01.31.08
voar
X, quando era puto, aproveitava a falta de um ou outro professor para se meter no autocarro nº 44 e ir para o grande terraço do aeroporto. Adorava vê-los a descolar e aterrar, a fumarada dos pneus quando tocavam a pista. Imaginava o terror sentido por alguns passageiros nessas alturas.
Depois o aeroporto foi mudando e já não bastavam 5 minutos de 44 para chegar lá.
Mais velho, ainda frequentou uma bar com vista para a pista, onde piscava o olho às hospedeiras e outras gentes que também tinham esse vício.
Quando aconteceu a primeira viagem de X dentro de um avião, deixaram-no ir ao cockpit. Ficou fascinado com tantas luzes e botões, tanta tecnologia que permitia ao homem fazer de pássaro.
E o bichinho pela aeronáutica aumentou. Com uns amigos, decidiu escavar um túnel de fora para dentro da pista. Escavaram-no até onde mais ou menos os aviões descolam. Fizeram um buraco até à pista e taparam-no com uma porta de ferro.
Sem os pais saberem, muitos finais de tarde deste grupo de amigos era seguir pelo túnel até ao portão de ferro. Adaptaram uns coletes com grandes elásticos e um gancho que apanhava uma das rodas do avião. Era um grande esticão, mas a sensação de viajar àquela velocidade era a melhor coisa do mundo. Quando sobrevoavam o Tejo, cortavam o elástico e com um lençol a fazer de pára-quedas, aterravam na água sem grande violência.
O pior de toda esta aventura era explicar aos pais porque estavam todos molhados se não tinha chovido naquele dia.
Até hoje o túnel lá está, secreto, e a porta já sofreu um remendo de alcatrão.
X comprou uma picareta recentemente. E telefonou aos amigos.
01.30.08
obras
X está incomunicável! Não por causa do cão (a operação correu bem mas ainda lá ficou), mas porque os vizinhos mesmo por baixo iniciaram as grandes obras, o que significa tirar todos os azulejos, algumas paredes e outras coisas que nem sei.
Ora X trabalha em casa e nem se ouve pensar. Daí ter colocado uns phones anti-ruído exterior para abafar a coisa. Mas no entretanto também abafa os telefones e a campainha da porta.
E o pensamento? Como se consegue abafar um ruído externo para se conseguir pensar? X avaliou várias propostas no mercado, entre elas destacavam-se armas de tiro para acabar num repente com o barulho, mas também gás, spray pimenta, etc. Uma solução doméstica era colocar as colunas no chão e pôr o amplificador no máximo com temas que sabemos que os trolhas não toleram (tipo música) ou ainda apresentar um ar doente e pedir aos novos donos do apartamento em questão uma suite no hotel do Chiado.
Mas não, X não consegue decidir-se. Uma tempestade sonora abafa-lhe inclusive os gritos.
Os pés ficam dormentes com a tremedeira. Faltam ainda horas para que os moços acabem a tortura. E X está, neste preciso momento, auditivamente incomunicável.
O quê? Hein? Não percebo… Hein?
01.29.08
telefonema
Hoje a grande aventura de X é esperar por um telefonema. Uma chamada que pode ou não ser boa. O que fazer entretanto para esquecer esta terrível angústia nas horas que vão passando muito devagar? A cabeça está longe, a concentração não existe, o sorriso fácil também não.
Só resta esperar que a intervenção ao canídeo quadrúpede corra bem e que ele volte a ser o maluco que era. Até manhã.
01.28.08
lex
X está a gostar desta nova lei do tabaco. Tem conhecido e travado conversas com inúmeras pessoas à porta de restaurantes, cafés e estabelecimentos vários.
Há uma empatia imediata, uma conversa automática, o mundo mudou.
Está mais simpático, as pessoas deixam casacos, malas e comida para vir à porta dar a fumaça.
No outro dia, um amigo de X estava a fumar à porta do seu tasco preferido quando a seu lado surgiu uma rapariga que também é pecadora. Y e Z olharam um para o outro e fumaram vários cigarros. Apaixonaram-se de imediato, pagaram as contas, deixaram penduradas as pessoas com quem estavam e foram ser felizes.
Quando Y contou que adorava amar e ser amado como nunca foi, X sorriu e desde então tem fumado muitas vezes às portas dos seus tascos preferidos. Mas para além de agradáveis conversas, ainda não encontrou a sua ninfa.
01.27.08
domingo
É Domingo. X, ao Domingo, gosta de fazer um pequeno-almoço digno de um membro de uma família real. Uma refeição variada e altamente calórica para enfrentar um dia cheio de exercício físico e respirar ar puro para manter o seu corpo são e sólido. Agarra no seu carro com a bicicleta no tejadilho, pára em Belém, prepara a bicla, tira o seu cão do porta-bagagens, ata-o à bicla e começa a pedalar paralelamente ao Tejo. Leva algumas tabletes energéticas e água para o cão. Assim passa a manhã. Pelas duas da tarde regressa a casa, cansado mas feliz. Almoça uma salada, dá de comer ao cão e relaxa uma horita no sofá. Depois de um grande banho esfoliante, vai dar uma volta, se o tempo permitir, até a uma estrada lindíssima que vai para Almodovar. Vê o pôr-do-sol e janta num restaurante da terra. Regressa a casa para passear o cão.
Driiiimg, ouve-se repetidamente.
São 11 da manhã e X acorda. Raios parta, que sonho mais beto.
01.26.08
funeral
Uma das coisas que mais gozo dá a X é o terminar de mais um bloco de apontamentos e depois juntá-lo à direita dos outros preenchidos com textos, letras, poemas, desenhos, rabiscos, projectos, ideias, parvoíces e parvoeiras.
X tem todo um ritual preparado para este acontecimento. Fecha cuidadosamente o bloco após ver se todas as folhas estão direitas, ata-lhe uma guita e lacra o nó da dita. Depois encosta-o aos outros, sem títulos ou números. Para quê? Isso das datas só são importantes para uns e os títulos para aqueles que gostam de tê-los.
Trata-se de todo um funeral em que se relembram as últimas peripécias que estão neste bloco de apontamentos. Mas não é um funeral triste. É só mais um.
