12.31.07

pulo

Posted in Uncategorized at 12:54 by crim3sp3rf3itos

Este ano X vai concretizar um sonho de antigamente. Vai ter a sua passagem de ano muito especial.
Para isso convidou o X com 10 anos, o X com 20 e o X com 30.
Seremos quatro à mesa, que convém requintada, farta e saborosa, e para a qual estamos a trabalhar para que tudo fique perfeito.
X10 trará as traquinices, as aventuras, a boa disposição e a gargalhada fácil. X20 trará os sonhos, os objectivos, os percursos, as pequenas conquistas e algumas derrotas. X30 é mais cuidadoso, diz que trará uma supresa, resumida, de muita coisa que aconteceu. X40 vai gostar de ter todos à sua volta e à sua mesa.
Juntos traçarão o caminho daqui para a frente, em que algumas coisas têm necessariamente que mudar. Há que abrir as garrafas que foram oferecidas no Natal e consumi-las pela noite dentro de uma forma regrada. Dormirão todos cá em casa para não haver problemas com os excessos ao volante.
Amanhã, por esta hora, acordarão num só com uma agenda cheia de coisas novas, de projectos para conquistar, de amantes para desejar e com tempo para existir.

PS: boas entradas.

12.30.07

telefone

Posted in Uncategorized at 14:07 by crim3sp3rf3itos

X comprou um telefone inteligente, daqueles que fazem tudo e mais alguma coisa de tão espertos que são. Metade das funções não servem rigorosamente para nada, mas é sempre giro mostrar aos amigos.
Contudo, este telefone era diferente de todos os outros. Criou ideais próprias, tinha vontades inabaláveis e, sobretudo, era raro fazer o que X lhe pedia.
A princípio a coisa tinha alguma piada, pois obrigava X a conhecer as suas entranhas, os seus mais profundos e secretos folders, o sistema operativo e coisas do género.
Foi nos alarmes e nos avisos que, entretanto, a vontade do telefone começou a prevalecer sobre a do seu dono. Os alarmes matinais ouviam-se bem e eram repetidos à exaustão. Mas os alarmes para encontros com raparigas nunca soavam. O mesmo com algumas reuniões que o telefone achava que seriam uma perda de tempo.
X foi à assistência técnica que lhe comunicou que uma série deste modelo tinha saído com um processador muito mais avançado que os normalmente utilizados. Não podiam fazer nada.
X voltou para casa, leu todo o manual de instruções em busca de uma qualquer solução. Nada.
Até que farto de todo este empenho, decidiu telefonar para uma amiga recente, uma daquelas que prometia e cheirava a uma possível relação rápida e sem chatices.
Procurou e não encontrou o número. Aliás, começou a ver que nenhum dos números desse género estavam na memória. Olhou bem de frente para o telefone que, no seu ecrã de não sei quantas polegadas e milhões de pixels, mostrava uma mensagem “Não percas tempo pá e deixa-te de ilusões”.
X percebeu que o telefone tinha tomado conta da sua vida. Literalmente. Foi ver todos os contactos um por um, e dos mais de 500 que tinha só lá estavam uns 50. Desapareceram membros familares, amigos de circunstância, aqueles contactos que num qualquer dia poderiam ser úteis, números que inclusivé não sabia a quem pertenciam, graças a noites de mais folia alcoólica ou outra.
Restavam-lhe 50 contactos. E esses conhecia-os bem. Até quase que memorizou todos os números ao longo dos tempos.
Olhou novamente o telefone de frente e passados uns minutos, agradeceu.

12.29.07

paixão

Posted in Uncategorized at 11:15 by crim3sp3rf3itos

Naquela esplanada, a primeira coisa que notou foi a coxa. Perfeita, esbelta, apoiada em cima da outra, num entrecruzar de sonhos e delírios, prazeres que de tão mundanos, são muitas vezes sonhos ou desejos delirantes.
Mas o que realmente procurava ver e conquistar era a anca, a sua curvatura para dentro e para fora, uma serpente de cada lado. Foi-lhe difícil percebê-la. A roupa larga não ajudava mas, por vezes e num movimento mais brusco, permitia-lhe ver como a roupa se colava às curvas e depois delas se desprendia.
Foi com prazer que a viu deslaçar as pernas, para conseguir baixar-se para retirar qulquer coisa que estava dentro da mala caída no chão. Foi assim que ele entendeu toda a sua formosura, em que lhe viu parte da pele, cor de mel com os dois buraquinhos de que tanto gostava.
Umas coxas perfeitas, uma anca sublime. Nada mais lhe interessava, nem as mamas, nem os ombros, os olhos, a boca, o pescoço.
Apenas aquelas coxas e aquela anca. Dois hinos ao prazer mais intenso.
De repente, ela levantou-se, qual deusa terrena.
E ao caminhar, coxeou da perna direita.

12.28.07

a chave

Posted in Uncategorized at 11:25 by crim3sp3rf3itos

X escolheu aquele dia para mandar fazer uma chave. Foi a todas as casas de chaves que conhecia, mas ninguém tinha o modelo, ou a maquineta de corte ou qualquer outra coisa.
Decidiu encontrar um serralheiro que lhe disse que, pela particularidade, era tarefa impossível.
Falou com artistas modernos que de ar empinado e sofredor contemporâneo passaram de imediato à fuga e à indisponibilidade. Ninguém lhe iria fazer essa chave.
Já num bar, consciente que ia apanhar uma valente bebedeira, acercou-se-lhe um individuo de óculos redondos, lacinho e impecável no trato. Estendeu-lhe o cartão, visto que a compreensão de X já estava um pouco toldada.
No dia seguinte X acordou ressacado, mas ao tirar tudo dos bolsos encontrou o cartão de Y. Tentou lembrar-se a quem pertencia, mas tudo era muito vago. No entanto, decidiu telefonar-lhe.
Marcaram encontro para essa tarde.
Y apresentou-se como um fazedor de chaves mágicas e disse-lhe que conseguia criar a chave que X tanto ansiava. “E como é que sabe o que eu realmente quero?” – perguntou X ainda desconfiado – “Porque eu sei que o que pretendes é uma chave para fechar o coração.”
X não estava à espera da resposta certeira e ficou mudo por largos minutos. Y aguardou pacientemente. X queria perguntar-lhe de onde vinha, quem era e como soube, mas a cada início de frase, Y respondia-lhe com um não sorridente.
Tirou então uma pequena caixa da sua mala. Colocou-a em frente a X. Faltava um pormenor que era uma minúscula chave para abrir a caixa. E Y disse que X só teria de ter a certeza absoluta que queria fechar o seu coração para sempre, pois nunca haveria retorno dessa decisão. A certeza absoluta garantia-lhe a pequena chave para abrir a caixa onde estaria a chave especial para fechar o seu coração.
X, que tanta certeza tinha até então, começou a deixar-se minar pela dúvida. E Y sabia-o, tanto que começou a sorrir. “Sabes X, a chave verdadeira é a dúvida. E já a encontraste. Enquanto tiveres dúvidas, terás uma vida para viver. Essa é a chave da vida”.
Arrumou a caixa dentro da mala, levantou-se, despediu-se com um sorriso e desapareceu pela porta.
X, depois de beber mais um copo também começou a sorrir. E saíu pela mesma porta.

