02.29.08
ventania
X adora vento. Um forte e vigoroso vento. Daqueles que permitem que nos desloquemos para a frente, num ângulo que nos faria caír se não fosse essa força contrária.
Por isso é que escolheu morar no último andar de um prédio solto dos outros. Nos dias de ventania, tudo vibra, tudo treme.
Há uns tempos, o temporal foi tão grande que o prédio cortou as amarras do chão e começou a subir. Os vizinhos, alguns desesperados, vieram ter com X, ao último andar, pois ele era o timoneiro desta estranha carruagem. As discussões começaram. Com esta hipótese, poderíamos mudar o prédio de sítio ou de bairro. Uns novos ricos pediram Belém ou a Lapa, os mais antigos queriam um local perto do Santa Maria, os mais jovens, como X, até que mudariam para um local mais próximo da Senhora do Monte, não mudando tanto assim de bairro.
O prédio já estava bem alto e era necessária muita força no leme (os autocolismos viravam para a esquerda ou direita, dependendo da casa de banho) e os vizinhos corriam para uma ponta da casa se quisessem ir em frente ou para a outra em sentido contrário. Os primeiros momentos foram caóticos mas depois lá se decidiu dar uma volta pela cidade para descobrir um espaço escondido por uma qualquer fachada ou grupo de prédios. X foi para o computador e ligou-se ao Google Earth. Havia inúmeros espaços fantásticos para viver, mas tinhamos que ser rápidos, pois o vento abrandava. Mas as pessoas não chegavam a acordo.
Decidimos voltar para onde sempre estivémos para fazermos uma reunião extraordinária de condóminos e discutirmos com calma a possibilidade de localização, sem histerismos ou gritaria.
Assim o fizemos, numa segunda às 21 horas. A reunião terminou com uma votação secreta e o local foi definido.
Agora todos esperamos por um temporal igual ou mais forte que o outro.
02.28.08
tuppersex
O convite prometia festa rija. Sexual e sensual. Mais sexual que sensual. X recebeu o curioso papelucho só com um destino e o horário. Teria que comparecer acompanhado de uma dama. Eram as únicas regras. Depois todo um palavreado ousado, quase hardcore.
X teria alguém para convidar? Pensou em quem alinharia na brincadeira e de repente lembrou-se de Z. Combinaram ao telefone e ela ficou particularmente interessada, pois já tinha ouvido falar destas parties.
No dia lá se juntaram e seguiram para o destino, um velho palacete em Belém, iluminado por fogachos e algumas velas, indicando o caminho até à porta. X estava bastante nervoso. Z estava delirante. À porta foram recebidos por uma jovem muito bela vestida de napa. Tinha uma mascarilha. X ficou mais nervoso, Z estava em pulgas, atirou o casaco para as mãos de X e correu para a porta que a gentil porteira indicava. X também tirou o casaco e perguntou onde os colocar. A sensual rapariga agarrou-lhe na mão e encaminhou-o para o andar de cima. “Estranho”, pensou X. “E então a Z? Estará bem?” Lá de baixo ouviam-se risadinhas e gargalhadas, além de outros barulhos estranhos que X não conseguia desvendar.
Finalmente chegados à porta de uma sala no segundo andar, X viu que todos os que estavam lá dentro eram homens, com ar carrancudo, atónito ou aparvalhado. A meio estava uma mesa toda equipada com aquilo que os homens gostam, desde charutos aos melhores malte.
A rapariga despediu-se, repetindo a X aquilo que todos os outros já tinham ouvido: “Obrigada por trazer a sua amiga, daqui a umas horas viremos buscá-los”.
X cumprimentou os presentes, alguns mais simpáticos que outros, perguntando o que raio se estava a passar. Todos tinham teorias e fantasias. Mas nada podiam fazer, pois a porta da sala estava fechada à chave. A única opção era mesmo beber, fumar e esperar.
Horas depois, meio abalados, ouviram muitas vozes femeninas a subir para o segundo andar e encaminharem-se até eles. Houve prontidão no arranjo da roupa e cabelo, umas quantas pastilhas para o hálito e a porta abriu-se. Todas traziam umas malinhas vermelhas na mão. Estavam contentes, felizes, suadas, radiantes e graciosas.
Uma a uma agarraram na mão do seu parceiro. Z agarrou em X e disse-lhe que estava na hora de sair.
Já no carro, X perguntou o que se tinha passado. “Nem queiras saber, querido. Se tiveres sorte ou coragem ainda o gozarás esta noite”.
Irish
Como é que um bêbado fala com outro bêbado? Bebendo cada vez mais? Certo. É eficiente. No final, são todos os melhores amigos e no dia seguinte, ninguém sabe com quem falou.
É interessante esta matéria. Como é que 10 horas antes um homem conhece o seu melhor amigo e depois esquece-o para sempre? Acontecerá o mesmo com a mulher? Ou com uma mulher? Imaginem: um homem ébrio conhece uma mulher quase no mesmo estado (elas aguentam mais o álcool que nós, assim como o parto e quejandos). A mulher faz-se à dose, o homem capitula.
Mas no dia seguinte acorda sózinho. O que é feito da dama? Ou, no pior dos casos, do seu novo melhor e maior amigo?
X gosta de álcool. É fanaticamente irlandês. Houve tempos, idos, em que pedia um James num restaurante. Ninguém sabia do que ele estava a falar. Hoje é o que se vê. Agora X, que nunca foi fã de Bush, anda numa de tulllmeware, tullpare, tullwa, gore, dor, more…. emfim, qualquer coisa assim.