Daqui a muitos anos, X irá reabri-los um por um, da esquerda para a direita e assim relembrar toda a sua vida
01.25.08
anseolítico
X acordou sobressaltado. Aliás, reacordou, pois o despertador deu-lhe o aviso horas antes. Foi à casa de banho num pulo, lavou-se à gato, vestiu a primeira roupa que encontrou, agarrou nos vários pertences modernos e tradicionais, atirou-os para dentro da mochila, foi passear o cão nervosamente, o cão não se despachava nem por nada, finalmente lá fez tudo, deixou-o em casa, alguém tinha estacionado em segunda fila precisamente ao lado do seu carro, apitou furiosamente, barafustou contra a mulher que trazia sacos de supermercado, andou a 100 onde o radar permite 50, deve ter apanhado uma data de multas, deixou escapar a saída certa da segunda circular, logo a seguir veio a fila interminável de gente nos carros e quase que desistiu.
Tomou um anseolítico para aguentar mais esse tempo perdido, olhava para todos os relógios, o do carro, o do telemóvel e o do pulso e reparou que todos estavam com minutos diferentes, decidiu telefonar para avisar que ia chegar atrasado, finalmente lá conseguiu fazer mais uns metros e saír na próxima saída (como dizem os GPS), andou para trás numa estrada secundária cheia de pessoas sem passadeiras, com passeios feitos de alcatrão, reparou que só estava atrasado dois minutos, o anseolítico começou a funcionar, a funcionar extremamente bem porque lhe toldou a visão e X, uns kms à frente teve mesmo que encostar o carro para dormir quimicamente.
Acordou horas depois e só se lembrava que tinha uma reunião importante, ligou o carro e olhou para os três relógios. Percebeu que tinha falhado. Telefonou para com quem se ia reunir e não atendia, telefonou outra vez e, com uma voz quimicamente ensonada alguém perguntou quem era. X respondeu a justificar o atraso. Do outro lado, e depois de uma série de asneiras, Y disse que tinha tomado um anseolítico e que parou numa bomba qualquer.
Riram-se os dois e combinaram a reunião para o jantar.
01.24.08
vento
X teve um amigo que adorava duas coisas: palavras e vento. Era um eterno apaixonado pela vida, pelas iguarias, pelas tradições e romarias. Mas o que gostava mesmo era de se sentar no pico do monte mais alto para escrever palavras. Algumas soltas, outras em frases. Depois atirava as folhas ao ar e o vento encarregava-se de distribui-las por todo o lado.
Certo dia ele apaixonou-se por uma bela rapariga lá da cidade onde vivia. Como era tímido, só a seguia encantado pela sua elegância e beleza. Perguntou a X o que fazer ao que a resposta foi a única que se poderia dar: “Tens que ultrapassar essa timidez e falar com ela.” Mas ele não conseguia. Um dia, quando se cruzou com ela, ambos ficaram quietos a olhar profundamente para a a alma de cada um. Mas ele não conseguiu profrerir uma palavra e fugiu para o cimo do monte.
Passou dias a pensar no que fazer e, num repente, descobriu a solução: iria escrever mil poemas de amor, mas só um seria para ela. Se o vento os levasse para a cidade e se ela apanhasse o seu, perceberia finalmente o quanto ele estava apaixonado e viria ter consigo ao cume do monte.
Então, começou a escrever e a lançar as folhas ao vento.
01.23.08
rolamentos
X teve na sua infância, como a maior parte dos putos excepto um primo, todo um fantástico carrinho de rolamentos feito por si.
Mas depois de muitos choques, quedas violentas, grandes arranhões e pele queimada, estas verdadeiras bombas rolantes deixaram, a pouco e pouco, de fazer parte da vizinhança.
Só ficámos com as biclas, a bola de futebol, piões e berlindes. Ah, e carrinhos e Action Man´s.
Muitos anos passaram e foi muito recentemente que, num restaurante típico de bairro, que se fez novamente luz na cabeça de X. Havia pais que tentavam encontrar um espaço para arrumar o último grito no que respeita a carrinhos de bebés. Devem ter passado o mesmo lá fora, a tentar estacionar o deles.
X olhou demoradamente para este novo veículo, um verdadeiro triciclo topo de gama, com travões, suspensões e um belo banco que mais parecia uma bacquet de competição, com cinto de segurança e tudo.
E quanto mais olhava, mais perto via a concretização de um campeonato original, uma verdadeira competição entre estes carrinhos nas várias descidas de Lisboa.
No dia seguinte foi ver estes carrinhos às lojas. Havia com três, quatro rodas, até modelos com suspensões activas e pneus em jantes de alumínio. O preço é que era um problema. Precisaria de um financiamento bancário e patrocínios de vária ordem para conseguir levar o projecto ávante.
Para se preparar, comprou um modelo de três rodas, gama média, adaptou um guiador à frente com os travões, aumentou a cadeira ocupando o espaço das bagagens e ficou com um bólide nas mãos passados uns dias de trabalho árduo e criativo. Agora só tinha que o levar para o bairro onde morou em petiz e lançar-se nas mesmas descidas e na “curva da morte do artista”.
X iniciou a descida, bateu recordes de velocidade e também bateu em qualquer coisa que não se lembra. Aliás, ainda hoje não se lembra de nada. Nem de ninguém. Só consegue ver paredes brancas almofadadas e alguém lhe vestiu uma camisa com umas mangas tão compridas que se juntam atrás prendendo-lhe os movimentos com umas estranhas algemas de cabedal grosso.
01.22.08
patins
X olhava curioso para os putos que usam aqueles ténis que se tansformam de repente em mono-patim. Gostava de ter uns, mas de certeza que o seu equilíbrio não o iria permitir fazer razias às populações que habitam os centros comerciais. Mas que chegaria de A a B mais depressa, lá isso chegaria. Tinha que pensar numa solução e, ao ver as montras, encontrou-a na forma daqueles ténis que mostram os pitons na parte do calcanhar e que depressa alcunhou de ténis incompletos. Comprou uns e foi ter com X2, amigo de infância que habitava uma cave escura e se intitulava inventor. Quando transcrevia essas invenções para papel, intitulava-se escritor. X2 era um gajo engraçado e multiusos.
Sempre muito fiel aos seus All Stars, claro que largou uma forte gargalhada quando viu os ténis incompletos. X aguentou o gozo e transmitiu-lhe a ideia. “Ora temos meia dúzia de pitons em cada ténis, não é? Os quais quero transformar em rodas. Dá mais estabilidade e serão bem mais rápidos que os outros”. X2 achou brilhante e pediu dois dias a X.