12.27.07

justiça

Posted in Uncategorized at 12:02 by crim3sp3rf3itos

Tinha a de veículos ligeiros, mas necessitava de ser ainda mais ligeiro. Portanto, tirou a carta de motociclos. Comprou uma qualquer em 3ª mão para aprender a fazer uns piões, uns cavalinhos e uns rés-vés aos carros no meio do trânsito. Estatelou-se algumas vezes, passou pelo hospital outras tantas. Mas quem tem um projecto ultrapassa todos os obstáculos e esse era o seu lema.
Era um fulano de boas famílias, da antiga classe média abastada, mas as tropelias que fez ao longo da vida deixaram-no numa situação ingrata monetária e socialmente. Portanto, estava na hora de iniciar uma nova carreira e visto que os 40 são os novos 30 ainda tinha muito para dar.
Enquanto planeava a perfeição, tinha que encontrar formas de garantir o dinheiro para adquirir o equipamento necessário para esse trabalho. Então, vendeu coisas que tinha por metade do valor e comprou uma mota rápida, mista urbana/enduro, confortável e estável.
Escolheu a época natalícia para iniciar este novo percurso. Esperava ao pé dos multibancos e CTT. Arrancava com velocidade e roubava as malinhas ou sacolas das pessoas. Algumas eram puxadas dezenas de metros, outras apenas gritavam. Já tinha perícia suficiente para se esquivar de alguns cromos que tentavam impedir a sua fuga.
Num mês conseguiu juntar 3897€ e alguns cêntimos.
Durante um ano esse foi o seu emprego. Nem todos os meses eram bons, mas Junho e Novembro compensavam os piores, como Maio e Janeiro.
Passado um ano, vendeu a mota, o capacete e o casaco de cabedal. Tudo por 2000€.
Juntou todo o dinheiro de 365 dias de trabalho e chegou ao objectivo: 50.000€!
Conseguia assim o necessário para comprar equipamento video, audio e de gravação de extrema precisão e longo alcance. Alugou um andar defronte a uma sede de um dos maiores bancos portugueses e apontou a objectiva para os computadores pessoais dos principais directores. Conseguiu, com grande facilidade, filmar e gravar todas as passwords e códigos pessoais de acessos específicos a contas secretas e a fundos de desenvolvimento e investimento.
Como divertimento, ainda filmou uns quantos encontros escaldantes entre colegas de ofício, não que fossem secretárias e patrões, e enviou cópias para os mais importantes pedindo 50.000€ a cada para não as divulgar à imprensa cor-de-rosa. Combinava as trocas em locais públicos, disfarçava-se com um bigode falso, um boné grande e uns ténis cor de laranja shocking. Ele sabia que, se alguém fosse à polícia só se lembraria desses detalhes.
Com tudo isto, a segunda gaveta do seu armário tinha maços enrolados de notas que superavam meio milhão de euros.
Mas era altura para o grande golpe, o perfeito. Aquele que pensou e para que trabalhou todo este tempo. Juntou-se a um amigo hacker/nerd/gueek que estava prestes a ser preso por ter sido o responsável por uma rede P2P nacional e que precisaria do melhor advogado que o dinheiro poderia comprar e, com as passwords e códigos dos directores do banco, entrou nas contas, nos sistemas, nas off-shores, em tudo.
Descobriu muitos segredos, muitas contas engraçadas de gente muito famosa e social, mas o seu propósito era diferente. Distribuiu toda essa riqueza pelas contas de milhares de famílias portuguesas que tinham dificuldade em pagar as rendas das casas onde viviam. E porque não os carros? Dava para tudo. Pagou o Iva e os IRCs e a Segurança Social de todas as micro-empresas que desesperavam por não ter solução. E por fim, pagou as dívidas que o próprio banco tinha a centenas de fornecedores.
Deu metade do dinheiro que tinha ao amigo, rabiscou-lhe o número de um advogado e incendiou o pequeno apartamento onde todo o equipamento tinha feito o seu trabalho.
Entrou no pequeno Mazda que tinha alugado ao mês, olhou uma última vez para o grandioso incêndio que consumia o andar e foi beber um copo.

12.26.07

guerra

Posted in Uncategorized at 13:42 by crim3sp3rf3itos

O bairro de X vive um problema, não social, mas real: a proliferação de pombos, esses nojentos ratos voadores. Há sempre duas ou três velhinhas da praça que se revezam para dar-lhes milho do bom todos os santos dias. A população tem aumentado a olhos vistos, os algerózes entupidos, as inundações frequentes, etc e etc, já para não falar das doenças e dos automóveis.
A população bairrista já se indignou várias vezes, mas não há nada a fazer quando as velhinhas respondem que eles também são criaturas de Deus.
E foi este o primeiro passo para uma guerra sem quartel.
De um lado, os moradores. Do outro, todos os velhinhos amantes de pombos, que atiravam verdadeiras bombas em forma de pequenos sacos cheios de milho, que faziam mossas nos carros, partiam vidros e até algumas cabeças. E com o milho derramado por todo o lado, todos os pombos da cidade surgiram para o festim. Era a guerra total. Os moradores armaram-se de caçadeiras, cal com veneno, fisgas e cães de caça. A polícia de choque ficou chocada com o estado de sítio e o bairro, mais os circundantes foram fechados para garante da segurança de toda uma cidade. Carros foram queimados. As lojas pilhadas. O recolher passou a ser obrigatório, mas ninguém queria saber de mais nada. Cada cagadela ácida na cabeça de um morador era respondido com uma rasteira à bengala que apoiava um velhinho.
Surgiram os partidos e as centrais sindicais, as televisões e os jornais. Mas a chuva ácida estragava câmaras, antenas de satélite e casacos de caxemira.
Por cada pombo que morria, mais 100 surgiam. E com esses 100, outros tantos velhinhos que já vinham em excursões montadas pelas câmaras municipais de cidades bem distantes.
Até que foi chamado o Presidente da República que, com o 1º ministro, trataram de escrever O Segundo Tratado de Lisboa.
Muitas horas de reuniões se passaram. Na mesa estavam representantes dos moradores, dos velhinhos, da polícia e até um pombo.
Passado muito tempo foi conseguida uma resolução!
Toda a baixa pombalina, com os seus notáveis prédios decadentes e esburacados, seriam tomados pelos pombos que aí fariam o seu pequeno estado, prometendo abandonar todos os outros bairros de Lisboa. O milho era-lhes entregue por camiões especiais, que a entidade pública pagava com mais um imposto municipal.
Apertaram-se mãos e asas e casa um foi à sua vida.
Passada uma semana, as três velhinhas juntaram-se em segredo. E escondidas pela noite foram depositar grandes sacos de milho no mesmo sítio onde o faziam antes.