Maldito. Delicioso. Uma lágrima de sensualidade falsa no olho de uma Jessica (escolham a que quiserem)… Tullmore grey? Não, não é bem isso. Mas a curva está lá e a lágrima também.
Nota-se que quem bebe irish é diferente dos outros bêbados. O hálito é três vezes destilado, portanto não tão mau e a subtileza de movimentos, o cai-não-cai, é todo um romance digno de quem habita uma ilha abandonada pelo seu próprio continente.
X gosta de tudo o que venha da Irlanda. Menos dos U2 há 10 anos. Mas adora as Corrs, principalmente a baterista, pois aí ainda pode ter uma possibilidade. Mau, dizem-lhe que já casou.
Enfim, esta foi uma aventura irlandesa de X e do seu cão, que ainda continua com o dreno no pescoço. X adora o arrepio das pessoas quando notam o tubinho de plástico. Olha tão bonito… AHHHHHHHHH, keurrore! É mais ou menos o mesmo que pedir em terras estranhas um Irish. “Desculpe? Não temos! Pode ser Vat69? Ou um fantástico Curti starque? Olhe que isto é pomada da boa…”
X já esteve em tascos que servem irish como em restaurantes 4 stars quem nem sabem o que isso é.
Mas porque é que estamos a escrever sobre beberagem? Estavamos a falar da amizade duradoura de quem se conhece num bar e sai dele abraçado.
Os homens fazem isto.
As mulheres farão precisamente o quê?
02.26.08
sonho
X acordou hoje à martelada. Eram precisamente oito e cinco. O pior não foram as marteladas, mas sim o terminar abrupto de um sonho em que estava particularmente a sair-se bem. Tentou ir buscá-lo, adormecendo outra vez. Houve tempos em que o conseguia. E desta vez assim foi, recomeçou no preciso momento, ou fotograma, onde tinha parado. Agora que acordou, não fazia a mínima do que estava a acontecer. E isso perturbou-o a tal ponto que nem saltou logo da cama.
Depois pensou… “e se fosse escrever para ver se o conseguia recuperar?” e aqui estava, a esforçar-se, a enervar-se. “Olha parece que é agora! Não. Bolas, que frustração.” Bebeu um café, fumou um cigarro e… e…. não. Pronto, lá teria que inventar qualquer coisa.
“X estava na sua fase de inventor. Há anos que trabalhava numa maquineta que permitia capturar os sonhos das pessoas. Tinha dois segmentos distintos, um para os sonhos outro para os pesadelos. O invento era estranho, com várias antenas que se colocavam na cabeça do dorminhoco e vários leds informavam o estado do sonho, do vermelho para o verde. Quando estivesse verde pressionava-se o botão “Rec” para gravar o sonho. O aparelho tinha outras teclas, como Play, Delete e Delete forever. Estava quase pronto mas havia um pequeno problema não técnico: só dava para quem dormisse com alguém ao lado, para esse alguém capturar os sonhos. E geralmente esse alguém também estaria a dormir. Para solteiros, então, era tarefa impossível.”
Pronto, e é assim que lá se vai um sonho. O de ficar rico com a venda do aparelho.
memória
X está a tentar relembrar-se do seu primeiro livro, escrito aos 18, à máquina e de que só havia um exemplar. Original esse que foi emprestado a uma rapariga para a entusiasmar com o seu génio, o que não conseguiu. Perdeu-se o amor e, pior, o original.
X ficou desolado duplamente nessa altura. E quase que chorou. Era de todo impossível reescrever o texto que tinha passagens de assinalável qualidade.
Mas hoje X lembrou-se disso e também de certas memórias.
Havia um jornalista ao estilo do Robert Redford naquele filme sobre a barraca do Nixon, que por vários motivos, boatos e confidências descobrira a história que lhe garantiria um prémio chorudo se fosse americano.
Esse jornalista infiltrou-se na ala mais desoladora e perigosa do Júlio de Matos, tentando compreender o que se passava ali. Tinham-lhe dito que os verdadeiros loucos estavam mais próximos de Deus que os restantes. Mas o que ele não esperava eram reuniões que lhes permitiam falar com a divindade. Trocavam histórias do dia a dia por frases calmas e conciliadoras. E nesse momento, o jornalista sentiu uma paz imensa, uma força sem limites.
Desapareceu para sempre da sociedade onde tinha uma boa vida e companhia.
Foi procurado durante muito tempo. Até que deram o caso como perdido.
De vez em quando, aconteciam outros desaparecimentos…
túnel
X decidiu passar uma temporada no oriente, iniciando a aventura na China. Ora as viagens são caríssimas, depois a segurança nos aeroportos, depois o que se gasta em táxis para o centro de, digamos, Shangai. Ora X não tinha dinheiro para isto, mas teve uma ideia ao continuar a ser massacrado ao longo de um mês por martelos pneumáticos e perfuradoras profissionais e desceu um andar.
Depois de perguntar quando terminariam as obras, decidiu propôr um novo trabalho aos trolhas. Já cá estavam as máquinas, o sangue e suor. Porque não fazer um buraco, sempre a direito, até ao outro lado do mundo?
X está à espera que as obras terminem para iniciar a sua grande obra. Um túnel.