Passadas 48h lá estava X a admirar o belo trabalho de X2, que em vez de rodinhas, colou pequenas esferas metálicas “para te dar mais liberdade na direcção e tudo, topas?”.
X achou que um inventor tem sempre razão, calçou-os, meteu-se na primeira rua e, num milésimo de segundo, cada perna se afastou para os lados numa esparregata perfeita, dinâmica, extraordinária a que qualquer júri de ginástica daria um perfeito 10/10.
X2 riu-se mas depressa percebeu que o seu amigo agonizava. Ajudou-o a retirar a invenção, levantou-o e deixou-o no sofá da cave enquanto chamava uma ambulância.
Na próxima vez que X foi ao centro comercial foi apoiado em duas muletas, com pontas de borracha para evitar qualquer deslize.
E foi com elas que X passou uma tarde a pregar rasteiras aos putos dos ténis mono-patim.
01.21.08
casa
X quer mudar de casa. Há muitas razões, mas a primeira é que se tornou grande demais e bastante confusa. Quer um espaço grande, com sala grande, com algumas curiosidades e recantos, etc. Bom, mas acima de tudo quer um jardim para o seu cão e lugares de estacionamento.
X então comprou muitos balões, centenas deles, uma bilha de gás e um cesto de verga. Como mora no último andar, ninguém viu os preparativos. Levaria uma bússula, um pequeno gerador e uma ventoínha grande para o empurrar contra o vento, se tal fosse necessário.
Enchidos 100 balões, meteu o seu cão no cesto, depois entrou e cortou a amarra com o canivete.
Lentamente o seu veículo de pesquisa começou a subir. Finalmente viu alguns segredos do seu bairro, desceu e subiu as colinas e ia tirando muitas fotografias.
Quando algum espaço era merecedor de maior atenção, X explodia 5o balões para descer o mais possível e ver melhor. Depois, com a ajuda da botija de gás, depressa enchia 50 balões novos e voltava lá para cima.
A sua cidade tem recantos lindos, jardins escondidos, prédios que guardam espaços no seu interior, pequenas vilas com árvores e putos a jogar à bola.
Mas não viu a casa dos seus sonhos. Empurrando os balões com a ventoinha regressou ao seu andar e pensou num plano.
Amanhã necessitaria de milhões de balões para poderem levantar parte da sua casa do resto do prédio. E assim poderia viver no céu. Sempre que fosse necessário, desceria para passear o cão e fazer as compras do dia. Não teria vizinhos, mas também podia ouvir música às horas que lhe apetecesse.
Ora pensado, dito e só faltava o feito. X foi buscar o serrote e começou a dividir a sua casa do resto do prédio.
01.20.08
papel
Telefonaram a X a pedir um requerimento de 2003. Uma coisa qualquer que só tem importância para quem faz requerimentos. Já foi difícil para X encontrar o telefone e só lá conseguiu chegar auditivamente. Requerimento quer sempre dizer que qualquer coisa de muito mau irá acontecer. Então X resolve levantar-se. Ficou ainda sentado com os inúmeros papéis de várias cores, tamanhos, amarrotados ou por ordem a voarem em todas as direcções até lhe caírem novamente em cima. X olhou em volta. Toda a sala (ou seria o quarto?) estava cheia de papelada. Uma confusão assinalável. Não se via um palmo de chão. Só papéis, dossiers, pilhas de apontamentos, livros gastos, livros por abrir e papelada. Sim, muita papelada. Desorganizada, pensava toda a gente que visitava X. Mas para ele esta suposta desorganização tinha mais ou menos alguma lógica.
Começou à procura do ano 2003. Estava entre o 2006 e o 1997. Ali mais para o canto esquerdo por baixo de uma das janelas. Andou de gatas por cima de todos os anos, todos os acontecimentos, todas as missivas, todos os pensamentos. De vez em quando perdia-se e sentava-se a ler qualquer coisa que lhe tinha sido importante. Mas o telefonema foi ameaçador e lá estava X debaixo da janela. Ora 2003, 2003…. tanta coisa de 2003. Foi há tanto tempo. Perdeu horas a tentar descobrir o tal de requerimento. Até que se lembrou que, ensonado e durante o telefonema, ninguém lhe disse de que requerimento se tratava.
Podia ter ficado perturbado, mas como neste Portugal um pedido segue sempre outro, como os requerimentos, voltou para o centro da sala (ou seria o quarto?) e, como quem se atira para dentro de uma piscina, afundou-se de onde tinha saído. E adormeceu tranquilamente.
01.19.08
cor
O mundo tinha mudado. As cores tinham desaparecido e por muito que X vestisse a roupa mais colorida, mal saía de casa, tudo se transformava em preto e cinzento. Era estranho, mas já toda a gente se tinha habituado.
Foi num nestes dias e no meio de todo o reboliço de um Chiado cheio de gente que X viu, muito ao de leve, uma cor. Foi um choque. Decidiu segui-la para saber o que era. Foi díficil conseguir abrir caminho por tanta gente e obstáculos, mas de vez em quando lá estava o rasto da cor.
X reforçou com ganas a sua perseguição e cada vez se aproximava mais desta cor, que cada vez também era maior. De repente tudo parou. Havia alturas em que tudo e todos paravam, mesmo X. Mas desta vez, não se sabe porquê, só a cor e X se moviam e foi com rapidez que X conseguiu alcançá-la.
Por baixo de um grande sobretudo preto surgia, escondido, um bonito vestido cor de mel e turqueza. Era um vestido. Portanto era uma mulher. X olhou para cima, para o seu rosto. E ela já estava também a admirá-lo. Tirou os óculos escuros e brindou X com um magnífico sorriso colorido pelo azul dos olhos.
Todos os outros se começaram a mover ao mesmo tempo e X só teve tempo de lhe agarrar na mão e puxá-la até si.
E enquanto tudo e todos se moviam eram eles que ficaram parados. Para sempre.