12.25.07

oferenda

Posted in Uncategorized at 22:35 by crim3sp3rf3itos

Treinou anos para aquela noite, aquela performance, aquele momento irrepetível no tempo e no vento.
Treinou desde que nasceu, desde o raiar do dia ao adormecer da noite.
Treinou, sofreu, chorou, mas nunca desistiu.
Aquela noite estava-lhe fadada, alguém lho tinha sussurado ainda no berço.
E esse alguém, cuja voz nunca mais tinha ouvido, sabia, tinha a certeza que estaria presente naquela noite.
Foi preciso um quarto de século para que ele se sentisse apto. Foram precisos mais cinco anos para que ele conseguisse colocar o projecto em pé porque, afinal, tratava-se de um português.
Mas depois daquele sussurro de quase 30 anos estava, agora, totalmente concentrado.
Entrou no palco. Toda uma plateia aplaudiu discretamente. Nem gritos de apoio teve, pois nunca conheceu amigos.
Começou! Um minuto da sua arte correspondia a um ano de vida de ensaio, portanto, era uma performance que nem chegava a meia-hora.
Mas durante a actuação já a plateia aplaudia, aqui e ali. Ao fim de um quarto de hora, metade da sala gritava, exultava. Aos vinte minutos foi-lhe difícil concentrar no resto de todo o seu génio e no mais perfeito dos perfeitos finais.
25 minutos passaram.
E ele parou. Ofegante, orgulhoso, desgastado, quase morto. Mas sorriu.
À sua frente uma plateia vidrada, rouca pelos “vivas” e gritos vários, mãos já com bolhas de tanto aplauso enérgico, veemente.
Mas ele só queria mesmo ouvir um “Bravo” daquela voz sussurrante de que se lembrava tão bem. E estava disposto a não arredar pé até que a ouvisse.
O problema é que os espectadores também não arredavam pé e o barulho continuava ensurdecedor.
Cá fora, um velho pai abandonava o teatro, chorava, gritava Bravos de alegria. E com comoção deixou-se esconder e desaparecer pelo manto escuro de uma noite fria tendo como banda sonora o ruído estridente que se concentrava numa meia-hora de pureza.

12.24.07

oh oh oh

Posted in Uncategorized at 11:47 by crim3sp3rf3itos

X, quando era miúdo, acreditava no Pai Natal. Acreditava tanto que até gostava de conhecê-lo num qualquer Natal. Esperava, todos os anos, escondido atrás do sofá da sala, a olhar para a lareira ainda acesa debaixo da chaminé, para a árvore e presépio. Mas acabava sempre por adormecer. Houve um ano, já mais crescido e com mais força, que dormiu o dia todo para estar bem alerta à meia-noite.
E assim aconteceu! Quando acabaram de tocar as 12 badaladas, lá começou a ouvir barulhos na chaminé. Eram os presentes a caírem, um atrás do outro. Mas Pai Natal, nem vê-lo. Assim, X decidiu correr para a chaminé, subir pelos presentes até lá acima e foi com algum esforço que conseguiu agarrar-se com muita força à grande mochila vermelha que levava milhares de presentes.
O Pai Natal não deu por ele e a viagem de trenó puxado por renas que galopavam no céu era muito rápida, com curvas muito apertadas, grandes travagens, subidas e descidas vertiginosas. X começou a ficar muito enjoado e perdia pouco a pouco as suas forças. Começou a gritar para que o salvassem, mas o barulho era imenso com tantos brinquedos a tocarem música dentro da mochila, carros que andavam nas pistas, combóios nos carris, bonecas a falar, robots a dispararem e todos os outros brinquedos juntos, que nem as renas nem o Pai Natal o ouviam.
De repente foram-se as forças e X deixou de conseguir agarrar na mochila.
Caíu de muito alto, passou pelas estrelas que cantavam hinos de Natal. Passou pela lua, ainda meia adormecida que lhe piscou o olho e ofereceu-lhe queijo. Cada vez caía com mais velocidade e, com tanta emoção, desmaiou.
“Pelo menos, o Pai Natal existe”, pensou antes de perder os sentidos.
Acordou de manhã, com os pais a entrarem pelo quarto com os presentes dele numa grande algazarra. Feliz Natal, Feliz Natal, gritavam todos contentes. E X, para não estragar a festa, decidiu nunca contar a sua aventura.
Até hoje.

12.23.07

sorte

Posted in Uncategorized at 16:46 by crim3sp3rf3itos

X sempre foi um homem de sorte. Ultrapassou doenças graves enquanto bebé, teve alguns acidentes complicados dos quais saiu ileso, nunca se esforçou muito para conseguir o que queria, enfim, foi uma pessoa bafejada.
Mas como tudo na vida, também essa companheira teria que o abandonar e foi sem pedir licença, ou uma qualquer desculpa que, num dia, a sorte despediu-se de X.
Ninguém está preparado para uma partida destas, muito menos X que sempre contou com a sua protecção.
Daí ser estranho todo aquele novo dia.
O relógio com alarme não o acordou para uma entrevista importante, com pressa teve que se vestir duas vezes pois entornou o café na primeira camisa, ao passear o cão começou a chover fortemente, esqueceu-se do CV quando saiu de casa após mal secar o cão, o carro estava bloqueado com um autocolante amarelo que o rodeava, não havia um único táxi disponível e, para azar dos azares, X acabou por ser atropelado numa passadeira.
Acordou no hospital, deitado numa maca num dos corredores frequentados por eternos gemidos de dor, ninguém vinha ter com ele, roubaram-lha a mala, carteira e relógio e a perna começava a doer até à exaustão.
Reacordou na mesma maca do mesmo hospital horas depois. Já tinha apanhado uma constipação e, sem saber, outras doenças. Tentou levantar-se, mas foi com um estrondo que se estatelou no chão. E só aí viu a sua perna, quase desfeita pelo anterior acidente.
Gritou, gritou, gritou tanto que, finalmente, uma enfermeira trouxe qualquer coisa para o adormecer.
Acordou num quarto, cheio de outros doentes. A sua perna não se mexia. Aliás, nada se mexia. Nem os braços, os dedos das mãos. A princípio pensou que era da droga ou anestesia. Mas foi quando um médico, com ar grave e aspecto cansado, se lhe acercou que X soube da grande notícia: a operação tinha corrido mal, a perna teve que ser amputada e, por um número inexplicável de acontecimentos, ele tinha ficado tetraplégico.
X nem queria acreditar. Nem se atreveu a chorar, aliás, nem o conseguia.
Tentou mexer tudo e mais alguma coisa.
O médico pediu-lhe calma, para que não se enervasse. Enfermeiros chegaram para o drogar e foi um deles que reparou que o dedo indicativo de X mexia. Mexia freneticamente.
Depois de várias reações incrédulas, o médico olhou para X, colocou-lhe a mão na testa e, quase em surdina disse-lhe “Parece que vamos conseguir um milagre. O senhor tem muita sorte.”

12.22.07

esperança

Posted in Uncategorized at 03:03 by crim3sp3rf3itos

X2 é o melhor amigo de X. Conversam há anos, desconversam há outros tantos. Falam muito das amarguras da vida, pois ambos sabem que o seu lugar, num qualquer outro país, era bafejado pela decência e pela justiça.
Mas aqui, em Lisboa, continuam a amargurar. O problema, bem real, é que estão velhos. Mas sabem mais que os jovens. Sabem tanto mais que até chateia e eles gozam com isso.
Numa destas noites, X2 confessou a X que tinha encontrado alguém. Alguém!!! Isto, no que respeita a X2, um homem acima de qualquer sentimento mundano e humano, queria dizer muito. Por acaso, e só por mero acaso, X conheceu essa diva, essa luz, essa transparência.
E quando X2, no alto dos seus muitos irlandeses com gelo lhe confessou que somente a presença dessa luz o fazia ser e sentir terreno, fez com que X, bem antes da hora da aventura, quisesse expôr esta verdade. Antes que a esquecesse. E antes que adormecesse.
X tem agora um amigo que é mais real, mais humano e mais sofredor do que pensava. E então traçou um plano: o início do novo ano está já aí. E com ele, para além de todos aqueles que vão perder a vida nas estradas, haverá sempre a remota hipótese de algo no ano de 2008 dar certo.
X já sabe que não é o ano dele. Timimg, azar, estupidez, qualquer coisa. Mas o X2 está mudo, quedo, calado, silencioso. E são a estes mistérios que a vida, por vezes, dá a mão.
Amigo X2, nem sei como fazê-lo, mas o teu novo ano vai ter certamente mais flores que o dos restantes. Palavra de X. O que também não quer dizer nada.