02.23.08
perfume
Esta é a história de um homem mal cheiroso, tinhoso e antipático para a vizinhança. Resmungava em vez de dar os bons dias, andava sempre sózinho e vivia numa casa térrea que também não via limpeza há anos.
Por vezes o cheiro era tão intenso que se distribuia por toda a terreola.
Os vizinhos não sabiam o que pensar sobre o pobre coitado. Não bebia, não fumava, apenas não era limpo. Juntaram-se para ajudá-lo por uma vez. Compraram produtos de limpeza, shampôs, sabões, escova de dentes e tudo o mais e deixaram o saco à porta. Ficou lá durante dias. Até que desistiram.
Passado umas semanas, o mau cheiro parou. Toda a gente percebeu e muitos pensavam que o pobre coitado tinha ido embora.
Aliviados, foi com alegria que sentiram os odores magníficos das outras coisas, da fruta aos jardins, dos canteiros às flores.
Para comemorarem prepararam toda uma festa. E foi durante esta que alguém interrompeu o artista que cantarolava para dizer que o pobre coitado não se tinha ido embora. Estava morto há dias e dias em casa. Ao contrário de toda a gente quando morre, em vez do mau cheiro ele emanava frescura primaveril.
O choque foi geral. A tristeza também. Afinal, o homem podia ser horrível por fora, mas o seu coração era de ouro.
02.22.08
óscar
X prepara-se afincadamente para os Òscars do próximo Domingo. É toda uma madrugada atenta às interrupções musicais e asneirada dos comentadores nacionais, mas é sempre giro ter uns comes e bebes na mesa e fazer uma noitada com amigos.
Mas a grande satisfação de X é ter ganho um Óscar. Sim, X tem um Óscar. Foi há sete anos que um Óscar lhe foi oferecido devido a uma prestação notável. Um olhar de medo misturado com curiosidade, um tamanho pequeno que se previa chegar a grande e toda uma viagem ao interior da casa, fizeram dele um excelente actor. Se bem que de quatro patas.
Portanto, há sete anos que vemos a emissão juntos. Eu tenho os meus preferidos, ele deverá ter outros.
02.21.08
pedra
Houve um dia em que X, numa pequena cidade, colocou a primeira pedra. E ao lado um poste que continha a mensagem “Pedra a Pedra, juntos chegamos lá!” As pessoas que passavam interrogavam-se no chegar onde, mas com alguma curiosidade lá traziam uma pedra e colocavam-na ao lado e por cima da primeira. Meses depois estava construída uma enorme casa. X, que tinha entretanto aberto ao público uma loja que vendia pedras, tansformou-a rapidamente numa que vendia tijolos, vidros e demais materiais de construção.
Num dia foi até ao lugar, colocou a primeira telha e mudou o sinal para “Juntos estamos quase lá!”
Foi num ápice que o povo lhe esgotou o sotck e, um mês depois a casa estava totalmente pronta.
Enquanto que os locais se abrigavam lá dentro e discutiam “O chegar lá, mas onde?”, X fechou a loja e partiu para outra terra…
02.20.08
Oco
X conheceu há muitos anos, num passeio numa praia pelas duas da manhã, um fulano muito ébrio que se tentava levantar mas o corpo decidia sentar-se na areia. X perguntou-lhe se estava bem, se precisava de ajuda. A resposta foi negativa mas, porque há sempre um mas, gostaria de ter alguém ao lado para desabafar. X sentou-se e ouviu a história mais extraordinária que podia ter ouvido. Este fulano era militar e a bebedeira que tinha apanhado era comemorativa de ter deixado o posto onde ficou enterrado 10 anos. “Enterrado” pensou X e a sua curiosidade foi imediatamente satisfeita. O fulano tinha mesmo trabalhado debaixo da terra durante uma década. Era um alto funcionário de uma força governamental secreta portuguesa que, em conjunto com outra semelhante dos EUA, traçaram em Portugal toda uma linha defensiva ou de ataque a mísseis de longo alcance. X perguntou, “desculpe lá, mas isso é lá nas Lages”, ao que ele muito divertido e depois de uma sonora gargalhada afirmou uma coisa que ainda vem ao pensamento de X de vez em quando. “Não, meu amigo, não!” e continuou ” toda a costa vicentina é oca. Está cheia de laboratórios e comandos de ataque e defesa governamentais. Vocês têm debaixo do chão mais de 2000 mísseis do mais avançado que há!”.
X ficou subitamente alerta. Mas que raio de delírio e deixou escapar um “pois, pois”.
Ao levantar-se, o fulano disse-lhe para tentar chegar a certas partes da costa que pareciam desertas. Que reparasse em estranhas construções de betão. E em redes que proibiam a passagem para a frente. E, se tivesse sorte, até veria uns jipes a passar levantando algum pó.
Pó, pensou X. Deve ser mas é do pó.
Despediu-se e deixou o fulano feliz sentado na praia. X só contou esta história anos depois a amigos e todos lhe chamaram nomes.
02.19.08
inteligência
Hoje X leu que em 2029 as máquinas vão ser tão inteligentes como o Homem. Ora bem, X reflectiu sobre o assunto e a notícia até que é positiva. Reparem, em 29 X terá mais 21 anos, ou seja, já se encontrará naquele sector denominado terceira idade. Ou quase, pois os 40 são os novos 30 e por aí adiante. De qualquer forma, necessitará de ajuda para vários efeitos. Os músculos não vão ser os mesmos, a memória então nem se fala, as próprias necessidades do dia a dia vão ser tarefas complicadas, difíceis, transtornantes.