01.18.08
Reviravolta
X gosta de trocar as voltas. É giro e sabe-lhe bem. Quando troca a volta a uma volta, parece que fica tudo na mesma. Mas não. Fica ao contrário. E isso troca as voltas a muito boa gente. O trocar a volta não é uma tarefa muito simples. Nem imaginária. É simplesmente fazer ao contrário daquilo que se disse que se ia fazer. Pode trocar-se a volta em inúmeras situações. Até em linha recta, o que é fabuloso. É uma coisa de adolescente, cria um sorriso traquina na face e dá-nos aquele arrepio fininho pelo corpo todo porque fizemos asneira. Mas não da grossa, pois aí o arrepio deixaria de ser fininho.
Há efeitos práticos que X utiliza de vez em quando. Por exemplo, à questão “vamos dar uma volta?”, X tem duas respostas simples e directas: um “não” simples e seco ou um ar de enfado imediato. Geralmente resultam.
À questão “não consegues dar a volta a isso?”, X é mais cauteloso. O “Epá, isto não tá fácil” tem barbas e já ninguém acredita no “Atão não?”.
Por muitas voltas que se dêem, há sempre aquela que fica marcada para sempre. O passo ao lado, errado, o tropeção. Entristece-nos, persegue-nos, atira-nos para um estado ausente ou arreliado. Ficamos mesmo em baixo. E aí já não há volta a dar-lhe.
Com a razão satisfeita e o objectivo conquistado, o Mr. X não queria deixar de contar as suas pequenas aventuras. Mas um trato é um trato e este blog terminou.
Contudo, tudo continuará na mesma. Mas aqui:
É só clicar.
Um até já.
Fidelidade
Isto de ser fiel tem muito que se lhe diga. É-se fiel a um companheiro, seja ele bípede ou quadrúpede, a uma marca de automóveis e electrodomésticos (linha branca ou castanha), a um operador de telemóveis, aos tascos e restaurantes onde nos tratam bem. Gosta-se mais de umas séries tv que outras, discutimos os nossos preferidos com quem tem outros, é-se fiel até a pequenas coisas do dia a dia, como tomar banho e lavar os dentes depois ou vice versa.
É-se fiel a amigos, mais fiel a uns que a outros. Nos encontros ocasionais, dá-se aquele abraço e promete-se logo telefonar para uma patuscada, o que nunca faremos. Portanto somos infiéis não o sendo.
Quando nos chateamos com o nosso operador de sempre, seja de telecomunicações ou tv, bancário ou segurador, mudamos logo para outro que seja mais barato ou apelativo na comunicação. Somos fiéis aos companheiros até ao dia que não o somos. E depois não o somos outra vez. E tempos depois passamos a ser fiéis a outra companhia. Somos fiéis aos bichos até eles morrerem e arranjamos logo um mais pequenino e fofinho para lhe tomar o lugar. Mudamos de marca de automóvel quando a concorrência dá mais pelo nosso ou faz aquele modelo “uau”.
Afinal, somos fiéis a quê e, melhor, porque razão somos fiéis?
Toda esta conversa só tem um motivo: o Mr X terminou o objectivo do outro lado, mas é fiel à comunicação e, porque não, a quem o lê.
Portanto aqui está uma verdadeira razão para comemorar a fidelidade. A verdadeira. Aquela de que se gosta e que só depende de nós.
01.17.08
promessa
01.16.08
último
X só tem um cigarro. Descuidou-se, é tarde e está um forte temporal lá fora. Se for de carro até a uma bomba sabe que não terá lugar para estacionar ao regressar. É um pesadelo.
X olha para o maço davidoff preto. Abre e fecha-o várias vezes, na esperança que exista o milagre da multiplicação. Mas não, continua lá aquele sózinho, desamparado, todo branco.
Um cigarro simples, sem cores, a contrastar com a negra caixa.
X tira-o finalmente da dita. Olha-o, pousa-o na mesa. Fá-lo rolar uma e outra vez. Tenta mantê-lo na vertical. Consegue pelo lado do filtro, mas não se aguenta pela outra extremidade.
X agarra-o com as pontas dos indicadores. Sente-o, deseja-o. Cheira-o uma e outra vez.
Coloca-o na ponta dos lábios. Imita o acto de fumar várias vezes, expelindo ar e tudo.
Decide voltar a colocá-lo na caixa. Mas é por pouco tempo.
Ao voltar a colocá-lo nos lábios, agarra no bic. Sente as suas formas arredondadas, inspecciona o mecanismo, abana-o, acende-o duas ou três vezes.
Chegou a hora!
E o pesadelo acontece: de tanto brincar com o cigarro, colocou-o na boca ao contrário e acendeu o filtro. O sabor e o cheiro são angustiantes. Impetuosamente atira-o para longe, ainda aceso. Escorrega para trás da secretária e o cheiro a queimado começa a ser notório.
Bolas! X lança-se para baixo dela. Lá estava o sacana a começar a arder um dos cabos do computador.
Filho da mãe! Com esforço conseguiu retirá-lo lá do canto e foi com uma forte e determinada pisadela que destruíu por completo… o seu último cigarro.
Tremeu.
E agora?
01.15.08
blogues
X decidiu entrar nessa moda actual e fazer um blogue. Pensou, pensou e teve algumas ideias. Então decidiu fazer vários blogues. O primeiro seria simples, com um design daqueles que vêm pré-escolhidos e em que tudo é automático para ajudar quem não percebe muito destas coisas. Este servir-lhe-ia para comunicar os outros, mais complexos e arrojados. Que tal para publicidade? Tinha era que encontrar um nome sugestivo…. ora “Blob” ou “Cão que ladra morde” ou “Gata assanhada precisa de manicure” pareciam bem. Este blogue apenas conteria informação para as verdadeiras ideias de X, ou seja, os outros blogues. Uma delas, visto que os tempos estão difíceis para todos, era criar uma fábrica de desejos. O nome poderia ser “Dá para todos” ou “Ponha-se na Fila” e garantia que toda a gente que o visitasse entregaria 5€ numa conta destinada para o efeito. Ora o primeiro que estava inscrito, por exemplo X, queria dinheiro para comprar uma camara de video toda hightech e alta definição e tal para fazer filmes. Precisaria de 1700€. Ora se toda a gente entrasse com 5€, e partindo do princípio que X é uma pessoa séria, digna de confiança e único administrador do blogue, depressa se atingiria a quantia pretendida. Mal isso acontecesse, quem estivesse em segundo passava para primeiro e precisava de 5000€ para pagar as dívidas ao fisco. Este blogue seria cada vez mais popular e a coisa seria um sucesso.