12.21.07

pagar

Posted in Uncategorized at 19:12 by crim3sp3rf3itos

Via-se que o homem não estava bem. Caminhava para cima e para baixo na mais famosa rua do Chiado. Umas vezes mais acima até ao poeta, outras abaixo até mesmo à porta dos armazéns.
O homem vestia um sobretudo largo, de bom corte, mas que não lhe assentava perfeitamente. Mas o que era mais estranho era a forma como agarrava a mala rígida de uma guitarra eléctrica, nem muito grande nem muito pequena, com ambas as mãos e demasiada força.
De repente, o homem parou à porta do grande armazém e gritou, gritou muito alto.
Contaram depois, quem sobreviveu, que tudo aconteceu muito rápido, numa questão de minutos. Ou segundos mais lentos. Esse tal homem, que agora estava ali deitado numa enorme poça do seu próprio sangue, abriu a mala da guitarra, tirou uma metralhadora e foi entrando pelo armazém, disparando sem cessar e varrendo pessoas, presentes, telemóveis, malas, mochilas, tudo mas mesmo tudo. Entrou ainda na loja francesa onde destruíu a rajadas toda a electrónica exposta, desde as últimas gerações de telefones e câmaras, aos portáteis, aos GPS e, logicamente, todas as pessoas que por ali andavam.
Desceu triunfante até ao andar de baixo. Todos os que ainda viviam estavam deitados, escondidos, uns em pânico, outros a chorar, alguns desmaiados.
O homem chegou às prateleiras dos livros, procurou o que queria, subiu as escadas e parou na caixa para pagar.
Foi aí que muitos polícias o aguardavam, ainda atónitos e, sem uma ordem superior, cravejaram-no de balas.
O homem, já meio morto, ainda colocou o livro na caixa e o dinheiro correspondente.
A sua última frase foi dita num suspiro, ao ouvido da empregada que lhe dava a mão, o livro no saquinho amarelo e o troco: “Sabe, eu não tinha muito tempo para vir às compras e esperar horas para pagar”.

12.20.07

nevoeiro

Posted in Uncategorized at 10:18 by crim3sp3rf3itos

X era um homem ansioso. Não nervoso, mas ansioso. Vivia numa cidade cuja luz era exemplarmente branca e afamada por isso. Mas o que ele esperava, todas as madrugadas, era um manto de nevoeiro. Acordava sempre muito cedo e mirava o rio pela sua janela. Quanto mais cerrado fosse o manto, mais probabilidades havia de sucesso.
Só que esta cidade, de luz branca, raramente acordava às escuras. X mantinha-se atento à meteorologia, ao céu, aos satélites através do computador. Só lhe restava mesmo esperar.
Até que, passados uns meses, um aviso: naquela madrugada de 25 de Julho a cidade acordaria sob um espesso manto de nevoeiro.
X vestiu-se, agarrou na mala feita para estas ocasiões e lançou-se numa cidade fantasmagórica.
Depressa chegou à beira-rio, por baixo da ponte velha.
Não se via nada, mas conseguia perceber outros como ele, vultos meio vivos, meio mortos.
Todos olhavam o rio e todos tinham um só desejo.
As horas passaram e com a manhã veio mais luz, raios que atacavam o nevoeiro, que o desfaziam e que, passado algum tempo, o venceram.
X e os outros desconhecidos levantaram-se. Olharam ainda uma vez para o rio, mas já se via a outra margem.
Desconsolados e derrotados, viraram-lhe as costas.
Ainda não foi desta que se deu o regresso.
Mas haverá sempre outro nevoeiro e outra esperança.

12.19.07

mentira

Posted in Uncategorized at 17:09 by crim3sp3rf3itos

Alguém lhe tinha dito que ficava duas vezes mais forte, com o dobro do conhecimento, o dobro da rapidez, o dobro da inteligência, o dobro de tudo, enfim.
Durante dias pensou nisto, aliás, não conseguia pensar noutra coisa.
Durante dias olhou-se ao espelho, via as rugas a crescerem, as entradas maiores, uma maior flacidez geral.
Decidiu-se num Sábado à noite, porque as pessoas andariam na cidade até mais tarde e assim seria mais fácil escolher.
O alvo estava ali à sua frente, a descer um pequeno beco mal iluminado. Perseguiu-o a uma distância razoável, calçou as luvas, tirou o arame do bolso, enrolou-o fortemente nas duas mãos e verificou a sua força esticando-o com violência.
Houve um momento em que quase desistiu. Encostou-se a uma porta, ofegante. Mas segundos depois já estava a avançar determinado para a vítima.
Foi fácil apanhá-la, o cheiro a alcool era notório e foi com um grito abafado e movimentos lentos que se tentou defender. A corda estava bem puxada e a vítima ia perdendo a força, o conhecimento, a rapidez, a inteligência, enfim tudo.
Até que morreu. Ele abraçou-a e deixou-a escorregar pelo seu corpo até ao chão.
Sentou-se ao seu lado e esperou.
Esperou muito tempo. Não sentia nada. Nada a crescer dentro de si.
Alguns casais ébrios que tropeçavam por ali mandavam umas bocas e seguiam caminho.
A manhã surgiu. A polícia também.
E ele sentiu-se velho, muito velho. E muito fraco.

12.18.07

adeus

Posted in Uncategorized at 11:50 by crim3sp3rf3itos

X sentou-se como todos os dias à secretária. Focou o monitor e, num movimento automático, ligou a tv que está atrás de si pelo telecomando. É só mais pelo som, pela companhia que o faz, mas está habituado a este ritual matinal. Concentrado no monitor nem deu pela morte da sua pequena tv. Só passados uns momentos e alertado pela falta de som, é que a olhou. O ecrã estava cada vez mais negro, as imagens cada vez mais inexistentes e o som cada vez mais ausente.
X desligou-a. Religou-a, nada. Esperou mais uns momentos, fez a mesma operação com os mesmíssimos resultados. Nada. Negro. Silêncio.
X tentou lembrar-se há quanto tempo tinha este televisor. Vinha do quarto de adolescente ou já era compra de jovem adulto? Não se lembrava. Levantou-se, desligou a ficha e a tomada de antena e, através da pequena pega que o chassis negro continha, transportou-a para a mesa da sala grande.
Aí olhou-a longamente, de todos os ângulos. Limpou-a cuidadosamente, com um pano específico para este tipo de plástico. Com cotonetes e uma novíssima escova de dentes, retirou-lhe o pó seco de tantos anos daquelas ranhuras que só servem mesmo para acumular pó.
Acariciou-lhe as formas arredondadas, quase como se fosse um magnífico corpo feminino.
Abraçou-a. E foi assim que a levantou da mesa. Abriu a janela da sua varanda muito alta, gritou para quem estava a passar na rua e, com um último aperto, deixou-a caír.
Estilhaçou-se por mil bocados que voaram para todos os lados.
Lá em baixo, as pessoas aplaudiram-no. Tinha sido uma última viagem digna de um filme de acção, certamente uma aventura por que ela gostaria de passar. E foram as próprias pessoas que retiraram os cacos do chão e os depositaram num caixote de lixo, não reciclável.
X ficou muito tempo à janela, relembrando todas as imagens que com ela tinha visto ao longo dos anos.
Também se sentia escuro e sem som. E já tinha saudades.