Ora pensando nisto tudo, X até acha que a inteligência artificial será muito bem vinda, se fôr colocada num robot bonito, de silicone e com movimentos quase humanos.
Mas, pensando melhor, se as máquinas forem tão inteligentes como nós também sabem que podem dizer “não”.
Ora X tem que repensar todo o assunto.
raiz
Esta é a aventura de um homem que tinha muito amor aos animais. Principalmente aos seus cães, pois já ia no terceiro. Sempre da mesma raça o mais parecidos possível.
Este homem começou a ser conhecido pelos vizinhos, depois foi vendo os vizinhos a desaparecerem, uns por óbito outros para a estranja e foi cada vez ficando mais sózinho.
Muitos anos depois, já o homem tinha uma certa idade e o seu cão também.
Ninguém sabe porquê, mas ficaram de pé, um ao lado do outro, no jardim durante muito tempo.
Diz quem passou por lá que a situação não mudava, mas também não era conta de ninguém. Veio um Verão, um Outono e um longo e frio Inverno. E eles os dois sempre ali. Na mesma posição, impávidos, serenos.
Um mês depois alguém chamou as autoridades que, por acaso já sabiam deste estranho homem e do seu cão. Guiaram o jipe da GNR até lá e aproximaram-se devagarinho. Quando chegaram mesmo mesmo perto perceberam que estavam mortos. Assim, naquela posição. Parte das pernas de ambos já estava enrolada por raízes que os mantinham presos ao chão e de pé.
Os agentes não sabiam o que fazer e, após relatórios e relatórios, intervenções políticas, etc e tal, viam os anos a passar. E com eles as raízes a subirem cada vez mais.
Quando finalmente veio uma ordem de um ministro qualquer, já o homem e o cão eram vegetação. Duas árvores plenas de vida.
E assim se mantiveram.
02.17.08
dimensão
No outro dia, X visitou uma estranha dimensão em que as coisas são bem mais realistas do que as que vivemos.
Tudo parecia feito à imagem dos relógios de Dali, só que nesta dimensão o efeito passava por tudo e todos consoante a idade. Por exemplo, os velhos muito velhotes pareciam pessoas derretidas e em camadas. Mas toda a sociedade estava preparada para isto, pois os velhos muito velhotes eram transportados em carrinhos feitos de propósito para eles. As lojas que frequentavam tinham balcões muito baixos assim como tudo o resto que eles necessitavam. Havia supermercados específicos, as máquinas para os bilhetes tinham 5 cm de altura, as primeiras filas dos teatros e cinemas eram revervadas para eles, etc.
Mas isto acontecia em tudo, por exemplo, quando um automóvel começava a ficar velho e inútil, todas as suas formas estavam mais, como dizer, derretidas. E o dono sabia que era o tempo para trocar. X achou esta dimensão bem curiosa e muito mais honesta que a sua. Mas só lá conseguia chegar de vez em quando e sabia que não podia viver lá. É triste, mas verdade.
02.16.08
clarão
Numa cidade de colinas, algures neste mundo, houve um dia em que um grande clarão surgiu no céu durante 1 minuto. As pessoas ficaram cegas por ele e foi o caos na cidade. Contudo, o mais interessante foi esse mesmo clarão fazer com que as pessoas perdessem a memória durante umas largas horas. O que aconteceu de seguida teve coisas boas e más, como carros estacionados em descidas sem o travão posto, pessoas que ofereciam boleia a quem estava nas paragens de autocarro, pessoas que ao chegar ao emprego devido à repetição desse trajecto durante anos, pararem os carros e oferecerem as chaves a quem surgisse porque já não necessitavam dele, malta jovem quem se esqueceu para que servia um skate e passaram horas à conversa sentados em circulo, etc. Aconteceu de tudo um pouco. X acordou mais tarde que o habitual e falhou o clarão, razão para vos estar a esrever o que viu e viveu durante esse dia memorável na tal cidade com colinas.
02.15.08
ideias
X escrevinhou freneticamente na sua sebenta uma ideia que tinha tido há muito tempo e que agora lhe tinha reaparecido. Foi à procura de apoios que, logicamente, não encontrou. Depois falou com os amigos e amigas e perguntou-lhes se conheciam quem tinha carros antigos e pequenos e que quisessem livrar-se deles. Havia três, um Polo antigo, um Fiesta dos primeiros e, pasme-se, um Fiat 127 que ainda andava.
X foi buscá-los um a um e ainda lhe agradeceram por tirar as carroças das mãos dos donos.
Depois foi ter com um amigo que também estava in between jobs e propôs-lhe uma aliança. Com algum dinheiro mandaram fazer uns vinis para colocar nos carros. Eram patadas de animais e um nome. Mas antes disso pediram a um amigo pintor de automóveis que, a preço do material, lá fez com que os três carros ficassem verde alface.
Aproveitaram estar na garagem, tiraram os bancos de trás, colocaram duas jaulas em cada um e pronto. Os vinis estavam quase todos colocados, faltava o mais importante. “PETCAB”!
Pediram a uma amiga que também estava in between jobs e os três fizeram-se à estrada.
No primeiro dia não entrou dinheiro. No segundo já algum. Ao fim de um mês, suficiente.
Combinaram o próximo passo: telefonar a amigos para mais três carros velhos e abrir um pequeno escritório para alguém atender os telefonemas.
Passados seis meses a frota incluia 12 carros e o escritório já era bem maior.