O segundo era um blogue de trocas de material e coisas, com um nome tipo “truca-truca” ou “troque aqui”. As pessoas só enviariam o que queriam trocar e escolhiam na lista uma coisa do mesmo valor. Simples, sem comissões e útil para a sociedade. A verdadeira reciclagem.
X tinha mais ideias, mas era melhor começar já.
E quando se preparava para abrir as contas no blogger, pumba, cortaram-lhe a net por falta de pagamento.
01.14.08
desejos
O Mago disse a X “Toma três desejos, tens que os pensar bem pois desejo pedido não tem retorno”. X achou estranho, pois pensava que era o génio da lâmpada que concedia esta sorte, mas a cavalo dado não se olha o dente e decidiu arriscar: “Ok, o meu primeiro desejo é egoísta, pois quero-o para mim!”. O Mago, pensativamente, esperou pelo pedido de olho meio franzido. “Pois quero que tudo o que me foi tirado por inveja, incompetência e mediocridade, me seja dado. E com juros rectroactivos”, pediu X, entusiasmado.
O Mago, com olhar assustado, concedeu o pedido e disse a X para aguardar um dia.
Mal acordou X ouviu as notícias: algumas indústrias tinham sido fechadas, muitos negócios acabados e muitas pessoas tinham sido detidas pelas falcatruas que fizeram ao longo da vida. Por outro lado, X tinha o sucesso merecido em certas áreas e a sua conta mais recheada que o costume.
Não era bem isto que ele queria, mas também não se preocupou muito com os reflexos do seu pedido.
O Mago reapareceu pelas 11 da manhã. “Tens mais dois, afirmou!”.
X reflectiu. Bastante. No meio de tanta coisa, não sabia bem o que escolher. “Olha lá, ó Mago, já concedeste estes desejos a alguém?”. O Mago respondeu afirmativamente. “E alguém pediu paz entre os homens e comida para todos?”. O Mago respondeu afirmativamente. “Então porquê é que continua a haver guerra e fome?”
O Mago sentou-se. Encolheu os ombros e disse que não sabia. “Em princípio devia ter acontecido, mas ficou tudo na mesma. Ando um bocado destroçado e preocupado com isso…” – disse.
X pensou. “Então Mago, já sei quais são os meus outros dois desejos.”
O Mago levantou-se num repente, alegre por concluir mais uma missão e esperou ansiosamente pelo pedido.
X disse, calmamente: “O meu segundo desejo é que voltes à tua terra e aprendas como fazer mesmo, mas mesmo, a vontade de quem te pede o quase impossível.”
O Mago estranhou, mas acedeu. “E o terceiro?”
“O terceiro – respondeu X – é que regresses outra vez a mim para que eu te possa pedir essas mesmas coisas”.
O Mago entendeu a tarefa, despediu-se de X e desapareceu numa nuvem de pó mágico.
X ficou na dúvida se alguma vez o voltaria a ver.
01.13.08
fumo
X acordou e olhou para a sua grande janela, a mesma que lhe permite ver a sua cidade quase por inteiro e finais de tarde inesquecíveis.
Mas hoje o tempo estava diferente. Um estranho nevoeiro cobria a tão afamada luz da cidade. Cheirava diferente, pior que as marés mais vazias.
X olhou para baixo, para as ruas do seu bairro. Ali e acolá via pequenas luzinhas vermelhas, rápidas, fugazes e com movimentos bruscos e escondidos.
Decidiu descer para ir beber o café e passear o cão. Também ele estava diferente, mais amedrontado, receoso até. Um estranho silêncio habitava o prédio enquanto o elevador descia os vários andares.
Mal abriu a porta do elevador, achou estranho o amontoado de pessoas à porta do seu prédio, como se estivessem a resguardar-se de uma chuva que não acontecia. Muita gente calada. O fumo aqui era tão denso que não deixava descobrir as suas caras, subindo numa grossa espiral negra e densa que depois se misturava com o cinzento da atmosfera.
Foi com alguma dificuldade que X ultrapassou com o seu cão esta horda de gente estranha e ameaçadora. Mas ao fazê-lo reparou que todos eles tinham umas estranhas luzinhas vermelhas nos dedos e que as levavam à boca, em movimentos rápidos e quase simultâneos.
X viu que eram cigarros. Simples cigarros. Ao olhar em redor viu diversos grupos, de costas voltadas para o exterior, fumando os seus cigarros como se fosse o último pecado nem assim tão original.
Toda a gente o evitava olhar, passando rapidamente com a cabeça baixa, com um chapéu bem puxado para a frente. Alguns alarmes tocavam em pequenos cafés e estabelecimentos comerciais e era só uma questão de segundos para ver gente atrás de um fugitivo, a agarrá-lo, a atirá-lo para o chão e pontapeá-lo.
Logo a seguir surgiu uma carrinha da nova força policial especial para o combate a este crime. Dela saíam soldados armados como no Iraque e com máscaras anti-gás. Um minuto depois atiravam o criminoso encapuçado, atado, semi desmaiado para dentro da carrinha.
Uns quantos populares gritavam urras de satisfação e reentravam nos estabelecimentos. Os pequenos grupos que se viravam de costas nem se mexiam e já tinham há muito apagado qualquer vestígio dos seus crimes.
Passadas semanas, o pânico tinha-se instalado na cidade. Pessoas corriam para se proteger de algum bufo, escondiam-se nas esquinas, nas entradas dos prédios. O céu de Lisboa estava cada vez mais negro e as sirenes tocavam e passavam por todo o lado.
O Verão chegara, mas o sol não.
As outroras maternidades, hospitais e urgências que o governo tinha fechado, serviam agora de prisão para os cada vez mais condenados. Alguns crimes mais violentos iam sendo cometidos, como por exemplo, o roubo de máquinas de tabaco em vez de caixas de multibanco.
O governo, sempre disposto a ajudar drogados com metadona e kits especiais, recusava baixar os impostos e nem dava desconto nos tratamentos anti-tabágicos, pois essas receitas eram cada vez mas necessárias.
Mas este Verão cinzento e sem sol trouxe uma outra novidade: a falta de turistas, a falência das cervejarias e cafés com esplanada, da indústria de gelados. O “vá para fora cá dentro” depressa foi esquecido e em apenas um ano Portugal perdeu 83% das receitas turísticas.