12.17.07

Natal

Posted in Uncategorized at 10:27 by crim3sp3rf3itos

O choque era geral. No seu trono de um grande armazém lisboeta jazia o Pai Natal daquele ano, um velhote que só queria ganhar uns trocos a mais para dar uma refeição digna à sua família. Chamaram-se polícias e detectives, públicos e privados. As portas fecharam-se, a clientela ficou presa dentro do estabelecimento. Um porta-voz das forças de segurança avisou pelo sistema sonoro, que antes tocava repetidamente o mesmo cd natalício de todos os anos, que iria acontecer um inquérito imediato a todos os presentes e que o dia ia ser longo. Toda a gente foi colocada numa longa fila e foi com dificuldade que tentavam encontrar os respectivos telemóveis no meio de tantos pacotes e sacos de presentes.
A poucas dezenas de metros dali deu-se o alarme! Outro Pai Natal tinha sido morto. A polícia não sabia o que fazer e os clientes tinham encontrado a razão para exigirem a sua liberdade.
A meio da tarde os telejornais confirmavam os terríveis acontecimentos: cerca de 57 Pais Natal estavam sem vida. Foram convidados polícias, bruxos, psicólogos e tarólogas para um especial informativo, com linha telefónica directa para quem quisesse opinar do conforto da sala.
As lojas exigiam a reabertura, pois com a crise que anda aí, estes dias de Dezembro aliados aos subsídios dos clientes, eram demasiado importantes para a sua sobrevivência.
Carros da polícia apitavam por todas as cidades que tinham Pais Natal nas lojas, ainda conseguiram salvar alguns, naqueles centros paroquiais e bazares populares de terreolas desertas.
As crianças choravam em todas as casas e os pais não sabiam explicar que lhes tinham mentido durante estes primeiros anos de vida e que o Pai Natal não existia.
O estado do país passou para vermelho, por acaso cor da coca-cola…
Pelas cinco da tarde, um fotógrafo olhou para o céu. E gritou alto. Todos olharam para cima, toda a gente ficou parada, o trânsito também, até os animais que entretanto tinham sido abandonados pelos donos. Chegaram carros de exteriores e em todos os televisores de todas as casas surgiu um sinal de “especial informação”.
Foram segundos agonizantes até que a imagem surgiu.
Lá no céu, ria-se estridentemente um Pai Natal, sentado no seu longo trenó. As renas, muitas, esperneavam, prontas para uma largada/fugida. O céu tornou-se selvagem, negro, envolvendo estas personagens. Até que numa voz grave e poderosa, o Pai Natal gritou “Deixei uma prenda em cada uma das vossas casas, chaminés, meias, o raio que parta!!! Só uma, pois não é preciso mais!”. E foi com um enorme estrondo que as renas puxaram o grande trenó, fazendo uma curva bem por cima das cabeças das pessoas e desaparecendo no infinito.
Toda a gente correu para casa.
Toda a gente passou a noite inteira a olhar para a prenda depositada pelo Pai Natal.
Ninguém ousou abri-la.

12.16.07

botões

Posted in Uncategorized at 14:41 by crim3sp3rf3itos

Neste Natal X pediu um comando de forward e rewind.
Só com esses dois botões.
O forward não permite grande coisa, pois não se sabe o que vai acontecer precisamente agora. E agora. Esperem… e agora.
Portanto, só servirá depois de fazermos um rewind e aí sim, podemos fazer um forward até qualquer parte já vivida. Como… agora.
Mas o rewind permite-nos escolher andar para trás, à velocidade x1, em câmara lenta ou muito depressa.
Podemos evitar erros e acidentes. Bom, se calhar não, pois ao fazermos forward passamos inevitavelmente por esses erros e acidentes.
Então para que servirá este telecomando? Será mais uma prenda cara e inútil? Será que o próximo modelo sairá melhor e mais barato?
Bom, na verdade X imagina-se deitado na cama, enroscado na mulher desse dia e depois, devagarinho, começa a fazer o rewind, movimento a movimento, posição a posição, cada vez mais roupa, cama impecável, o primeiro bejio, a primeira carícia e o primero olhar.
Depois stop. Aí mesmo nesse olhar. X gosta desse primeiro olhar, desse momento de entusiasmo que faz crescer água na boca. X deixaria o seu corpo e olhar em pausa e começaria a circundar o outro, olhando para a nuca, os cabelos, a anca, os mamilos. Depois regressaría ao seu corpo e faria play. Frame a frame até ao último fôlego. Até ao enroscanço.
X quer mesmo um destes comandos para o sapatinho.

12.15.07

mãos

Posted in Uncategorized at 18:17 by crim3sp3rf3itos

X olhou para as mãos. Que instrumentos admiráveis. Duas mãos cheias de dedos, cada um com um formato próprio e, consequentemente, um propósito próprio. É engraçado como uma mão e os seus dedos mostram, por si só, o trabalho de equipa. Ou em equipa.
Imagine-se um dedo sózinho. Ou mesmo um coto. Mais de metade do mundo seria diferente por um qualquer acidente, deformação drástica ou um grande azar.
X usa os dois indicadores para teclar, com uma velocidade, diga-se, espantosa. Muitas vezes erra, também porque é disléxico, e por isso gosta de teclados com grandes teclas back e enter. Mas usa o mais comprido da mão esquerda enquanto esse e o indicador seguram um cigarro a arder.
Toda esta conversa para quê? Bom, para sublinhar porque ainda está maravilhado ao fazer rolar um automóvel por 300 kms a uma velocidade acima do permitido por lei, usando apenas as mãos e os dedos. Os pés raramente estavam nos pedais e tudo foi controlado com cursores de automatismos vários. Ou… não. Por qualquer outra razão.
Mas a verdade é que toda esta aventura foi um curioso e satisfatório exame à adaptação de um ser, à rápida curva de aprendizagem e ao puro divertimento e gozo pela conquista do homem sobre a máquina. Mesmo que ela tenha sido inventada por e para nós.

12.14.07

viagem

Posted in Uncategorized at 00:43 by crim3sp3rf3itos

De repente uma viagem. E logo para dois dias. X ficou pensativo. Como continuar as aventuras de cinco minutos diários sem falhar o seu propósito? Levaria a maquinaria toda para dois dias? Seria um bocado idiota e pesado. Será que o hotel tem wireless… ou mesmo net? Mas a que horas é que se postaria? Uma aventura é uma aventura e, convenhamos, ser à uma da manhã ou por volta do meio dia, o que interessa é que aconteça.
“Então vamos a ela”. X esfregou as mãos e olhou o cursor a piscar no ecrã branco do rectângulo das instruções. Mas isto deveria ser de cabeça fresca, não depois de todo um dia. “Vá X, tem de ser!”
Os seus olhos mergulharam no ecrã branco, sempre atrás do cursor preto que piscava piscava. Viravam à esquerda, à direita, passaram por sonhos, aventuras e pesadelos. X só queria agarrar num, mas a viagem era tão rápida que mal os via esquecia-se deles imediatamente. Ao fundo um rectângulo negro que se aproximava vertiginosamente. Tinha uns cabos pendurados. O cursor atravessou essa negritude plástica. X ainda tentou travar, mas tarde demais. Quando abriu os olhos estava defronte esse rectângulo, mas no sentido inverso.
O cursor lá estava a piscar no ecrã branco do rectângulo das instruções.
E X sorriu.

