vocabulário quase desconhecido para ele. X tomou a decisão de antes de adormecer na véspera, tinha que encontrar um truque para prender a personalidade manda abaixo. Lembrou-se de prender um pé à cama, o que deu péssimo resultado. Depois atou uma guita ao dedo. Não satisfeito, colocou algumas armadilhas do quarto a todo o resto da casa. As que caçam ratos devem caçar a manda abaixo, pensou. Logicamente que no dia seguinte não se lembrava do que a guita lhe queria dizer e foi pisando todas as armadilhas. Ferido e com o orgulho em baixa, telefonou a pedir ajuda a uma amiga que tem o mesmo problema na vida. A amiga disse que tudo ia correr bem, visto que com tanta coisa, a força da personalidade manda abaixo estaria cansada e não deveria criar problemas durante o trabalho. De repente, o entusiasmo encheu X e foi assim que se deslocou para o trabalho. Tudo correu bem e o trabalho até foi apreciado pelos presentes. X ficou contente e a sua personalidade entusiasta estava cansada e feliz.
Quando chegou a casa, a personalidade manda abaixo já estava com as forças refeitas e chateada, muito chateada. Os planos para um jantar entre amigos foi cancelado um a um, X decidiu ficar sózinho e foi comprar comida. O supermercado estava fechado, os frangos assados tinham uma fila de uma hora, não tinha álcool em casa, nem uma lata de atum.
Foi ao restaurante do costume que estava cheio de crianças aos berros a fazer corridas por entre as mesas. Comeu, mas o prato não estava saboroso. Retornou a casa e combinou uma conversa séria entre as duas personalidades. Ainda estão os três a discutir.

03.04.08

suicidio

Posted in Uncategorized at 00:42 by crim3sp3rf3itos

X, na sua ânsia de não ficar velho para os tempos de hoje, quanto mais para os que vêm já aí, gosta de se informar diariamente. E não é à toa que gosta de filmes gore, maquiavélicos em que os orientais estão muito à nossa frente. Mas os Snuff movies é que lhe deram a volta e anda entretido a tentar descobrir e penetrar nesse mundo. Sem sucesso. Nos Snuffs a coisa até é fácil. Convida-se uma amiga, embebeda-se a amiga e depois de muito sexo, mata-se a amiga, com golpes lentos, loucos, sedentos e doentes. Tudo isto é filmado em video e rende milhões. Mas X não tem câmara de video. Nem garagem. Nem compartimento secreto. Nem cave. Portanto, não pode entrar no esquema. Depois, também de origem nipónica, ficou muito curioso com o suicidio em massa de gentalha que nem 18 anos tinha. Combinam o local/coval e matam-se. Em grupo, como em grupo pensavam. Uma ida a Tokyo é caríssima e Osaka não fica mais barato. Portanto, outra não possibilidade.
Só que, num repente, abre-se todo um mundo barato, quase de borla e aos dedos de semear. A net, os seus grupinhos, os seus segredos e as suas combinações. Até as revistas de cariz menos popular falam e alertam para o facto do suicídio netiano, ou seja, a maltex combina com os amigos, liga a webcam, mete os comprimidos e finnito. Tásse bem e props para kem fika.
Ora isto assim já é fácil.
X quer agora criar uma rede de amigos, secreta ou quase (que tem que surgir no noticiário) para combinar uma matança à antiga, digna de reis e cavaleiros, nobres e plebe. Toda uma batalha campal na net em que faremos história e ficaremos para a história.
Resta agora descobrir o que vamos conquistar.

Imaginem… imaginem….