Novas equipas de limpeza urbana tiveram que ser criadas para limparem as ruas dos milhões de beatas acumuladas, a maior parte atiradas dos prédios ou de carros em movimento. As sargetas estavam entupidas.
Os barcos não cruzavam o Tejo, pois os motores não tinham força para abrir caminho entre todo o lixo amarelo e branco.
Portugal faliu, as indústrias fecharam, os caminhos estavam obstruídos, não havia água nem electricidade e aos poucos, os lisboetas abandonaram a sua cidade e rumaram ao campo, às vilas abandonadas, à desertificação que já tinha sido esquecida.
Aí tiveram que aprender novos ofícios, como caçar, pescar, fazer roupa da pele dos animais, lareiras que os aqueciam pela noite, troca directa e afins…
O céu era azul e eles finalmente viviam num ar livre, livre, livre.
01.12.08
rei
X gostaria de morrer como um rei, numa barcaça ardente ao sabor do Tejo.
Enquanto as chamas o envolveriam, olharia a sua bela cidade, relembrava as suas aventuras, as noites, os amores e desamores, os amigos e inimigos, as traições e as fidelidades.
Quando as chamas chegassem a ele e o fumo já não o deixasse ver nada, cerraria os olhos e embalado pela maré e pelo calor, relembraria as viagens que fez, os rostos que conheceu, as mulheres que desejou, as que encontrou, os silêncios de algumas horas, os barulhos de tudo e todos, a paz e o corropio.
Mas X não é rei, portanto nunca morrerá como um.
Quando esse dia chegar, serão os amigos, as amigas, as pessoas que o conheceram e gostavam dele a estarem presentes para um último adeus. E aí, quem não se sente e é um verdadeiro rei?
01.11.08
caminho
X quando toma a esquerda sabe ao que vai. Quando toma a direita, finge-se dividido, mas também sabe ao que vai. Portanto encontrou uma solução para não ter que tomar a decisão: segue em frente! E isto porquê? Porque tem sempre a possibilidade de recuar por um caminho que já conhece. Deste modo, pensa, protege-se.
O problema acontece quando a esquerda se afasta cada vez mais da direita, e vice versa, e lá muito ao fundo fazem uma inversão de 180º e voltam a reencontrar-se mesmo no centro, onde X está. Como fugir? Andar mais para a frente ou recuar!
Mas tal como na construção de vias de comunicação, a esquerda e a direita voltam a separar-se e a reencontrar-se vezes sem conta. E a linha onde X se resguarda está cada vez mais minada, mais atravessada, mais complicada.
Dizem que somos nós, homens, que dificultamos a própria vida e existência, mas afinal tudo não passa de encontros desencontrados.
01.10.08
indecisão
Qual o despertador que acorda X, o do telemóvel ou do relógio alarme? Bom, um deles faz o trabalho. Quando X se levanta tem duas possibilidades, qualquer uma só após o brinde de vida, de alegria e de lamdidelas do seu cão. Ou dorme mais aquele bom bocadinho ou levanta-se num ápice, como se não houvesse amanhã.
Desta vez resolveu levantar-se. Calça os chinelos ou vai descalço até à casa de banho? E ao lá chegar, vê a barba de quatro dias, a que já não é cool, e não sabe se a vai fazer ou não. Se sim, será com lâmina ou máquina? A lâmina é mais rápida mas a máquina faz melhor.
Decide tomar um banho. Duche ou imersão? E qual o shampôo a utilizar? O que trata os cabelos brancos, o do cheirinho a flores, o desportivo masculino ou somente o sabão de glicerina que também faz espuma e lava muito bem?
Fecha a torneira enquanto se ensaboa ou deixa-a a gastar água com aquela temperatura óptima e ideal que levou tanto tempo a conseguir?
Por fim, já lavado, que toalhão escolher? O mais velho e gasto mas que seca mais rapidamente ou o novo e felpudo que parece que não funciona? Limpa-se dentro da banheira ou sai para o tapete e molha-o todo?
Voltando à barba. Será que a fez? Se sim qual o bálsamo a utilizar? O mais corriqueiro, o todo especial e caro ou aquele que até dá para a pele toda da cara com vitaminas, proteínas e tudo e mais alguma coisa?
Os ouvidos. Deixará para ficar para amanhã ou opta pelas tradicionais cotonetes em vez daquelas todas modernas que chegam a todo o lado mas que assustam e ainda estão dentro da embalagem?
Ok, tudo feito, tudo perfeito, mesmo depois de ter que decidir qual o desodorizante e o perfume para hoje.
X vai para o quarto e o cão dá-lhe as boas vindas. Outra vez.
E agora, que roupa escolher?
Que calças, shorts, meias, sapatos, ténis, cinto, t-shirt, camisa, casaco, cachecol, blusão?
No fim de tudo isto e já na rua, X fica muito satisfeito por só ter um veículo ligeiro e uma chave na mão.
Lembrou a altura em que teve dois e o drama que era a escolha.
01.09.08
cara metade
X subiu até ao telhado do seu prédio. Estava uma noite magnífica, estrelada, mesmo mágica e ele sabia que era agora ou nunca.
Viu a primeira estrela-cadente, mas passou demasiado longe. Uma segunda e terceira também. Mas a quarta vinha mesmo na sua direcção. X tomou balanço, saltou e conseguiu agarrar o extremo final da cauda desta estrela-cadente.
Iniciava assim a viagem que o seu pai, avô, bisavô, tetra avô tinham feito e contado aos descendentes. X ainda não tinha filho mas chegava a hora, daí esta viagem ser tão importante.
Via a sua casa a desaparecer depressa, a sua cidade transformou-se num pequeno ponto de luz igual a tantos outros que eram outras cidades de outros países e depois de outros continentes.
Subiu a pulso a cauda da estrela e montou-a como se fosse o seu dragão alado. Viu mundos paralelos em que os seus antecessores lhe disseram adeus. X retribuiu com lágrimas de felicidade, estavam todos juntos e bem.
Viajou por portas mágicas, tempos sem tempo, lugares sem espaço, sonhos nunca dormidos.
Até que a estrela-cadente lhe deu o sinal para ele a largar e deixar-se caír.