12.13.07

borrão

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Uma gota grossa pingou-lhe a folha. A circunferência do borrão ia aumentando, comendo as palavras que já estavam escritas, os sentimentos que, com coragem infinita, depositou no papel.
Olhou para o mata-borrão, ali mesmo ao lado, mas deixou-se hipnotizar pelo percurso da tinta e pelas palavras que preferia esmagar, esconder, englobar.
Passados uns minutos, o borrão ocupava parte central do seu manuscrito. Tinha até uma figura poderosa, como se fosse um buraco negro.
Tentou espreitar se havia vestígios de palavras, de letras, de pontuação. Nada de nada.
Apenas as que ficaram na sua auréola, semi esmagadas e para sempre desacompanhadas.
Deixou secar bem a folha, dobrou-a cuidadosamente em três e enfiou-a no envelope que já era o seu destino.
Era a primeira carta de amor, de esperança que escrevera. Tinha um destinatário.
E agora, achou por bem, que fosse o destino a tratar do resto.
Se sim, se não, a resposta chegaria pelo correio.
Restava esperar até lá.

12.12.07

acordar

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X acordou sobressaltado com uma ansiedade enorme. Sentiu um vazio estranho, um silêncio esmagador. Foi à janela e quase que enloqueceu com o choque. Nada existia, nada. Nenhum prédio, nenhum carro, ninguém na rua. Desceu rapidamente os seis andares esquecendo-se que tinha elevador. Chegou à entrada e abriu a pesada porta de vidro. Nada. Nem o passeio defronte, nem a confusão do bairro, nada.
Havia sim um silêncio profundo, a total ausência de qualquer coisa. De vida.
X assustou-se ainda mais quando entendeu que nem o som do seu coração ou dos seus passos se faziam ouvir. Bateu numa parede, nada. Gritou, nada. Deixou-se caír no chão de pedra mármore. Não lhe sentiu o frio. Passadas horas subiu cada um dos andares, tocando a cada porta. Mas as campaínhas não tocavam. Bater na porta não valia de nada. Chegou a casa, acendeu todas as luzes que, inacreditavelmente, davam luz. Lembrou-se da televisão, mas nada. Meteu um cd, mas a ausência de som era já esperada.
Foi para a cozinha, preparou um enorme lanche com os restos que encontrou e ficou horas a comer, olhando pela sua varanda o nada, o vazio.
Decidiu deitar-se, dormir profundamente e amanhã pensar sobre toda esta loucura.
Adormeceu rapidamente, como há muito tempo não o conseguia.
X reacordou sobressaltado com uma ansiedade enorme. Sentiu um vazio estranho, um aperto no coração. Foi à janela e quase que enloqueceu com a alegria. Tudo estava lá. O seu coração também.

12.11.07

tempo

Posted in Uncategorized at 12:20 by crim3sp3rf3itos

A sua vida era dominada pelo tempo. Não do que faz frio ou calor, mas dos minutos, dos segundos, das horas. Do tempo que o próprio tempo tem. Vivia fascinado por relógios, comprava-os, exibia-os, desmontava-os, remontava-os, mas raramente usava um no pulso. Confiava no seu próprio relógio interno. Sabia quantos segundos eram uma passada e quantos minutos um quilómetro. Contava o tempo que esperava num semáforo ou numa fila para comprar um bilhete.
Nunca chegava atrasado. Aliás, preferia adiantar-se ao tempo do do próprio encontro. Apanhava grandes secas, é verdade. Mas não se importava. Nunca seria ele a atrasar o tempo.
Tinha duas grandes dores de cabeça por ano. Era quando a hora mudava. Era-lhe difícil mudar todos os relógios que tinha, dezenas, centenas. E tinha que ser ao segundo. Demorava uma eternidade e o último era sempre o mais difícil de acertar, pois já tinha passado bastante tempo da mudança horária.
Preparava-se sempre para este embate, mas perdia a calma, o jeito e a paz.
De tempos a tempos, até tinha vontade de esquecer o tempo. Mas depressa lhe passava.
“A seu tempo” – dizia – “a seu tempo conseguirei comprar tempo para me dar mais tempo”.
Numa qualquer manhã, levantou-se à hora certa, saíu de casa a tempo para ir apanhar o autocarro das 8h30. De repente, olhou para um relógio digital novo que a Câmara Municipal tinha colocado na praça. Estava adiantado dois segundos. Ao aproximar-se para ver melhor, foi colhido por um carro, sem tempo de reacção para se desviar do embate. Morreu a caminho do hospital sem tempo para sobreviver.

12.10.07

Luz

Posted in Uncategorized at 10:09 by crim3sp3rf3itos

X rodeou-se de amigos e decidiram que sim. Entraram no auditório a abarrotar de carecas sisudas e olhares reprovadores contra a juventude do grupo, quiçá para as vestes diferentes, ou mesmo pela algazarra com que chegaram à primeira fila da plateia.
Sentaram-se bem dispostos, prontos para tudo. Ou para nada.
As luzes apagaram-se, abriu-se a cortina e um senhor já grisalho entrou no palco onde estavam um piano de cauda, um rádio antigo e um balde.
Tocou umas quantas notas ao piano, melodias que não o eram, acordes dissonantes. Levantou-se e retirou do balde uns quantos seixos que deixava caír nas cordas do piano. Um a um, vários ao mesmo tempo. A vibração enchia a sala e provocava os primeiros risos da jovem primeira fila, aumentados pelos acordes nas teclas que confundiam o som das cordas com o saltitar dos seixos.
O balde também continha água e o ploc ploc dos seixos ritmava com o ritmo da vibração incessante do piano. Depois o senhor levantou-se e, com o rádio antigo, procurou ruídos, vozes e aquilo a que se chama interferências.
A primeira fila dos amigos de X divertia-se, uns riam, outros olhavam embasbacados. A velhada cinzenta e pretensamente conhecedora do que estava a assistir, insultava-os, mandando-os calar e saír da sala.
E foi aí que o Sr. Karlheinz parou. Olhou para X e companheiros e agradeceu a nossa atitude, pois era isso que ele queria, porque era para isso que ele criava. Disse-nos que a partir daí, o resto do concerto seria só para nós e os outros, sim, todos os outros, podiam levantar-se e ir embora que não faziam falta nenhuma.
Muitos velhos cinzentos e carrancudos levantaram-se e desapareceram, outros ficaram, mais divertidos e à vontade.
X e os amigos foram no fim agraciados com um amigável aperto de mão e um franco sorriso na cara deste compositor.
O Stock acabou num dia 5. Ou seja, num Sol.