02.14.08
buraco
X guia determinado a poupar o seu veículo automóvel, evitando os buracos das ruas mais esburacadas da europa. Mas às vezes não dá e lá se vai mais um pouco de saúde dos pneus e amortecedores. No outro dia, para evitar bater num camião, meteu-se mesmo num grande buraco. Este cedeu e X mais o carro ainda caíram umas dezenas de metros. O mais bizarro foi caírem em cima de outros veículos… um Opel Senator, um Ford Escort, um Simca 1100, etc. Não havia cadáveres, portanto X não se alarmou muito. Vestiu o seu colete verde incandescente, tirou o GPS do carro, uma lanterna e fez-se ao, enfim, caminho.
A sua ideia era, com o GPS, apanhar a saída de esgoto nos restauradores por onde entram as pessoas que querem ver as catacumbas da cidade. O sinal estava fraco mas era para oeste. Tudo bem. Ao avançar lentamente foi descobrindo quadrigas, vestes, arcos, setas, algumas colunas de pedra, banhos públicos, parte de casas fenícias, outras romanas, até que ouviu um barulho.
“Olá! Está aí alguém?”, perguntou. Uma voz feminina gritava nervosamente “Aqui, aqui!!!” e X foi à procura. Encontrou-a ainda dentro do automóvel que tinha caído num outro buraco. Ajudou-a a descer os vários automóveis por baixo e contou-lhe que lhe tinha sucedido o mesmo.
Abraçados, porque só havia uma lanterna, lá foram descobrindo coisas de outras épocas. Depois passaram por estacas secas e quebradiças devido à falta de água e deram com uma parede de cimento. Caminharam ao lado dela e viram uma porta. “Finalmente” gritou X “uma saída”.
Abriram a porta e entraram num túnel escuro. De repente duas luzes brancas. “Estamos quase lá” disse um aliviado X. Mas as luzes vinham contra eles depressa demais e só tiveram tempo de se encostarem à parede. Iam morrendo de susto e choque. Ao que a fulana diz “Bolas, já sei onde estamos. Ali ao fundo fica a estação de Metro do Cais do Sodré”. Correram até à galeria. E não é que ela estava certa?
corpo
Tcharam! X acordou cedo. Não sabia a quantas andava. Eram 2 da matina, hora de dormir. Mas num tcharam e num tímido toc toc toc, X vislumbrou uma luz que o convidava a segui-la. Porque não, questionou. Mas que coisa é esta, questionou. Vou ou não vou, questionou. E no meio de tantas dúvidas, lançou-se à luz.
Deu a mão a uma coisa branca, tão pura e tão forte que da sua mão só via o esqueleto. Gostou de ver os ossos impecáveis da sua mão. O ser apercebeu-se disso e abraçou-o. Um longo e apertado abraço. X, depois do susto, deixou-se penetrar por aquela luz tão límpida, forte e única. Viu todo o seu interior. Descobriu mazelas no fígado e nos brônquios. Percebeu alguns problemas no fluxo da sua corrente sanguínea. Viu a gordura acumulada em todo o seu corpo. Descobriu a beleza do seu interior, com avermelhados, rosas e roxos. Viu também azuis de todas as tonalidades. E muitos verdes secos. X tinha uma corpo maravilhoso, limpo e cheio de vida. Mas não sadio. E foi neste preciso momento que acordou. Que raio… mais um ET que lhe veio dizer para ter cuidado.
02.13.08
Monstro
X não gosta de andar de barco por razões que para aqui não são chamadas. Mas certa vez teve que atravessar todo um mar dentro de um iate. Sentiu-se indisposto dias seguidos e só via a linha do horizonte. De repente, toda uma violenta tempestade se atirou para cima do barco. Era o salve-se quem puder, todos se agarravam a qualquer coisa, o Z caiu ao mar, não podíamos fazer nada a não ser atirar-lhe uma bóia de salvação. Para piorar as coisas, um enorme monstro marinho surgiu das profundezas. Tinha o tamanho de um prédio de cinco andares e, ao abrir a sua enorme boca, sabiamos que estavamos perdidos. Todos nós e o barco foram engolidos pelo maldito monstro, escorregámos por uma espécie de garganta cheia de destroços de outros barcos e coisas que não percebíamos. Até que parámos.
Vimos se todos estávamos bem, abraçámo-nos, chorámos pelo Z, tirámos haveres do que restava do barco e caminhámos para o interior do animal. De repente demos com a bóia que atirámos ao Z e, com esperança, gritámos-lhe o nome. Tudo ecoava naquele espaço que se ia alargando. Um de nós viu uma claridade lá ao fundo e, num repente a voz de Z. Corremos desenfreados até a uma parte do corpo do bicho que estava cheia de gente. O Z era um deles. Todos sobreviventes de aventuras semelhantes. Uns estavam lá há anos e iam comendo o que o monstro engolia, desde peixes a crustáceos. Havia inclusivé habitações, feitas de partes de iates, barcos pequenos, grandes veleiros. Constituiram-se famílias que até geraram e percebemos que iamos passar o resto dos nossos dias ali.
X ao ser apresentado a toda a gente descobriu XX. E a partir daí não se importou com mais nada.