Caiu, caiu, caiu durante muito tempo, mas ia sendo amparado pelas estrelas, depois pelas nuvens e a velocidade ia diminuindo.
Começou a adivinhar o ponto de luz que era a sua cidade e foi com uma brisa forte e quente que aterrou no seu terraço.
Estava chegada a sua hora e já podia contar a história da sua família.
Só faltava agora encontrar a sua cara-metade.
01.08.08
encontro
Ambos tinham-se conhecido por blogues. Cada um tinha o seu. Durante muito tempo comentaram as ideias de cada um. Até que surgiu o primeiro email. Depois o segundo. E muitos outros. Com algumas necessidades de gritar, ele criou um outro blog para lançar tudo o que tinha dentro, todas as taras, todos os desejos, todas as fantasias. E disse-lho. Era macabro, quase sanguinário, era verdadeiramente sensual e sexual. Até ele se assustou. Quando, no dia seguinte, se preparava para continuar a sua história, recebeu um email dela, continuando a história dele, ainda mais violenta, mais sanguinária e muito, mas muito mais sexual e sensual.
Ele ficou sem saber o que fazer. Optou por responder-lhe ao email, em vez de continuar a sua história no blogue recentemente criado. Respondeu-lhe como quis, sem tretas ou tramas, foi lógico, puro e duro. A resposta veio por email. E foi por email que escreveram uma das histórias mais bizarras de sempre. Depois disto, o encontro físico seria inevitável. Estava escrito, descrito, sentia-se a pele, sentia-se o cheiro. Sentiam-se.
Marcaram encontro em território neutro. Ele chegou primeiro que ela, mas pouco.
Ela surgiu radiosa, com um sorriso de desejo como ele há muito só via no cinema.
Entraram na casa que um deles tinha descoberto e arrendado.
Passados uns dias, toda a polícia da região e nacional procuravam dois jovens desaparecidos. Eram notícia de telejornal e nem ingleses eram. Houve alguém que leu os emails e os mostrou à judiciária. Foi difícil encontrá-los.
Lado a lado estavam enrolados, agarrados, dormiam para sempre, extenuados pela fome e sede. Mas a paixão e o delírio, os sentidos e a descoberta de outros que não existem nos livros, foram mais importantes que tudo. Até que da própria vida.
Os seus emails acabaram por ser editados em livro. Foram traduzidos em muitas línguas.
E pelo mundo, muitos jovens iam desaparecendo…
01.07.08
destino
X acordou sobressaltado. Nada lhe vinha à cabeça, nenhum pensamento, nenhuma ideia, nenhuma aventura. Então decidiu recorrer às bancas de jornais e a outros estabelecimentos. Nos jornais, nada a fazer, pois tudo já estava escrito. Tudo era velho, nada original. No café da esquina, as conversas eram as mesmas sobre o fumar-se ou não. Foi ao mercado de peixe. Aí, depois de deambular pelas peixeiras e os seus gritos rebeldes de uma vida dura, ouviu chamarem-lhe patrão várias vezes. Os convites vinham de todos os lados, as frescuras eram sempre as mais frescas e os bichos os mais salgados. Escolheu um peixe, pois a vendedora garantiu-lhe que encontraria o que buscava nas entranhas deste animal mal cheiroso. Chegou a casa, esvendrou o peixe e, com uma certa repugnância, remexeu-lhe as entranhas. Havia coisas estranhas, duras, pequenitas. Lavando-as, descobriu um anel de ouro com brazão e uma moeda de ouro de um galeão espanhol do séc XVIII.
Consultou a net, leu que havia registos de um galeão desaparecido ao largo do Tejo e decidiu descobri-lo.
Arranjou uma barcaça a motor, uma rede, uns óculos de mergulho e outros aparelhos. Mas, num repente, uma violenta tempestade assolou o Tejo e todo o Atlântico, a barcaça rodopiava em cima das vagas, subiu quilómetros dentro dos furações, viajou a uma velocidade incrível e ia desfazendo-se aos poucos.
Após uns dias, X acordou extenuado e com sede num mar calmo e límpido. À sua frente estava uma majestosa ilha. A sua barcaça, levada pela maré, entrou na baía, perfeita como nos filmes, e parou quando atingiu a areia branca e virgem da praia. X saiu da barcaça. Olhou em redor e ali mesmo, ao seu lado, estava o galeão espanhol.
01.06.08
quadro
X gosta de pintar. Não tem técnica nem conhecimento que o justifique, mas os resultados até que nem são maus. Num destes dias, numa das muitas tertúlias domésticas, viu-se diante de uma discussão entre dois sabichões que não concordavam em nada. Quase que se incompatibilizaram e saíram zangados, talvez também devido a algum álcool consumido.
Ora X depois disto teve uma enorme vontade de fazer uma obra-prima, pois entendeu que se alguém detestasse a pintura, haveria outro alguém que a adoraria.
Meteu mãos à obra com tudo o que encontrou em casa, desde tintas plásticas, óleo, farinha, gesso, pimenta em grão, raminhos, folhas secas e, para finalizar, uma grande lata de laca para colar tudo muito bem.
Admirou o resultado. Até que tinha ficado uma coisa de jeito, pensou.
O segundo passo era conseguir entrar numa galeria de arte e expôr o seu. Assinou como Mr X, reparou que estava lá uma quadrito foleiro exposto como nº5, trocou-os e depois foi fazer a mudança nos folhetos informativos, onde reescreveu o nome do seu quadro “incognitum” com um valor que julgava justo, cerca de 25000€.
Foi para casa contente. No dia seguinte passou pela galeria e não viu o seu quadro.
Foi falar com a galerista que, ao saber que X era o Mr X, gritou de alegria e abraçou-o com força.
“Incognitum” tinha sido vendido não por 25000, mas por 32.500€, pois dois clientes habituais queriam mesmo levar aquela obra maravilhosa para a sua colecção.
X agarrou no cheque, saíu e ainda vagueou um pouco pelas ruas próximas sem saber muito bem se havia de gritar ou somente sorrir.
01.05.08
saúde
Dois grandes amigos de infância, tropa e festanças, entraram naquela idade em que a última visita poderá ser mesmo a definitiva. Numa viagem ao Algarve, juntaram as vontades e decidiram ir visitar um amigo que não viam há décadas.