12.09.07

rocha

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Estava velho. Velho da vida, dos fracassos, das derrotas, das injustiças. Estava velho com 50 anos. Sabia que já não tinha lugar na sociedade de hoje, pois era considerado ainda mais velho para reiniciar uma carreira. Teve sonhos, alguns concretizados e até foi um jovem dinâmico. Mas foi perdendo o fulgor ao longo dos anos. Primeiro porque o não compreendiam, depois porque ele não compreendia os outros.
Restava-lhe vender as suas posses e ir viver o resto da vida para um país barato, como o Brasil ou a Tailândia. Mas tinha medo da solidão e das doenças.
Relembrou-se de um sonho antigo, uma viagem que sempre quis fazer. E então traçou o seu último plano para o seu último destino. Vendeu tudo o que tinha, entregou os gatos a amigos e as plantas a amigas. Ofereceu os livros a escolas e os filmes a clubes de aldeias. Destribuiu os milhares de cds por toda a gente que encontrava na rua. Demorou algum tempo a fazer isto tudo.
Depois foi para o aeroporto. Apanhou o avião para um destino europeu. Depois apanhou outro para o outro lado do mundo. Chegado à cidade da ópera mais famosa do mundo, ainda deu uma volta, ouviu música nessa catedral e no dia seguinte apanhou outro avião para Uluru.
E chegou.
À sua frente estava finalmente a majestosa Ayers Rock, o monte alienígena, a pedra com todas as cores que a cor tem. Acampou aí. E preparou-se para o seu próprio ritual.
Passados uns dias, acordou e reparou numa tenda próxima da sua. Ficou revoltado, pois queria mesmo estar sózinho. Quando se preparava para desarmar a sua tenda, saíu da outra uma jovem mulher. Aparentava uns 40 anos, bonita e charmosa, de porte elegante.
Ela fez-lhe um adeus em inglês, ele retorquiu. E ambos sorriram. Sorriram como há anos não o faziam.

12.08.07

estacas

Posted in Uncategorized at 12:53 by crim3sp3rf3itos

X não compreendia porque estava sózinho no mundo. Todos os dias andava dezenas de kms sempre na mesma direcção e sempre movido pela certeza que não era o único habitante desta terra. Dormia onde se podia abrigar melhor dos ventos e frio, caçava pequenos animais para recuperar forças e, diariamente, olhava o horizonte e iniciava a caminhada.
Foi depois de subir um pequeno monte que os seus olhos viram qualquer coisa estranha. Desceu a correr, tropeçando aqui e ali e cada vez estava mais perto. À sua frente estava uma cerca, de estacas perfeitas, todas da mesma altura e todas à mesma distância umas das outras. Uns centímetros que não o deixavam passar para o outro lado. A cerca não tinha fim, nem para a esquerda nem para a direita e perdia-se de vista. Decidiu acampar ali. Passaram alguns dias até que decidiu caminhar ao longo dela e para a esquerda. Tinha a certeza que alguém a tinha colocado e portanto não era o único nesta terra.
Caminhou muito, durante meses e a cerca sempre perfeita.
Numa madrugada acordou com um ruído. Levantou-se sobressaltado. Do outro lado estava um homem que o olhava receoso e espantado.
X cumprimentou-o e explicou-lhe toda a sua aventura que era, afinal, a sua vida. X2 apresentou-se. Também ele caminhava há muito tempo, paralelo à cerca.
Não tinham grande coisa para conversar, pois também não sabiam grande coisa. Tentaram forçar as estacas para conseguirem ultrapassar a cerca, mas sem sucesso. Caminharam juntos ao longo dela durante muito tempo. X falava muito e queria tentar sempre passar para o outro lado. X2 era mais calado e já estava farto de tentar forçar as estacas.
Começaram a discutir. Um pouco de cada vez, depois mais vezes até que iniciavam o dia aos gritos só se calando à noite.
Na manhã seguinte, X acordou e preparava-se para discutir quando reparou que X2 estava bem longe, lá ao fundo. Gritou por ele. X2 parou, voltou-se e fez um adeus com uma mão, para depois recomeçar a caminhada para o horizonte.
X ficara novamente sozinho. Agarrou nas estacas, não as forçou, despediu-se delas e virou-lhe as costas, iniciando a sua caminhada para o seu horizonte.
Cá em cima, sentado numa grande nuvem, Deus riu-se. Tinha dividido a terra em duas metades pela grande cerca de estacas. Encolheu os ombros, recostou-se e adormeceu.


12.07.07

chuva

Posted in Uncategorized at 10:16 by crim3sp3rf3itos

X era um eterno romântico, mas tinha azar nas relações. Acertava sempre ao lado, ou seja, muitas vezes a pessoa certa era a amiga daquela com que ele namorava. E isso aconteceu várias vezes. Disseram-lhe que era dos signos, coisa que ele nunca acreditou. Disseram-lhe que ele tinha que ver os sinais, coisa que sempre desleixou. Mas ainda não tinha encontrado a sua alma gémea ao fim de tantas e tantas relações.
Numa manhã, ao ler o jornal, quedou-se mais tempo na página dos signos. Olhou e leu o dele. O Amor estava em alta e com todos os astros alinhados em pleno, este seria o dia perfeito. Pensou e decidiu-se. Correu para casa, agarrou num cartão e escreveu “Sou deste signo e hoje é o dia para encontrar a perfeição”.
Colocando-o no peito, foi para a rua, para as esplanadas, os largos e nada aconteceu. Cansado da caminhada e ferido no orgulho, sentou-se num banco de um grande jardim. Começou a pingar suavemente, mas essas gotas até lhe souberam bem. De repente, surgiu a trovoada e com ela uma tromba de água. Resguardou a cabeça com o cartão e correu para baixo de um toldo. Uns segundos mais tarde uma e outra pessoa chegavam ao abrigo. Até que viu uma linda rapariga, encharcada até aos ossos, com um cartão no peito. O seu coração saltou. A chuva parou e as pessoas debandaram à sua vida. Ele e ela ficaram a olhar-se. Quando ele puxa finalmente o cartão para o peito, reparou que o que escrevera estava desbotado e ilegível. O mesmo tinha acontecido no cartão dela. Despediram-se com o olhar, sem dizer uma palavra. Nenhum queria parecer ridículo e dizer o que tinha escrito no cartão. E foi sob um sol radioso que cada um foi para o seu lado.

12.06.07

horas

Posted in Uncategorized at 12:42 by crim3sp3rf3itos

O dia foi mau e ele sabia que os dois seguintes não seriam melhores. Então teve a ideia de juntar os dois num só. Assim só seria mau o de amanhã e depois as coisas melhorariam. Traçou um plano. Hoje, naquele espaço entre o último segundo das 23 horas e o primeiro da meia noite, dava um salto. Deste modo não estaria na terra quando o novo dia começasse e saltaria um dia inteiro indo logo parar ao próximo. Enquanto estava no ar pensou “afinal não consigo juntar os dois, só me esquivo a um. Bom, pelo menos um dos maus já passou”.
Quanto desceu, pisou fortemente o alcatrão. Olhou para o calendário do seu relógio que de 4 passou para 6. Esquivou-se ao 5, ultrapassou sem dor essas 24 horas.
Ao andar alegremente, mesmo num dia mau, lembrou-se de repente que no de ontem que não aconteceu tinha um encontro marcado com a nova mulher da sua vida. O primeiro encontro.
Sentou-se e chorou. Afinal o dia mau que ele não viveu vai ficar marcado como o pior dos seus dias.