02.12.08
Cruz
Nesta altura do campeonato, convém dizer que X, por vezes, não encontra uma ideia para escrever em cinco minutos. Tenta desesperadamente encontrar um sonho, um episódio, uma memória. Mas parece que tudo trava quando se deseja escrever. Então onde está essa barreira, esse travão maldoso? X foi para o espelho da casa de banho tentar descobrir o local dessa desgraça. Observou-se muito tempo. Será nos olhos, que não vêem o que devem ver? Será na boca que não transmite o que deve dizer? Será na testa ainda sem rugas? Bolas, um tipo da idade de X tem que ter rugas, mas não se vislumbram… ah, gordurinha. Pois, deve ser isso… talvez. X examinou os ouvidos que parecem não querer ouvir o óbvio e manobram o que entra com uma vontade muito própria. Depois passou para as mãos. Mãos quadradas, dedos redondinhos, unhas mordinhas com perfeição. Mas a pele está seca. X detesta cremes. Blharcccc.
Não, o mal deve estar noutro lado, algures por aí.
E nem quero desculpar-me com as obras do vizinho de baixo que rebenta com paredes e azulejos. Desde as 9 às 19 que os martelos pneumáticos, berbequins e maços enchem a casa de X.
Não, o problema deve ser outro. Ou então…. bem, amanhã é outro dia.
02.11.08
Morte
“Vamos liquidá~la?”
Todos na mesa anuíram. A discussão passou a ser sobre o quando, as armas que eram necessárias, a rapidez de todo o processo, quem iria à frente e quem seguia no fim, se naquele bairro ou num mais central, etc.
Finda a reunião com tudo preparado e decorado, cada um seguiu o seu caminho.
Era questão de uma semana, para preencher os requisitos. Mas durante essa semana alguns não conseguiam dormir e outros só com a ajuda de químicos.
O dia, entretanto, chegou. Era a hora.
X vai na frente com Z, logo seguidos por A e C. Entram com rapidez nas instalações.
Esperaram o momento certo, pois não queriam dar nas vistas.
Esperaram bastante até surgir a oportunidade. Os quatro lançam-se rapidamente para o balcão e, quase em uníssono, dizem: “Queremos liquidar uma empresa!”
02.10.08
sexo
X decidiu falar de sexo para ver se o tráfego aumenta. É um truque que lhe ensinaram para aumentar as visitas ao blog. Portanto, e para além do título, X vai mencionar diversas ocasiões, diversões, posições e vocábulos vários que se relacionam com o título.
Reparem: X sonhou que estava a ser perseguido por um número enorme de cães. Era uma canzana perigosa. Por outro lado X é religioso, quase puro e beato e assumiu a posição de missionário para que os cães não o perseguissem mais. Eram 69 cães, uma matilha, portanto. Vamos lá checar o sitemeter. Nada ainda. O melhor então é escrever um estrangeirismo, tipo sex. E como sexo é a mesma coisa que sex mas com mais uma vogal, poderemos assim procurar mercado no estrangeiro.
Giro seria observar a cara dos cámones quando chegassem ávidos a este blog e não percebiam nada do que estava escrito.
De qualquer forma, X está consciente que alguns serão tugas e que uma ínfima parte deles se manterá por cá diariamente.
Portanto, meus valentes, às armas: sexo, sexo a valer, muito sexo, s.e.x.o. , sim muito e aiai.
É um texto curto mas é Domingo.
E atenção, não confundir com seixo. Isso era mau demais.
Bom resto de descanso.
02.09.08
valentia
Esta é a aventura de um homem valente. Era quem lançava os foguetes na sua terra aquando as festarolas e era considerado como um mestre na sua profissão.
Era também um perfeccionista e nunca ficava satisfeito com o resultado dos seus fogos de artifício que faziam as delícias das gentes da terreola.
Assim, decidiu fabricar os seus próprios foguetes e derivados. Deu a força de dois a cada um. A notícia espalhou-se rapidamente pela terra e todos ansiavam a próxima festa de um qualquer santo.
Chegado o dia, o homem valente chegou ao centro do povoado e tirou todo o arsenal da carroça perante exclamações entusiasmadas e muitos aplausos.
O homem valente, que agora já era considerado o mestre valente ficou inchado com tanto orgulho. A hora estava a chegar e chegou precisamente enquanto X escrevia esta linha.
O mestre valente preparou um foguete enquanto toda a terra se silenciou. Fchhhhhhhhhhhhhhhhhhiuuuuu, lá foi entre muita fumarada e barulho. Todos os olhos olhavam deliciados nos belos efeitos e cores deste super foguete.
Depois olharam para o mestre valente que se contorcia com dores horríveis, pois a sua mão direita tinha ido com o foguete. O povo horrorizado levou-o para o hospital mais próximo da terra, a uns valentes kms, onde lhe fizeram um coto bem redondo e perfeito.
Estas festas populares duram três dias e o povo estava triste por não ter mais fogo de artifício e também pelo que acontecera ao outrora mestre e agora homem valente.
E quem o viu chegar ao centro da vila e tirar com mais dificuldade o arsenal que tinha criado, nem queria acreditar. “Ainda tenho uma mão, porra!” exclamou. O povo preocupado aconselhou-o a não o fazer mas o homem era um valente.
Agarrou noutro dos seus superfoguetes, acendeu-o e pfchzzzzziiiuuuuu, lá foi. Este ainda tinha efeitos mais bonitos e cores mais fortes. Todos aplaudiam e gritavam hurras!
Mas depois da poeira assentar, o homem valente já não tinha a outra mão e chorava ferido de orgulho e dor enquanto era transportado para o hospital.