Chegados à terreola, iam perguntando ali e acolá se alguém conhecia o Sr Z. E foi logicamente na taberna/café/mini mercado que alguém o conhecia. “O Z? Epá, vocês tiveram mesmo azar. O Z morreu…”
Os dois amigos ficaram chocados, mais ainda porque tinha sido durante essa mesma noite e o corpo estava a ser velado na capela da igreja. Foram imediatamente para lá, no passo mais rápido que a idade lhes permitia.
Ao entrar na capela, deram logo com Z, deitado num caixão aberto com um lenço rendilhado a tapar-lhe parte do rosto.
Calhou a W desenrascar um discurso fúnebre: “Epá Z, então vimos nós de tão longe para te rever e encontramos-te neste estado? Olha, não sei muito bem o que te dizer. Bem, boa saúde é que todos precisamos, portanto toma bem conta da tua, ouviste?”
Nessa altura, K agarrou no braço de W e sussurrou-lhe “Ó homem, despacha lá isto que já estás a dar muita barraca”.
No caminho de regresso iam relembrando os outros amigos da mesma altura. Mas não encontraram coragem para ir visitar um só que fosse.
01.04.08
adeus
Os mais difíceis adeus são aqueles que se prolongam na memória, não os físicos ou os reais. Dizer adeus a alguém ou algo que foi importante na nossa vida é muito perturbador. Exige sacrifício, revisitar memórias, alteração comportamental e há quem prefira a isto tudo apanhar somente uma valente bezana. Parece que faz esquecer tudo, mas isso é mentira.
X ainda tem muitos adeus por concluír, finalizar, concretizar. Mas por qualquer razão, não é um pensamento que está constante na sua vida. Só por momentos, porque associa qualquer coisa a qualquer coisa, revisita o passado com tudo o que tem de bom e mau.
E aí, ao revisitá-lo, percebe que é uma boa pessoa, digna, de confiança. Valente até.
Poderia ser um qualquer azelha, porque o mundo actual é deles. Mas não, incomoda-se quando falha, tem dúvidas se é bom amigo ou se poderia ser melhor e até se preocupa se é bom na cama ou egoísta na mesma.
Será que são todos estes pensamentos que o impedem de dizer um adeus? De se despedir condignamente? Mas então para que é que se preocupa com estas coisas? Não será melhor dizer adeus a todas estas questões? Assim, de uma forma simples e directa, como… adeus!
01.03.08
ser
Quando X era pequenino gostava de ser coisas diferentes dos outros meninos. Queria ser um carro de bombeiros, quando eles queriam ser bombeiros. Depois quis ser um carro de corridas quando eles queriam ser pilotos. Houve uma altura em que quis ser avião e eles passageiros.
Essa fase, como todas as fases, passa depressa.
Ao chegar ao liceu, X só queria passar os anos sem grandes marranços, enquanto alguns dos outros viviam obcecados com notas e médias finais e deixavam a vida passar ao lado.
Tudo foi assim na vida de X.
Hoje continua a querer ser coisas diferentes. Gostava de ser o tempo porque todos os outros fazem a vida por ele. Gostava de ser água porque todos a bebem. Gostava de ser calor, pois todos precisam dele. Gostava de ser doce, pois a vida é bastante amarga.
X gostava, acima de tudo, de ser um pouco de tudo, porque tudo o que os outros têm, o que até pode ser muito, não vale absolutamente nada.
01.02.08
pedras
X gosta muito da calçada portuguesa. Ok, é-lhe difícil encontrar calçado que aguente tempo seco e chuva sem derrapanços e, à parte uma escorredadelas, a coisa faz-se por meio dos buracos, dos pedaços sem predras, dos desníveis devido às raizes de uma árvore que quer ver o sol e das cagadelas de cão, do lixo esvoaçante, da falta de espaço por causa dos automóveis, mas é o preço a pagar por ter uma calçada portuguesa e portugueses com falta de educaçao.
Tudo isto para dizer que X às vezes faz um estranho jogo com a calçada. Não pode ser daquela toda branca, mas daquela com desenhos a preto com motivos naturais, históricos ou até matemáticos.
Por vezes até têm simbologias e nomes de bairros de antigos patrões. Tempos idos.
Por tudo isto, X hoje escolheu um início para mais um percurso com destino incerto. Escolheu pisar só as pedras pretas nunca tocando nas brancas. Teve que saltar algumas vezes, outras dar passadas de corrida compridas e balanceadas, mas muitas vezes chegava ao fim de uma forma inglória. Acabavam-se as pedras pretas.
Há que regressar ao último ponto em que decidiu ir pela direita ou esquerda. E assim recomeçar o percurso que já era outro.
Uma coisa é certa: nunca mais chegou à pedra inicial.
01.01.08
castração
Este é o primeiro dia do que restava da liberdade individual. Hoje X comprou os mesmos maços de tabaco, não com a decisão de fumá-los, mas apenas para pagar os impostos ao governo, os lucros à tabaqueira e a miséria de percentagem a quem os vende.
Hoje, dia uno, é o primeiro dia do fim de uma liberdade que de tão livre que já nem era considerada um direito.
É engraçada a evolução das coisas.
Há muitos anos, fumar era cool
De há 10 anos para cá, já não é cool.
E a partir de hoje é condenável. É uma droga própria para drogados. É uma bela porcaria que mata tudo e todos aos poucos.
Por tudo isto, hoje X tomou uma atitude: ser um neo-rebelde.
Deixou o carro estacionado e levou os maços nos bolsos e dois isqueiros, não falhasse um. Parou à porta de cada café, restaurante ou estabelecimento aberto, acendia um cigarro e soprava valentes fumaças lá para dentro.
Por vezes agarraram-no, bateram-lhe, injuriaram-no. Outras vezes conseguiu fugir.
Ia comprando mais maços à medida que ia esgotando os que bafurava.
Numa dessas ocasiões, um paparazzi viu a atitude radical e tirou-lhe uma foto.
Surgiria no dia dois do ano em quase todas as primeiras páginas.
Os fumadores tinham agora um novo herói que assinava com um X.
X tinha orgulho na sua assinatura, assim como o Zorro gostava de singrar um Z, o Super-homem de mostrar um S no peito inchado e o Santana Lopes de continuar a gritar PPD-PSD até à exaustão.


