03.03.08

casamento

Posted in Uncategorized at 13:25 by crim3sp3rf3itos

X foi convidado para um casamento, frete sempre assumido pela amizade, mas frete. Conhecia H desde os seus tenros anos, vizinhos de bairro e bola. Mas não fazia a mínima ideia de quem seria a bela noiva. E se viria de branco imaculado ou outra cor mais consentânea com a sua esperiência de vida. Ora chegado o dia anterior, os homens foram convidados para apanharem uma valente bebedeira enquanto as mulheres optaram por um clube de strip.
No dia seguinte nenhum homem atinava com o nó da gravata, peça indumentária ridícula e inútil, mas lá se encontraram todos, mais ou menos à mesma hora, numa capela pequenita.
Quando X viu a noiva, não escondeu um certo nervosismo. Tinha sido sua namorada anos antes. Assim como foi namorada de alguns amigos do bairro. Todos os mais íntimos não conseguiram disfarçar a sua comoção. É que a noiva M, de boa memória para todos, tinha acabado os romances quando os homens se apaixonavam. Dizia ela que não gostava de se sentir presa e abalava para outra alma com toda a força do mundo.
Hoje estava ali, no altar com um, mas ao alcance de todos.
X decidiu vir fumar um cigarro cá fora. E foi a meio dele que ouviu um turbilhão de vozes, gritos, cadeiras a arrastar e pessoas a saír.
Pensou num incêndio com as velas, o vestido da noiva a arder, mas não. O que tinha acontecido quando se fez a pergunta”se alguém tem algo contra que o diga agora ou se cale para sempre” foi digno de um filme. Todos os ex da noiva se levantaram em protesto, correram para o altar. Uns tentaram raptá-la, outros rasgavam o véu e a longa cauda do vestido. Amigos eram inimigos. E todos continuavam apaixonados por M.
X saiu sorrateiramente, meteu-se no carro e foi fumar um Monte Cristo 5 e beber um belo Jameson em jejum. Depois riu-se à gargalhada brindando a M que tanto lhe tinha dado numa certa altura da sua vida. É que ao contrário dos restantes, tinha sido M a apaixonar-se por X em vez do contrário. E mesmo assim foi ela que abalou.

03.02.08

Internet

Posted in Uncategorized at 18:11 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de uma senhora idosa que queria tirar um curso de internet daqueles para a terceira idade. O filho avisou-a para não o fazer, já que a senhora nem sabia diferenciar uma cassete VHS de um DVD. Mas ela insistiu e assim aconteceu. Como filho estremoso, comprou-lhe um laptop, de baixa gama e preço em conta. E todos os dias levava-a ao Centro da Junta de Freguesia onde, entre dominós e pilatos, estava um informático a dar aulas.
Na primeira semana o filho estranhou a ausência de comentários ou mesmo questões. Mas ao iniciar da segunda, a senhora começou a colocar dúvidas: “Mas ouve lá, quem é o dono da Internet?” Depois de uma explicação dos 0 aos 3 de idade, rematou “Mas ouve lá, quem é que tem esses servidores, é o tal de Gates?”. Ao fim do mês de curso, a senhora deveria estar apta a enfrentar o grande mundo da web. Telefonou para o filho e questionou-lhe: “Mas ouve lá, o que é que tenho que fazer para entrar na internet? Como? Olha lá, não me fales assim, eu já não tenho a mesma cabeça… Cabo de alimentação? Ah, sim, tenho aqui um cabo. Já está. Ligar o botão? Ó filho, tenho aqui tanto botão… Não me grites, não precisas de ficar assim. Olha, telefono-te amanhã”.

03.01.08

passeio

Posted in Uncategorized at 13:35 by crim3sp3rf3itos

Esta é a aventura de um rapaz a quem deram uma camara de video última geração e com todos os truques. O rapaz até que adorava cinema, mas não tinha nenhuma ideia para um argumento. Um dos dias em que filmava qualquer coisa, esqueceu-se de desligar o Rec enquanto andava pelas ruas à procura de qualquer coisa. Quando chegou a casa reparou que não tinha bateria e ligou a camara ao computador. Aí percebeu o que tinha filmado o chão e ficou fascinado com os passeios, os passos, as diferenças das sombras e do sol. Gostou de reparar nos outros sapatos que via e era interessante pensar no resto da pessoa. Quem seria, como seria, onde viveria. Agarrou no pouco dinheiro que tinha e fez-se à Europa. Filmou o chão e os passos em Londres, em Paris, em Madrid, em Barcelona, Milão, Viena, etc. Filmou até se acabar todo o dinheiro. Pediu ajuda monetária aos pais para o regresso a casa onde passou semanas a editar o que tinha filmado. Depois de finalizar o projecto, concorreu aos festivais portugueses onde foi vaiado. Mas depois, a cada festival estrangeiro a que ia, o sucesso era grande. E os prémios amontoaram-se. Ao contrário dos portugueses, os estrangeiros adoraram ver o que caracterizava as várias cidades. E tal como o autor, também gostavam de imaginar as pessoas que passavam calçadas na calçada.