“E agora?” perguntava um aflito presidente da freguesia no último dia de festas da sua terra.
“Agora?”, respondeu o homem valente, “agora ainda tenho dois pés, raios partam!”Pediu entre os jovens um assistente e a multidão gritou “Ahhh VALENTE”.
02.08.08
cantinho
Certa vez X encontrou um sapo grande e verde. Olharam-se os dois e X seguiu o seu caminho por entre um mar de árvores e vegetação cerrada. Passado um par de horas, X decidiu descansar e reconfortar-se com uma bela sandes de presunto e queijo da serra e um termo de café bem puxado. De repente uma voz assusta-o: “Vais comer essa sandes toda?”. X olhou em redor e nada viu. Seria uma partida da psique? “Olha cá para baixo!” E ao descer o olhar viu o sapo que o tinha seguido ao longe. “Mas tu falas, sapo?”. “Falo sim, domino quatro linguas e geralmente fico calado mas essa sandes abriu-me o apetite”. “Concerteza que podes comer parte dela”. X então cortou-a ao meio e mesmo assim as duas partes eram grandes. O sapo deu a primeira lambidela e depois, muito depressa, engoliu a parte dele. “Mhhhh, um cafézito até que ia” disse. X ofereceu-lhe um café. Achava divertido estar a lanchar e convesar com um sapo. Já lhe tinha acontecido estar com um cão e até com um cavalo, mas esses não dominavam quatro idiomas. Nem um.
Depois de se deitarem regalados, o sapo disse “Pois é, tu vens do cantinho das coisas boas!”. X olhou para o sapo com um ar admirado. “E que cantinho é esse?”. O sapo riu, pois a sua grande sabedoria sabia que nenhum humano dava valor aquilo que tinha de mão beijada. “Vens de Portugal, não é? Onde existe o queijo da serra, niza e azeitão, onde o pão de centeio, alentejano e mafra acolhem manteiga pura e com sal e um belo presunto pata preta, sem falar dos vinhos do norte ao sul… e nem quero falar mais”. X ficou atónito e respondeu afirmativamente ao sapo.
Depois dormiu uma sesta e sonhou com as cebolas algarvias, a sopa da pedra, o cozido à portuguesa, os chocos fritos, o polvo à lagareiro…
Quando acordou procurou o sapo mas este já se tinha ido. Então decidiu regressar à sua terra. Ao seu belo cantinho.
02.07.08
matraquear
O que fazer quando se anda com uma música na cabeça e não se sabe o nome do artista ou grupo ou o título da mesma? Bom, em princípio deixa-se esquecer a coisa. Ela há-de bater mais tarde ou mais cedo. Mas o pior para X é que ia acordando dias seguidos com a maldita melodia na cabeça. Da-da-di da-da-dum, da-da-di da-da-dum. Era o refrão, cantado por uma senhora. E era, logicamente dos anos 80. Ora X telefonou a amigos e amigas e cantava essa parte. Alguns riram-se porque X não sabe cantar e outros devem ter posto a mão à frente da boca para abafarem uma risada. Um ou outro lembravam-se. Da-da-di da-da-dum… “epá, eu conheço isso…. mas não faço a mínima de quem é” era a resposta dos com boa memória auditiva.
X procurou pelo da-da-di na net, nada. Sabia de cor os acordes sintetizados e o beat. E era isso que fustrava. Ou talvez porque fosse das poucas músicas que dançava nas disco algarvias há 25 anos atrás.
Novo dia, X acorda e não é o da-da-di da-da-dum que ouve. Fica aliviado, contente. Mas após o primeiro café, lá surgiu na sua mente toda a música. Raios parta!
Da-da-di da-da-dum… da-da-di da-da-dum
02.06.08
mudança
A ressaca é uma coisa muito boa. No dia seguinte uma pessoa lembra-se automaticamente do que exagerou mal passa pela coisa. X conheceu um amigo que nesse dia seguinte prometeu nunca mais misturar drogas com álcool. Acordou com uma fé que não possuia na noite que tinha terminado há umas horas. Prometeu largar as bebidas e todos os associados. Até o tabaco, ou seja, tudo o que lhe pesava na consciência… e na boca.
Telefonou a X para informá-lo desta grande decisão e X aplaudiu. Encorajou-o e deu-lhe força.
Nessa mesma noite, convidou-o para jantar. Abriu uma garrafa de vinho apenas para ele e deu um copo alto de água ao amigo. Este entretanto atrasou-se e quando chegou trazia num saco plástico duas de tinto e uma de scotch. Mal se sentou puxou de um cigarro.
X indagou… “Então pá? Essa decisão?”ao que o amigo, muito contente, respondeu “É para comemorar a grande mudança X! Amanhã é que começo”…
02.05.08
carnaval
X chamou o seu amigo génio que concede desejos a quem souber contactá-lo. O nº de telefone é difícil de conseguir, mas X ganhou-o numa rifa numa festa popular lá para o norte numa terreola perto de Sabúgal.
Chegado o génio, X pediu-lhe que nesta época carnavalesca, fizesse com que todos os mascarados, enfeitados, foliões e todos os demais, ficassem assim durante todo um ano.
“Isso é cruel” respondeu o génio.
“Cruel porquê? As pessoas mascaram-se do que queriam ser, portanto façamos-lhe a vontade.”
O génio tirou a sua varinha do bolso, disse umas quantas coisas que só ele sabe e o feitiço estava dado.
X riu-se. Foi a sua partida de carnaval deste ano.