12.05.07

aura

Posted in Uncategorized at 11:52 by crim3sp3rf3itos

Era o mais novo de cinco irmãos e duas irmãs e era o único que fumava. E fumava muito, quatro maços diários. Gostava de tertúlias, de beber o seu conhaque. Assistiu ao declínio da sua mulher, com quem já nem comunicava há anos. O seu filho, médico, avisava-o constantemente e até houve discussões em que o responsabilizou pela doença da mãe. Os seus irmãos estavam mais que habituados à densa nuvem de fumo, mas a vida era dele.
Um a um foram morrendo. De enfarte, de embolia, de cansaço e da vida. O único que fumava e bebia uns copos continuava vivo, de saúde.
Até que foi ao médico. Avisado que iria morrer em meses se não largasse o vício, assustou-se e deu a última bafurada do último cigarro do quarto maço desse dia.
A partir daí encheu os bolsos de rebuçados. Os casacos ficaram deformados com esse peso. Engordou e começou a sentir-se fraco.
Novamente no mesmo médico, foi-lhe diagnosticado diabetes. A ele, que nunca tinha tido uma única doença.
Pediu-lhe cinco minutos para ir à casa de banho, desceu à rua onde comprou um maço de tabaco e um pequeno canivete.
Já no consultório, abriu o pacote, acendeu um cigarro, deu uma valente fumaça sem ouvir os gritos do doutor. Quando acabou esse gozo, tirou o canivete da algibeira, abriu-o e deu dois valentes golpes nos pulsos.
Sorriu. E pediu ao médico que lhe acendesse outro cigarro e o colocasse na boca.
Morreu envolto na nuvem de fumo que já era a sua aura.

12.04.07

route 66

Posted in Uncategorized at 12:13 by crim3sp3rf3itos

X tinha ido para a América, a tal terra do sonho, em busca de uma melhor vida. Para trás ficaram os haveres que um amigo prometeu vender. O tempo passava e esse dinheiro, vital para apresentar a sua ideia ao grande mercado americano, não chegava. Em pouco tempo, só tinha dinheiro no bolso para mais um mês. Até que da terra lhe telefonaram para dar uma má notícia: o amigo tinha desaparecido com o dinheiro da sua casa, pertences e carro.
X, no seu íntimo, já estava à espera disto. E também sabia que a terra do sonho americano só a é quando há algum dinheiro. Contou o que tinha: 850 dólares. Nem dava para um mês. Decidiu o que muitas vezes se decide nestas alturas. Passou por um stand, alugou um Cadillac Eldorado cor-de-rosa com estofos em pele de leopardo, baixou a capota e fez-se à Route 66. Passadas umas centenas de milhas, encontrou o que queria: um enorme outdoor publicitário daqueles que, nos filmes, escondem um carro ou mota da polícia. Travou, apontou, encheu-se de coragem e arrancou a todo o gás. Por causa de um ligeiro desnível na berma, o carro saltou e voou direitinho para o cartaz, como nos filmes. X fechou os olhos e despediu-se. O embate foi violento, pedaços de metal, vidro e cartão voaram para todo o lado. Quando finalmente o carro aterrou do outro lado, no meio de uma nuvem de pó e detritos, X abriu os olhos. Nada lhe acontecera. O cartaz gigantesco era de papelão. O cadillac tinha ficado sem pára-choques e faróis, mais nada. Polícia e jornalistas chegaram em pouco tempo. Perguntaram-lhe porquê. E um jornal ofereceu-lhe 50.000 dólares para ter a história em exclusivo. X lembrou-se que só necessitava de 40.000 para apresentar o seu negócio. E aceitou.

12.03.07

Queda

Posted in Uncategorized at 12:44 by crim3sp3rf3itos

X voava e ria descontroladamente. O vento forte provocava-lhe lágrimas frias que secavam num instante. Mal conseguia abrir os olhos e a sensação de vertigem era doce, livre e limpa. Como Ícaro, tinha tentado chegar ao topo e esta era a queda natural e anunciada. Mas já não se importava. Admirava-se sim, porque tudo fazia sentido, pelo menos desta vez. E talvez pela primeira vez.
O vôo duraria pouco mais e ele queria aproveitá-lo ao máximo. Pensou em todos os amigos, relembrou vitórias e bons momentos. Abanou a cabeça quando surgiram as coisas más. Não estava para isso, não era o momento.
O fim desta viagem chegou. Assim, tão rapidamente quanto durara a vertigem.
Puxou com força a guita e o choque foi tremendo. Sentiu o peito e os ombros a latejar, mas era uma dor positiva, de conquista. Deixou-se então navegar ao sabor do vento até que pousou suavemente.
Admirou ainda a queda do pano que se enrolava nele próprio a poucos metros de distância. Havia agora que arrumar todo o material. Até à próxima vez.

12.02.07

Sangue

Posted in Uncategorized at 13:03 by crim3sp3rf3itos

Desceu as escadas numa grande aflição. Tinha as mãos e a t-shirt sujas de um sangue escuro, pouco líquido. Na rua gritou por ajuda, mas afastavam-se dele, olhando-o com receio e até algum pânico.
Tresloucado, continuou a correr aos gritos, cada vez mais histéricos, até que esbarrou num polícia. Este, após um rápido olhar técnico, algemou-o e pediu-lhe calma. A esquadra mais próxima ficava a menos de 1000 metros, mas mesmo assim foi chamada uma viatura oficial que chegou estridentemente. Dois agentes da lei saltaram do veículo e deram-lhe duas valentes cacetadas. Um deles chegou mesmo a tirar a pistola do coldre, apontando-a nervosamente. Meio adormecido e com a cabeça a sangrar, foi metido numa cela. Após uma busca, os agentes não lhe encontraram identificação. Aliás, nada de nada. O golpe era profundo e a perda de sangue notória.
Nessa mesma altura, Y acordou no quarto que ele deixou a correr. Bolas, a cama estava toda suja. O periodo veio forte desta vez.

12.01.07

Crack

Posted in Uncategorized at 17:10 by crim3sp3rf3itos

X tem no seu bicho o mais fiel dos cãopanheiros. Leva-o para todo o lado em grandes passeatas a pé ou de carro. Ensinou-o a detestar má música (porque a há) e a adorar a boa (porque é a que gosta). Ensinou-o a parar numa passadeira e a não comer nada do chão. Não o ensinou a dar a pata.
Leu-lhe uns quantos livros em voz alta e faz figuras ridículas com os headphones na cabeça. O bicho gosta. Num destes dias, X chegou a casa. O bicho estava a agonizar pelo jardim. X decidiu abrir o porta-bagagens e deixá-lo ir à vida, enquanto arrumava a stationwagon num lugar de smart.
As manobras sucediam-se para a frente e para trás. X começava a ficar preocupado pela soltura endiabrada do bicho. De repente ouviu um crack. Pensou num toque de pára-choques. Fez novamente a manobra e o crack repetiu-se. Seguiu-se um longo e aflitivo ganido. X fechou os olhos antes de saltar do carro. Entre a roda e o passeio estava o bicho, meio desfeito sob o peso do carro. X gritou e agachou-se, agarrando-o fortemente. O bicho ganiu baixinho, fez um último esforço para lamber o dono e, pelo que parece, ainda sorriu.