02.04.08
números
X é fã das novas tecnologias, mas como tudo, estas também falham. Assim decidiu escrever numa agenda de papel todos os números de telefone que tem e que vem guardando ao longo dos anos.
A primeira surpresa foi encontrar dezenas de que não se lembrava das pessoas. Tentou forçar a memória, mas nada. A segunda surpresa foi recuperar momentos quando encontrava alguém que fora especial por uma razão ou outra.
Depois de completar a tarefa, que exigiu algum tempo, demorou-se em alguns nomes, riu algumas vezes e teve saudades outras tantas.
O que fazem os números…
02.03.08
cores
X acordou um dia e só depois de abrir os olhos percebeu que só via uma cor e as suas sombras. Foi à sala, outra sala, ao computador, à cozinha, sempre a mesma cor. Um verde que era intenso algumas vezes, noutras menos e por vezes tocava o azulado.
X foi à sua enorme varanda ver Lisboa. Toda a cidade estava colorida nestes tons.
“Que estranho”, pensou. Voltou a meter-se na cama e obrigou-se a dormir mais uma hora.
Quando reacordou estava tudo diferente, mas igual. O verde foi substítuído pelo amarelo, que desde torrado a claro, confundia-lhe as coisas e os passos. Mesmo assim, encheu-se de valentia e foi dar uma volta pela cidade. À medida que ia mudando de rua, as cores mudavam também. A sua era amarela, a de baixo azul. A praceta violeta, a avenida grande castanha.
Perguntou a quem passava se viam o mesmo que ele. Alguns chamaram-lhe louco, outros daltónico.
Mas um velhote parou. Pediu para se sentarem num banco de jardim e explicou-lhe que também ele tinha acordado assim num dia. Ouviu todas as perguntas de X e só no final falou: “Sabes, cada cor é um medo teu ou uma dúvida. Quando conseguires resolver essas coisas, todas as cores se juntarão como antes “. Levantou-se, despediu-se de X com um forte aperto de mão e prosseguiu o seu caminho.
Agora restava a X acreditar e foi para casa. Pintou uma parede de branco, depois desenhou-lhe uma quadrícula em preto. Mas ambos continuavam amarelos para ele. Em cada espaço vazio escreveu os seus problemas. E estava na hora de os ultrapassar.
02.02.08
justiça
O grande problema eram os amores que ambos os cavalheiros nutriam pela mesma donzela.
Tantas as desavenças que, numa madrugada de nevoeiro denso, cada um deu 120 passos de costas viradas e ao grito de um “ataque” dispararam as pesadas pistolas. Ambos caíram sem vida.
A donzela chorou e foi aí que um antepassado de X a reconfortou. Fê-lo de tal forma bem que a donzela rapidamente se tornou na sua donzela. O problema era que o antepassado de X não era lá muito católico e a união dos dois, na sociedade da altura, não era bem vista.
Ambos viviam em pecado e quando o primeiro filho nasceu, X Júnior, a populaça apareceu em fúria destruíndo por completo todos os pertences da família X.
Revoltados, mudaram de país, enriqueceram, tornaram-se muito famosos em toda a europa.
Quando chegou a hora para X encontrar esposa para o seu primogénito, decidiu fazê-lo na cidade que o tinha expulsado.
A família X surgiu num dia de sol, as suas vestes eream coloridas e ricas, os seus criados faziam fila atrás. O governador do local quis logo fazer figura e ordenou aos habitantes que vestissem o melhor possível as suas filhas e as colocassem em fila na rua principal da terra.
Uma a uma X e o seu filho olharam para a cara de todas elas e nunca pararam numa em especial.
Mas, de repente, o olhar de X Júmior abriu-se, ao mesmo tempo que a montada parava. Fez sinal ao seu pai que, olhando, viu uma linda rapariga, criada de uma das mais influentes famílias da zona.
Foi com graciosidade que X Júnior lhe estendeu a mão. E foi corada que a rapariga subiu para o seu cavalo.
A populaça revoltada, dizia que era uma criada e não uma donzela e que tal não poderia acontecer.
O antepasssado de X, já num tom mais autoritário, pediu silêncio e que o seguissem até o local que tinha sido a sua casa.
Todos pararam diante das ruínas e todos perceberam quem era este senhor.
Com uma forte gargalhada, perguntou ao filho se aquela era a rapariga certa e ouviu a resposta afirmativa.
Poucos anos mais tarde nasceu um lindo rapaz, X Júnior Júnior.
O tetravô do actual X.
02.01.08
lua
Se no mundo existisse uma lua, seria lá que X moraria. Não era necessário uma lua muito grande, mas que tivesse espaço para se poder andar à vontade, brincar com o cão, tomar uma banhoca ao luar e estar longe e perto de tudo e todos.
O que X mais adoraria era poder soltar a lua das suas amarras e mudar de ares e território de tempos a tempos. Assim viveria nos continentes da sua predilecção, sobre os oceanos que o maravilham, poderia subir muito alto à noite e descer até ao chão durante o dia. É que no chão estão as raízes e as saudades da terra onde se nasceu. Essa mesma terra onde, num dia, uma pequena esfera cor de pérola caíu no seu quintal e foi crescendo, crescendo até chegar à sua dimensão actual.
Afinal viver no mundo da lua não é para todos, mas que é fantástico ninguém pode negar.































